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ISSN 1678-8419         última atualização em: domingo, 03 de janeiro de 2010 19:10:25                                               

 
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POESIAS

Querem respostas as cidades se perguntam

   

Marcello Ricardo Almeida

publicado em 03/01/2010


ruas cheias de olhares vazios
em cidades desindistrualizadas
quem foram os pais fundadores
de seus modernos planejamentos
e acaso
as cidades não tiveram mães?
cidade massificada é uma fila
de quem primeiro chegou
cidade massificada é o fim
do velho individualismo
tudo é massa tudo se homo-
geneíza no espaço heterogêneo
onde nada mais será familiar
como foi em outro tempo
como foi em outra cidade
cidade perdida no tempo
tempo perdido na cidade
é o fim dos ideais dualistas
dos "bárbaros" e "não-bárbaros"
a elite sofre
com as cidades massificadas
dos concursos públicos
que combatem sr. nepotismo
cidades são úteros de deficientes
de doentes mentais

o urbanismo moderno, jane
jacobs, abandonou o lugar?

e o fim da cidade é a infocidade
e os guetos desinformacionais?

quem escreveu o texto clássico
sobre plano diretor urbano e as
docklands e a cidade da teoria
e as calçadas cheias de vida?

como serão as cidades amanhã, peter hall?

mike davis quis apontar o planeta favela
as cidades são bocas comedoras de gente
máquinas trituradoras de carne e ossos
curvas cimento vidro aço concreto armado
há cidades umas amebíases sem controle
outras silenciosas macilentas e tristes
cidade que devora cidade numa fomebicho
cidades na áfrica são a cara de supernovas

migrações de moradores de ruas sem favela
cidades que espera gente que veio pra perder
espaço periurbano tá cansado e encantou-se
os geógrafos já não fazem mais seus gráficos

nora destruiu a memória espontânea
e le goff fertilizou memória e história
fez da história e da memória quase uma só

a minha história a sua história a nossa história a história
história do tempo presente logo não haverá mais história

e o que é feito da ralé urbana
quando
se forma o círculo acadêmico?

howard sonha com cidade jardim
le corbusier com ville radieuse
burnham com city beautiful

o que preferem as crianças
banharem-se de playground
e parques, jane jacobs,
ou se fartarem de ruas

as cidades artificiais são dos turistas
as cidades dormitórios dos não-morcegos
a cidade engole e a mesma cidade cospe

áfrica subsaariana - américa - ásia ondestassuapobreza?

a página branca é essencial
se le corbusier é espaço abstrato

todo lugar é histórico
uns respeitam normas
pra outros que são anômicos
dizia o finado romero

camada por camada
sem vínculos burgueses
nem ranço aristocrático
ei-las as novas-cidades

no rio de janeiro de barata ribeiro
a capital da república e dos cortiços
"o-cabeça-de-porco de 1893"
com a noite chegaram a polícia e os bombeiros
como escreveu sidney chalhoub
cortiços e epidemias na corte imperial
reocupem depois o morro por trás
construam novas casinhas
no chamado morro-da-favela
habitem os egressos da campanha
de canudos (em 1897)
de cabeça-de-medusa
os jornais chamaram
o de cabeça-de-porco
e o prefeito barata personificava
a figura mitológica do grego perseu
o jb alertava o ressurgimento dos cortiços
como hidras nos 12 trabalhos de hércules

sobre criminalidade
a inglesa mary carpenter
fala dos meninos de rua
como infância culpada (de 1840)
e lima barreto não é só literatura
é a história do brasil

quem primeiro começou a habitar
os cortiços no brasil foram estrangeiros
e os escravos libertos e os não-libertos
uma espécie de moradia um gueto
com portões que se fecham à noite
como as classes em veneza cidade-estado
onde shakespeare ambientou seu mercador

os escravos longe de seus senhores
obtinham autorização pra viver-sobre-si
era tido por há-um-caminho-pra-liberdade
se não há febre amarela vem cólera
diziam os higienistas na corte imperial
e logo lhes chega a tísica como moléstia endêmica
no tempo em que as "classes pobres"
eram vistas "classes perigosas"

no projeto de posturas urbanas
no rio de janeiro do século XIX

o lixo se acumula

e o que diz a junta central de higiene
da illma. câmara?

