Resumo: No presente
artigo, convencionou-se eleger um aspecto da memória individual: o
relato autobiográfico escrito. E discutir as concepções teóricas que
embasam a utilização desta fonte para a realização da pesquisa no
âmbito da disciplina histórica.
Palavras-chave: Teoria da
História, Fontes históricas, Memória, Autobiografia.
Resumen: En el
presente artículo, fue elegido un aspecto de la memoria individual:
el informe autobiográfico escrito. Se vá a discutir las concepciones
teóricas que sostenen el uso de esta fuente para lograr la
búsqueda de la disciplina Historia.
Palabras-llave: Teoría de
la Historia, Fuentes historicas, Memoria, Autobiografía.
Para justificar a
relevância da autobiografia como fonte para a história é preciso
lembrar que, a memória individual não está inteiramente isolada,
fechada. Para evocar seu próprio passado, um homem tem a necessidade
de apelar às lembranças dos outros, a pontos de referências que
existem fora dele, na sociedade. A memória autobiográfica se apóia
na memória social, pois toda a história de vida faz parte de uma
história geral (HALBWACHS, 2004).
Logo, os elementos
constitutivos da memória, individual ou coletiva são, em primeiro
lugar, os acontecimentos vividos pessoalmente e, em segundo lugar,
os “vividos por tabela”, ou seja, pelo grupo e pela coletividade à
qual a pessoa se sente pertencer. A identificação com este passado é
tão forte que podemos falar numa memória quase que herdada (POLLAK,
1992).
Em suma, ela constitui um
elemento essencial de identidade, da percepção de si e dos outros (ROUSSO,
2001). Para Paul Ricour, a memória é mais do que simples objeto da
história, pois, permanece como a guardiã de algo que efetivamente
ocorreu e aproxima-se da História pela sua “ambição de veracidade” (apud
SILVA, 2002).
Portanto, não existe
lembrança decorrente da imaginação pura e simples, ou de uma
representação histórica exterior. As lembranças dos outros reforçam
e completam a do indivíduo, na medida em que se relacionam com os
eventos que constituem seu passado. Pois cada um é membro de vários
grupos ao mesmo tempo, maiores e menores (HALBWACHS, 2004).
Assim sendo, a memória
pessoal transforma-se em fonte histórica, justamente porque o
indivíduo está impregnado de elementos que ultrapassam os limites de
seu próprio corpo e que dizem respeito aos conteúdos comuns dos
grupos ao qual pertence ou pertenceu. Neste sentido, um texto de
memória autobiográfica é forma singular mais acabada de uma memória
coletiva (MALUF, 1995).
A história pertence,
sobretudo, àqueles que a viveram e cabe ao historiador exumá-la e
torná-la inteligível a seus contemporâneos. Um indivíduo quer fale
espontaneamente de seu passado e de sua experiência (publicando, por
exemplo, suas memórias), quer seja interrogado por um historiador,
não falará senão, do presente. Com as palavras de hoje, com sua
sensibilidade do momento, tendo em mente tudo quanto possa saber
sobre esse passado que pretende recuperar com sinceridade e
veracidade (ROUSSO, 2001).
É relevante ouvir as
testemunhas dos processos, pois a história passa a mostrar cada vez
com mais freqüência, não a vida dos heróis e das figuras públicas,
mas a do homem comum (BORGES, 2004). A história cultural, a partir
dos anos 1970, passa a recuperar a importância das experiências
vividas, remetendo aos usos de novas fontes e metodologias
históricas (SANTOS, 2005).
Quais são os limites
impostos pela utilização da autobiografia como fonte? Autobiografia
é ficção ou documento? O que leva alguém a se autobiografar? Por que
julga relevante seu próprio testemunho sobre o momento social que
viveu? De acordo com Calligaris (1998), diários íntimos e
autobiografias respondem a necessidade de confissão, justificação ou
de invenção de um novo sentido. Onde o indivíduo concebe sua vida
não como uma confirmação de regras e dos legados da tradição, mas
como uma aventura para ser inventada.
Para Aguiar (1997), a
autobiografia é reconstrução do passado a partir da perspectiva de
alguém que considera sua história digna de registro e nunca olha
para o ontem de modo descompromissado. Quem redige situa-se no
presente e refere-se ao passado evocando, avaliando e analisando o
que viveu. Segundo Otávio Ianni, ninguém escreve memória para falar
mal de si mesmo (CUNHA, 2009). Bourdieu (2001) nos fala da “ilusão
biográfica”, onde o indivíduo sempre incorpora um sentido à sua
trajetória, como se tudo já levasse a um fim predeterminado.
A autobiografia é, de
acordo com Queiroz (1991), enquadrada na categoria de história de
vida, cuja única intermediação está no registro escrito. Assim
sendo, não podemos esquecer que, quando lemos narrativas de
memórias, não lemos a própria memória, mas suas transformações
através da escrita (BURKE, 2000). Assim sendo, segundo Ricoeur, cabe
à história, em razão mesmo de sua função crítica, remediar e
corrigir, as fragilidades e os abusos da memória (apud SILVA,
2002).
