Resumo
Este artigo trata do papel da cidade e sua
relação com a construção democrática sob o sistema capital, bem como, o
impacto decorrente da questão urbana na cidade moderna e as possíveis
implicações deste fenômeno na contemporaneidade.
Abstract
This article
discusses the role of the city and its relationship to building a
democratic system in the capital, as well as the impact of urban issues
in the modern city and the possible implications of this phenomenon in
contemporary society.
Introdução
A cidade é historicamente o lócus do
exercício da democracia e da cidadania. É no espaço da cidade, no âmbito
do território constituído, que se estabelece o espaço público capaz de
conduzir o sentido da participação política dos cidadãos de maneira
universal. Entretanto, é também na cidade que se verificam as mais
profundas formas de exclusão e de solapamento aos direitos sociais e o
ataque feroz à possibilidade de uma construção democrática na
atualidade.
Isso porque, a constituição da cidade
moderna é entremeada pelas características da formação democrática
capitalista que pressupõe uma ordem econômica em que a produção é
subordinada aos imperativos de mercado, em que o mecanismo motor é a
composição e a maximização do lucro, não as coações “extra-econômicas”
da propriedade politicamente constituída, mas os imperativos puramente
“econômicos” do mercado que exigem produtividade crescente do trabalho
(Wood, 2003:172)
Além disso, as cidades contemporâneas
compreendem um complexo urbano que está fundamentado na propriedade
privada da terra, na especulação imobiliária e na superexploração da
classe trabalhadora. Estes pilares são constitutivos do fenômeno urbano,
processo que se deflagrou no último século, especialmente a partir da
industrialização, e que cria as condições necessárias ao desenvolvimento
do capitalismo.
Neste sentido, tomamos como eixo de
análise o espaço urbano enquanto formação material capaz engendrar as
relações sociais e de produção capitalistas e de representar a
complexidade deste processo no ceio da cidade “moderna”. Sob esta
perspectiva, nos interessa a concepção do espaço urbano enquanto
mercadoria, que cria uma condição física e material para a configuração
das relações sociais de alienação sob o sistema capital na atual fase.
Objetivamos com este trabalho compreender
o papel da cidade, e sua relação com a construção democrática sob o
sistema capital. Procuraremos demonstrar no decorrer do nosso percurso,
o impacto decorrente da questão urbana na cidade moderna e as possíveis
implicações deste fenômeno no campo da construção democrática na
contemporaneidade.
A cidade na antiguidade e a cidade
moderna – o sentido da democracia
As contribuições de Ellen Wood (2003) ao
analisar o trabalho e a democracia antiga e moderna são fundamentais
para compreendermos a representação da cidade e da propriedade de terras
no contexto da formação da democracia ocidental. A autora, através de um
profundo resgate histórico apresenta-nos a ruptura que separa o
capitalismo moderno da democracia ateniense.
Segundo Wood (2003) a democracia ateniense
e a Pólis eram caracterizadas pela distinção entre as classes
apropriadoras (aquelas que possuíam a propriedade da terra) e a classe
de produtores (os que haviam de produzir na terra alheia), compondo
desta forma um “trabalhador livre”, o camponês. Entretanto, é importante
ressaltar que este trabalhador encontrava-se subjugado à várias formas
de coação direta dos donos da terra ou dos Estados. Havia de fato uma
cidade estratificada.
Esta foi a mola mestra da constituição da
democracia grega, que elevava o trabalho, mesmo sob condições de
exploração, a um status político e cultural que delineou a figura do
cidadão trabalhador. A participação democrática e a cidadania em Atenas
perpassavam sem dúvida a questão da propriedade fundiária e a inserção
do trabalhador na esfera produtiva da Pólis.
A autora explica que apesar de não ser
caracterizada como uma sociedade escravagista de fato, grande parte da
produção grega foi realizada por escravos e que a divisão entre as
classes apropriadas e produtoras correspondia de forma mais ou menos
transparente à divisão entre uma comunidade juridicamente definida entre
homens livres, especialmente os cidadãos, e uma classe trabalhadora de
escravos submissos (Wood, 2003:158). As nuances de uma sociedade
escravagista emergiam.
