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Roteiro: Com licença, por
favor; Para início de Conversa; Nossa experiência concreta; Hierarquização
de dados; Um olhar crítico sobre a realidade; Finalmente.
Resumo: A proposta do
presente texto é apresentar o fruto da experiência missionária junto aos
Assentados e Acampados do município de Caiapônia, oeste do estado de Goiás,
no período de 17 a 27 de janeiro de 2010. Longe de possuir a estrutura e
linguagem de um texto formal científico, trata-se de uma abordagem
dialética, na qual são apontadas observações e posicionamentos, com o
intuito de colaborar na construção de uma imagem pessoal daquilo que
representa o movimento em prol da Reforma Agrária nos dias atuais. É o fruto
de experiência e práxis junto às famílias, não o conjunto de orientações
teóricas e validamente assumidas pelo meio científico e acadêmico.
Com licença, por favor
Com licença, por favor, mas falar
em Reforma Agrária, nos dias atuais, é sinônimo de grande polêmica. Variadas
são as posições tomadas por grande parte da população brasileira.
Concordantes e discordantes. Contrários e simpatizantes. Vale destacar que o
que, na maioria das vezes, é mal visto por um grande número de brasileiros é
também a causa de esmero por parte de inúmeros pesquisadores oriundos das
mais diversas partes do mundo. Diante disso, não seria o desinteresse de
muitos efeito colateral da ausência de um apurado conhecimento da situação?
Afinal, em que consiste tal movimento?
Com essa finalidade, eis que
apresento o presente ensaio, fruto de uma rica experiência missionária que,
não obstante, possibilitou as ferramentas necessárias para o desenvolvimento
de uma pesquisa que objetiva compreender qual a real situação dos movimentos
em prol da Reforma Agrária em nosso país, donde se poderá descobrir quais
são os seus autênticos limites, necessidades e vitórias. Uma coisa é certa:
trata-se de uma realidade complexa e muito mais próxima de nós do que muitas
vezes pensamos. Ora, talvez ainda sejam necessárias muitas alocuções em prol
de colocar às claras quais são as verdadeiras necessidades de tal
movimentação. O caminho é longo e árduo e muitos são os obstáculos que podem
advir. Não bastam discursos que não passem de meras elucubrações jogadas ao
vento, do mesmo modo em que não será qualquer iniciativa concreta a garantia
de salvação da pátria. Trata-se de uma ação que surja como fruto de uma
eficaz contemplação. A isso nos propomos: contemplar a realidade que se
apresenta, não com os olhos da crítica gratuita e excludente, nem mesmo que
se preste a uma atitude ingênua e simplória, afinal não é vã a frase que nos
impele: “Sede puros como as pombas e astutos como as raposas.” Na gratuidade
da convivência, fazendo-se um no meio deles, torna-se possível a eficiente
ação pastoral, única forma capaz de libertar e construir um Novo Reino;
novos Céus e nova Terra.
Como lócus de nossa
observação estiveram três comunidades, todas localizadas nas dependências do
município de Caiapônia, estado de Goiás. São elas: a comunidade do
Assentamento Conquista, a comunidade do Assentamento El Dourado dos Carajás
e a comunidade do Acampamento Padre Ilgo Schneider. Nelas vivemos um período
de dez dias, nos quais priorizamos a visita às famílias e os encontros
específicos, com casais, jovens e crianças. O texto que segue, além de
procurar apresentar, de maneira geral, em que consiste o movimento em favor
da Reforma Agrária no Brasil, intenciona representar o fruto colhido após
tão profícua convivência.
Para início de Conversa
Para início de Conversa, o que são
os Acampamentos e em que se distinguem dos Assentamentos? Em primeiro lugar,
um acampamento é formado por um grupo de pessoas, vinculadas ou não a
movimentos sindicais, que possuem entre si um mesmo interesse: a obtenção de
uma parcela de terra para sua própria subsistência familiar. Para tal, devem
apresentar um ofício registrado em cartório no qual apontem a possível terra
a ser desapropriada, absorvida pela Reforma Agrária e distribuída aos
acampados, alegando a inutilidade ou improdutividade da mesma.