Os historiadores têm de
estudar a memória como uma fonte histórica, elaborar uma crítica da
confiabilidade da reminiscência, no teor da crítica tradicional dos
documentos históricos (BURKE, 2000). Pois, até a mais subjetiva das
fontes, tais como uma história de vida individual, podem sofrer uma
crítica, por cruzamento de informações obtidas a partir de fontes
diferentes (POLLAK, 1992). Embora toda fonte histórica derivada da
percepção humana seja subjetiva (THOMPSON, 1992).
No campo da história da
memória, a função da testemunha não tem por que ser diferente
daquela que lhe é atribuída na historiografia em geral, cabendo ter
com ela as mesmas precauções (ROUSSO, 2001). Sendo indispensável
reconstruir o contexto em que age o indivíduo (LEVI, 2001). Pois, a
leitura de uma história de vida não é uma tarefa simples, necessita
como ponto de partida, a delimitação de um problema de pesquisa,
para que ofereça elementos necessários para a construção do contexto
social ao qual se refere (SANTOS, 2005).
Considerando o fato de
que, tanto a memória individual, como a memória social, é seletiva,
precisamos identificar os princípios de seleção e observar como eles
variam de lugar para lugar, de um grupo para outro, e como mudam com
o passar do tempo. As memórias são maleáveis e é necessário
compreender como são concretizadas e por quem, assim como os limites
desta maleabilidade (BURKE, 2000).
Lembrar o passado e
escrever sobre ele, não parecem mais atividades tão inocentes que
outrora se julgava que fossem. Tanto a memória, quanto a história
revelam-se cada vez mais problemáticas, nem uma, nem outra parecem
ser mais objetivas. Nos dois casos, os historiadores devem levar em
conta a seleção consciente ou inconsciente, a interpretação e a
distorção condicionadas por grupos sociais (BURKE, 2000).
Os críticos da memória
colocam-na como não confiável como fonte histórica, alegando ser
distorcida pela deterioração física e nostalgia da velhice
(THOMPSON; FRISCH; HAMILTON, 2001). Por outro lado, Bosi (1994), em
seu estudo sobre memórias de velhos, entrevistando pessoas maiores
de 70 anos, demonstrou que, nas lembranças de idosos, é possível
verificar uma história social bem desenvolvida.
Quando os idosos deixam de
serem membros ativos na sociedade, assumem a função própria de
lembrar. E sua memória pessoal passa a ser uma memória social,
familiar e grupal. Bosi (1994) afirma que, a autobiografia, a
narração da própria vida, constitui-se no testemunho mais eloqüente
dos modos que a pessoas tem de lembrar.
A memória é a estrutura
mais ampla e abrangente, é o próprio cimento vida cotidiana. É, ao
mesmo tempo, uma habilidade natural e uma construção social, uma
atividade, um trabalho que dá sentido ao palco da vida. A memória,
individual ou coletiva, não é um repositório passivo, mas ativo,
atuante, um imenso produto cultural. Memória é o vínculo, material
ou ideal, entre passado e presente que permite manter as identidades
a despeito do fluxo do tempo, que permite somar os dias de modo
significativo. É essencial tanto para indivíduos como para a
sociedade ou para grupos dentro dela (GUARINELLO, 2004).
O relato autobiográfico
pode ser enriquecido mediante entrevistas a pessoas próximas do
protagonista (NARANJO OROVIO; GONZÁLES MARTÍNEZ, 1984).
Sinteticamente, história oral é um termo amplo que recobre uma
quantidade de relatos a respeito de fatos não registrados por outro
tipo de documentação, ou cuja documentação se quer completar.
Colhida por meio de entrevistas de variada forma, registra a
experiência de um só indivíduo ou de diversos indivíduos de uma
mesma coletividade. Neste último caso, busca-se convergência de
relatos sobre um mesmo acontecimento ou sobre um período de tempo
(QUEIROZ, 1991).
A entrevista é a forma
mais difundida da coleta de dados orais, supõe uma conversação
continuada entre informante e pesquisador, este último que a dirige,
através de um roteiro previamente estabelecido ou aparentemente sem
roteiro, mas conforme uma sistematização. Elas fornecem dados
originais ou completam os já fornecidos por outras fontes (QUEIROZ,
1991).
Concordamos com Pollak
(1992), no sentido de que, quer os historiadores trabalhem com
escritos biográficos ou com relatos, o importante é como eles
trabalham, e não com o que. Pois, a história de vida apareceu
como um instrumento privilegiado para avaliar os momentos de
mudança, de transformação.
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Como citar este artigo:
PONCE,
Gelise. A
autobiografia como fonte para a história. Revista P@rtes (São
Paulo). V.00. P.eletrônica. Agosto de 2010. Disponível em <www.partes.com.br/politica/aautobiografia.asp>