O
PT NA HISTÓRIA DA ESQUERDA
–
Análise e Pequena Coletânea de Trechos de Entrevistas, Depoimentos
e Textos, sobre a História da Esquerda no Brasil.
William Jorge Gerab .
(agosto/2005) .
(1ª
Versão – Sujeita a correções e alterações)
O PT NA
HISTÓRIA DA ESQUERDA
– Análise
e Pequena Coletânea de Trechos de Entrevistas, Depoimentos e Textos,
sobre a História da Esquerda no Brasil.
William
Jorge Gerab
(agosto/2005)
(1ª Versão
– Sujeita a correções e alterações)
Índice
Apresentação: por que uma coletânea sobre a história da esquerda .... .
1- O que nos faz ser de
esquerda e pela transformação socialista .....
2- Os erros e acertos da
esquerda no Brasil.
De 1980 a 2005 .
A luta interna no PT .
3- Direção sem imposição:
influência recíproca, programa e...
4- Pensar uma estratégia
possível para a transformação socialista.
COLETÂNEA
-
Manifesto do Partido
Comunista – Karl Marx e Friedrich Engels.
-
Da Intenção ao gesto: um
olhar gramsciano .... – Reinaldo B. Cicone.
-
Por uma história da
esquerda brasileira – Maria P. N. Araújo.
Período anterior a 1920
Anos de 1920 a 1960
Anos de 1960 a 1980
-
Combate nas trevas –
resenha de Marco A. Garcia.
-
Guerreiro da grande
batalha: .... Mário Alves – Otto Filgueiras.
-
Otaviano Alves da Silva
– entrevista a Valter Pomar.
-
Paul Singer – entrevista a Paulo Vannuchi e Rose
Spina.
-
(Manuel Conceição e a
AP) – Manuel Conceição Santos.
-
Um perfil da luta armada
– Vasconcelos Quadros.
-
O caso do PRT – William
J. Gerab.
Anos de 1980 a 2005
-
A transição no Brasil –
Emir Sader.
-
Da intenção ao gesto: um
olhar gramsciano .... – Reinaldo B. Cicone.
-
O sonho de um resgate –
Plínio A. Sampaio à revista Caros Amigos.
-
PT abandou suas
propostas .... – Chico de Oliveira a Jordão Arruda.
-
Questão para os
militantes socialistas da DS – João Machado.
-
Réquiem ao PT – Plínio
de A. Sampaio Junior.
-
É possível uma
refundação comunista no Brasil? – Marcos Del Roio.
-
Produzir e organizar
esperança – Luis Bassegio.
-
Carta de Goiana -
Consulta Popular: história e objetivos.
-
Programa do Partido
Socialismo e Liberdade – Psol.
-
Núcleos de Reflexão e
Ação Socialistas – P.A. Sampaio Jr. e outros.
Relação de
partidos e agrupamentos de esquerda no Brasil
–
Antes de
iniciarmos a leitura da coletânea propriamente dita, vale a pena
discutir algumas questões, buscando melhor aproveitá-la.
Apresentação: por que uma coletânea sobre a história da esquerda no
Brasil?
O presente
trabalho é uma contribuição a uma das quatro tarefas, que, no entender
do autor, devem ser tidas como centrais nesse período inicial dos
Núcleos de Reflexão e Ação Socialistas:
1ª)
entender a história da esquerda no Brasil, o PT nesse contexto, visando
identificar os erros, os acertos e as mudanças, frente aos objetivos
definidos em cada período, buscando como resultado desse balanço as
experiências acumuladas e as perspectivas abertas;
2ª) buscar
a definição de uma estratégia de transformação socialista da sociedade
brasileira, à luz da história dessa sociedade, percebendo na análise e
incluindo nas propostas componentes, que influenciam todos os demais
temas, como as questões ambiental, racial, de gênero e das demandas
democráticas dos setores sociais minoritários, sem prejuízo dos
destaques para as especificidades dessas questões;
3ª)
iniciar a elaboração do programa para a transformação socialista da
sociedade brasileira, o qual deve indicar as políticas e os
procedimentos necessários à execução da estratégia, partindo das
demandas de libertação do atual jugo aos grandes capitais
internacionais, que, na atual fase de “globalização”, tem a hegemonia do
capital financeiro; e
4ª)
discussão da diversidade de propostas para a organização política dos
socialistas e dos métodos adequados para a construção dessa(s)
organização(ões).
Os
primeiros dois textos da coletânea são devidos à preocupação de falar um
pouco da concepção classista sobre partido político; a terceira matéria
foi escolhida por abordar a questão metodológica da elaboração
histórica; e, daí em frente, estão reunidas matérias divididas em quatro
períodos: o de antes de 1920, o de 1920 a 1960, o de 1960 a 1980 e o de
1980 em diante. Os critérios para a seleção dos trechos de trabalhos
sobre os períodos foram: primeiro, serem representativos, carregarem as
principais características dos momentos históricos, a quer se referiam;
e, segundo, estarem falando de organizações políticas de esquerda.
A
utilização de uma coletânea de trechos de textos, entrevistas e
depoimentos, por um lado, evidencia a despretensão, quanto a se chegar a
um trabalho mais acabado sobre um aspecto da história. Por outro lado,
permite captar a evolução e um pouco das emoções dos momentos descritos.
Presta-se, assim, à avaliação crítica do processo, tanto para quem o
vivenciou, quanto para quem o está conhecendo agora. Como diz Maria
Paula Nascimento Araújo, em Por uma História da Esquerda
Brasileira”, um dos trabalhos da coletânea:
“...
Acostumados a trabalhar com os “mortos” e seus registros, os
historiadores passaram a poder trabalhar com os “vivos”. E a organizar,
para a posteridade, os registros destes personagens ainda vivos — na
forma de gravações de entrevistas e depoimentos. ...”
Ao se
passar uma idéia da evolução organizativa e ideológica da esquerda no
Brasil, mostra-se, também, o desdobramento das opções feitas em cada
situação. Pode-se perceber, então, que a atual crise política do governo
Lula e do PT é, somente, a realização de uma das diversas possibilidades
criadas historicamente. Aprofundando o exemplo, fica claro que história
da esquerda no Brasil não começa e nem termina com o PT.
A derrota
sofrida por toda a esquerda, com a referida crise, traz a oportunidade
de um avanço importante na compreensão sobre quais relações, entre
direção política e movimento social, devem ser perseguidas, no atual
contexto. Isto é, o que fazer, por exemplo, para se conseguir o avanço
da participação democrática da maioria da população nas decisões
políticas ou, numa situação limite, como poder contar com a mobilização
social, quando as ações políticas da esquerda, levarem à agudização do
enfrentamento com as classes dominantes no capitalismo. Justamente por
isso, se elegeu a análise dessas relações, em cada período, como
principal referência para entender a história evolutiva da esquerda,
neste trabalho.
Ao
concluir esta apresentação, afirmamos que os adendos e sugestões serão
sempre bem vindos, mas não dispensam outras contribuições para o
entendimento e superação do quadro de dificuldades econômicas, sociais e
políticas vividas pelos trabalhadores e demais setores oprimidos da
sociedade nesse início do século XXI.
1- O que
nos Faz Ser de Esquerda e pela Transformação Socialista da Sociedade.
A
transformação socialista da sociedade é um processo histórico, no qual
se operam mudanças estruturais, visando a construção de uma sociedade
sem classes sociais, sem opressores e sem oprimidos. Nesse sentido,
chega-se à proposta de “fim da propriedade privada dos bens de produção”
(máquinas e terras, que produzem mercadorias), à transferência do grande
capital, das mãos dos capitalistas ao controle social e/ou coletivo dos
trabalhadores. Os pequenos proprietários desses bens, e os assalariados,
que não possuem e nem trabalham neles, no campo ou nas cidades, são
potenciais aliados dos trabalhadores nesse processo de mudanças, já que
o capitalismo os leva, também, à crescente pobreza.
Assim, a
luta da esquerda pela transformação socialista da sociedade é a própria
luta pela sobrevivência humana. Mais do que mera sobrevivência,
“sobrevivência humana” pressupõe vida digna para todos, de acordo com os
padrões de cada época. Isso tem como pressuposto, que todos devem
garantir essa dignidade, sendo responsáveis pelas escolhas definidoras
dos próprios destinos e participantes, em condições de igualdade, de um
sujeito coletivo, capaz de definir seus caminhos na história.
Dizer-se
de esquerda e socialista implica em assumir as posturas mais
desprendidas e generosas, das quais a história pode nos trazer notícias.
Significa, justamente, opor-se à acumulação individual de grandes
fortunas, desmascarando o individualismo, o consumismo e o produtivismo,
como formas de afastar a humanidade da realização da sua felicidade, que
precisa ser coletiva para alcançar a cada indivíduo. Por isso, é lutar
pela distribuição das riquezas socialmente produzidas, pela socialização
do conhecimento, em geral, e do conhecimento técnico, em particular,
para que todos e todas, cada um e cada uma, em todos os momentos, possam
dar o melhor de si para a coletividade e ter atendidas as suas
necessidades, físicas e intelectuais.
Mas, esta
escolha tem suas conseqüências, as quais não se pode desconhecer.
Posicionar-se, na luta de classes, do lado da maioria da população,
composta por trabalhadores, pobres e oprimidos (que, genericamente,
chamamos de classe trabalhadora ou proletariado), é estar contra as
elites econômicas, formadas pelos que oprimem e acumulam riquezas, as
quais não produzem (que, também genericamente, chamamos classe
capitalista, burguesia ou patronato).
Estar em
oposição à estrutura e funcionamento da sociedade capitalista é como
“nadar contra a correnteza”, tendo que se defrontar com os interessados
em conservar a estrutura de classes dessa sociedade. Os que têm
interesse em ser conservadores, não por coincidência, identificam-se,
influenciam ou são os próprios donos das várias formas de poder no
capitalismo. Os socialistas sabem que as elites econômicas desprezam,
não só o fato dos seus oprimidos viverem em péssimas condições, mas a
própria vida dos que tentarem impedi-las, não só de conservar, mas de
fazerem crescer os seus privilégios ilegítimos.
A opção
político-ideológica pelo socialismo não se confunde com ao idealismo
superficial ou com busca da purificação espiritual dos ascetas, que para
isso isolam-se e abdicam das coisas materiais, sequer garantindo a
própria subsistência. Ao contrário, significa entender que a
subjetividade e as condições materiais de existência humanas são coisas,
que se complementam e que os antagonismos sociais são reflexos da
disputa entre os que almejam a mesma justiça para todos e os querem
preservar os privilégios das elites econômicas capitalistas.
Não são
poucos e, diante das dificuldades, multiplicam-se os que afirmam existir
inúmeras soluções intermediárias, entre a manutenção da atual sociedade
de classes, capitalista, e a sua transformação radical numa sociedade
sem classes, socialista. Numa postura de quem já teria atingido a
“maturidade política”, justificam-se com a frase “no meio está a
virtude”, como se fosse possível apaziguar, harmonizar e desfazer o
antagonismo entre as classes polarizadoras no sistema capitalista. Entre
estes estão, também, os que dizem que a luta de classes já não
desempenham um papel tão primordial na história e que, finda a
“guerra-fria”,
a solidariedade pode sobrepujá-la no planejamento para um futuro melhor
para a humanidade.
Mas, além
de todos os exemplos de conservadorismo a que leva essa visão, dentre os
quais podemos citar os dos governos social-democratas, espalhados pelo
mundo, há um problema lógico e prático, que, com toda a sua
simplicidade, desmascara os defensores desse “caminho do meio” ou
“terceira via”, tornando visível a sua real proposta. Na verdade, para
que se “harmonize as relações entre as classes”, para que a
solidariedade permeie os antagonismos de classes, é necessário que as
classes subsistam. Fica claro, então que esta visão pretende manter as
classes sociais, com isso a classe dominante mantém a exploração, a
opressão e as injustiças sociais. Portanto, esse caminho não serve aos
oprimidos.
A produção
capitalista não faz parte de um planejamento econômico para toda a
sociedade, nem se preocupa com a minimização do desperdício de matérias
primas e muito menos com a poluição do meio ambiente. Os capitalistas
apropriam-se da maior parte do que é socialmente produzido, com o
objetivo último de obter o maior lucro. Esta é a razão para se produzir
aquilo que for necessário para, com os menores custos, atingir o maior
número de consumidores, os quais possam pagar o maior preço. Este é
parâmetro do quanto, do como e da qualidade do que deve ser produzido.
Não importa se, atingido tal objetivo, ainda restarem pessoas, que
necessitem dos bens produzidos.
A
libertação das forças produtivas (homens e mulheres, recursos naturais e
tecnologia) do jugo dos interesses capitalistas é passagem obrigatória
para que se possa planejar a economia, de forma a aproximar a quantidade
e a qualidade do que for produzido à necessidade de consumo das pessoas,
tanto individualmente, quanto coletivamente. Assim, se estará
viabilizando a superação da chamada “pobreza absoluta” (existência de
pessoas que não têm garantido sequer o acesso à comida) e, também, da
pobreza relativa (quando o acesso aos bens e serviços, não acompanha o
crescimento do acúmulo geral de riquezas e de conhecimento da sociedade
como um todo).
