Era terra do interior do interior de uma
cidadela, lá qualquer criança era feliz, por que toda maldade ficava
bem distante Foi onde nasceram as primeiras nuances rosas no mundo de
Ísis, as primeiras descobertas, as grandes aventuras, brincadeiras,
tudo era belo. Os caminhos daquele vilarejo tinham curvas longas e
sinuosas, as pessoas eram meigas e gentis, as casas tinham mesas e
bancos que pareciam ser feitas para gigantes sentarem, você podia até
tentar colocar os pés no chão, mas não dava. Tudo parecia mágico.
Um dia Ísis viu seu mundo cor de rosa
quase perder a cor. Em sua simples, mas feliz casinha vivia com a
família, seu tio que resolver vizinhar com eles, digamos não era assim
um “tio bacana”, por onde ele andava tudo se tornava meio marrom, por
isso Ísis corria léguas daquele homem que aprontou algumas peripécias,
começou discórdias, maltratou os animais de estimação da menina de
forma tão cruel que não me considero no direito de revelar-lhes tão
grandioso ultraje.
Foram tantas as dificuldades com o
bendito homem marrom que a família, triste, resolveu fugir daquele
lugar. Foi tudo escondido, as crianças iam todas abaixadinhas em meio
à plantação com medo de serem vistas, levando algumas mudas de roupa e
o sonho de que o mundo novo que teriam pela frente seria de novo cor
de rosa, mesmo deixando sua casinha para trás, sua memória...
E de fato, em meio a uma chegada em
terra desconhecida, necessidades, medos tomaram conta da menina, mas
ela não parecia ser derrotada por esses novos sentimentos. Pelo
contrário eles a fortaleciam, tornavam-na tão sonhadora, capaz de em
meio a tantas dificuldades sonhar com seu mundinho perfeito, todo cor
de rosa.
A família conseguiu comprar um
terreninho em um lugar tão verde, com tantas flores, que mesmo sendo
em meio a uma cidade, construir um casebre foi como construir um
castelo. Era um casebre diferente de tudo que ela já tinha visto, como
não tinha assoalho, a água da chuva passava por dentro da casa, podia
até brincar de barquinho. Tudo era fantasia.
Mas ela sonhava com uma casa que pudesse
fazer “clic” para acendar a luz, não ter somente terra para varrer no
chão, queria um bem colorido como tinha nas outras casas. A luz, que
nada era só lampião a querosene e aquilo fedia deixava uma fumaceira
cinzenta que tornava seu mundinho um pouco feio, mas só quando ela por
instantes deixava de lado seus sonhos.
Finalmente depois de tantos esforços e
muitos anos Ísis e sua família viram a casa de alvenaria ficar pronta,
ter luz e água. Ísis realizou seu sonho. Aí ela percebeu que a
realidade poderia ser diferente se ela sempre acreditasse nos seus
sonhos, mesmo que eles fossem rosa demais, distantes demais. A vida é
assim, vendo lindas cores e aproveitando o que de bom há nela, tudo
melhora e fica mais colorido, mais feliz. Assim é Ísis, vive ainda
hoje por aí, sonhando seus sonhos rosa...
1 Licenciada em Letras (UNISC),
Mestre em Letras – leitura e cognição (UNISC), Professora do
Instituto Estadual de Educação Ernesto Alves de Língua Portuguesa,
Literatura e Língua Espanhola.