O campesinato, em função do seu status
político e jurídico conseguiu impor restrições aos meios de apropriação
pelos proprietários, o que em parte contribuiu para o incremento à
escravidão.
A essência da democracia na Grécia
encontrava-se no fato de seus cidadãos trabalharem para viver, mesmo os
escravos. Ainda que se incentivasse o crescimento da escravidão, a
democracia inibia ao mesmo tempo a concentração da propriedade,
limitando assim as formas em que se podia utilizar a escravidão,
especialmente na agricultura.
Embora diversas formas de trabalho livre
tenham sido uma característica comum em muitos lugares na maioria dos
tempos, a condição desfrutada pelo trabalho livre na democracia de
Atenas não teve precedentes e, sob muitos aspectos, permaneceu
inigualável desde então. O cidadão camponês da antiguidade clássica – em
graus variáveis, uma característica da sociedade grega assim como da
romana, mas do que nunca se igualou à que havia na democracia ateniense
– representa uma forma social única.” (Wood, 2003:160).
Sob estas características, a cidade na
antiguidade grega, ou nas palavras de Wood (2003), a Pólis como forma de
organização do Estado, consubstanciava-se através da articulação entre
trabalho e cidadania. Assim, compunha-se a cidade-Estado da Grécia e, em
termos amplos, dos romanos, bem como dos fenícios e dos estrucos – ou
seja, o pequeno Estado autônomo formado pela cidade e campo que a
contorna. (Wood, 2003: P.162)
O sentido da democracia na Grécia antiga
guardava um limite de participação dos cidadãos, onde as decisões
políticas da cidade não eram facultadas às mulheres, aos estrangeiros,
aos escravos.
A importância deste sistema democrático
talvez resida no fato de que o status jurídico ou político não eram
submetidos aos imperativos econômicos, tal qual acontece na democracia
moderna e, principalmente, no fato de a identidade cívica ser dissociada
do status socioeconômico.
Ao que nos interessa neste percurso, o
papel da cidade, é muito bem delimitado enquanto espaço capaz de
garantir o exercício da democracia, a figuração da posse da terra e da
formação da classe dos apropriados, denuncia a existência de uma
democracia que se vinculava ao acúmulo de bens, neste caso, o acúmulo de
bens imóveis, a propriedade da terra. Mesmo que esparsa e polarizada,
onde se pretendia evitar a formação da concentração de terras, mesmo não
sendo o sentido balizador da economia e da produção na antiguidade, ao
que tudo indica, o pertencimento à cidade e, principalmente, da
propriedade da terra por parte dos cidadãos, garantia um sentido próprio
à constituição da democracia ateniense.
Lefebvre (2001) afirma que a constituição
das cidades arcaicas (grega ou romana) resultam de um sinecismo, reunião
de várias aldeias ou tribos estabelecidas num território, que permitiram
o desenvolvimento da divisão do trabalho e da propriedade mobiliária
(dinheiro) sem, todavia destruir a propriedade coletiva ou antes
“comunitária” do solo.
Assim, se constitui uma comunidade no ceio
da qual uma minoria de livres cidadãos detém o poder sobre os outros
membros da cidade: mulheres, crianças, escravos, estrangeiros. A cidade
liga seus elementos associados à forma de propriedade comunal
(“comunidade privada comum” ou “apropriação primitiva”) dos cidadãos
ativos, os quais se opõem aos escravos. Essa forma de associação
constitui uma democracia, mas os elementos dessa democracia são
estreitamente hierarquizados e submetidos às exigências da unidade
própria da cidade. É a democracia da não-liberdade. (Lefebvre, 2001:36)
Há ainda na cidade arcaica a separação
entre campo e cidade, apresentando desta maneira, a divisão social do
trabalho, correspondendo à separação entre o trabalho material e o
trabalho intelectual. É na cidade que se desenvolve o trabalho
intelectual, como as funções de organização, atividades políticas,
elaboração de conhecimento teórico (filosofia e ciências).
