Resumo
As Cartas
Econômico-políticas sobre a agricultura e o comércio da Bahia,
originaram-se da consulta do príncipe Regente Dom João (futuro Dom
João VI), ao Conde da Ponte, governador geral da Bahia.
Dentre as diversas respostas, a mais consistente é a do magistrado e
desembargador João Rodrigues de Brito. Tendo como parâmetro, as
idéias iluministas, ele analisa a realidade da Bahia do início do
século XIX, propondo inúmeras reformas da sociedade, como a
liberdade de comércio. No presente artigo, discutir-se-á
quais eram os principais obstáculos ao desenvolvimento da sociedade
baiana, segundo João Rodrigues de Brito,
e a atualidade de sua agenda de reformas.
Palavras-chave: História, Bahia, século XIX, liberalismo.
Resumo
Las
Cartas
Económico-políticas sobre la agricultura e el comercio de la Bahía,
viene de la consulta del prince Regent Don João (futuro Don João
VI), al Conde de la Ponte, gobernador general de la Bahia.
Entre las varias respuestas, la mejor es la del magistrado e juez
João Rodrigues de Brito. Tiendo como parámetro, la ilustración, el
analiza la realidad de la Bahia, del inicio del siglo XIX, y propone
muchas reformas de la sociedad, como la libertad del comercio.
En este artículo, vamos a discutir quais eran los principales
obstáculos al desarrollo de la sociedad
baiana, segundo João Rodrigues de Brito,
y la actualidade de su programa de reformas.
Primeiramente, devemos salientar que, a leitura da carta de João
Rodrigues de Brito em resposta ao ofício do governador Conde da
Ponte __ escrita em 1807, às vésperas da vinda família real ao
Brasil e a abertura dos Portos (1808) __, nos faz repensar a
historiografia tradicional sobre a história do Brasil Colônia.
Apesar de
não podermos comparar o Brasil do século XIX, a um modelo de
sociedade liberal-burguesa, que sequer existia nos países mais
desenvolvidos do mundo ocidental, é necessário dar a devida
importância ao papel representado pelo liberalismo, ao contrário das
interpretações que o desqualificam, colocando-o como uma “idéia fora
do lugar” (PEREIRA, 2009). Partindo desta premissa, a carta de Brito
é um exemplo da influência das idéias liberais na história do
Brasil, neste período.
De acordo
com João Rodrigues de Brito, os principais obstáculos ao
desenvolvimento da sociedade baiana, do início do século XIX, se
resumem na falta de liberdade, facilidades e instruções. Na falta de
liberdade dos lavradores de empregarem seu trabalho, seu capital da
forma como bem entendessem. Na falta de facilidades, que consistem
na falta de pontes, estradas e outras obras que diminuiriam as
despesas e obstáculos das comunicações e transportes. E, por fim, na
falta de instruções necessárias aos lavradores para se aproveitarem
destas liberdades e facilidades.
Em relação
à falta de liberdade, Brito destaca que, os lavradores não podem
cultivar qualquer gênero, construir qualquer obra ou fábrica para
possíveis melhorias, ou mandar vender seus produtos em qualquer
lugar, por intermédio de quem quisesse, nem vender para quem lhe
pagasse mais, ou no tempo que quisesse.
Os
lavradores não podem cultivar qualquer gênero porque são obrigados a
plantarem mandioca para o sustento dos escravos. O que é um
desperdício das terras mais férteis, como o solo de massapé, uma vez
que esta raiz nasce em qualquer lugar. Podendo plantar o que
quisessem poderiam aumentar sua produção, seus lucros e,
conseqüentemente, comprar a farinha de mandioca necessária.
Sendo
proibida a fundação de fábricas, alambiques, armações de pescar e,
principalmente, engenhos de açúcar, agrava-se a situação de
lavradores que perdem sua cana por não terem onde as moer (ou pior,
são obrigados a moê-las em determinado engenho). Segundo Brito, este
monopólio deveria ser substituído pela livre concorrência, uma vez
que sem a concorrência não se pode esperar nenhuma melhora em
qualquer ramo da indústria humana.