Para exercer maior pressão junto às autoridades e colaborar para o mais
rápido fluxo do processo o grupo constituído reúne-se em um acampamento,
podendo ou não se instalar na própria terra que disputa. Uma vez instalados
como Acampamento instituem uma coordenação, composta por um presidente, um
vice, dentre outras funções. Tal coordenação da associação terá o papel de
intermediar as relações entre o seu acampamento e as outras instituições,
tais como os sindicatos e o próprio Instituto Nacional de Colonização e
Reforma Agrária - Incra. A partir daí dá-se o momento da petição das
parcelas. Todo o processo ocorre junto ao Incra, a quem cabe emitir o
parecer considerando ou não a improdutividade da terra almejada. Uma vez
considerada improdutiva a terra se torna disponível para a Reforma Agrária,
podendo ser distribuída em forma de parcelas a todos os produtores do
acampamento. Ocupantes de suas parcelas os trabalhadores que, a princípio,
eram denominados por acampados tomam o nome de assentados – donde surge o
termo assentamento.
Em segundo lugar, vale lembrar que
todo esse processo, mesmo que já conduzido pelo Incra, deve passar, de igual
modo, pela Câmara dos Deputados de cada estado. Para se ter uma idéia, dos
41 deputados que compõem a Câmara dos Deputados do estado de Goiás, apenas
1, a saber o deputado Mauro Rubens, é favorável ao movimento de Reforma
Agrária. Os restantes 40 outros deputados compõem o que se denomina por
“bancada ruralista”, contrária ao movimento. É interessante notar que dos
deputados da bancada ruralista muitos são os próprios proprietários de
terras improdutivas ou administradores de terras devolutas. Isso dificulta
em muito o avanço de todo o processo. De modo similar, não se trata de uma
livre desapropriação em favor da distribuição fracionada da terra aos
acampados, o fazendeiro sempre recebe o valor pelo qual sua terra é
avaliada. Diante disso, pode-se dizer que, em outras palavras, o fazendeiro
sempre ganha. Não são incomuns os casos de proprietários de terras e grandes
latifundiários que contratam grupos de manifestantes a fim de simular uma
tomada de suas terras por parte do movimento em favor da Reforma Agrária;
agindo assim conseguem receber valores exorbitantes da União, tomando lucro
sobre a venda de suas terras e estabelecendo todo um universo de corrupção e
faucatrua, o que em muito descredibiliza a ação dos verdadeiros
necessitados.
Por conseguinte, não é desordenado
o trabalho dos agentes do Incra na seleção das famílias que serão
beneficiadas com a terra. Quem não possui um histórico de vínculos com a
terra, descendência de trabalhadores rurais ou tradição nesse modo de vida,
não é apto a receber os benefícios da reforma. Do mesmo modo, os
funcionários públicos ou proprietários de imóveis e empreendimentos
jurídicos, aposentados e pensionistas do INSS, pessoas com ficha criminal e
outros tipos de impedimento legal são excluídos da possibilidade de obtenção
desse benefício. Lançando o olhar sobre a realidade que nos circunda, não
são raros os casos de indivíduos que fogem ao padrão de exigências impostas
e, não obstante, tomam parte nos acampamentos com vista de receberem, também
para si, uma parcela de terra. Muitas vezes a vaga do verdadeiro necessitado
é usurpada pelo “falso sem terra”, o que garante o aumento na concentração
de renda e no desequilíbrio sustentável do país. Muito na mão de poucos e
muitos de mãos vazias.