Verifica-se então que a há um
fortalecimento da propriedade privada, configurada pela possa de bens
como o solo, o dinheiro, os escravos; que ainda sim se concentra sem
abolir os direitos da cidade sobre o território. A polis grega, neste
contexto, formalizava uma cidade essencialmente política.
Como nos foi apresentado, a cidade
pré-existe à industrialização e as formas democráticas e de cidadania,
foram nas cidades arcaicas, pensadas sob uma condição social própria, a
partir de um processo produtivo que incluía em seu sistema,
trabalhadores livres, trabalhadores que trabalhavam para viver.
A cidade predomina e, no entanto, não é
mais como na Antiguidade, a Cidade-Estado. Na contemporaneidade, três
termos se distinguem: a sociedade, o Estado, e a Cidade. Nesse sistema
urbano, cada cidade tende a se constituir em um sistema fechado,
acabado. (Lefebvre, 2001: 13)
Segundo Wood (2003), na democracia
capitalista moderna, a desigualdade e a exploração socioeconômicas
coexistem com a liberdade e a igualdade cívica, e a cidade neste
processo significa em última instância (não menos importante), o lugar
onde se verifica essas modificações.
A cidade capitalista engendra uma forma
democrática própria ao seu tempo que difere da construção democrática
concebida na cidade arcaica. O capitalismo proporcionou uma redefinição
da democracia tal qual foi desenvolvida ao longo da história,
reduzindo-a ao liberalismo, passando a existir na concepção democrática
a distinção entre a esfera política e a esfera econômica, onde esta
última sobrepôs-se a primeira.
A democracia capitalista é marcada pela
condição real do alcance restrito da responsabilidade democrática, que
segundo Wood (2003), deixa intocada toda a nova esfera de dominação e
coação criada pelo capitalismo, sua transferência de poderes
substanciais do Estado para a sociedade civil, para a propriedade
privada e as pressões do mercado. (Wood, 2003: 201)
A cidade contemporânea pode ser pensada no
âmbito deste cenário à medida que as relações que a constituem e por ela
se reconstituem manifestam-se na e da realidade material impostas pelo
capitalismo no atual estágio de desenvolvimento. As perspectivas
democráticas e a cidadania possíveis neste espaço estão circunscritas à
uma formação urbana típica da contemporaneidade.
Neste aspecto a cidade contemporânea tem
sido relegada ao não alcance da democracia à medida que esta é conduzida
pelas forças do mercado e pelos interesses produtivos, pelos imperativos
da maximização da rentabilidade do capital e efetivação do lucro.
Contudo, seria pouco provável que
pudéssemos buscar uma leitura acerca da constituição da democracia na
atualidade e do papel da cidade neste processo, sem examinarmos o
fenômeno urbano que nela se deflagra. Portanto, propusemos discorrer
brevemente acerca desta questão.
A cidade capitalista – o peso da
questão urbana
Lefebvre (2001) em sua obra O Direito à
Cidade caracteriza o urbano como o espaço que compreende um duplo
papel: o lugar do consumo e o consumo do lugar. A assertiva deste
importante sociólogo francês põe em evidência a tônica da sobrevivência
do espaço urbano e da sua vinculação direta à formação social, política
e econômica engendrada nas cidades a partir do modo de produção
capitalista.
A caracterização do fenômeno urbano,
tarefa complexa, já foi tratada teoricamente por diversos autores, que
viam na cidade e no espaço urbano um palco das transformações sociais
oriundas do modo de vida da população contemporânea.
Entretanto, para além deste sentido de “o
lugar do espetáculo” a cidade, e o fenômeno urbano que nela se
materializa, constitui-se enquanto um espaço material e físico para a
reprodução capitalista, pois, tal qual como a fábrica, permite a
concentração dos meios de produção e de capitais.