Em outras
palavras, com a libertação das forças produtivas, o que for socialmente
produzido, finalmente, estará à disposição da sociedade para que as
pessoas tenham acesso ao que precisarem física e intelectualmente. Com
isso, possibilita-se, também, a superação do individualismo (egoísmo) e
do consumismo, a que são empurradas as pessoas no capitalismo.
Viabiliza-se a superação da escassez, determinada pela necessidade de
formação do melhor preço no mercado capitalista, assim como da
necessidade da acumulação individual de riquezas – como fuga da escassez
e uma das fontes e de motivação para o poder. Assim, a realização dos
objetivos sociais é, também, a criação das condições necessárias para a
realização dos objetivos individuais. Os interesses da coletividade não
mais se opõem aos diversos interesses das individualidades.
“No lugar
da antiga sociedade burguesa com suas classes e oposições de classes
surge uma associação em que o livre desenvolvimento de cada um é a
condição para o livre desenvolvimento de todos.”
1-a-
Socialismo: direitos de todos os oprimidos, internacionalismo e
ecossocialismo.
Se
socialismo é o fim de todos os tipos de opressão de parcelas dos seres
humanos sobre outras parcelas de seres humanos, é preciso mencionar a
luta dos setores oprimidos. A humanidade não poderia ser considerada
como tal, se fosse composta apenas por homens brancos, com a formação
corporal predominante, heterossexuais e em idade produtiva. A
diversidade humana, com todas as suas características de origem
geográfica, de etnias e raças, culturas, códigos éticos e morais e os
correspondentes costumes, compõem um ecossistema humano. As formas de
desenvolvimento desse ecossistema não podem destruir ou descaracterizar
sua diversidade, pois isso seria o próprio fim da humanidade, enquanto
tal.
É próprio
da luta pelo socialismo a garantia da subsistência da espécie humana,
enquanto tal, e nisso têm papel essencial as lutas pela liberação da
mulher, contra os racismos, pela liberdade de opções de sexualidade,
contra a discriminação e pelos direitos dos portadores de deficiência
física ou mental e as lutas pelos direitos dos idosos. Faz parte dessas
lutas e da busca de um desenvolvimento sustentável para a humanidade, o
questionamento das culturas, que abrigam algum tipo de opressão a esses
setores sociais, como: o apedrejamento de mulheres por questões
comportamentais, em países africanos; os fatores socioeconômicos e
culturais, que provocam o assassinato de filhas mulheres ou esposas, em
países asiáticos.
Temos,
agora, que tirar uma outra conclusão do que se está falando. Ao lutar
por uma saída da espécie humana para as dificuldades estruturais,
trazidas pelo capitalismo, não se pode conter esta luta no interior de
qualquer fronteira ou limite geográfico. A condição para superarmos a
exploração do homem pelo homem, construindo o socialismo, é o fim do
capitalismo em todo o planeta. Não precisamos ser grandes estudiosos de
economia para saber que as relações de exploração existentes entre
patrões e empregados, acontecem, também, no plano internacional.
As classes
sociais e a luta entre elas são internacionais. Através das empresas
multinacionais, que exploram diretamente os trabalhadores de outros
países, dos juros extorsivos do capital financeiro ou das ações dos
governos dos chamados países desenvolvidos, de protecionismo ao mercado
interno ou belicosas com países militarmente mais fracos, o capitalismo
torna a sua exploração e opressão internacionais. Uma das formas, com as
quais espoliam os países menos desenvolvidos, é a de lhes pagar preços
inferiores pelos seus produtos exportados, dificultando-lhes o
crescimento econômico e impedindo-os de competir em igualdades de
condições. Assim, a luta pela independência, tanto política, quanto
econômica, dos países menos desenvolvidos é, também, passagem
obrigatória da luta pelo socialismo.
Mas, é
urgente, ainda, identificar mais uma barreira para que a perene procura
da felicidade humana possa prosseguir. O imediatismo e a busca cega pelo
lucro do capitalismo, fizeram com que a sua história fosse, também, a
história da degradação do planeta pelo único agente vivo, capaz de fazer
isso, conscientemente, em grande escala. Com o advento da chamada
sociedade industrial, que hoje tomou as feições do “produtivismo” e à
qual sucumbiram, também, diversas experiências de construção do
socialismo, essa degradação ganhou um ritmo acelerado, que coloca em
cheque a própria subsistência do Planeta Terra.
Para
identificar melhor do que se está falando, podemos citar o processo de
destruição da camada de Ozone da atmosfera terrestre e o efeito estufa;
a destruição de ecossistemas, provocando o desaparecimento de espécies
vivas e da cadeia alimentar, no topo da qual está o ser humano; a
destruição de florestas e matas ciliares, com o comprometimento dos
afloramentos e dos corpos d’água em geral; a poluição, cotidiana e por
grandes acidentes, do ar e do solo.
Está
colocada, então, para o projeto socialista a seguinte questão: na luta
para salvar a humanidade da barbárie, a que conduz o capitalismo, é
preciso abarcar, também, a salvação do planeta. A humanidade não
sobreviverá sem o uso racional dos recursos naturais (matérias-primas),
sem preservação dos bens indispensáveis à sobrevivência da humanidade
(as outras espécies animais, a vegetação, o ar, a água, o solo –
minerais em geral), sem transformar as ações humanas, que, em todo o
mundo, provocam grandes catástrofes planetárias (efeito estufa,
destruição de ecos-sistemas, soluções industriais e de produção
energética poluidora etc.). Por isso o socialismo atual precisa ser,
além de internacionalista, ecossocialista.
Não
existirá um Brasil Socialista, enquanto estiver sitiado pelas chantagens
dos paises de maior acumulação capitalista, com os seus monopólios
tecnológicos e especulações financeiras. Assim como, não existirá um
Brasil Socialista, com a sua economia dominada pelos banqueiros, pelos
devastadores agronegócios, pelas indústrias de tecnologias poluidoras,
com cidades degradadas, sem os corpos d’água, sem pantanais e mangues,
sem sertões e caatingas, sem cerrados, sem Mata Atlântica e sem Floresta
Amazônica.
2- Os
Erros e Acertos da Esquerda no Brasil.
Uma
primeira observação importante, para tratarmos desse assunto, é a das
semelhanças e diferenças entre as organizações de esquerda através do
tempo. Não é sem razão que, em várias oportunidades da coletânea, os
próprios autores dos textos escolhidos estabeleceram relação entre o que
ocorria em décadas anteriores e o PT:
1)
Na Resenha de Antonio Ozaí da Silva, sobre o período de
1920 a 1960 -
“Também aqui, é possível verificar semelhanças com o Partido dos
Trabalhadores, em especial na fase da sua formação e nos primeiros anos.
Em ambos confluíram várias vertentes do pensamento social. Também o PT
assumiu-se como alternativa ao marxismo oficial do PCB e ao trabalhismo
e, especialmente a partir do seu VI Encontro Nacional, no clima da queda
do muro de Berlim, assumiu a democracia como centro da sua política,
propugnando um resgate do socialismo democrático. Como o PSB do período
estudado na obra, o PT terminou por enfatizar a estratégia eleitoralista,
reservando para o socialismo o lugar das calendas.”
2)
Na resenha de Marco Aurélio Garcia do livro de Jacob Gorender, “Combate
nas Trevas”, na parte do período entre 1960 e 1980 - “Estas discussões
têm uma importância particular para o PT hoje. No interior do partido
militam milhares de companheiros vindos dessas organizações de esquerda.
Uma grande maioria não chegou a realizar um ajuste de contas com seu
passado. Coisa que o livro de Gorender em muito contribuirá para que
ocorra. Somente isto já aconselha sua leitura e, sobretudo, sua
discussão.”
3)
Na entrevista de Otaviano Alves da Silva ao Valter Pomar, também sobre
os anos de 1960 a 1980: “...Eu via no PT algo como sonhávamos na Polop.
...Comecei a trabalhar em função do PT e organizei um núcleo lá em casa.
...
“Eunápolis. Fundei o PT em Eunápolis, Cabrália e Porto Seguro. Procurei
dar uma certa assistência ao partido, mas eu acho muita coisa errada,
apesar de o PT ser a melhor coisa que se construiu até hoje. O projeto
geral do partido é sempre sacrificado em função de uma cadeira atrás de
uma mesa, do aspecto burocrático. O pessoal briga. No 4º Concut você viu
o que aconteceu.”
Para avaliarmos os erros
da “esquerda”, é útil conhecermos a origem dessa denominação. Com isso,
já nos será possível identificar a principal finalidade desse
posicionamento político, o objetivo de defender os interesses, imediatos
e históricos, dos(as) explorados(as) e oprimidos(as), que compõem a
maioria, nas sociedades de classes:
“... As
discussões se voltam para as formas de uma monarquia constitucional
inspirada no modelo inglês: um governo real que aja de acordo com uma
constituição e controlado por uma Assembléia Nacional. Trata-se de uma
nova distribuição do poder que responde às aspirações burguesas. O que
não deixa de provocar divisões e confrontos em torno de questões
essenciais. Por exemplo, sobre o direito de veto (poder concedido ao rei
de opor-se às decisões da Assembléia). Os que não aceitaram a Revolução
(os aristocratas, tais como Maury e Cazalès) e os que querem pará-la (os
“monarquianos”, tal como Mounier) são partidários do veto real. Os
democratas o rejeitam. Na sessão do dia 28 de agosto (1789), os
primeiros se instalaram à direita do presidente; os outros, à esquerda.
(É daí que se origina, na vida política francesa, a separação entre
esquerda e direita). ...”
Mesmo
antes da denominação de “esquerda”, os agentes políticos, que defendiam
os interesses das multidões de despossuídos, marginalizados e
injustiçados de toda a ordem, precisavam definir algum tipo de relação
com os seus defendidos. Aliás, dessas relações dependia a legitimidade
das propostas e posições que propugnavam. Mais ainda, da interação entre
o que era levado aos espaços de confronto político e a
receptividade/mobilização dessas multidões, dependia o êxito desejado.
Parece,
por isso tudo, ser um adequado referencial para avaliar os erros e
acertos da esquerda no Brasil, a averiguação das relações, que seus
diversos agrupamentos mantinham com as bases sociais, que pretendiam
representar e influenciar ou dirigir. Como se fossem a pedra-angular da
construção partidária, dessas relações derivam posturas nos âmbitos da
moral e da ética, na escolha das políticas e respectivos graus de
radicalidade, a serem adotados em cada momento e a própria definição da
estratégia de transformação social. Mas, essas definições são bastante
complexas, por envolver múltiplos fatores, sendo que nunca devem ser
confundidas com formulas, que levem a resultados precisos.
A leitura
da coletânea, que ora se oferece, pretende ser uma oportunidade para a
utilização desse referencial de análise. A própria técnica de
agrupamento dos textos em períodos de tempo, de certa forma, ajuda a
perceber a evolução das mencionadas relações, agentes políticos-bases
sociais. Mas, não podemos perder de vista tratar-se, apenas, de um
recurso didático, Na realidade, esses períodos fictícios, estariam
permeando-se, sobrepondo-se, mantendo características dos anteriores ou
assumindo aspectos dos futuros períodos. Se nas ciências exatas e nas
estatísticas, existem as “tolerâncias”, prevendo-se a possibilidade de
resultados inexatos, imagine-se a importância de relativizar as
conclusões nas ciências históricas.
Aliás, ao
pensar a História, não se pode falar em domínio absoluto de uma
característica, mas em predominância de uma ou mais dentre as diversas
características existentes. Identificar-se uma nova predominância é
fruto, não apenas de confrontos entre os programas políticos, as
metodologias de análise e as ações adotadas. É necessário juntar a isso
tudo o conjunto das condições oferecidas pelas circunstâncias vigentes.
Leve-se em conta que, mesmo com a escolha do método adequado para
analisar e caracterizar a realidade, nunca se pode ter um conhecimento
total dos seus dados, já que estão sempre se alterando. Portanto, as
resultantes políticas adotadas pelos agrupamentos políticos contêm,
constantemente, erros de diversos graus.
2-a- As
relações com os movimentos e as bases sociais.
É antigo o
debate sobre o papel a ser atribuído pelos movimentos e bases sociais
nos processos políticos, em particular nos processos de transição entre
estruturas sociais. Se a maioria oprimida da sociedade teria ou não
consciência desses processos, quando em ascenso de mobilização, se a
revolução só aconteceria quando houvesse interação entre mobilização
consciente e direção revolucionária (agrupamento/agrupamentos de
esquerda), se apenas seriam instrumentos alavancadores das
transformações, mas dependentes do papel dirigente de um ou mais
agrupamentos políticos, é tema discutido, há muito, pelos teóricos de
esquerda.
A evolução
nas relações entre os agrupamentos políticos e os movimentos e bases
sociais é, também, conseqüência dos acúmulos de experiência e de
conhecimento da realidade presente e das concepções e características da
formação de cada agrupamento. Dito isso, pode-se, então, passar-se a uma
das interpretações possíveis dessa evolução, através dos períodos
estipulados na coletânea.