quando o cargo de prefeito só viria em 1892

o que é estalagem?
o que é um cortiço?
pergunte a backheuser que dizia
"há cortiços onde se penetra com o lenço ao nariz
e de onde se sai cheio de náuseas"
era o resultado do crescimento da cidade
oprimido no déficit de moradias

o tempo em que deu-se à caça aos cortiços

enquanto NY no mesmo século XIX
os imigrantes pobres e ex-escravos
construíam "favelas" nos mangues
cobertos de terra e entulhos
onde habitava cada população em seu distrito
vieram o tifo a febre amarela o cólera
e durante as epidemias
quase toda Nova York ficou fantasma

e neste outro lado da américa
no RJ não se puxa mais vacas
de porta em porta
pra se vender o leite na hora
depois do código de posturas
tudo em nome do comércio e da indústria
a imprensa instituiu a caça aos violões
não se cospe mais no chão dos bondes
nem se expõem mais "carnes à entrada dos açougues"
difícil será ver a "vadiagem de cachorros
soltos pelas ruas" nem "a falta de pintura
na fachadas dos prédios"
"a presença de entrudos e cordões no carnaval"
porque o brasil agora tem status "europeu"
ou no escrever de pamplona "civilizado"

novas palavras nascem na cidade
de arbustos no sertão nordestino
favela vira favelados aos ex-soldados
e a estes providenciaram o RJ de 1897
aos que lutaram contra canudos
e vieram descansar da luta
nas encostas do morro da providência
e assim a semântica estigmatiza o urbano
com "slum" "favela" ou "dâhia" pra dizer subúrbio
ou periferia como espaço anárquico
e onde se construiu "mustachfâ" (árabe)
não é mais como se dizia "dâr al-chifâ"
porque "o lugar onde se busca a cura"
não é mais a "casa da cura" na turquia até 1945

lugares malditos
benditos lugares
onde o poeta vem
adocicar a estigma
que azedou o beco

língua - território - memória

no poema do beco manuel bandeira
que importa a paisagem a glória a baía
a linha do horizonte? se manuel o que vê
é o beco como se manuel bandeira co-
nhecesse porto alegre cortada por becos
beco estigmatização urbana

quem o higieniza povo do beco
o sol a luz a janela envidraçada(?)

cidade higiênica
cidade que se lava
que se banha
de carros de gente

a cidade é um corpo que adoece
e como corpo a cidade incha
no dizer de freyre que viu recife
inchar e não crescer e desenvolver-se

com metáforas orgânicas
mantém-se a sociedade
idéias políticas filosóficas
positivistas cientificistas

e como corpo a cidade tem artérias
e veias desde o século XVIII
desde o urbanismo do séc. XIX
cidade e biologia são gêmeas siameses

quase toda a cidade é cheia de anomalia
hipertrofia macrocefalia - ah SP
com suas doenças epidêmicas

onde fica o coração da cidade?
na boca
nos pés
nas pontas dos dedos as unhas

no urbanismo ordenado de le corbusier
os vasos capilares das cidades
tem que se transformarem em artérias
para não morrerem as grandes cidades (de 1923)

nas metáforas de geddes
as estradas de ferro
são artérias pulsantes
(e os fios telégrafos são nervos?)?

você com essa língua ligada
fala como se fosse cidade-fantasma
muitas cidades não passam de pústulas
outras têm tantos braços cobiças
cidade fábricamáquina no urbanismo funcionalista
algumas cidades são os esgotos do país

a cidade é o desejo
ou tudo será
como poe descreveu
"um homem na multidão"
à procura de "a esfinge" e
encontra na cidade
"um aperto"
(?)
ou nada será
só um olhar
do alto (?)

cada lugar no mundo com sua pobreza específica
umas favelas outras palafitas há os cortiços e slum
restos de madeiras de plásticos de latas de papelões
geração após geração chega o dia da laje na favela
favela da laje não é mais favela virou comunidade

a-n-a-l-f-a-b-e-t-i-s-m-o e 332 milhões de favelados

nenhum modelo serve à cidade que vai e volta só
dê-me motivos e farei a cidade crescer crescer cres-
cer crescer crescer crescer crescer cres até estourar
a economia da cidade não é proporcional ao bolso
de seus moradores enquanto não vier a luz do sol

cidades pós-modernizadas das desakotas
cidade de novo fenômeno campo-e-cidade
onde começa campo onte termina cidade
o que há de novo no fenômeno antigo
e o que há de antigo no fenômeno novo(?)
mocambos palafitas cortiços favelas cidade
não há mais fronteiras mike davis como fica
a velha e tradicional política na aldeia cidade(?)