Uma vez estabelecidos na parcela
devem criar o que denominam por PDA – Plano de Desenvolvimento do
Assentamento -, visando uma maior estrutura em prol das famílias assentadas,
bem como uma digna aplicação dos recursos recebidos: construção de rodas
d’água, pontes, distribuição elétrica, cisternas, cacimbas, bueiros,
“eixões” – que são as vias de acesso às extremidades do assentamento -,
dentre outras diversas necessidades. Somente após um prazo de vinte anos o
até então administrador da parcela recebe o título definitivo de
proprietário da mesma, podendo vendê-la ou transferi-la licitamente a
outrem.
Nossa Experiência Concreta
Iniciamos nossa experiência
concreta no dia 18 de janeiro de 2010 com uma introdução à realidade com a
qual iríamos nos deparar. Falou-nos o senhor Vitorino, de 57 anos, membro da
Comissão Diocesana de Pastoral da Terra e agente ativo na luta junto aos
trabalhadores de toda a abrangência do município de Caiapônia e região.
Segundo ele, em toda a Diocese de São Luis de Montes Belos, que compreende
um total de 36 municípios, ao oeste do estado de Goiás, existem
aproximadamente 50 comunidades de assentados, dentre os quais destacamos os
Assentamentos e os Projetos de Assentamento. Nesses, a diversidade é um
fator imprescindível e que salta à nossa vista, seja ela manifesta nas mais
variadas formas: religiosa, cultural, econômica, ideológica... Nesse
sentido, a missão da CPT – Comissão de Pastoral da Terra – é intermediar as
relações entre as pessoas e as instituições, gerando maior eficiência nos
processos de transição e negociação nos quais essas se envolvem.
A princípio, vale destacar que
nossa atividade junto àquele povo se constituía prioritariamente como um
projeto missionário. Todavia, a ação missionária junto ao povo não dispensa
ou anula o olhar atento e vigilante do pesquisador. Ao contrário, trata-se
do que se denominaria por uma bela “dobradinha”, a saber: dois modos
distintos de intencionalidade unidos em favor de um mesmo objeto.
Como campo para nosso trabalho
estavam dois Assentamentos e um Acampamento, diferentes entre si e
expressivos em suas particularidades. Em primeiro lugar, o Assentamento
Conquista, a aproximadamente 90 quilômetros do município de Caiapônia; ali
permanecemos em um grupo de 5 missionários. Adiante, encontrava-se a
comunidade do Assentamento El Dourado dos Carajás, cerca de 24 quilômetros
após o Conquista, no qual permaneceram 4 missionários. Por fim, tivemos a
oportunidade de fazer uma experiência junto ao povo do Acampamento Padre
Ilgo Schneider, que desde sua estrutura até o modo de vida e ideologia em
muito se diferia dos demais visitados.
Constituído por um grupo de 36
famílias, pode-se dizer que o Assentamento Conquista possui um conjunto de
características que o diferenciam dos demais. Como base para qualquer
discurso, vale lembrar que é basicamente composto por famílias oriundas
daquela mesma região; todas com longa tradição de vida no campo. Outro
elemento importante é a comum existência de laços de parentesco entre muitos
parcelados do Assentamento: irmãos, primos, tios, pais etc... Em certo
sentido, a existência de tal proximidade familiar colabora na edificação das
chamadas “panelinhas”, dividindo a comunidade do Assentamento em pequenos
grupos isolados entre si. A ausência de uma liderança, reconhecida por todos
da comunidade, é outro fator que atrapalha em muito a caminhada desses
trabalhadores. Existe aqui muita rivalidade o que desperta o espírito de
individualismo no âmago de muitas pessoas. A falta de uma estruturada
formação religiosa é o que proporciona a comum transição entre igrejas, ou o
que se denominaria por “ecletismo religioso”; tal realidade se apresenta
como desafiadora e requer da atividade pastoral a instituição das bases
elementares sobre as quais deve se apoiar a fé cristã. Não obstante, é
notável o interesse em aprender o novo e a alegria por se sentirem parte de
uma comunidade eclesial, mesmo que ainda em muito marcada pela chaga da
divisão.