A cidade capitalista, com o
desenvolvimento das forças produtivas, expressa a necessidade que o
capital tem de aglomerar os recursos necessários à produção, ou seja, os
produtores, a proximidade de matérias primas e meios de comunicação e
circulação de mercadorias. Ao mesmo tempo a cidade passa a ser um espaço
de luta entre as classes sociais que fazem parte deste modo de produção,
classes estas que se reproduzem juntamente com o capitalismo.
Neste sentido, as relações sociais
capitalistas ultrapassam as fronteiras das fábricas, do local da
produção, passando os locais de moradia e convívio social a se
constituírem em espaço de luta de classes. Isso expressa a idéia de que
a cidade não é apenas um espaço físico ou um simples ambiente de
circulação de pessoas e coisas, mas um espaço de reprodução das relações
sociais.
O fenômeno urbano atravessa desde o
período industrial uma grande parte dos territórios, sendo quase que
impossível na atualidade, distinguir o espaço rural do espaço urbano,
visto que, o espraiamento do tecido urbano
não traz consigo somente o seu aspecto morfológico (rede de bancos,
comércio, indústrias, habitação, locais de lazer), mas suporta um modo
de vida intenso e degradante, compondo o que Lefebvre (2001) chama de
sociedade urbana.
A sociedade tipicamente urbana encontra-se
envolta por fenômenos de ordem social e cultural, comportam sistemas de
valores específicos, costumes, modos de vida, e, sobretudo, questões
inerentes à racionalidade da vida nas cidades, tais como a segurança e a
perspectiva de futuro.
Alguns teóricos buscaram ao seu tempo
definir o que seria o fenômeno urbano. Para Castells (1983), o urbano é
percebido como uma forma espacial de ocupação do espaço por uma
população, sendo o aglomerado resultante de uma forte concentração e de
uma densidade relativamente alta, implicando uma diferenciação funcional
e social maior. Lojikne (1997), ao contrário de Castells (1983),
acredita que o urbano vai além de um lugar de reprodução da força de
trabalho e afirma que é um dos lugares decisivos da luta de classes.
Encontramos consensos nas definições
apresentadas, ambas delimitam o urbano em função do desenvolvimento do
capitalismo, naquele momento, muito vinculado a industrialização em
ascensão.
Decerto, o capitalismo metamorfoseia o
fenômeno urbano, na medida em que os meios de consumo coletivo se
aglomeram cada vez mais e vão criando, no âmbito da cidade, novos
estilos de vida e, consequentemente, novas necessidades sociais. O
espaço urbano passa a apropriar o relacionamento de diversos elementos
da cidade, através da aglomeração, e a urbanização e o processo de
trabalho estão estritamente relacionados entre si neste contexto.
O direito à cidade, pensado como condição
própria à reprodução social da classe trabalhadora, está em jogo, visto
que o processo de expansão capitalista em torno do mundo da mercadoria
transformou a cidade na própria mercadoria. As condições de existência
no plano da cidade são então marcadas pela inacessibilidade da população
à habitação, ao sistema de transporte, ao habitat saudável, dentre
outras esferas que compõe a vida material do homem. Ao ser estabelecida
enquanto espaço-mercadoria, a cidade se torna valor de troca.
Deste modo, a concepção do fenômeno urbano
na contemporaneidade está diretamente vinculada às evidências impostas
pelo crescimento desigual do capitalismo, que incute contradições
extravagantes no ceio da cidade, especialmente, como reflexos deste
processo, pode-se destacar os altos índices de violência urbana, a
agudização da questão social, o aumento da situação de miserabilidade e
desemprego da população.
Nas últimas décadas do século XX
assistimos a mundialização e internacionalização do capital, alastrado
em âmbito planetário sob o discurso ideológico da globalização. Um
processo, como nos mostra Chesnais (2006) em que a consolidação da
mundialização como um regime institucional internacional do capital
concentrado, conduziu a um novo salto na polarização da riqueza.