Entre as
décadas de 1920 e 1960
Os anos
sessenta foram marcados pelo surgimento de propostas claramente
diferentes das predominantes até então, nas concepções de organização
partidária da esquerda, nas táticas e formas de luta pelo poder político
e na estratégia revolucionária. Até a instalação da ditadura militar em
1964, havia uma evidente predominância da pesada estrutura hierárquica e
burocrática dos partidos stalinistas, marcadamente do PCB, mas também do
PCdoB, seu racha de 1962. A visão determinista, dogmática e autoritária
conseguiu fixar sua cultura em quase toda uma geração de militantes de
esquerda. Essa cultura mostrará sua capacidade de permear outros
períodos de tempo e sua influência em agrupamentos de diversas origens.
Como visão
predominante, imprimia nos membros e órgãos desses agrupamentos
políticos uma certa postura de superioridade, frente aos movimentos e as
bases sociais, que deveriam influenciar ou, na expressão que utilizavam,
“dirigir”. Confundia-se a concepção de partido, como a organização mais
avançada de uma classe social, com uma “autoridade natural” sobre a
atividade política dos movimentos sociais e das mobilizações, que
houvessem.
Assim,
nesse período as relações predominantes poderiam ser definidas como
utilitaristas, pois não se buscava uma interação entre as ações dos
agrupamentos e as ações da população oprimida, que sequer deveriam ser
vistos como coisas estanques. Na prática, tratava-se uma tentativa, na
maioria das vezes frustrada, de usar, de manipular as “massas” por parte
do que seriam as suas ”direções políticas”.
Na resenha
de Antonio Ozaí da Silva, presente na coletânea, isso fica claro, mais
pelo papel atribuído aos demais agrupamentos do que ao atribuído às
organizações hegemônicas na esquerda da época. Vejamos:
“... Nesta
fase o PCB conquistou a legalidade, e perdeu-a, cassado no clima da
“guerra fria”; teve inflexões à esquerda e à direita, oscilando entre
uma política de colaboração e alianças de classes a uma retórica
esquerdista e revolucionária para, nos anos 50, com a Declaração de
Março, se definir pelo caminho pacífico da revolução brasileira.
Todo este percurso tortuoso é analisado por Daniel Aarão Reis Filho.
“... O
trotskismo contribuiu ainda para romper com o monolitismo do partido
único, dando um caráter pluralista à historia do movimento operário e
fornecendo chaves teóricas para a discussão dos impasses e derrotas dos
projetos da esquerda.
“Analisando o programa do PSB, sua prática política e sua trajetória, a
autora conclui que o mesmo se constituiu num “partido-semente”, agitador
de uma nova concepção política e cultural que deu base a um projeto de
cidadania coletiva que, ao contrário dos projetos dos liberais orgânicos
e mesmos dos comunistas, combinava as dimensões políticas e sociais da
democracia.” (capítulo 4, escrito por Margarida Luiza de Matos Vieira)
“... Com
efeito, a ORM-POLOP é a primeira organização marxista, depois dos
trotskistas, que apresenta uma análise da revolução brasileira
contestatória à concepção etapista hegemonizada pelo stalinismo e propõe
um Programa Socialista para o Brasil. ...” (por Marcelo Badaró Mattos
e Marcelo Ridenti)”
Da década de 60 à de 80
É
importante mencionarmos alguns dos fatos, uns de âmbito internacional e
outros do contexto nacional, que são precursores das novas
características, assumidas entre os anos 60 e 80 do século XX pelas
organizações de esquerda no Brasil:
• No XX
Congresso do Partido Comunista da URSS, o secretário geral desse
Partido, Nikita Kruchov, denuncia os crimes de Stalin. Tais crimes são
de amplo espectro, começando por corrupção e privilégios à burocracia
estatal, passando por manipulações autoritárias da estrutura partidária
e chegando a perseguições e assassinatos de opositores, inclusive os de
larga tradição no socialismo revolucionário. Essas denúncias geraram
forte reação no PCB, em 1956, como retrata o jornalista Otto Filgueiras
no seu artigo sobre a vida de Mário Alves – “...À revelia da direção, os
militantes jornalistas abriram discussão na “Imprensa popular” e na
“Classe Operária”. Alguns dirigentes, a exemplo de Diógenes Arruda, João
Amazonas e Maurício Grobois recusavam-se a fazer qualquer modificação na
linha política. Um outro grupo, de tendência nacionalista, e encabeçado
por Agildo Barata, pregava a dissolução do partido. Uma terceira
posição, onde se incluía Mário Alves, defendia mudanças na política
partidária. Em 1957, quando retornou ao país, Gorender encontrou o
debate definido. Agildo Barata saiu do partido e fundou um jornal.”
• Dois
processos revolucionários haviam chegado à tomada do poder pela
esquerda, através de meios diferentes dos utilizados na Revolução Russa
de 1917, que teve como principal base social a população oprimida
urbana. O da China, em 1949, tido como o de uma revolução, que veio do
campo para a cidade e o de Cuba, em 1959, tido como um processo, que
teve a hegemonia da guerrilha, que, em parte se organizou no exterior,
já na ilha agrupou-se na serra veio para as cidades, juntar-se a outros
agrupamentos e à parcela mobilizada da população.
• No
Brasil, haviam fracassado os apelos populistas de Getúlio Vargas, com o
seu suicídio em 1954 e de Jânio Quadros, com a sua renúncia em 1961.
Depois disso, esvaíra-se, também, o reformismo de Jango Goulart, com o
golpe militar de 1964. Houve importante ascenso dos movimentos sociais,
os estudantes em particular tiveram um papel de destaque, até 1968,
quando a ditadura recrudesceu utilizando o Ato Institucional número 5
(AI-5), que sufocou as ações abertas dos movimentos sociais
oposicionistas. Na citação de Marco Aurélio Garcia, resenhando o
trabalho de Jacob Gorender: “... O resultado deste último enfrentamento
é o fechamento de 13 de dezembro de 68 (o AI-5), quando o governo cria
as condições, entre outras coisas, para reprimir a esquerda com toda a
impunidade. Gorender mostra como se modificam as condições de luta. A
esquerda corta-se das massas, mas continua a apostar na iminência da
crise do capitalismo brasileiro, que criaria condições para a luta
revolucionária (tida como sinônimo de luta armada). O período que vai de
68/69 até 74 é o desmantelamento total da esquerda revolucionária, o que
o Estado consegue através de uma política de utilização sistemática da
tortura.”
Apesar da
importância das mobilizações nos momentos anteriores, colocando em
cheque os governos burgueses, inclusive a própria ditadura militar, a
mudança de comportamento dos agrupamentos emergentes não foram no
sentido de articular uma unidade mais forte, indissolúvel mesmo, dos
seus programas e ações políticas com a maioria oprimida da população.
Mesmo questionando a burocracia, o autoritarismo e o dogmatismo do
stalinismo,
as direções dessa esquerda inovadora carregaram esses erros de outra
forma e, até, agregaram novos, como o vanguardismo e o voluntarismo –
tendo como exemplos maiores disso “a teoria do exemplo” e o “foquismo”,
adotados por alguns desses agrupamentos.
Sentindo-se como setores avançados das lutas, aos quais os demais
setores sociais mobilizados teriam que seguir (vanguardismo), os
agrupamentos da esquerda armada acabavam agindo de acordo com os
próprios impulsos e vontades, não temendo despregar-se dos movimentos e
bases sociais, dos quais precisavam de todo tipo de apoio, e nem da
realidade objetiva - situação econômica e política do país, a correlação
de forças entre os que estavam em confronto (voluntarismo).
Esse
comportamento demonstra uma visão de participação política dos setores
populares oprimidos como o mero apêndice ou, no máximo, de um
coadjuvante, que só participa no final ou quando chamado. As
conseqüências desses desvios, além das próprias decisões equivocadas
pela luta armada, nas suas diversas concepções, foram o isolamento, o
desmantelamento organizativo, a prisão, a tortura e, muitas vezes, a
morte, envolvendo significativa parcela de uma geração de militantes de
esquerda. Esses fatos podem ser depreendidos no texto de Otto Filgueiras,
já citado:
“Não há
unidade suficiente entre os que saiam do PCB para um novo projeto
partidário. A Corrente Revolucionária faz uma reunião nacional em
outubro de 1967 e não comparecem militantes de São Paulo. Mário,
Gorender e Apolônio insistem na necessidade de um partido para dirigir a
revolução e sustentam que o combate contra a ditadura precisava estar
vinculado à luta dos operários, camponeses, estudantes e setores médios
da cidade. Enquanto isso, Carlos Marighella já estava em Cuba
articulando apoio para o seu plano de guerrilha urbana. No retorno ao
Brasil, em início de 1968, Marighella, impetuoso por natureza, prefere a
grande aventura da batalha e organiza, a partir do agrupamento de São
Paulo. A Ação Libertadora Nacional – ALN. Mário Alves e seus
companheiros não desistem e passam sete meses debatendo, escrevendo
teses e articulando militantes espalhados pelo Brasil.
“..........................................................
“O
congresso de fundação do novo partido aconteceu em abril de 1968, numa
casa na Serra da Mantiqueira, no Estado do Rio. Estavam presentes uns 25
representantes de vários estados, entre eles, Jacob Gorender, Mário
Alves, Apolônio de Carvalho, Bruno Maranhão, Miguel Batista dos Santos e
Jover Telles. O Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR)
nascia da esperança dos que ousavam desafiar o capitalismo e o regime
militar e que sonhavam também em revolucionar o comunismo. Os princípios
teóricos e as bases políticas foram estabelecidos num documento redigido
por Mário Alves. O texto defendia a construção de um partido
marxista-leninista, a necessidade da luta por um estado popular
revolucionário para construir o socialismo, considerava o Brasil
capitalista e dizia que o combate contra a ditadura era armado, mas
apoiado na luta de massas dos operários, camponeses, setores médios da
cidade e na pequena burguesia urbana e rural, forças sociais
interessadas em modificar a estrutura da sociedade brasileira. A
principal base da luta armada, o campo. ...
“..............................................
“Em São
Paulo, Mário Alves critica também as idéias foquistas que predominavam
entre a juventude dissidente do PCB e a maioria das organizações de
esquerda da época. Foi numa conversa organizada por Valdizar, com um
grupo de jornalistas para discutir o livro de Régis Debray e a teoria
foquista, que Sérgio Sister conheceu Carlos Ferreira em 1968. ...”
Mesmo os
agrupamentos contemporâneos, que não tinham origem stalinista e não viam
na luta armada o principal caminho para a transformação social, como a
Polop, acabavam afunilando-se à regra de ver o movimento e as bases
sociais como auxiliares nas suas estratégias políticas. É o que podemos
constatar, nessa segunda citação da entrevista de Otaviano Alves da
Silva, feita por Valter Pomar:
“Como era o trabalho
sindical das organizações clandestinas?
“Elas tinham uma base
sindical, mas muito limitada, parecida com a da Polop. Minha atividade
começou a ter uma conotação diferenciada, de organizar os trabalhadores,
apesar da repressão e da clandestinidade, valorizando o espaço sindical,
da fábrica. Já as organizações usavam esse espaço para cooptar para a
luta armada. Isso é uma diferença de fundo para ser discutida e
analisada no futuro.
...............................................................
“... Fui
profissionalizado para ganhar inserção nos movimentos de massa,
participava de todos os congressos do movimento sindical, mas como não
tínhamos uma política sindical discutida, participava mais como
observador. Em 63, a Polop apoiou a fundação do CGT (Centro Geral dos
Trabalhadores), só que defendíamos que o CGT não deveria se limitar
apenas aos comandos nacional e estaduais, queríamos que fosse organizado
nos municípios também. Para uma eventual resistência ao golpe, também
participávamos dos grupos dos 11 do Brizola. A história do movimento
sindical, daquele período, termina por aí. ...”
Na, também
já citada, resenha do sociólogo e professor Marco Aurélio Garcia do
texto Combate nas Trevas, de Jacob Gorender, os autores, tanto o do
texto, quanto o resenhado, corroboram a avaliação das estratégias, que
prevaleceram nas organizações de esquerda entre os anos de 1960 e 1980:
“Talvez
fosse importante que Gorender enfatizasse mais o fato de que a derrota
da esquerda - da nova e da velha - não se deve tanto à repressão, que
foi violenta, mas tem de ser creditada em muito aos próprios erros das
organizações. Ele tem presente este fato, e o afirma muitas vezes, mas
alguns aspectos ficam a nos exigir maior aprofundamento. Por exemplo, em
que medida o fracasso não se deve ao fato de que a ruptura da nova
esquerda com a velha foi mais aparente do que real, não só quanto à
caracterização de seu projeto de revolução, como por sua incapacidade de
repensar o problema do partido político, elitista e messiânico, e pela
ausência de uma reflexão mais de fundo sobre o problema da democracia.”