Com muitas semelhanças e também
diferenças das características acima citadas, a comunidade do Assentamento
El Dourado dos Carajás é constituída por um grupo de 26 famílias, também
oriundas daquela mesma região. No que se refere ao desenvolvimento
estrutural do Assentamento, por se tratar de um grupo recém assentado em
suas parcelas, ainda há muito a ser feito. Questões como a construção das
estradas e a distribuição de energia e água para todos ainda são tratadas
como prioridades elementares. Ao contrário do Assentamento anteriormente
mencionado, a comunidade do El Dourado é formada por famílias com um maior
acompanhamento religioso, o que, todavia, não assegura, também aqui, a comum
existência de transição religiosa
entre membros de diferentes credos. Enquanto a Igreja permanece com um
atendimento pastoral a cada quinze dias é crescente o número de pastores
residentes nos próprios assentamentos – qualquer indivíduo pode se tornar
pastor, basta que tenha uma boa capacidade oratória.
Ao contrário do que foi apontado
como características dos assentamentos, a vida em um acampamento é bastante
diferente. Constituído por um conjunto de, aproximadamente, 153 famílias, o
Acampamento Padre Ilgo Schneider se difere em muito daquilo que
experimentamos na convivência com os demais assentados. Em primeiro lugar,
tratam-se de famílias provenientes das mais diversas regiões do estado de
Goiás e mesmo do país. Por consequência, estão vinculados a sindicatos com
forte expressão no cenário nacional, como a Central Unida dos Trabalhadores
– CUT – e o Movimento Terra Trabalho e Liberdade – MTTL, o que garante em
seus membros toda uma constituição ideológica própria. Aqui a precariedade
nas instalações é ainda mais evidente e a necessidade de resolução imediata
de problemas é parte da vida cotidiana. Ao contrário de um assentamento, no
acampamento a união entre as famílias é dado notadamente visto, o que
colabora na condução e resolução de seus problemas oriundos da vida
cotidiana.
Hierarquização de Dados
Uma vez constituído um olhar
panorâmico sobre a realidade que encontramos nos Assentamentos Conquista e
El Dourado dos Carajás, bem como no Acampamento Padre Ilgo Schneider, cabe
estabelecer o que se denominará por hierarquização dos dados. Trata-se do
elenco dos pontos positivos e negativos percebidos ao longo das visitas às
famílias e das conversas informais com os membros da comunidade. Em primeiro
lugar, podemos listar o que encontramos de positivo na vida daquele povo:
-
Uma vez listados os pontos
positivos podemos fazer o elenco daqueles que dificultam a vida dos
moradores daquelas comunidades Coragem de quem luta em prol do que
acredita; busca o sonho e constrói a realidade para muitos desacreditada.
-
Constância na fé apesar das
dificuldades – o que não significa perseverança num mesmo credo religioso;
. Longe de constituir-se como
pessimismo, a abordagem das dificuldades encontradas na vida daquele povo é
o que nos possibilita uma profícua ação pastoral e evangelizadora. Como se
verá, muitos são os obstáculos que precisam ser transpostos, o que envolverá
tanto o auxílio de instituições sociais quanto eclesiais. São esses os
pontos preocupantes com os quais nos deparamos:
-
Instabilidade religiosa – é
comum a transição entre os diferentes credos;
-
Notável falta de mínimo senso
administrativo por parte dos que se tornam os proprietários das parcelas;
-
Dependência em relação a
Instituições, dentre elas a própria Igreja;
-
Alto consumo de drogas lícitas e
ilícitas – o que é a maior causa da desestruturação familiar;
-
Forte índice de prostituição e
cada vez mais precoce ingresso na vida sexual ativa;
-
Degradação do meio ambiente, que
é tido, unicamente, como fonte de matéria prima inextinguível;
-
Descaso em relação à educação –
não há professores e as escolas se encontram em um alto nível de
precariedade;
-
Falta de unidade entre os
membros de um mesmo assentamento e, por decorrência, crescente onda de
individualismo;
-
Falta de entrosamento
comunitário – dons que não se manifestam por falta de abertura ou
incentivo;
-
Imperante pensamento capitalista
e pragmático;
-
Alto índice de violência – casos
de fugas ou presença de foragidos da lei escondidos nos assentamentos;
-
Concorrência entre os próprios
parcelados – perseguições e juras de morte;
-
Vandalismo;
-
Chantagens emocionais e legais –
usam crianças e mulheres para chantagear; promessas de ataque armado;
-
Notável esquecimento por parte
dos municípios.