A mundialização do capital acentuou a
evolução dos sistemas políticos rumo à dominação das oligarquias
obcecadas pelo enriquecimento e voltadas completamente para a reprodução
de sua dominação. São interesses que ditam as decisões para a reprodução
da sua dominação. São seus interesses que ditam as decisões que aceleram
a crise ecológica planetária. Estas ameaçam diretamente a reprodução da
vida das populações e das camadas sociais mais desprovidas e
vulneráveis. (Chesnais, 2005:22)
Este fenômeno também produz uma nova
conformação das cidades, o que pode ser observado nas cidades globais ou
mundiais, focadas no setor de serviços e marcadas pela desconcentração
geográfica das atividades econômicas, pela polarização econômica e pela
fragmentação social. Embora as cidades permaneçam distantes do ponto de
vista geográfico, podem estar profundamente articuladas, sobretudo do
ponto de vista econômico, através dos avanços proporcionados pelas novas
tecnologias de comunicação e informação, que ao mesmo tempo em que
promovem a inclusão, também geram exclusão.
A mundialização financeira e a
informacionalização, aspectos que definem uma nova forma urbana, são
constitutivos da modernização capitalista em curso, que se desenvolve
afetando praticamente todas as cidades do mundo. As dinâmicas urbanas
que se processam no âmbito das cidades, as necessidades de reprodução
continuada do capital, redefinem os usos e as funções da cidade como
estratégia para o desenvolvimento da economia neoliberal.
A realização do capital financeiro também
acontece através do setor imobiliário, enquanto extensão do capitalismo
reproduz continuamente, o espaço enquanto valor de troca e, neste
movimento, realiza a propriedade privada do solo urbano. O capital
financeiro entra no circuito imobiliário através da compra e venda do
espaço que aparece enquanto investimento no momento em que o capital
industrial parece perder a sua hegemonia.
Há ainda, um investimento maciço na
integração dos cidadãos ao mercado imobiliário, através da compra da
casa própria ou pela legalização de terrenos (moradias, lotes) nas
periferias das cidades. O crédito fornece o subsidio para ampliar o
poder de compra da população e, também, para o endividamento “eterno”
destes cidadãos.
A cidade, engajada neste circuito,
articulada à rede mundial, redefini-se incutindo em sua morfologia uma
homogeneização que conduz à valorização deste espaço, a circulação
(informação, produtos, mercadorias) e ao incremento dos investimentos
internacionais, e pela ação combinada das agências de cooperação e
instituições multilaterais, tais como o Banco Interamericano de
Desenvolvimento – BID, Agência Habitar das Nações Unidas, PNUD e outros.
Esta homogeneização, além de configurar um
choque entre os aspectos históricos presentes na arquitetura da cidade e
aqueles que são concebidos como a característica de integrar a cidade
por meio de um nova identidade visual, arquitetônica, revela mais uma
vez, a extensão da cidade enquanto mercadoria, do espaço enquanto valor
de troca. Investe-se em marketing urbano feroz.
A cidade moderna é aquela que possui uma
arquitetura aos moldes do EUA e da Europa, a modernidade configura-se
apenas no sentido da melhoria das condições de venda do produto cidade,
no incremento à valorização do capital imobiliário e na “globalização”
de necessidades, costumes e funcionalidades da cidade, que não dizem
respeito, em muitos casos, às características da população e do local
onde se instaura. De fato, a cidade moderna não é aquela que possui uma
rede de hospitais bem equipados, escolas com infra-estruturas adequadas,
equipamentos públicos (de lazer, de esporte) conservados. A cidade
moderna é aquela que atende às exigências do capital, sem se preocupar
com o atendimento às necessidades materiais de reprodução da classe
trabalhadora.
Assim, revela-se sobremaneira a
necessidade de instauração de políticas de valorização na
constituição/reprodução de espaços produtivos, que entram em confronto
com os lugares que não incorporam o uso improdutivo da cidade, ou seja,
os locais onde se realiza a vida cotidiana dos cidadãos.