De 1980 a
2005
Em 1985,
um civil chega à Presidência da República, mas ainda pelo Colégio
Eleitoral, que foi a fórmula encontrada pelos militares para tentar a
legitimação dos sucessivos governos ditatoriais iniciados em 1964. O
primeiro presidente eleito pelo voto direto da população, após a
ditadura militar, assume em 1990, Fernando Collor de Mello. Mas para as
cúpulas militares, que controlaram o governo, até então, a transição já
havia começado em 1974, com a ascensão do General Ernesto Geisel à
Presidência. Pretendiam uma transição da ditadura para a democracia sob
o mesmo controle, onde definiriam quantos e quais partidos existiriam,
quem os dirigiria e quem teria direito de ser candidato por esses
partidos.
A
transição não saiu exatamente como queriam os militares, a primeira
Presidência civil foi exercida pelo vice José Sarney, devido à morte de
Tancredo Neves antes da posse. Já, Collor, mesmo eleito pelo voto
direto, exerceu por menos de dois anos, forçado à renúncia por
corrupção. Foi, também, o seu vice, Itamar Franco, quem assumiu para
completar o que restava dos quatro anos de mandato.
Porém,
paralelamente a este trôpego processo de transição dava-se um outro, o
processo de mobilização social, que redundaria no surgimento e/ou
ressurgimento das centrais sindicais, dos movimentos populares de âmbito
nacional e que influiria na constituição de alguns dos novos partidos,
destacando-se o Partido dos Trabalhadores (PT), além de certa
reestruturação das antigas agremiações políticas,. Como nos diz um dos
textos da coletânea, o do sociólogo e professor Emir Sader, A Transição
no Brasil:
“Ficou
assim constituído o novo quadro partidário que seria o cenário político
básico da transição: PDS, PMDB, PTB (Partido Trabalhista Brasileiro),
PDT
(Partido Democrático Trabalhista), PT. A maior novidade em relação à
estrutura partidária anterior ao golpe militar de 1964 era a formação do
PT, já que o PDS cobria a direita tradicional, o PMDB reunia os setores
heterogêneos do centro e da centro-esquerda, enquanto o PTB e o PDT
tratavam de ocupar o espaço do trabalhismo getulista. O PT se
diferenciava, já na sua constituição, da esquerda tradicional – PCB, PC
do B, trabalhismos. Socialmente, incorporava os setores das classes
dominadas normalmente excluídos da vida política, como os sem-terra, os
sem-casa, os sindicalistas de base, organizações comunitárias da Igreja,
minorias.”
Realmente,
o PT veio para exercer o papel de organização política predominante,
entre as organizações de esquerda, pelo menos da sua fundação, em 1980,
até a surpreendente eleição de Luis Inácio Lula da Silva, o Lula, seu
dirigente de maior carisma popular, à Presidência da República, em 2002.
Já no seu surgimento estava presente a diversidade de visões e propostas
políticas, que tanto poderiam levá-lo a ser um partido, que contribuísse
com a transformação socialista, quanto estavam, também, os elementos
capazes de fazê-lo ceder às dificuldades impostas pelo sistema
capitalista, perder o seu ímpeto classista inicial e descaracterizar-se.
Infelizmente, foi essa segunda hipótese a que prevaleceu.
A luta
interna no PT
Já na
Introdução do Cadernos Em Tempo, número 1, que trazia o texto “O PT e o
Partido Revolucionário”, de setembro de 1981, quando esse partido era
ainda um recém-nascido, lia-se:
“Pouco a
pouco, O PT foi se impondo e ganhando terreno. Da reação negativa
inicial, muitos grupos passaram ao apoio e à participação no PT. Para
isso foram levados tanto pelo peso demonstrado pelo movimento pelo PT
quanto pelo fracasso de propostas alternativas, como a do “Partido
Popular” (que era concebido como expressão institucional e parlamentar
de uma frente popular).
Estes grupos tem tentado compatibilizar a sua participação no PT com a
sua visão anterior, dogmática e estreita do leninismo. De modo geral,
insistem em caracterizar o PT como uma frente, uma “frente política”,
quando não diretamente uma frente popular. Insistem em chamar o PT de
partido “tático”, forma disfarçada de designar não um partido mas uma
coligação eleitoral-parlamentar. Para esses grupos o PT não pode passar
de certos limites, ou arrasa com os seus esquemas teóricos. A Política
dessas correntes para o PT é um dos obstáculos ao seu desenvolvimento
como partido operário de massas, independente da burguesia.”
Mas, é
importante observar que não foi a existência das diversas tendências
internas ao PT que trouxe os problemas de agilidade de funcionamento ou
dificuldades de exercício da democracia nesse partido. Ao contrário, uma
das dificuldades para a fluidez organizativa e uma das fontes do
autoritarismo e da centralização excessiva das decisões, que tanto
prejudicaram o PT, particularmente quando assumia alguma instância do
poder executivo, foi justamente a insistência em rejeitar as tendências
minoritárias de esquerda, em não permitir que as bases partidárias
tivessem clareza das propostas de cada uma delas, em tentar excluí-las
das decisões importantes no cotidiano partidário.
Se o PT
surgiu criticando a visão stalinista de “um único partido como dirigente
da revolução”, se pretendia ter um funcionamento interno democrático, a
existência e bom funcionamento das tendências deveria ser um fator
essencial. Com o pluralismo fazendo parte do perfil partidário, é
contraditório exigir um “pensamento único” no partido. Assim, existindo
uma maioria, que possui definições sobre as principais questões
estratégicas, políticas imediatas e organizativas, deve ser dado às
minorias o direito de organizarem-se em tendências para tentarem mudar
as posições da maioria, das quais discordam.
Como
decorrência das disputas internas, uma significativa parte do
sindicalismo autêntico, inclusive o Lula, e de parcela dos militantes
ligados a setores progressistas da Igreja Católica , acabaram se
aproximando das correntes de tradição stalinista. Com essa composição
surgiu a “Articulação dos 113” (jun/83), que acabou se tornando mais
conhecida e persistiu com o nome de “Articulação Majoritária”, “Campo
Majoritário” ou, simplesmente, “Articulação”. Utilizando motes
oportunistas, já que também partiam de agrupamentos internos abrigados
na Articulação, como “fim dos partidos dentro do partido”, “PT como
partido estratégico”, tentava-se isolar as tendências mais à esquerda
das crescentes bases de filiados.
Em lugar
de regulamentar as tendências, o que só fez parcialmente em 1990, quando
a Articulação já estava consolidada no controle das instâncias
partidárias, esse “campo majoritário” descaracterizou o direito de
organização das minorias (o direito a correntes de opinião, tendências e
frações), organizando-se como uma tendência, apesar de incluir setores
de origens distintas e compor a maioria do partido. Como sabemos, a
maioria, numa estrutura partidária democrática, define os rumos do
partido e não precisa se organizar em tendência.
Na
verdade, ao proceder dessa forma, essa composição majoritária estava
realizando uma estratégia de luta interna, que visava excluir,
gradativamente, os setores mais à esquerda. Depois ficou claro que essa
estratégia buscava, também, passar o controle quase total sobre o
partido e os governos, a que tivesse acesso, a um pequeno grupo de
dirigentes, sem que a maioria dos integrantes da própria Articulação
tivessem plena consciência disso.
Destruição dos canais de participação das bases partidárias
Um outro
aspecto importante das disputas no interior do partido foi o da
destruição da organização das bases partidárias, que acabaram sendo
alijadas da participação no âmbito decisório da agremiação. Promoveu-se,
gradativamente, uma transformação da estrutura participativa e de
militância cotidiana, do início do PT, em uma estrutura de partido
burguês tradicional, com diretórios voltados, apenas, às eleições
parlamentares e dos cargos do poder executivo, além da preferência da
figura do “cabo eleitoral” – inclusive com remuneração - à do militante
de base. Esse quadro deve-se, principalmente :
·à
não promoção de canais, que possibilitassem a informação dos Núcleos de
Base para que pudessem participar das decisões importantes,
·ao
desincentivo ao debate dos filiados das propostas das chapas de
candidatos aos diretórios zonais,
·ao
abandono das atividades de formação política das bases,
·à
centralização das cotizações dos filiados no diretório municipal (como
aconteceu em São Paulo) e total desinformação do conjunto dos filiados
sobre as finanças partidárias – cujas razões ficaram claras na crise
emergida em 2005,
·à
destruição dos canais de participação democrática dos militantes
partidários (coordenações de campanha etc.) nas campanhas eleitorais
majoritárias,
·à
profissionalização das campanhas eleitorais, com contratação de empresas
e profissionais especializados para a quase totalidade das tarefas,
marginalizando os militantes de base,
·ao
equívoco das tendências internas, que veio a se somar à política da
maioria dirigente, as quais,em lugar de defender os núcleos como órgãos
de participação universal das bases, passaram a organizar núcleos dos
seus militantes e simpatizantes.
Desapareceram os Núcleos, que respondiam a uma demanda de organização de
base de caráter mais geográfico-regional. Deixaram de existir, também,
as plenárias, que elaboravam a política do partido para as demandas
setoriais, como as de categorias profissionais (metalúrgicos, bancários
etc.) e as de parcelas sociais com preocupações específicas (negros e
negras, mulheres, homossexuais, ambientalistas etc.).
Degradação da política externa
Essas
diretrizes organizativo-internas, encaminhadas de forma pragmática pela
Articulação Majoritária, interavam-se, nitidamente, com a política
externa do PT. A evolução natural desse processo, ao contrário de
levá-lo à atualização e aprofundamento da sua carta de princípios e do
seu programa político, levou-o a uma gradativa descaracterização. Isso
é, plenamente, demonstrado no texto, que também está na coletânea, do
sociólogo Reinaldo de Barros Cicone, Da Intenção ao Gesto, do qual
destacamos:
“No
Manifesto de Fundação, de 1980, as idéias de Socialismo, Democracia
Interna e democracia como valor permanente apareceriam claramente. A
importância e a forma de construção da democracia aparecem no primeiro
parágrafo do Manifesto, o que se justifica também pelo fato do PT surgir
lutando contra uma ditadura. “O Partido dos Trabalhadores surge da
necessidade sentida por milhões de brasileiros de intervir na vida
social e política do País para transformá-la. A mais importante lição
que o trabalhador brasileiro aprendeu em suas lutas é a de a democracia
é uma conquista que, finalmente, ou se constrói pela sua mão ou não virá
(...) Queremos a política como atividade própria das massas que desejam
participar, legal e legitimamente, de todas as decisões da sociedade.”
“.................................................
“Apesar
das inúmeras passagens, em todas as resoluções dos encontros, em defesa
do socialismo como objetivo último do PT, notamos que com o passar dos
anos, seus horizontes vão rebaixando-se. Não se trata, obviamente, de
dizer que o PT caminha rápida e inexoravelmente para a
social-democracia, mas de reconhecer que as alterações de rumo do
partido não decorrem apenas de modificações das concepções ou na forma
de encarar a realidade de seus militantes e dirigentes.
“........................................................
“Percebemos claramente que, quanto mais próximo do poder, menos
avançadas são as propostas do partido. O programa do PT vem se
transformando, cada vez mais, em um programa de governo, abandonando a
utopia socialista de sua fundação. O Mesmo ocorre em relação às
alianças. Se antes não se admitia alianças com partidos de ideais e
objetivos diferentes, se as alianças poderiam apenas realizar-se
mediante um programa, a solução adotada, em muitos casos, foi o
rebaixamento do programa a ser proposto.
“... Sem
estas elaborações, sem políticas claras, sem objetivos estratégicos,
ganha espaço a luta imediata, conjuntural e, consequentemente, o
institucionalismo e o aumento em número e poder dos centros autônomos de
decisão (parlamentares, prefeitos, personalidades etc.). Em palavras
gramscianas, caso não seja interrompido este processo, o PT caminha
seguramente para uma integração passiva à ordem. ...”
Por esse
processo, o PT abandonou, no meio do caminho, a possibilidade de uma
relação com os movimentos e bases sociais, que garantisse o seu avanço
na disputa dos espaços políticos com as classes dominantes, sem um
distanciamento e/ou ruptura com a maioria oprimida da sociedade. Deixou
de estar a salvo do isolamento, o qual leva ao enfraquecimento, tanto da
capacidade de identificar o nível de consciência da população e de
compreender uma parte importante da realidade, quanto da capacidade de
mobilização social. Esse raciocínio está, também, na entrevista do
antigo militante socialista cristão, advogado e professor Plínio de
Arruda Sampaio, à revista Caros Amigos, que poderá ser vista com mais
detalhes na coletânea:
“..., o
PT começou em dois pés, a proposta do PT é: somos um partido socialista,
portanto um partido contra a ordem estabelecida, um partido contra o
capitalismo, não somos capitalistas, queremos acabar com o capitalismo.
Não está em condições de fazer isso agora. Agora temos uma proposta de
transformações estruturais no capitalismo, para amanhã criar condições
para a transformação socialista, e esse amanhã não tem prazo, pode ser
que as condições surjam amanhã mesmo. Mas, se não surgirem, vai indo,
enquanto isso vamos transformando a sociedade brasileira, e para fazer
isso precisamos de dois pés. Um é o da pressão direta de massa, é o da
desobediência civil, o pé da ocupação. A ocupação é ilegal, ela está
além, é o da marcha, o do bloqueio da estrada, é o da rua, e naquele
tempo a CUT ia pra rua. Então você tinha a CUT e o MST e, por outro
lado, vamos crescer na coisa institucional. Vamos disputar vereança,
vamos disputar... nunca imaginei que fôssemos tão rapidamente pro
Executivo, achei que teríamos um período grande de Legislativo. Então, o
que aconteceu no PT? Esse pé em 1989 parou, porque até 1989 você tinha
uma pressão de massa fortíssima.