Observando o elenco acima citado,
torna-se forte a intuição diante da qual tais características se apresentam
como a origem para questões com conseqüências gravemente problemáticas para
a sociedade de um modo geral – tanto interior quanto exterior ao
assentamento. Não se trata de negativismo ou depreciação. Os problemas e as
dificuldades são o que mais notavelmente saltam à nossa vista. Não obstante,
podemos notar que mesmo que inferiores no que se refere à sua quantidade os
pontos positivos ultrapassam em muito as limitações e problemas, quando
observados sob o prisma qualitativo. Do mesmo modo, torna-se digno de
lembrança que os problemas mais graves acima citados somente foram
percebidos no Acampamento Padre Ilgo Schneider, oriundo do Movimento dos Sem
Terra – MST – e Central Unida dos Trabalhadores – CUT. Ao que parece, os
manifestantes e acampados provenientes de movimentos desse gênero apontam
maior tendência a expressões de violência, sejam elas das mais variadas
formas. De modo distinto, os membros dos Assentamentos Conquista e El
Dourado dos Carajás, advindos de movimentos sindicais da própria região,
apresentam-se com maior docilidade em suas relações, consigo mesmos e com as
instituições governamentais.
Um olhar crítico sobre a
realidade
Mesmo sendo a única instituição
religiosa que entra no âmbito das discussões acerca da Reforma Agrária, não
são incomuns as reclamações, por parte dos assentados e acampados, em
relação à Igreja Católica. Segundo eles, uma vez estabelecidos em suas
parcelas tornam-se esquecidos também pelo atendimento pastoral católico.
Comumente, a única relação entre eles e a Igreja é estabelecida pela
celebração mensal dos sacramentos, o que exclui a possibilidade de um real
sistema de evangelização que acompanhe sua vida cotidiana. Não obstante,
também existem questionamentos por parte da Igreja, que alega a falta de
compromisso e comprometimento por parte da grande maioria dos assentados,
que somente se utilizam da Igreja como trampolim para alcançarem seus
objetivos, ou mesmo como modo de tornar ouvida a sua voz. “Uma coisa é
quando estão no acampamento, onde se consideram todos irmãos; outra é quando
já se encontram assentados: aí se excluem com paus e pedras”, afirmam
agentes de pastoral ativos na comunidade.
Segundo membros da comunidade
local, como a artesã Lucia, de 45 anos, a presença da Igreja é tida como um
“passa tempo”, muito útil para ocupar o tempo livre dos assentados. Isso
pode ser nitidamente constatado no seguinte exemplo, narrado pela própria
artesã: “antes de surgir o boteco a igreja era cheia”, afirma. Mesmo sendo
proibidos pelas leis que regem o assentamento não é incomum a presença dos
conhecidos “botecos”, nos quais frequentemente se reúne a comunidade local,
seja para jogar cartas, beber, dançar e até mesmo fazer negócios. Quanto a
isso, divididas são as opiniões; existe o grupo dos prós e dos contra.
Segundo os que aprovam tal iniciativa, o boteco é um lugar de descontração e
encontro das famílias, em outras palavras, um modo lúdico de descarregar as
energias absorvidas no cotidiano de labutas. Por outro lado, segundo aqueles
que são contrários a tal presença, trata-se de um antro de perversão dos
adolescentes, os quais aprendem o vício da bebida, bem como um local
propício à degradação da família em sua estrutura fundamental. Discrepâncias
a parte, deve ser considerado o fato de que a presença do boteco afeta
diretamente o andamento da comunidade eclesial desse meio, senão
qualitativa, com certeza quantitativamente – ao que dão testemunho os vários
bancos vazios da igreja.
