|
No dia 12 de outubro
de 1979 eu escrevi um
poema falso,
assim
como a maioria
falsa.
Ontem escrevi mais
dois
poemas à beira da
cama:
isto é impressionante
, a cama me
torna
poeta em noite
calma.
Um certo
crítico, destes espíritos de
porco, disse: sujeito que
faz poesia
engajada!
Se eu
fosse poeta
engajado...
Pior, poeta
enganado...
Se eu
fosse poeta
e vivesse da poesia, na
atualidade
não seria poeta, seria
mercado!
Talvez
amanhã
eu escreva mais
dois
poemas, se tiver tempo
é claro!
Assim
como
o tempo traz lembranças
do tempo criança.
Poeta em formação?
Ilusão juvenil?
Ilusão da inteligência.
Criança
assim
poeta menino,
que vive a ilusão
de versos e prosas
românticos.
Se ao menos
a paisagem
da janela me
trouxesse inspiração para
falar
de amor: no lugar
dos fluídos poéticos, os fluídos poluídos.
Daí a indagação:
Sou poeta?
“Mas
quem
não é” receita
minha
mãe...
Então
viajo vendo flores
e o meu povo
sofrendo.
Vejo vultos
e vejo vocês.
Vocês quem?
Afinal, escrevo no dia das
crianças....
Mas
todo
dia é dia da
criança. E Então
aqui neste mundo
amado morrem muitas por
dia.
Eu, na situação
criança, faleço sem
berço esplêndido.
E teimo em
não
esquecer que sou
criança.
E choro ao ver o
choro
de uma criança.
E me
perco ao ver
as crianças perdidas.
E meu
coração
partido ao ver maltrapilhas e
famintas e o peito dolorido...
Então,
num arremedo
de poeta planejo poesias
sentimentais
e volto à janela e observo:
Já
não
há mais tabacaria,
Fernando!
Nem
sorveteria,
nem nada!
E neste momento
se alguém
falar de sexo dispararei, sou
criança! E no momento
só faço poesia.
Talvez
eu
pare com meus
poemas
falsos e com
falsos
pedidos de autógrafos.
Um
dia,
no futuro, um
poeta
cansado do peso de
seus versos
livres, deixarei de ser poeta.
A mão
do poeta
cansa: poeta ou
mistificação?
|