“.......................................................
“Foi logo
no comecinho (agora falando do governo de Fernando Henrique Cardoso).
Então, o que a gente sente é que a partir daí este pé ficou difícil e
este outro ficou muito fácil. Porque você cotejava o político do PT, o
vereador do PT, o deputado do PT com aquele deputado tradicionalão,
nepotista, os Severinos
da vida. Ora, é lógico que o povo moderno, a mocidade e tal começaram a
votar no PT. E o PT começou a crescer, crescer, crescer. Até que ele se
converteu numa possibilidade eleitoral de conseguir o governo. E aí eu
acho que houve uma opção. A opção foi: “Vamos pelo governo”. E uma certa
ilusão: a ilusão que, estando no governo você muda. E sempre acho que o
fundamental é o poder. Tem o governo e o poder. Mas você pode ir pro
governo e não ter o poder. O Jango era governo e não tinha poder.”
Agindo
contra os trabalhadores
Mais do
que se afastar das bases sociais, que motivaram a sua própria
existência, o PT tornou-se refém das opções, a que o levaram seus
dirigentes mais influentes, respaldados pelos mais de cinqüenta por
cento dos petistas, ligados à Articulação Majoritária. Com a forma, como
se elegeu Lula à Presidência, este partido passou a defender os
interesses das classes, as quais se opunha, principalmente o capital
financeiro e o grande capital nacional e internacional. Também, na
coletânea encontraremos o texto do economista, professor e militante do
Psol João Machado,Questões para os Militantes Socialistas da DS, que
caracteriza e ilustra a ruptura do governo Lula com a classe
trabalhadora e demais setores sociais oprimidos, arrastando consigo o PT
como um todo:
“Desde a
formação do governo, ficou clara a preponderância no núcleo de poder e
na composição dos ministérios que têm mais influência de setores
alinhados com o grande capital, nacional e internacional, quando não de
seus representantes diretos. Desde a campanha de 2002, ficou claro que
Lula e seu grupo querem uma aliança ampla com a burguesia brasileira;
depois do início do governo, com a montagem da "base aliada", esta
orientação tornou-se ainda mais evidente. Foi exatamente devido à força
da presença burguesa que o governo, desde o início, adotou uma
orientação geral neoliberal: estamos numa época em que a burguesia, e
especialmente seu setor financeiro, tornou-se neoliberal.
“..............................................
“É
importante repetir, para enfatizar: desde o início do governo Lula ficou
claro que ele é um governo burguês. Como ele inclui representantes das
classes populares, é um governo burguês e de colaboração de classes - o
que implica dizer que os representantes populares no governo aceitam
subordinar os interesses populares aos interesses burgueses. Sendo a
linha burguesa e neoliberal adotada sob a direção de um partido de
origem socialista, cabe dizer que a orientação geral do governo é
social-liberal.”
Entre as
avaliações sobre o PT, que constam da coletânea, deve-se, aqui,
mencionar mais uma, a de Plínio Arruda Sampaio Junior, que em Réquiem ao
PT, como o próprio nome sugere, fornece-nos o diagnóstico terminal do
partido
em questão. Mas, seguindo a tradição socialista, deixa
claro que o sentido dessa destruição é indicar o rumo de uma nova
construção:
“A ruptura
com a tradição de luta em defesa dos trabalhadores obrigou a direção a
sufocar o debate democrático. É inútil continuar lutando nas instâncias
do partido. O PT é irrecuperável. O tempo do PT acabou, mas o das
transformações sociais não. A retomada das lutas populares é mais
necessária do que nunca, pois, ao contrário do que diz a propaganda
oficial, nada foi feito para enfrentar os problemas responsáveis pelas
mazelas do povo. Na realidade, o Brasil entra na terceira década de
estagnação econômica e grave crise social.
“Estar
livre das amarras do PT é condição necessária para combater o
ilusionismo lulista e derrotar a ofensiva neoliberal que acelera o
processo de reversão neocolonial e faz avançar a barbárie. Estar fora do
PT é condição necessária para começarmos, em franco debate com todas as
forças comprometidas com a mudança social, a árdua tarefa de reorganizar
a esquerda brasileira.”
2-b - As
novas perspectivas
A
refundação comunista
Aqui e
ali, começam a ser notadas as presenças de representantes do velho PCB,
o Partidão, tentando ocupar espaços políticos. Durante muitos anos
mantiveram-se numa postura contemplativa meio forçada, sem iniciativas
perceptíveis. Perderam muitos militantes (quadros), desde meados dos
anos sessenta, com a constatação da total incapacidade de reagir à
altura ao golpe militar e, logo a seguir, da falta de respostas efetivas
à revolta da juventude estudantil e à contagiante e arriscada
alternativa, oferecida pelos agrupamentos armados de esquerda.
Sobreviveu, precariamente, à quase fatal onda do eurocomunismo,
que gerou o Partido Popular
Socialista (PPS), no Brasil, em 1992.
Brasil, em 1992.
O texto “É
possível uma Refundação Comunista no Brasil?”, do professor de Ciências
Políticas, Marcos Del Roio, que pode ser lido na coletânea, parece
tentar mexer com a capacidade imaginativa dos interessados. Em seu
recente congresso, o PCB escolheu como uma de suas principais diretrizes
a construção de uma “frente de esquerda”. Com essa motivação, o PCB
levou diversos militantes e participou da mesa, na atividade denominada
“Assembléia Popular”, realizada em São Paulo, no dia 9 de julho de 2005.
Dias depois, publicava no seu boletim de Campinas-SP, nº. 05, de
julho/2005:
“Neste
contexto, entendemos que o conjunto dos trabalhadores deve constituir um
campo de oposição classista. O PCB propõe a construção de um Bloco de
Esquerda, como alternativa de poder popular, que assuma a luta contra ao
neoliberalismo, à social democracia e seus aliados.
“Conclamamos as forças populares para a consolidação de uma unidade
programática e de ação, que norteie a saída para a crise, na perspectiva
do socialismo.”
Ao falar
em “oposição classista” e “Bloco de Esquerda”, mas, logo abaixo, em
“forças populares”, o PCB não deixa claro se, estando numa nova fase,
passou a ter como princípio a independência organizativa de classe dos
trabalhadores, o que seria uma ruptura com seu passado stalinista, ou se
deixa uma fresta para alianças setores das classes dominantes. No
primeiro caso, se colocaria na trajetória, não de uma refundação
comunista, mas de uma reestruturação da esquerda, em novas bases
estratégicas, táticas e organizativas. No segundo caso, tenderá a se
afastar das perspectivas abertas pelas críticas, trazidas pela atual
crise política, às formas autoritárias e dogmáticas de relacionamento
entre as organizações de esquerda e as sua próprias bases sociais.
A Consulta
Popular buscando somar forças para as mudanças
“...
Concentraremos os nossos esforços em tarefas multiplicadoras, com
destaque para a formação de novos lutadores, o aprofundamento da nossa
compreensão teórica e política da crise brasileira, o desenvolvimento de
múltiplas formas de comunicação e diálogo com o povo, e o fortalecimento
dos movimentos sociais. Prepararemos milhares de militantes para atuarem
decisivamente e sem hesitações, junto do povo, quando este decidir tomar
em mãos o seu próprio destino.
A Consulta
Popular, agora em via de consolidar-se como organização política,
considera-se uma parte de um conjunto maior de militantes e lutadores,
hoje dispersos, e adotará uma posição cooperativa diante de todas as
iniciativas capazes de contribuir para a renovação da esquerda e a
refundação do Brasil.
Reafirmamos hoje o compromisso expresso na carta da Assembléia de
Lutadores e Lutadoras do Povo realizada em Brasília em 1999: “Estamos
construindo uma organização de novo tipo, dirigida para a luta, e cujas
marcas são a unidade, a disciplina militante e a fidelidade ao povo. ...
A
declaração de que se pretende “o desenvolvimento de múltiplas formas de
comunicação com o povo, e o fortalecimento dos movimentos sociais”, de
que será “uma organização de novo tipo” e terá “fidelidade ao povo”, não
garantem a independência organizativa da classe trabalhadora e demais
oprimidos sob o capitalismo, além de não chegar a qualquer nova proposta
de relacionamento com essas bases sociais, que a Consulta Popular quer
como parceiras. Mas a consideração de ser “parte de um conjunto maior de
militantes” e “de contribuir para a renovação da esquerda e a refundação
do Brasil” inclui esse coletivo nos esforços de elaboração de uma nova
proposta para a construção do socialismo no Brasil.
O Programa
do Partido Socialismo e Liberdade (P-Sol)
“Este
programa estabelece um ponto de partida para a construção de um projeto
estratégico, capaz de dar conta das enormes demandas históricas e
concretas dos trabalhadores e dos excluídos do nosso país.
“Não se
trata, portanto, da imposição de uma receita pré-estabelecida,
hermética, fechada, imune às mudanças na realidade objetiva e a
experiência viva das lutas sociais do nosso povo. Pois definir seus
balizadores iniciais de estratégia e de princípio não significa
estabelecer qualquer restrição a constantes atualizações, para melhor
compreender e representar as novas demandas populares.
“..................................................
“Criou-se,
assim, um novo e histórico momento para o país e para a esquerda
socialista que mantém de pé as bandeiras históricas das classes
trabalhadoras e oprimidas. Na medida em que o governo Lula acelera a
rota para o precipício, abre-se um caminho para uma alternativa de
esquerda conseqüente, socialista e democrática, com capacidade de atrair
e influenciar setores de massas, e oferecer um canal positivo para os
que acreditam em um outro Brasil.”
O
compromisso assumido na introdução do programa político desse novo
agrupamento, já o define como integrante dos esforços de todos
agrupamentos classistas e socialistas para a superação da derrota
sofrida pelas esquerdas com a degeneração do PT. A preocupação com um
relacionamento mais consistente com os movimentos sociais está no cerne
das suas primeiras elaborações.
Todavia, o
açodamento, imposto pela tarefa de construir uma alternativa eleitoral
ao PT, já em 2006, é temerário e, certamente, criará dúvidas na
escaldada maioria oprimida da população. A preocupação é a de que estará
a pouco mais de dois anos da sua fundação e não terá feito,
coletivamente, um amplo balanço das experiências recentes e uma profunda
discussão sobra a estratégia de transformação socialista no Brasil,
tanto para não repetir os mesmos erros, quanto para compartilhar com os
movimentos e as bases sociais.
O próprio
fato de começar sua existência voltado para a participação nas eleições,
pode ser um fator de enfraquecimento da sua proposta. Conhecendo de
perto o esforço que seus militantes realizam, fica evidente o descuido
com muitos aspectos importantes, como a organização da influência das
próprias bases partidárias nas decisões mais importantes do agrupamento,
as tarefas de formação política dessas bases, a definição de como
resolver a precariedade de equipamentos, de materiais e organizativas em
geral etc.
A proposta dos
Núcleos de Reflexão e Ação Socialistas
“Trata-se
de criar coletivos políticos socialistas, nos quais os membros se
comprometam a seguir um procedimento formal de consulta prévia a todos
os demais membros, antes de tomarem posição diante das questões
políticas. Aparentemente não há novidade nisso. Mas a leitura das regras
mostrará que o objetivo é realizar um exercício de participação política
destinado a explorar, na prática, formas de resolver um problema não
resolvido nos vários períodos em que o Brasil procurou institucionalizar
regimes democráticos: a discrepância entre a vontade da cidadania e a
conduta dos seus representantes nas instituições do Estado. Esse
problema estende-se aos partidos políticos, ou seja, à discrepância
entre a vontade dos militantes e a conduta da sua direção. O PT não
conseguiu resolver essa contradição e isto constitui um dos fatores da
crise atual.
“... Não
implica, contudo, numa opção partidária, uma vez que não há delegação de
poderes de representação. Pode-se militar em um partido e ser membro de
um Núcleo. ...
“......................................................
“6.
Recusam qualquer forma de voluntarismo e de vanguardismo. Acreditam que
nada pode substituir os trabalhadores como agentes da transformação
social. Têm ainda a convicção plena de que os trabalhadores brasileiros
conseguirão superar os obstáculos que se opõem ao seu pleno
desenvolvimento econômico, social, político e cultural e farão do Brasil
um parceiro importante na luta dos povos por uma sociedade mundial justa
e humana.”
O avanço
dessa proposta depende, totalmente, do amadurecimento, que a esquerda
pode acumular no Brasil, inclusive com a atual crise política. O próprio
método de funcionamento interno colocado está em interação com a
proposta de relacionamento com as bases sociais, sem as quais não
considera possível a transformação socialista da sociedade. Todavia, até
para articular a esquerda em franca fragmentação, com muitos militantes
dispersos e dezenas de pequenos e médios agrupamentos, é preciso ter
alguma estrutura. As experiências organizativas fracassadas e dolorosas
para a esquerda não podem torná-la incapaz de construir qualquer tipo de
estrutura de funcionamento.