Outro problema que usualmente
aparece nesse cenário é a falta de senso de administração por parte dos
assentados. Uma vez que as parcelas são distribuídas entre todos do
acampamento e, por assim dizer, os indivíduos se assentam em sua própria
terra, é dispensada, por parte do governo federal, uma ajuda de vinte mil
reais, para que construam suas casas e façam as melhorias necessárias para
que comecem a produzir em favor de sua própria subsistência. Entretanto, tal
investimento não é gratuito. Após o intervalo de alguns anos, tempo
necessário para o equilíbrio econômico do trabalhador, o mesmo deve devolver
o dinheiro que noutrora recebeu como incentivo para sua produção. Aí se
instaura um grande problema. Freqüentemente, ao receber o benefício do
governo, muitos trabalhadores dispensam sua verba na compra de bens dos mais
diversos – carros usados, motos, moveis para a casa -, bem como os que
gastam tudo o que receberam em vícios, como a bebida e os jogos. O que
deveria ser empregado na melhoria de sua terra, na aquisição de gado, na
implantação de meios que garantam seu equilíbrio econômico, se esvai nas
futilidades da vida, desequilibrando, do mesmo modo, a estabilidade do
trabalhador, que se vê atolado até o pescoço em dívidas. Como afirmaram
alguns dos trabalhadores consultados, “ao contrário de comprar uma vaca que
garanta um bom retorno financeiro, muitos preferem comprar, com o mesmo
dinheiro, duas vacas de nível inferior, com as quais gastará até mesmo o que
não possui”. Nesse sentido, pode-se dizer que a eficiência pastoral nesse
meio também é garantida pela orientação no modo de condução dos bens
temporais.
Intimamente relacionado ao que foi
mencionado está a crescente dependência por parte dos trabalhadores em
relação às instituições eclesiásticas. Em muitos dos casos, os próprios
indivíduos não assumem a sua responsabilidade, em especial no que tange ao
governo de seus bens. Surgem gastos excessivos e descabidos. Torna-se quase
extinto o temor por gastos desnecessários, pois confiam no auxílio sempre
pronto por parte da Igreja. Também isso reflete em sua falta de organização
como igreja peregrina do Senhor. Apresentando sua queixa em relação à falta
de compromisso de grande parte da comunidade, essa é a expressão de uma das
trabalhadoras, parte ativa da comunidade de seu assentamento: “esse povo só
quer saber de ‘venha a nós’; não do ‘vosso reino’”. O compromisso com o
Reino é, tão simplesmente, confinado às mãos dos ministros instituídos.
Com a forte concorrência entre os
diversos grupos sindicais, que tomam a frente na briga pelos direitos dos
assentados, os que saem mais prejudicados são os próprios trabalhadores.
Interesses pessoais são postos acima da comunidade. Os verdadeiros pobres do
assentamento são os mais esquecidos e, por conseguinte, os que mais sofrem.
Prevalece a força dos grandes. Os que noutrora eram os oprimidos, num novo
ensejo tornam-se os opressores. Dividem-se as opiniões sobre a venda das
parcelas, proibida por lei, mas única alternativa para muitos trabalhadores.
Uma vez que, por motivos diversos – brigas políticas, partidárias,
perseguição – os sindicatos não liberam a verba destinada para o
trabalhador, torna-se insustentável a permanência em sua parcela. Nesses
casos, deixar a parcela, conquistada como fruto de tanta luta e suor,
torna-se o único modo de assegurar a vida e a dignidade para muitas pessoas:
“antes voltar para a cidade que morrer à mingua”, afirmam.
