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ISSN 1678-8419         última atualização em: terça-feira, 24 de janeiro de 2012 21:23:40                                               
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POESIAS

Santana do Ipanema eu vejo de minha janela

   

Maria do Socorro Ricardo

publicado em 24/01/2012

 

poema da santanense Maria do Socorro Ricardo (1968)

 

 

da janela de minha casa admiro os barcos que viajam pelo universo e

o som dos pássaros presos em gaiolas gorjeiam sobre o tempo eterno

como se constroem barcos se constrói vida como se construíssemos

o silêncio do universo em páginas de cadernos de linhas e palavras

estou diante de um sábado de feira em Santana do Ipanema de 1970

onde o mercado divide-se em mercados e cada mercado há um preço

os pés de pessoas vencem distâncias entre velhos e vazios planetas

há frutas na natureza morta desenhada naquela jarra presa à mesa

o vaivém de silêncios entrecortados acordam os pássaros nas gaiolas

 

estas são minhas águas-panemas em Santana sertão alagoano

são terras parecidas com outras com pedras e água salobra de mar

Santana do Ipanema querida cidade cujas linhas geopolíticas pulam

falam e gritam sobre os acontecimentos neste ano de 1973 e mais

onde pés que caminham nas areias de seu rio com casas às margens

conto em linhas ligeiras passagem de seu povo Santana do Ipanema

ribeirinha cidade de Santana do Ipanema lugar de sol e de serras

distantes lugares de caminhos de pássaros que cantam em gaiolas

as águas-panemas lavam e alimentam os moradores das serras

silencia o universo do alto admiro outra cheia que lava a cidade

 

ai janela querida que ficou só em Santana do Ipanema pictórica

era maio de 1968 na cidade que me vira caminhar em suas ruas

a parede caiada de minha casa de fazenda admira os pássaros

nuvens formam figuras como se um Monet ou Manet as pintassem

de repente as cores voam e alcançam o universo dos pássaros

as gaiolas presas às paredes brancas revelam os seus cânticos

como se a Terra de Escritores: Santana do Ipanema fosse una

ai janela querida que ficou só em Santana do Ipanema feérica

era maio de 1968 na cidade quando pintei palavras em versos

das janelas de minha querida Santana do Ipanema

o universo me contempla como o contemplo agora

as pedras conversam sobre tempos antigos e mornos

como o limo que as une em desespero absoluto musgo

Santana do Ipanema entre um cinturão de serras secas

colore as ruas com as cores saborosas das lembranças

dos janelões calados e sérios de minha eterna cidade

o som dos pássaros presos em gaiolas fala do universo

agora compreendo as suas ladeiras Santana do Ipanema

a sua música suas feiras espalhadas pelas ruas metálicas

neste poema de maio de 1968 onde as palavras feéricas

lavam as ruas como águas de panemas areentas águas

e os caminhos que se caminham em Santana do Ipanema

são suaves e quentes como dois olhos presos às paredes

os olhos das casas são janelões abertos que falam por si

sobre um tempo que já se foi há meia hora desistiu de ser

 

numa canoa em preto e branco de madeira

segui a correnteza de ar em leves manobras

e leve deslizava a canoa sobre as cumeeiras

das casas velhas de minha Santana do Ipanema

numa porta um seresteiro afinava o pinho

noutra porta a mulher gorda aprisionava o sol

naquele sobradinho pássaros estavam em gaiolas

agora só ouço o zumbido do universo misterioso

eu me esqueci que fui criança e o mundo era de rosas e mar

 

 


 

 

 
  

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