o homem e a mulher - a pobreza da cidade se desenha há2séculos
ao invés de ocuparem calçadas
ocupam ruas competem com autos
no final dos anos
os bairros eram sítios
criações de animais
as casas predominavam de madeira
carros só variantes fuscas brasílias kombes
muitas bicicletas trafegavam
nas estradas de paralelepípedos
os povos ainda hoje deixam as calçadas
pra andarem no meio de ruas :( os lugares da pobreza habitar
num complexo-de-carro :) ladeam-se-lhes megafavelas
as ruas foram tomadas por lojas de $1,99 - a favela domina a burguesia
e as casas tradicionais faliram - em montevidéu fantasmas criaram vida
desde o olhar das praças - igreja e pobres de aluguéis
das ruas das calçadas da cidade - estereótipo dos moradores sem dono
dos pontos de ônibus dos metrôs - moradias sobre os lixões gecekondus
as indústrias atraem com esperança de pão
com café em casa e cerveja no fim-de-semana
regados às frustrações do futebol - soweto de subúrbio a cidade-satélite

na urbanização capitalista pós-liberal
e suas cidades-favelas de mike davis - e a geopolítica da fome de josué
impressiona a pobreza no mundo que
habita bizarras casas-túmulos no cairo - no cabo o levante das favelas


as mulheres estão frenéticas nas estradas
fogem de casa feito o capeta da cruz
entregam crianças às creches - padre lebret
deixam queimar o arroz do domingo (peace corps)
enchem de pernas a cidade num jogo de dominó
aquele grupo sentado em uma mesa vê tvgato
foi antes arrancado da vida do campo - dom helder
atraídos pelas luzes da cidade quais insetos
iludidos com o brilho - chegou luz na favela rabicho

a cidade não é um dois três quatro
são múltiplas
uma derramando outraoutrraoutra

e no sétimo dia veio o sublime na arquitetura
as máquinas e os manicômios as estações autoviárias
e os condomínios de operários desoperariados
e a presença do grotesco como revela maria stella
em "cultura e cidades" (leu quarto de despejo, carolina maria)
aqui construiremos o teatro-feijão-com-arroz e ali
será erguida a prefeitura e mais adiante a universidade
não se esqueçam do parlamento para parlamentar
ou querem mais alguma prova dos símbolos burgueses(?)
a mesma burguesia útero do homem-mecanicista

talvez você more como as brownstones do halem porque tem vergonha de seu país talvez você habite as georgians de Dublin só pra praticar uma língua estrangeira talvez você queira fugir pra Berlim e morar como os mietskaserne talvez você voe até o céu e aterrisse nos dumbblells do east side de NY

se não é um laissez-faire
é um self-help do salve-se quem puder


 

20080825 Diálogos entre Le Corbusier e Fernand Léger:

Nos olhos de Le Corbusier há linhas cartesianas
Nem todos os lugares são repletos de seu tempo
Nos barulhos retumbantes de canhões silenciosos
Há diálogos entre Le Corbusier e Fernand Léger
Que farão confusões mecânicas em seus relógios

Léger diz a Le Corbusier
Ei! Vamos beber em NY


Só se for em cima dos prédios
Onde eu possa ter visão plana

Pintarei esta cidade de tintas cubistas

E farei telas com abstrato geométrico
Descartes me ensinou a ser cartesiano
Todo o espaço é o espaço que delimito
É uma Odisséia Odisseu no ano de 1935
Se há de se fazer não diga porém faça
Só haverá tempo onde houver lugar
As Gaitas Hering agora virou praça

O Ethos Burguês na Moderna Utopia

Sob o enfoque de literatos, o autor Richard M. Morse fala sobre o ingênuo e o cosmopolitano, em seu texto “As cidades ‘periféricas’ como arenas culturais: Rússia, Áustria, América Latina” de Paris a São Petersburgo, do Rio a Buenos Aires e outras cidades ditas periféricas ou centrais.