Deste processo, resulta um novo projeto de
cidade, que de acordo com Carlos Vainer (2000), é fundamentado em três
principais analogias: a cidade é uma mercadoria e como tal está a venda
em um mercado em que outras cidades igualmente são vendidas; a cidade é
uma empresa, e como tal resume-se a uma unidade de gestão de negócios; a
cidade enfim é uma pátria, uma marca com a qual devem se identificar
seus usuários, cuja fidelidade do produto, é vendida como civismo.
(Arantes, 2000:8)
O que temos é a “cidade dos negócios”, a
“cidade estratégica”, seja lá qual nome se queira dar ao novo consenso
originado como produto do capital financeiro, e consubstanciado pelas
metamorfoses da questão urbana, que na atualidade, liga-se diretamente
aos fatores de produtividade e competitividade.
Decerto, a cidade contemporânea está
circunscrita à realização do próprio capitalismo e aos conflitos sociais
dele decorrentes. Afirma-se ao longo da história a capacidade do
capitalismo de se recriar e estabelecer formas de controle, permanência
e desenvolvimento.
Pólis x City
As cidades arcaicas foram a base para a
conformação da cidade moderna. A democracia experimentada no ceio destas
cidades, mesmo com a limitação sob a qual se desenvolveu (não
participação de escravos, mulheres e imigrantes as decisões políticas
das cidades), em muito difere da atualidade democrática posta em prática
nas cidades modernas.
Conforme propôs Coutinho (2006),
reconhece-se hoje que uma significativa parcela da batalha das idéias
entre as diferentes forças sociais centra-se na tentativa de definir o
que é democracia. A democracia então é colocada como um conceito em
disputa. Generalizou-se que a democracia é uma virtude. (Coutinho,
2006:14)
Entretanto, esta disputa sobre definição
de uma proposta democrática não vem de hoje.
Losurdo (2006) apresenta esta busca
constante em evidenciar estratégias democráticas ao longo da história e
o viés político que perpassava em cada uma delas no âmbito da
constituição democrática na América. Assim, relembra a “democracia
helênica”, fundada sobre o trabalho para escravos não europeus; a
“democracia dos plantadores”, limitado aos camponeses do sul; e a
“democracia branca”; que excluíam da possibilidade democrática os negros
e os índios (peles vermelhas).
Estas categorias, de acordo com Losurdo
(2006), evidenciam a democracia que vale só para o “povo dos senhores”,
afirmando que a nítida desigualdade imposta aos excluídos é a outra face
da relação de paridade instaurada entre os que gozam do poder de excluir
os inferiores. (Losurdo, 2006, P. 120)
Como vimos, neste campo de “batalhas de
idéias” a democracia já ganhou diversas definições, ora otimistas, ora
ousadas, tal qual concebemos em a “democracia capitalista”. Assim logo
pensamos: é possível uma democracia capitalista? É possível uma
democracia urbana?
Lançamos mão então de uma indagação feita
por Lefebvre (2008) em meados da década de 1980, em que questiona as
possibilidades da democracia urbana. O próprio autor responde à
indagação dizendo que a democracia urbana implicaria a igualdade dos
lugares, a participação igual nas trocas globais.
Longe de pretender uma homogeneização do
espaço, o que Lefebvre (2008) aponta é a incapacidade de pensar uma
forma democrática, de fato, no escopo urbano presente na atualidade e,
desta maneira, no âmbito da cidade. Não pela forma urbana e citadina em
si, mas pela realidade dos ditames do capital que encontra meandros para
utilizar-se das crescentes desigualdades sociais geradas por uma
mundialização selvagem, e que tentam impor sua própria maneira de
conceber a urbanização e propor, eventualmente, soluções alternativas.
Considerações Finais
Esforçamo-nos para demonstrar neste
trabalho o sentido da democracia sob o sistema capitalista, bem como, o
papel da cidade neste processo enquanto lugar próprio da materialização
deste modo de produção e das conseqüentes digressões que dele fazem
parte.
Procuramos evidenciar que a cidade
contemporânea comporta um aparato físico e material necessários à
otimização do capital que incute no espaço cidade as demandas relativas
ao processo produtivo e à efetivação do lucro do sistema capitalista.