Neste
momento, os Núcleos não querem se transformar num partido ou outra forma
organizativa mais cristalizada. Existem pré-requisitos para esta opção.
Então, é necessário desenvolver formas organizativas não verticalizadas,
sem hierarquias, voltadas para o cumprimento das tarefas indispensáveis
e com duração limitada a essas tarefas, que não demandem poder, nem
centralização e cuja única segurança, que possam fornecer, seja a de
garantir que estejamos caminhando na direção dos nossos objetivos. Quais
as tarefas indispensáveis? Na verdade, estão mencionadas no primeiro
parágrafo do presente trabalho. Executá-las é a própria razão de ser dos
Núcleos de Reflexão e Ação Socialista.
Quando o
Agrupamento dos Núcleos Socialistas foi capaz de gerar uma proposta de
avanço da unidade das esquerdas para encontrarem o seu caminho de
superação da atual crise política, o evento chamado de “Plenária
Popular”, acabou assumindo um compromisso de avançar na sua proposta,
pois provou ter um papel a cumprir muito maior do que sua capacidade
atual lhe permite.
3- Direção
sem imposição: influência recíproca, programa e mobilização
O
principal instrumento político, tanto para a aglutinação de militantes e
aproximação entre agrupamentos políticos, quanto para influenciar os
movimentos e bases sociais é o programa. O programa político não é um
trabalho intelectual de alguém, em frente a uma mesa ou a um computador.
Na confecção do programa estará refletida, além da visão estratégica
para a transformação socialista, a metodologia de entendimento da
realidade, de elaboração política, de relacionamento com a parcela da
população - com a qual se identifica - e de construção organizativa dos
respectivos agrupamentos.
Mais do
que a síntese histórica da experiência dos trabalhadores e demais
setores explorados e oprimidos da sociedade, o programa político deve
ser, também, o resultado de um profundo processo de influência recíproca
entre as bases sociais e sua(s) direção(ões) política(s) reconhecida(s).
Com essa reciprocidade estarão criadas as condições para o acesso aos
elementos, necessários à elaboração e constantes correções/atualizações
das diretrizes políticas, componentes do programa(s), elaborado(s) pelos
agrupamentos políticos da esquerda socialista.
Na
verdade, uma das tarefas centrais dos agrupamentos políticos é a de
comporem centros elaboradores de propostas políticas. Conseqüentemente,
é o grau de interação desses agrupamentos com as bases sociais que
determinará o papel dirigente ou não dos mesmos. Não basta reunir
militantes e ter um programa político. É preciso falar a linguagem da
população explorada e oprimida e traduzir suas necessidades e
aspirações, de modo a se identificarem com as propostas agitadas e se
mobilizarem para conquistá-las.
É
necessária uma busca permanente das direções políticas pelas ações
adequadas do movimento social, nos momentos históricos corretos. Nisso
se complementam a construção da organização política dos trabalhadores e
seus aliados, estratégia de construção do socialismo e programa
político, redundando na mobilização da maioria explorada e oprimida da
sociedade pelos seus interesses imediatos e históricos. Direção e base
social fazem parte de um único todo. Não há, aí, relações de submissão
e, muito menos, confusão entre os papéis. Esta característica pode ser
observada nos momentos de ascenso ou de descenso do movimento social.
Mesmo com
as eventuais reservas, que se possa ter quanto ao pensamento dos
dirigentes da revolução russa de 1917, a experiência de Leon Trotski
pode nos ajudar a entender a direção como apenas uma parte, apesar de
indispensável, do movimento social transformador:
“A vitória
do movimento de outubro é um testemunho valioso da “maturidade” do
proletariado. Mas essa maturidade é relativa. Poucos anos depois, esse
mesmo proletariado permitiu que a revolução fosse estrangulada por uma
burocracia surgida de suas próprias fileiras. A vitória, de nenhum modo,
é fruto maduro da “maturidade” do proletariado. A vitória é uma tarefa
estratégica. É necessário aproveitar as condições favoráveis que uma
crise revolucionária oferece para mobilizar as massas; tomando como
ponto de partida o nível de sua “maturidade”, é necessário
impulsiona-las para frente, fazê-las compreender que o inimigo não é de
maneira nenhuma onipotente, que ele está dilacerado por suas
contradições e que,por trás de sua imponente fachada, reina o pânico. Se
o Partido Bolchevique tivesse fracassado nesta tarefa, não se poderia
nem falar no triunfo da revolução proletária. Os sovietes teriam sido
esmagados pela contra-revolução e os minúsculos sábios de todos os
países teriam escrito artigos e livros dizendo que só visionários sem
fundamento poderiam sonhar com a ditadura do proletariado na Rússia,
sendo a classe operária, como era, tão pequena numericamente e tão
imatura.”
No Brasil,
como vimos, as experiências das organizações políticas de esquerda
começaram pelos determinismo e autoritarismo stalinistas, que visavam
submeter os trabalhadores e demais setores da população explorada e
oprimida à sua orientação; passaram pelo vanguardismo voluntarista dos
agrupamentos da esquerda armada, alguns pretendendo multiplicarem-se
através dos seus exemplos; e chegaram às “gestões participativas”,
puxadas pelo PT, cujos principais dirigentes históricos fizeram-no
abandonar as suas bases sociais no meio do caminho, aproximando-o, na
prática, do capital financeiro e do grande capital nacional e
internacional, além de utilizar-se da corrupção secular, incrustada no
Estado Capitalista, inviabilizando o atendimento das demandas populares.
Cabe,
agora, aos antigos militantes, que permaneceram na esquerda, e à
militância emergente fazer com que o período, que se inicia, seja o de
agrupamento(s) socialista(s) que saibam como agir em interação com os
movimentos e bases sociais.
4- Pensar
uma estratégia possível para a transformação socialista no Brasil
O fato de,
agora, no ano de 2005, o socialismo ainda não ser uma demanda imediata
da população explorada e oprimida no Brasil denuncia a existência de
obstáculos a serem superados. Isso não significa que, antes de lutarmos
diretamente pelo socialismo, teremos que contemplar as demandas
imediatas dessa população. Esta situação define que a luta pelo
socialismo no Brasil terá que se dar combinada à luta por emprego, por
melhores salários, pela reforma agrária, por melhores condições de vida
em geral para a maioria da população.
Na
verdade, reverter o processo de exclusão de parte significativa e
crescente da população é tarefa inseparável da luta pelo socialismo,
pois só contendo o ritmo de acumulação de riquezas imposto pelo
neoliberalismo é que se alcançará a melhoria das condições em que vive a
mencionada maioria. Mas, essa luta está longe de ser uma luta linear, em
que inexistam meandros, avanços e recuos, utilização de diversas táticas
e, até, estratégias simultâneas para se aproximar dos objetivos
definidos. Para começar, sabemos que a reação será, sempre, sem tréguas.
Para os partidos de direita e para os capitalistas, qualquer mudança
pode atrapalhar os seus planos de concentração crescente de rendas.
Cada vez
mais as lutas econômicas, específicas, cotidianas das categorias
profissionais, dos moradores de bairros pobres, dos ambientalistas, das
mulheres, dos negros, dos portadores de necessidades especiais, dos
homossexuais, combinam-se na busca do ideário socialista: pela igualdade
para desfrutar as riquezas socialmente produzidas; por uma organização
dinâmica da sociedade, que garanta a sobrevivência adequada de todos e
preserve os direitos das minorias e das escolhas individuais; por um
desenvolvimento ambientalmente sustentável, que defina os parâmetros das
opções para o crescimento econômico.
O
neoliberalismo e a atual crise geral do sistema capitalista geraram uma
quantidade enorme de excluídos da sociedade. Frente a isso, a esquerda
socialista se vê obrigada a definir uma alternativa específica para
os(as) excluídos(as) e a trabalhar uma nova estratégia de transformação,
que se combine a outras. Priorizando, sempre, a mobilização social, não
se poderá abandonar a recorrente luta de acumulação de forças, que
Gramsci chamou de luta de posições, isto é, a luta pelos diversos postos
de poder disseminados pela sociedade, de pequenas associações de bairro
e pequenos sindicatos a cargos do poder executivo, quando isso for
conveniente.
Com
certeza, podem ser pensadas diversas estratégias para a transformação
socialista da sociedade brasileira. A análise da realidade atual, o
acúmulo político ao alcance da esquerda socialista e os meios oferecidos
pela chamada “economia solidária”, cooperativas de cooperados, pequenas
e micros empresas, o trabalho artesanal e/ou autônomo individual,
permitem pensar, por exemplo, na possibilidade da criação de uma
economia paralela à tradicional, paralela à concentração dos grandes
capitais e do capital financeiro.
Aprofundando o exemplo, podemos desenvolver o seguinte raciocínio: há
muito tempo, os teóricos dos processos de transição para o socialismo
estudam o surgimento de uma dualidade de poder. Agora, com o advento do
neoliberalismo e da exclusão em massa, tem-se que ir além, talvez
oferecendo a essa massa excluída a alternativa de uma sociedade
paralela, com sua própria economia (produção, distribuição, moeda,
bancos, regras, planejamento), com uma estrutura social igualitária e
solidária e com uma rede de canais de poder, forçosamente
descentralizado e participativo.
Desde
logo, sabemos que os pontos de contato dessa nova com a sociedade
tradicional teriam que fazer parte do seu planejamento e nunca tratados
como tabu. De pronto, a sociedade paralela aliviaria as pressões de
oferta no mercado de empregos da economia tradicional, criando-lhe
dificuldades para o rebaixamento de salários. Em breve, também, se
notaria a necessidade de adquirir produtos, não supridos pela própria
capacidade de diversificar a produção, a curto prazo, com as
conseqüentes dificuldades para a conversão monetária.
Esses e
outros problemas teriam que ser administrados, além, é claro, dos
obstáculos legais, da retaliação comercial e diversos boicotes, que a
velha sociedade, que gerou a própria economia informal, imporia a uma
sociedade paralela.
Assim,
teríamos duas estruturas concorrentes e uma nova dualidade de poder,
onde o novo pólo externo de poder se combinaria ao pólo interno de
oposição ao sistema tradicional. Com o amadurecimento desse processo, o
Estado conservador, se veria acossado por dentro e por fora, num cerco
que iria se fechando. Evidentemente, um processo de tal magnitude e
complexidade, tornaria indispensável a existência de organizações
políticas implantadas nas duas estruturas e com forte sentido
estratégico. Nesse processo não haveria espaço, em momento algum, para a
perda de vínculos com os movimentos e bases sociais, que, ao mesmo
tempo, definiriam cada passo a ser dado e seriam os protagonistas da
ação.
Como se
vê, há muito, ainda para se pensar no que diz respeito às estratégias de
luta pelo socialismo no Brasil, à metodologia adequada para os
agrupamentos de esquerda socialista relacionarem-se com os movimentos e
bases sociais e à estrutura correspondente, que essas agremiações devem
adotar para atingir seus objetivos. A coletânea, a seguir, foi feita com
a intenção de se trazer mais um pouco de luz para essas discussões.
Pequena
Coletânea de Trechos de Entrevistas,
Depoimentos e Textos sobre a História da Esquerda no Brasil.
Manifesto
do Partido Comunista (1848)
Karl Marx
e
Friedrich
Engels
..................................................
... A
concorrência crescente dos burgueses entre si e as crises comerciais que
dai resultam tornam o salário dos operários sempre mais instável. O
aperfeiçoamento incessante e sempre mais rápido do maquinismo torna sua
situação cada vez mais precária. Cada vez mais, conflitos isolados entre
operários e burgueses assumem o caráter de conflitos entre duas classes.
Os operários começam por formar coalizões contra os burgueses; unem-se
para defender seu salário. Chegam até a fundar associações duradouras
para se premunirem em caso de sublevações eventuais. Aqui e ali, a luta
transforma-se em motins.
De vez em
quando, os operários triunfam, mas sua vitória é passageira. O resultado
verdadeiro de suas lutas não é o sucesso imediato, mas a extensão sempre
maior da união dos operários. Esta é favorecida pelo crescimento dos
meios de comunicação, criados pela grande indústria, que colocam em
contato operários de diferentes localidades. Basta apenas esse contato
para centralizar as inúmeras lutas locais – que têm em toda parte o
mesmo caráter – em uma luta nacional, em uma luta de classes. Mas toda
luta de classes é uma luta política. E a união, que exigiu séculos dos
burgueses da Idade Média, com seus caminhos vicinais, os proletários
modernos realizam-na em poucos anos com a ferrovia.
Essa
organização dos proletários em classe e, assim, em partido político, é
rompida a cada instante pela concorrência entre os próprios operários.
Mas renasce sempre mais forte, sempre mais sólida, sempre mais poderosa.
Aproveita-se das divisões internas da burguesia para forçá-la a
reconhecer, sob forma de leis, certos interesses particulares dos
operários. Por exemplo, a lei da jornada de dez horas na Inglaterra.