Para
Brito, proibir os lavradores de vender livremente seus produtos na
cidade, vila, ou qualquer lugar onde têm mais valor, ou melhor
saída, é o mesmo que roubar-lhes parte deste valor, ou seja,
privá-los da aquisição de riquezas. Por meio de regulamentos
violentos, diminui-se os meios e a vontade de cultivar, diminuindo
doravante, a cultura. E mesmo que se consiga forçar uma abundância
passageira, os provimentos regulares só viriam a ser assegurados com
a liberdade do Comércio.
Dando como
exemplo a cultura do tabaco, Brito fala da falta de liberdade de
exportação, pois na Europa o produto alcançava maior valor. A
proibição da venda sem antes passar por demorada inspeção, é fundada
nos antigos sistemas de corporações, refutado pelos novos
economistas como Adam Smith. Porque é a concorrência e a difusão do
iluminismo que obrigam o produtor a aperfeiçoar a qualidade do seu
produto, e não as proibições de vendê-los sem a marca de aprovação.
Além de
proibir os lavradores de venderem seus produtos onde tivesse mais
valor e saída, proibi-se também certos compradores (comissários
volantes, atravessadores, revendedores, etc.), cuja concorrência
faria aumentar o preço dos produtos em seu benefício, embaraçando os
progressos da lavoura. O papel destes pequenos negociantes, que
intermediam o comércio entre produtor e consumidor, na esperança de
obter algum benefício, é importante porque traz proveito para ambos,
visto que sua atividade é voluntária.
Brito
salienta que, os atravessadores são úteis quando seu número é
irrestrito, o que impede ganhos exorbitantes de um ou outro.
Contudo, o Senado limitou o número de atravessadores, monopolizando
o comércio dos gêneros. Causando um dano grave tanto aos produtores
que são obrigados a vender seus produtos por um preço abaixo do seu
valor, quanto aos consumidores, que são forçados a comprar o produto
mais caro, devido à falta de concorrência de vendedores.
Por fim,
os lavradores não têm a liberdade de vender seus produtos quando
chegam à cidade, à hora em que querem, tendo que esperar o prazo
decretado para prover o povo. No entanto, o interesse dos habitantes
da cidade é o mesmo do lavrador, que consiste na liberdade do
comércio.
Quanto à
falta das facilidades, é sabido que o governo deveria favorecer a
construção de pontes, barcas, estradas, canais, estivas, para o
transporte dos produtos, portos, cais e docas para seu embarque e
desembarque. Obras que faltam absolutamente. Dentro das cidades não
há ruas em que se possa subir de carro, a navegação dos grandes rios
da capitania são aproveitados por empecilhos fáceis de remover. A
uniformidade de pesos e medidas não é respeitada, dando enormes
prejuízos. Falta uma praça de comércio para facilitar as transações
mercantis.
Não há
segurança no campo, tornando as viagens mais dispendiosas e
arriscadas ou até impraticáveis, devido ao medo dos salteadores. A
mesma falta de polícia campestre também contribui para a
despovoação, prejudicando a agricultura que necessita do trabalho
manual. Do mesmo modo, a falta de polícia urbana que não inspeciona
a qualidade dos alimentos, como os peixes e as carnes mal salgadas,
que contribuem para a mortandade da população.
Brito
também alerta para a ausência de um sistema de empréstimos, fundos
para os lavradores agregarem valor a suas terras, para fornecer
salários, instrumentos, sementes e matérias em que pudessem empregar
seu trabalho. Assim como, uma taxa de juros que atraísse capitais
estrangeiros, e a instituição de um banco que facilitasse a
circulação de capitais.
Brito
reclama da longa duração dos processos, que influencia a estagnação
dos capitais e aumento dos juros, porque auxilia os caloteiros
fazendo com que os capitalistas não consigam cobrar seu dinheiro sem
grandes incômodos. Desta maneira, ao invés de taxar o preço do
salário dos trabalhadores, o fruto dos lavradores, o aluguel aos
proprietários e os juros aos capitalistas, Brito taxaria o tempo dos
processos.