Esta condição, instaura no âmbito das cidades desde o período
industrial, metamorfoses significativas na configuração do espaço e nas
relações sociais que se produzem e se reproduzem sobre ele (e neste
caso, podemos considerar também que se reproduzem através dele).
Desta forma, a cidade expressa através do
seu desenvolvimento histórico as condições necessárias ao
desenvolvimento do modo de produção capitalista em sua fase
correspondente. A isto se denomina fenômeno urbano. Evidentemente, este
definição não suporta a complexidade deste fenômeno, conforme esboçamos
na retomada conceitual que diferentes autores fazem sobre esta questão,
entretanto, caracteriza o ponto fulcral da problemática que atravessa as
cidades contemporâneas. Diferentemente das diversas conformações
societárias em períodos pré-capitalistas, a cidade moderna realiza-se
enquanto o espaço que reúne os meios de produção e as condições
necessárias do desenvolvimento do capital.
O “peso da questão urbana” parece incutir
na cidade o peso da ordem capitalista e da enormidade da sua ação
desumanizadora e, porque não, antidemocrática que dela decorrem. Sem
querer anular as diversas questões que já permearam a realidade das
cidades em outros momentos históricos, como a escravidão, as lutas
societárias, a fome e as mazelas sociais, ao que tudo indica, nada se
compara à vultuosa forma de degradação da vida humana nas cidades
contemporâneas.
A ordem urbana contém e dissimula uma
desordem fundamental. A grande cidade não é apenas vícios, poluições,
doença (mental, moral, social). A alienação urbana envolve e perpetua
todas as alienações. Nela, por ela, a segregação generaliza-se: por
classe, bairro, profissão, idade, etnia, sexo. Multidão e solidão. Nela
o espaço torna-se raro: bem valioso, luxo e privilégio, mantidos e
conservados por uma prática (o “centro”) e estratégias. Decerto que a
cidade se enriquece. Atrai para si todas as riquezas, explode. Quanto
mais concentra os meios de vida, mais torna-se insuportável nela viver.
(Lefebvre, 2008: 87)
Sob os imperativos do neoliberalismo e da
mundialização da economia, a face moderna do capitalismo financeiro, a
cidade comporta um modo de vida própria das relações sociais que
engendra e que, sobretudo, cria uma realidade urbana que não pode ser
pensada sem entendermos “o peso” desta questão.
Diversos direitos políticos e sociais
foram negados, durante muito tempo, pelos regimes liberais, em nome da
liberdade de mercado. Coutinho (2006) é enfático nesta afirmação e
completa dizendo que a luta imposta pelos subalternos propiciou a
incorporação de alguns direitos antes inexistentes nos regimes liberais
– o sufrágio universal, a livre organização sindical e partidária. Foram
conquistas importantes.
Entretanto, de acordo com este autor, o
liberalismo se viu obrigado a pensar estratégias que fossem capazes de
controlar o avanço democrático e submetê-lo à lógica de reprodução do
capital. (Coutinho, 2006: 20)
A segregação espacial, a vulnerabilidade
social a qual está submetida a classe trabalhadora, a inacessibilidade
às condições mínimas de reprodução social na cidade capitalista, parecem
configurar algumas das estratégias sob a qual a democracia capitalista
se desenvolve. Assim, a democracia que vivenciamos é uma democracia
representativa excludente, marcada pela guetificação, pela exclusão
social, pelo clientelismo, pelo incremento á espoliação urbana e
superexploração dos trabalhadores.
Consideramos que a democracia poderá ser
efetivada no campo das lutas sociais, na esfera da batalha pelo
rompimento das formas de subjugação da classe trabalhadora, do
individualismo exarcebado, da supressão da propriedade privada, e das
formas de exploração e dominação. Esta não é uma utopia impossível, por
quanto, necessária. Da mesma forma que a cidade protagonizou a passagem
do feudalismo para o capitalismo, compreendemos que a emancipação humana
e perspectivas democráticas diferenciadas podem ser construídas neste
espaço e através dele.
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