Em geral,
os conflitos da velha sociedade favorecem, de várias maneiras, o
desenvolvimento do proletariado. A burguesia vive engajada numa luta
permanente: no início, contra a aristocracia; depois, contra setores da
própria burguesia, cujos interesses entram em conflito com o progresso
da indústria; e permanentemente, contra a burguesia de todos os países
estrangeiros. Em todas essas lutas, vê-se constrangida a apelar para o
proletariado, a pedir sua adesão e, desse modo, a impeli-lo para o
movimento político. Portanto, ela própria fornece ao proletariado os
elementos de sua própria formação, ou seja, armas contra si mesma.
..................................................
Proletários de todos os países, uni-vos !
****************************************************
Cicone,
Reinaldo Barros
Da
Intenção ao Gesto: Um Olhar Gramsciano sobre a Possibilidade de
Integração do PT à Ordem
Cópia da Dissertação de Mestrado, Apresentada na Universidade Estadual
de Campinas – Unicamp - Departamento de Sociologia do Instituto de
Filosofia e Ciências Humanas, em maio de 1995
Da
Intenção ao Gesto;
Um
Olhar Gramsciano sobre a possibilidade
De
integração do PT à ordem.
Reinaldo Barros Cicone
INTRODUÇÃO
............................................
Gramsci
nos ensina que através da história de um partido podemos estudar toda
uma sociedade. ...
............................................
CAPÍTULO I – O PARTIDO EM GRAMSCI
Nas
sociedades modernas, segundo Gramsci,
o moderno príncipe seria o partido político. Se no caso da Itália do
século XVI, o Príncipe imaginado e desejado por Maquiavel deveria
organizar e integrar seu país, o moderno príncipe gramsciano deveria ser
encarado como um partido que tornasses possível a emancipação dos
trabalhadores, isto é, que tivesse a vocação para transformar-se em um
novo tipo de Estado.
............................................
É através
do Estado, entendido então como conjunto de atividades e organismos
educativos e coercitivos, que a classe dominante tenta conseguir o
consentimento ativo dos dominados, isto é, que a classe dominante eleva
o nível cultural e intelectual das massas de acordo com os seus
princípios ou, numa palavra, é através do Estado que a burguesia
constrói sua hegemonia. A construção de uma nova concepção de mundo (Weltanschauung)
torna-se então equivalente à construção de uma nova classe dirigente e
de um novo Estado. Ou melhor dito, são um único e mesmo processo.
.............................................
... Em
outras palavras, é necessário construir uma nova hegemonia, a das
classes trabalhadoras, ainda no interior da sociedade burguesa.
Trata-se, portanto, da libertação das “forças produtivas proletárias e
comunistas que vinham sendo elaboradas no próprio seio da sociedade
dominada pela classe capitalista.”
.............................................
Os
partidos (e os sindicatos) são academias das classes trabalhadoras, isto
é os organismos através dos quais os trabalhadores podem tornar-se
dirigentes. Esta preparação é fundamental , uma vez que o Estado não
pode ser improvisado, ao contrário, deve ser cotidianamente pensado e
elaborado pelos trabalhadores. O partido deve lutar para tornar-se um
Estado de transição, que deseja a extinção das classes e a sua própria
extinção.
..............................................
Cabe a ele
a tarefa de estimular e organizar vontades desconexas. É agente
educador, centralizador e coordenador das demais forças da sociedade a
fim de atingir os objetivos determinados. Deve, portanto, tratar das
questões mais amplas, gerais e de longo prazo das classes, não se
limitando às lutas imediatas e quase sempre corporativas. Precisa
demonstrar a viabilidade das suas propostas, e a relação delas com a
materialidade. Que a partir delas pode-se construir uma nova sociedade.
Feito isso, torna-se possível, no imaginário dos trabalhadores, lutar
para transformarem-se em classe dirigente, transformando a democracia
burguesa numa democracia efetiva, dos trabalhadores.
Finalmente, o partido não deve e não pode esperar que as condições de
destruição do Estado estejam dadas, isto é, que a conjuntura e torne
favorável, para que ele inicie o seu trabalho. Ao contrário, deve
suscitar, organizar e preparara vontade de destruir o Estado capitalista
e, ainda no seu interior, iniciar a construção do novo Estado e da nova
sociedade.
****************************************************
Por uma
história da esquerda
Brasileira*
Maria Paula Nascimento Araújo
Eleger a
esquerda como objeto de estudo me remeteu a uma questão que é
unanimemente vista como delicada pelos historiadores: a paixão. Ou mais
claramente, o envolvimento apaixonado com o objeto de estudo.
................................................
... A
escola marxista inglesa, a perspectiva de uma “história vista de baixo”,
a história política renovada, a História Oral e a História do Tempo
Presente foram as correntes que me forneceram os necessários subsídios
para a construção do meu tema como um tema relevante e significativo no
sentido historiográfico (sem precisar despi-lo de sua dimensão pessoal e
passional).
.................................................
Um dos
bons exemplos de que pode ser fecunda e produtiva a ligação entre a
militância política e a atividade intelectual e acadêmica foi dado por
um grupo de historiadores ingleses vinculados ao Partido Comunista
Britânico. Este grupo era composto por nomes que se tornaram, ao longo
do século XX, alguns dos mais renomados historiadores ingleses: E.P.
Thompson, Eric Hobsbawm, Christopher Hill, Rodney Hilton, George Rudé,
Dorothy Thompson, Royden Harrison. Vale lembrar também Maurice Dobb e
DonaTorr, já falecidos mas lembrados e respeitados pelo conjunto do
grupo, como “precursores”.
Este
conjunto de historiadores constituía, efetivamente, um “grupo”: The
Communist Party Historians’ Group (o Grupo de Historiadores do
Partido Comunista). Este Grupo, que se formou logo após a II Guerra
Mundial, no início da Guerra Fria, em torno de 1946, teve enorme
influência no desenvolvimento da historiografia marxista e da
historiografia inglesa de forma geral. Em 1956, com a divulgação do
Relatório Khurshev sobre os crimes de Stalin, muitos intelectuais, e
alguns historiadores do Grupo, como Christopher Hill, deixaram o Partido
Comunista Britânico. Mas não romperam os laços com o Grupo. Nem com o
marxismo. Ao contrário do que sucedeu em outros países — onde o
rompimento com o Partido Comunista levou muitos intelectuais a romperem
com o marxismo (notadamente na França) —, este grupo de historiadores
ingleses manteve os laços de ligação entre eles e com o marxismo. Mais
do que isso, o Grupo passou a desenvolver uma visão específica da
análise marxista aplicada à História.
Procurando
construir um marxismo não economicista, não determinista, que enfatizava
a política, a cultura e a luta de classes como motor da História em
detrimento de interpretações exclusivamente centradas no aspecto
econômico. Esta postura teórica se expressou numa série de trabalhos
históricos que mobilizavam uma enorme massa documental e que significou,
como já dissemos, uma grande contribuição tanto para a historiografia
inglesa quanto para a historiografia marxista. A partir desta prática do
Grupo se criou a referência, conhecida internacionalmente pelos
historiadores, da Escola Marxista Inglesa, trazendo a noção de um
marxismo diferenciado, não ortodoxo, aplicado à pesquisa histórica. Os
historiadores do Grupo trouxeram novas interpretações, novos objetos e
novos personagens para a historiografia inglesa.
........................................................
A
classe acontece quando alguns homens, como resultado de experiências
comuns (herdadas ou partilhadas), sentem e articulam a identidade de
seus interesses entre si, e contra outros homens cujos interesses
diferem (e geralmente se opõem) dos seus. A experiência de classe é
determinada, em grande medida, pelas relações de produção em que os
homens nasceram — ou entraram involuntariamente. A consciência de classe
é a forma como essas experiências são tratadas em termos culturais:
encarnadas em tradições, sistemas de valores, idéias e formas
institucionais.7
Para
Thompson, a classe não é um dado a priori, não é um conceito
estático nem mesmo uma categoria que possa ser depreendida a partir de
uma única referência. Para ele, a idéia de classe remete a uma relação —
histórica, social, cultural. Mas ela é sempre produto de um processo
interativo. A classe, para ele, é construção. Esta forma de conceber a
idéia de classe social difere bastante do marxismo vulgar para quem a
classe era vista, de forma geral, como uma decorrência direta e
exclusiva da esfera da produção. Esta nova forma de conceber a questão
tinha enorme efeito libertador já que permitia ver, ao lado da posição
econômica, uma série de outros aspectos — a cultura, a arte, as práticas
cotidianas, as relações de sociabilidade, de vizinhança, os embates
políticos diários, as opções pessoais, a produção artística, os laços de
solidariedade construídos, enfim, uma gama de aspectos que iam muito
além da mera posição econômica.
A fonte de
inspiração para este conceito de classe, assumida pelo próprio Thompson,
é o marxismo de Gramsci. A teoria gramsciana, esboçada principalmente no
livro Os intelectuais e a organização da cultura,8 já apontava
para um marxismo distante dos reducionismos economicistas e já
valorizava o processo histórico, os aspectos culturais, as interações
sociais e, sobretudo, a luta política como elemento definidor central
(muito superior à posição na esfera produtiva). Este marxismo permeado
de historicidade, de cultura e de política, da idéia de processo, de
construção e de interação social traça uma linha (não necessariamente
reta) de ligação entre o pensamento de Gramsci e a obra de Thompson.
Tanto para um como para outro, a classe é construída num processo
histórico, marcado por opções políticas tomadas por sujeitos que são
artífices atuantes de seus próprios destinos.
O outro
grande historiador do “Grupo” — e provavelmente o mais famoso
internacionalmente, inclusive fora do circuito acadêmico, é Eric
Hobsbawm. Não é meu objetivo aqui, neste pequeno artigo, analisar a
vastíssima obra deste autor, mas apenas destacar a sua importância como
referência para uma história dos movimentos e das idéias de esquerda.
Os livros
de Hobsbawan foram campeões de venda, lidos não apenas por professores e
estudantes de história de todos os países mas também por um público
inteiramente leigo. No Brasil, onde foi publicado primeiro pela editora
Paz e Terra e, depois, pela Companhia das Letras, seus livros tiveram
enorme repercussão. A era do capital, A era das revoluções,
A era dos extremos, Revolucionários, Os trabalhadores, Sobre História
e a portentosa coleção por ele organizada, História do Marxismo,
entre outros títulos, tiveram ampla aceitação e circulação entre
leitores brasileiros, ao longo das décadas de 1970, 80 e 90.
... Mais
do que isso: a Escola Inglesa ensinou a importância da “batalha das
idéias”; a necessidade de se reservar, na narrativa histórica, um espaço
de destaque para as concepções políticas e ideológicas, os valores
culturais, as práticas políticas e cotidianas, os debates teóricos, os
confrontos entre diferentes proposições, tanto as gerais quanto as
particulares. Somente com esta perspectiva a História — e sobretudo a
História Política — ganha corpo, forma, alma, cor e voz.
Uma outra
corrente que valorizava a luta cotidiana dos povos, enfocando
principalmente as classes populares, é a chamada “história vista de
baixo” — que, em certo sentido, é um produto da Escola Marxista Inglesa.
A expressão “history from below” foi criada por E. P. Thompson
num artigo publicado em 1966 no suplemento literário do The Times.
Num artigo
já clássico para professores e estudantes de História, Jim Sharp9 nos dá
uma bela definição da “história vista de baixo”, a partir da
correspondência do soldado William Wheeler, da 51a Infantaria Britânica
que lutou na batalha de Waterloo. As cartas de Wheeler para sua esposa
relatam a batalha do ponto de vista do soldado raso: “(...) a
experiência de suportar o fogo da artilharia francesa, seu regimento
destruindo um corpo de couraceiros inimigos com uma rajada de tiros, o
espetáculo de montes de corpos queimados de soldados britânicos nas
ruínas do castelo de Hougoumont, o dinheiro saqueado de um oficial
hussardo francês, alvejado por um membro do destacamento a cargo de
Wheeler”.10
....................................................
Nosso
objeto de estudo — práticas e representações de grupos, movimentos,
partidos e organizações de esquerda — se situa no mundo
contemporâneo.... O historiador que se volta para estudar os movimentos
populares de contestação no mundo contemporâneo deve estar atento para
esta circularidade, para esta interpenetração de elementos culturais
diversos que vão da elite para as camadas populares e vice-versa.
.................................................
... O
terreno da cultura para Gramsci é um terreno de luta política, de
disputa por valores, visões de mundo, conceitos éticos e padrões de
comportamento. É no terreno da cultura que os diferentes grupos sociais
disputam a hegemonia. Se a cultura não é o espaço essencial desta
disputa é, sem dúvida, um dos mais importantes. Assim, uma história da
esquerda brasileira teria que levar necessariamente em conta este campo
de disputas e conflitos e entender as posturas, práticas, imagens e
representações produzidas pela esquerda como frutos deste processo.
Um outro
grupo de correntes historiográficas, desenvolvidas nos últimos anos, vem
contribuindo para a valorização de pesquisas sobre movimentos, partidos,
idéias, experiências e personagens da esquerda contemporânea. Deste
grupo fazem parte a História Oral, o estudo de trajetórias de vida, a
História do Tempo Presente e o que se convencionou chamar de “história
política renovada”.