Cada cidade é construída obedecendo à geografia, não tão-só a topográfica. Em regiões quentes os edifícios vão obedecer à arquitetura que minimizem os incômodos da quentura, do calor; para ir a outro extremo, em regiões frias ou geladas, a cidade é construída de maneira diferente as suas casas. Para o autor “as cidades tornam-se teatros e nossos informantes, atores”. Cita o poeta Baudelaire, pai do Simbolismo (no Brasil representado na poesia do catarinense Cruz e Sousa) que “celebra um mundo urbano associal, no qual a arte também se torna mercadoria”. E questiona se Paris foi a “capital do século XIX”; (sic) talvez, capital do consumismo.

Neste ponto, o autor de As Cidades “Periféricas” Como Arenas Culturais: Rússia, Áustria, América Latina, opõe-se a Walter Benjamin, autor de “Paris, capital do século XIX”. E fundamenta com Manchester de Tocqueville, Engels e Dickens: os além-Paris. Pois “nenhuma cidade poderia ser a sede de todos os ingredientes que forjaram a têmpora moderna”. E aponta o desinteresse dos artistas e literatos franceses por uma identidade nacional, além de que Dostoievski, tão distante de Londres e Paris, morar em São Petersburgo, ainda assim contribuía com a
modernidade
.

Dostoievski, a exemplo de Balzac, Dickens e Gogol , “exploram a metrópole como tema de ficção”, segundo Donald Fanger, quando estudou o “realismo romântico”. Dosoievski “conquistou o reconhecimento do grotesco como caminho para a beleza, do sofrimento para a felicidade e da humilhação para a liberdade”. Por outra, intelectuais e artistas julgavam Viena uma sociedade patológica.

(América Latina em comparação a cultura eurocêntrica). Neste caso propõe uma periferia como centro, ou seja, a inversão. As cidades periféricas também podem ter pessoas com criatividades e não só Paris ou Londres.


Machado de Assis (1839-1908), coluna do establishment, no aludido ensaio, “via a abolição como desculpa para os proprietários libertarem os escravos em condições ainda mais precárias”. Um dos maiores escritores brasileiros que dominava todos os gêneros literários, Machado profetizava as "estruturas sociais como controladas por sentimentos e paixões de indivíduos”.

Uma América Latina de pais e filhos ameríndios, ibero-medievais e miscigenados. Entretanto, o texto “As cidades...” refere-se, pela voz de Eugen Weber, que os camponeses do Sul da França (1870) “eram vistos pela cidade como ignorantes, supersticiosos, sujos, tímidos, ineptos, preguiçosos, avaros, moralmente atrofiados, falando línguas quase ininteligíveis. (...) Não havia necessidade de ninguém visitar a América para ver selvagem”.

 

Um poema de Marcello Ricardo Almeida
www:historiaeculturasurbanas.blogspot.com

 
  

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::sobre o autor::

 Quem é o poeta Marcello Ricardo Almeida? "É um bruxo bem-humorado com seu caldeirão fervente" o poeta alagoano Marcello Ricardo Almeida (1961-), autor de 120 peças teatrais em seu premiado método Teatro-Feijão-Com-Arroz  e de 50 livros, dos quais NÃO: Santanismo poético sintetizado, EA, Blumenau, SC, 1988. Silveira de Souza, da Academia Catarinense de Letras, comenta que o jeito de narrar do advogado e poeta Marcello Ricardo Almeida, que dá a fatos comuns do cotidiano uma atmosfera um tanto onírica, como se praticasse uma bruxólica mistura de gêneros. Parece ser a depressão a tônica que move os acontecimentos, uma depressão sempre satírica. O toque transformador de Marcello Ricardo Almeida: um cotidiano narrado em linguagem sui generis, na qual mistura o grotesco, o onírico, o real, o fantástico, o humor, o satírico e o trágico. Um estilo singular. Com seus neologismos, onomatopéias, expressões coloquiais, junçõ!
es de palavras e descrições inusitadas. Há um humor que perpassa todas as páginas. Numa linguagem contundente pelo sarcasmo, na qual sobressaem situações grotescas. As palavras conscientemente se deturpam. Na verdade, será perda de tempo especular-se a propósito de gênero literário quando se trata de Marcello Ricardo Almeida, um bruxo bem-humorado com seu caldeirão fervente. Criou, na ilha de Florianópolis, SC, em 2003, o Festival Nacional de Poesia. Contate-o no e-mail marcelloricardo@bol.com.br

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