Finalmente, quanto à falta de instrução, Brito destaca que, de nada
adianta as liberdades e facilidades, se o lavrador não for instruído
no melhor método para se aproveitar delas. Em primeiro lugar, é
mister direcionar melhor os gastos dos concidadãos, em despesas
úteis ao Estado. Pois os moradores desperdiçam dinheiro em funerais
e festas da Igreja, deixando de investir em caminhos, cais, fontes
ou pontes.
Brito
afirma que, as riquezas aumentariam, caso os lavradores tivessem
conhecimento da História Natural, Química e Física. Porém, não
existe nenhuma casa de instrução e educação, nem professores, nem
museu ou uma biblioteca pública. Não há um jardim botânico para
aclimatar vegetais úteis, muito menos uma sociedade econômica e
literária para fomentar o patriotismo. O remédio para as causas
provenientes da falta de instrução seria dissipar as trevas da
ignorância, estabelecendo um bom sistema de estudos, onde todos
saibam ler, escrever e contar.
Brito
justifica sua opinião, contra a intervenção do estado na economia
afirmando que, quando a administração pública se intromete a
prescrever aos cidadãos o emprego que eles vão fazer das terras,
braços e capitais, desequilibra a natural produção e distribuição
das riquezas.
Outro
aspecto relevante na carta de João Rodrigues de Brito é a sua visão
sobre a utilização da mão-de-obra escrava. Para Brito, os escravos
africanos deveriam ser substituídos por imigrantes chineses ou
indianos, porque estes são mais laboriosos e industriosos. E ainda
dariam exemplo aos trabalhadores nacionais que vivem na ociosidade,
em um momento que a agricultura precisava de braços, para aumentar
sua produção. E os escravos se convertidos em homens livres,
tornar-se-iam mais úteis, uma vez que “o trabalho só é
ricamente produtivo, onde quem trabalha colhe os frutos”.
Do mesmo
modo, é interessante, como fala da má influencia da Igreja sobre os
costumes da sociedade. Os votos monásticos fomentariam a despovoação
do território. Por exemplo, o voto de castidade é contrário a
procriação; o de pobreza, contrário à riqueza. E o grande número de
dias santos seria nocivo por interromper o trabalho, além de que o
trabalhador aproveitaria o tempo livre para beber, arruinando sua
saúde!
Ainda mais
surpreendente, é a sua idéia sobre as mulheres. Critica o fato de
elas viverem reclusas, envoltas em serviços domésticos, dependendo
do marido para subsistir, enquanto seu trabalho poderia ser
aproveitado em outras instâncias que não exigiriam forças, podendo
atuar, por exemplo, como vendedoras em lojas como ocorria nas nações
mais civilizadas na Europa.
Pode-se
concluir que, as reformas liberais propostas por João Rodrigues de
Brito ainda são atuais. A título de ilustração, temos as questões
levantadas sobre o intervencionismo estatal versus a
livre-concorrência, que estão em pauta nas discussões dos
economistas em relação às políticas governamentais e à iniciativa
privada. E a cultura da libertação feminina, em vista da progressiva
disputa pelo mercado de trabalho com os homens, superando-os em
inúmeros ramos.
Bibliografia utilizada:
BRITO,
João Rodrigues de. A economia brasileira no alvorecer do século
XIX. A resposta de Rodrigues de Brito a um inquérito econômico nos
tempos da Colônia. Salvador, Livraria do Progresso Editora,
1923.
PEREIRA,
L. A. Pensamento Modernizador no Brasil Imperial. Ainda sobre o
lugar das idéias liberais. XXV Simpósio Nacional de História,
Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2009.
Como citar este artigo:
PONCE,
Gelise. Reflexão acerca das Cartas Econômico-políticas sobre a
agricultura e o comércio da Bahia, pelo desembargador João Rodrigues
de Brito. Revista P@rtes (São
Paulo). V.00. P.eletrônica. Março de 2010. Disponível em <www.partes.com.br/politica/cartaseconomicas.asp>