Pelo que se percebe, falta a
implantação de uma consciência reta, que reconheça o papel da natureza e das
pessoas. É comum o desrespeito ao meio ambiente e às leis ambientais. A
reserva natural é tida como uma fonte a mais de matéria prima, disposta ao
bel sabor do homem, para que dela retire até mesmo as “entranhas”. Não
deveria ser essa a consciência daquele que será o homem do campo, de cuja
natureza retirará o sustento para toda sua vida. O respeito pelo meio
ambiente deveria ser, ao contrário do que se vê, o distintivo que alto reluz
em seu peito, mostrando, assim, o verdadeiro valor da luta que por ele é
exercida, o que o distingue como homem da terra. Talvez, todos esses
problemas que se insurgem não mais querem senão apontar para aquela que é a
raiz de todos os males: a falta de união. O individualismo, que é o grande
mal da sociedade atual, também encontra no meio dos assentamentos o terreno
propício ao seu crescimento. Segundo Vitorino, existe um exemplo que
nitidamente pode ilustrar o contexto ao qual nos referimos: “Antes, no
acampamento, apenas um carro ia à cidade, uma vez ao mês, e buscava as
compras de toda a comunidade; Depois, no assentamento, vê-se um
enorme fluxo de carros fretados, até dez por dia, trazendo as compras
individuais de cada um; as coisas dos outros não encontram mais espaço junto
às minhas.” Pior ainda seria pensar que na situação em que se encontram,
nada seria mais valioso que a união. Dificilmente uma voz isolada será
ouvida pela multidão, pelos grandes poderes. Talvez, em nenhuma outra
situação seria tão propícia a conhecida frase segundo a qual: “a união faz a
força”.
Finalmente
Para concluir, voltamos às
afirmações primeiras, diante das quais fomos alertados de que não se refere,
o presente texto, a uma estrutura científico-formal, mas, ao contrário, ao
fruto de uma experiência missionária. Ora, uma das exigências da ciência
moderna é a isenção do pesquisador, em outras palavras denominada por
“neutralidade científica”. Em nosso caso não seria possível nos usurpar da
realidade a qual descrevemos. Como fora dito, trata-se do fruto de um viver
com eles, ou seja, de um “conviver”. As suas alegrias foram também as nossas
alegrias, bem como as suas dores deixaram em nós a marca da chaga que os
corrói. Nesse sentido, qualquer conclusão que objetive conter em si o
fechamento de todas as possibilidades e a isenção de pertença à realidade
que evocamos é nula.
Em todo o período de convivência
que empreendemos, algo não poderia passar despercebido: o comum sentimento
de esquecimento por parte dos assentados e acampados. Apesar das alegrias e
tristezas; venturas e desventuras; fadigas e labutas e todo mais que a vida
diária possa oferecer, nada se apresenta como fardo mais doloroso a ser
carregado senão a consciência de se estar esquecido. Esquecidos por aqueles
que, em tempos de eleição os cobriram de promessas. Esquecidos pelas
autoridades políticas e civis que regem seus municípios. Esquecidos por seus
próprios sindicatos, que os abandonam à mercê do tempo e do destino. São
escolas que não funcionam; estradas pelas quais não se pode circular; pontes
que desabam; dentre inúmeras outras evidências que nada mais apontam senão o
descaso e o esquecimento. Uma coisa é certa: pela defesa da dignidade da
pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus, a situação não pode
permanecer como se encontra. Em suma, a isso nos propomos: ser ferramenta
que desperte a consciência de tantos e tantas que parecem estar adormecidos
em face ao sofrimento alheio. Não trazemos conclusão de dados ou propostas
concretas de ação; tão somente almejamos colaborar como voz profética que
anuncia, denunciando as injustiças e proporcionando a construção de um povo
novo, rico em dignidade e vida. Oxalá que nos despertemos, saiamos de nossos
casulos e partamos ao encontro da realidade que constantemente nos desafia.
Talvez seja esse o primeiro passo: olhar para nossa realidade. Partindo da
consciência do que nos circunda será plena e eficaz a nossa ação pastoral
junto daqueles que sofrem.
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