A
História Oral e “histórias de vida”
Os
historiadores, nas últimas décadas, têm se utilizado, em larga medida,
de determinados procedimentos de pesquisa que antes lhes eram, de certa
forma, vedados: entrevistas, relatos autobiográficos, depoimentos
pessoais, histórias de vida etc. Estas técnicas de pesquisa, até os anos
1970, eram recursos específicos de antropólogos em seus trabalhos de
campo. Nos últimos anos, no entanto, elas têm contribuído,
indistintamente, para historiadores, sociólogos, antropólogos,
cientistas políticos e outros pesquisadores criando um campo
interdisciplinar. Um campo fecundo que busca compreender o homem em sua
dimensão social e histórica a partir de seu relato vivo, sua memória e
sua oralidade.
Se
antropólogos e sociólogos já estavam mais afeitos a estas técnicas, elas
significaram, para o historiador, uma grande novidade. Acostumados a
trabalhar com os “mortos” e seus registros, os historiadores passaram a
poder trabalhar com os “vivos”. E a organizar, para a posteridade, os
registros destes personagens ainda vivos — na forma de gravações de
entrevistas e depoimentos. Um novo tipo de acervo começou a ser criado
nas universidades e centros de estudos históricos: os acervos de
História Oral.14
A História
Oral se cruza, muito freqüentemente, com as histórias de vida, com as
análises de trajetórias e com as biografias coletivas. O casamento entre
História Oral e histórias de vida vem se mostrando dos mais fecundos
para a pesquisa histórica. Ele permite a valorização da oralidade como
fonte, como registro e como linguagem — com o mesmo status da
linguagem escrita. Ele permite um mergulho na vida cotidiana e privada
das pessoas do grupo ou da comunidade estudada, tornando possível, ao
historiador, estabelecer uma relação entre a História e os caminhos de
vida de pessoas reais num determinado momento, num dado lugar. É
importante lembrar, no entanto, que a “história de vida” apresenta
algumas armadilhas para o pesquisador que a utiliza como fonte e
narrativa. Bourdieu faz este alerta num artigo intitulado, muito à
propósito, “A ilusão biográfica”.15
A
entrevista que recompõe a história de vida (“récit de vie”)
organiza a vida como uma história, segundo uma ordem cronológica, com
princípio, meio e fim bem definidos e, quase sempre, com um sentido, um
objetivo claro. Ora, as vidas humanas raramente têm esta organização,
este sentido claro, esta racionalidade... Ou seja, uma trajetória (noção
que substituiria a idéia de “história de vida”) só pode ser compreendida
a partir de um quadro de interações sociais. A trajetória de um
indivíduo é avaliada a partir do confronto com outros indivíduos num
determinado momento e contexto (o conceito de “campo” em Bourdieu).
.......................................................
Uma
História do Tempo Presente
Assim como
a barreira em relação às fontes orais foi vencida, uma outra barreira
foi superada pelos historiadores nos últimos anos: a da
contemporaneidade. Em certa medida, estas duas questões
(contemporaneidade e fontes orais) estão relacionadas: a reintegração do
tempo presente na História valoriza o testemunho direto, o depoimento da
experiência pessoal, o resgate da memória individual e coletiva em torno
de episódios históricos.
....................................................
O
historiador do tempo presente “contemporâneo ao seu objeto, partilha com
aqueles cuja história ele narra as mesmas categorias essenciais, as
mesmas referências fundamentais”18 podendo portanto superar a
descontinuidade que costuma existir entre o universo intelectual,
afetivo e psíquico do historiador e dos homens e das mulheres cujas
vidas ele narra, escapando do perigo do anacronismo. Alem disso, a
história do tempo presente representa o último golpe numa concepção
historiográfica sedimentada na idéia de imparcialidade, pura
objetividade, narrativa distanciada; ou seja, na crença “positivista” de
uma história isenta de subjetividade.
A história
do tempo presente reconhece o historiador comprometido com seu tempo,
com as questões do seu tempo. Reconhece seu engajamento pessoal, sua
paixão. E justamente por isso torna crucial a questão da verdade. Não
uma verdade pretensamente objetiva e imparcial (e por isso
“científica”). Mas a busca da verdade como compromisso ético moral do
historiador. Ele sabe que a verdade “total”, pura, cristalina é
impossível de ser atingida. O historiador chega a “retalhos” de verdade,
pedaços parciais. Mas a busca por esta verdade — que ele sabe que, de
certa forma, nunca será atingida — é o que o move e o faz estar atento a
qualquer forma de manipulação da narrativa histórica. Não apenas do
passado, mas também do presente.
A
motivação inicial da história do tempo presente (que, em muitos
aspectos, também se verificou em relação à história oral) foi a
necessidade de resgatar para a História algumas experiências ainda
recentes, extremamente importantes, mas com pouca documentação
disponível. Urgia criar e organizar a documentação referente a estas
experiências, que necessariamente não passariam por registros oficiais.
Entre outras, uma boa parte da experiência histórica da II Guerra
Mundial relativa ao holocausto, à resistência antifascista, às vivências
de grupos minoritários (como ciganos e homossexuais). Assim como também
(e neste aspecto a História do Tempo Presente se vinculou à perspectiva
da “história vista de baixo”), a necessidade de registrar a experiência
histórica dos trabalhadores em seus movimentos grevistas ou
comunitários.
No Brasil
— e na América Latina de forma geral — um dos grandes temas da história
do tempo presente tem sido o estudo das ditaduras militares no
continente, na segunda metade do século XX: as diversas formas de
repressão política, a experiência das esquerdas e das lutas populares de
resistência, os processos de redemocratização e as diferentes
experiências de reconstrução da institucionalidade democrática nestes
países.
A
história política renovada
Durante
muitos anos, a história política foi identificada como “factual,
subjetivista, psicologizante, idealista”19 Centrada nos grandes nomes,
nos grandes eventos, tecida em torno de fatos e datas. Na historiografia
inglesa a recuperação da história política se deu, como já discutimos
neste artigo, através do empenho da Escola Marxista Inglesa que
incorporou o tema das massas, das seitas populares, dos camponeses, dos
trabalhadores, dos movimentos de esquerda e do marxismo, produzindo uma
história política muito distante do paradigma rankeano.20
Na
historiografia francesa esta recuperação se deu através de um grupo de
historiadores que encetou um movimento intelectual de valorização e
resgate da história política. À frente do grupo, René Rémond. A obra que
é praticamente o manifesto do grupo se chama, justamente, “Por uma
História Política”. Para Rémond, o vigoroso retorno da história política
nas últimas décadas teria relação com algumas características do cenário
internacional contemporâneo: a experiência das guerras, a pressão das
relações internacionais, o desenvolvimento das políticas públicas
sugerindo uma nova relação entre economia e política, as discussões em
torno das atribuições do Estado, as demandas da opinião pública — tudo
isso teria contribuído para “dar crédito à idéia de que o político tinha
uma consistência própria e dispunha mesmo de uma certa autonomia em
relação aos outros componentes da realidade social”21
Para René
Rémond, esta nova história política trazia consigo novos temas e novos
objetos: eleições e comportamento eleitoral, mídia, opinião pública,
intelectuais, a relação entre religião e política, partidos e
associações. Esta história política renovada teria também, como
característica essencial, a interdisciplinaridade. De fato, a renovação
da história política foi grandemente estimulada pelo contato com outras
ciências sociais e pelas trocas com outras disciplinas. (...) É
impossível para a história política praticar o isolamento: ciência —
encruzilhada, a pluridisciplinaridade é para ela como o ar de que ela
precisa para respirar.22
É no
interior do campo teórico e metodológico criado pelo cruzamento destas
diferentes correntes historiográficas que se situa a história da
esquerda brasileira. Valorizada pela perspectiva da História do Tempo
Presente, tendo como tema principal a resistência à ditadura militar
levada a cabo por movimentos populares e grupos e partidos clandestinos
de esquerda; recolhendo depoimentos e organizando acervos orais com
entrevistas e testemunhos de militantes políticos; trabalhando com
disciplinas afins como a sociologia e a ciência política; recuperando a
experiência de grupos radicais e extremistas; resgatando idéias e
propostas de partidos e organizações, de movimentos alternativos como o
movimento feminista e os movimentos negros; recuperando imagens e
representações destes grupos; levantando uma volumosa massa documental
que inclui publicações da chamada “imprensa alternativa”, jornais
clandestinos, panfletos; levantando a memória de militantes de uma série
de partidos e organizações políticas que viveram praticamente toda a sua
existência em regime de clandestinidade; revelando trajetórias de vida e
biografias fortemente marcadas pelo confronto com a repressão e a
violência do regime militar.
..................................................
De uma
forma geral — e sem ter a vã pretensão de esgotar o tema — estes são os
elementos gerais que norteiam, a meu ver, uma discussão sobre a história
da esquerda brasileira. Uma história onde ainda há muito por fazer, isto
é, muitos arquivos a serem levantados, muitas questões a serem
definidas, muitos temas a serem trabalhados, muitos fantasmas a serem
superados, muitos pontos a serem esclarecidos, mas também inúmeras e
belas experiências a serem resgatadas para as futuras gerações. Porque,
afinal de contas, a história da esquerda — no Brasil e no mundo — é
também a história de uma paixão. Uma paixão capaz de mover homens e
mulheres na tentativa de mudança e de transformação das sociedades em
que vivem.
Notas
.............................................................
7
Thompson, E. P. A formação da classe operária inglesa. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1987.
Vol I, p. 10.
8 Gramsci, Antônio.
Os intelectuais e a
organização da cultura.
Civilização Brasileira: Rio de Janeiro, 1982.
10 Sharp,
Jim. A História vista de baixo. In Burke, Peter (Org.). A
escrita da História. São Paulo: UNESP, 1992. p. 40.
14 No
Brasil, o Centro de Pesquisa e Documentação da Fundação Getulio Vargas (CPDOC/FGV)
foi pioneiro neste trabalho criando, na década de 1970, um setor de
História Oral. A partir daí, outros centros deste tipo têm sido criados
junto a universidades e instituições de pesquisa: arquivos de memória,
acervos de entrevistas etc. Um tipo de documentação que se expressa na
oralidade e que se registra pela fita de gravador (mais recentemente,
também, pela fita de vídeo). Nossa linha de pesquisa vem organizando o
acervo “Memórias de Esquerda”.
15 Bourdieu, Pierre. L’illusion biographique. Actes de la Recherche en
Sciences Sociales, juin, 1986.
Reproduzido no livro Usos e abusos da História Oral, já citado.
........................................................
18
Ferreira, Marieta e Amado, Janaína. Usos e abusos da História Oral.
Rio de Janeiro: FGV, 1996
19 Rémond,
René. Por uma História Política. Rio de Janeiro: UFRJ/FGV, 1996.
p. 18.
20 Por
“paradigma rankeano” entende-se o paradigma tradicional da história
desenvolvido e sintetizado por Leopold von Ranke: a história como uma
visão “de cima”: os grandes feitos de grandes homens; o estudo da vida
de monarcas, estadistas, generais e sempre baseada em documentos
escritos.
21 Rémond, René Op.cit. p. 23.
22 Idem.
p. 29.
............................................................
*******************************************************
(Trabalho
feito em 1995 com finalidades
para-didáticas, ainda não publicado)
para compreender
OS SINDICATOS NO BRASIL
Waldemar Rossi
e
William
Jorge Gerab
........................................................
1-3- AS PRIMEIRAS LUTAS
A nova
classe operária não sabe como resistir, a não ser individualmente, pela
revolta ou pela bajulação visando minorar seus sofrimentos. As revoltas
são punidas pelas demissões, não apenas dos revoltosos, mas de todas as
suas famílias. Os bajuladores sofrem humilhações.
Depois de
anos de exploração, começam a surgir as primeiras resistências
organizadas; fruto da influência dos ideais socialistas e libertários,
que proliferavam cada vez mais pela Europa e que levaram, entre outros
acontecimentos, à Comuna de Paris em 1871 e, mais tarde, à Revolução
Russa de 1917.
As
pequenas lutas organizadas, com a paralisação das fábricas e casos de
quebra-quebra das máquinas levam a muitas pequenas vitórias. A nova
classe burguesa entretanto se organiza para se contrapor aos
agrupamentos dos trabalhadores, impondo-lhes novas derrotas. Por
exemplo: o trabalhador demitido é denunciado às empresas da região que
passam a negar-lhe trabalho.
Isso
obriga a novos avanços da organização dos trabalhadores. Das pequenas
organizações, isoladas nas fábricas, passam a surgir organizações
inter-fábricas dando origem, ao longo do tempo, ao surgimento do
Sindicato que, coordena e comanda as organizações fabris em sua luta
contra a exploração patronal. Esse processo ganha corpo em pleno século
XIX.
....................................................................................
1-4- SURGIMENTO DO SINDICALISMO NO BRASIL
Em relação
ao movimento sindical europeu, o Brasil tem, pelo menos, cem anos de
distância. Até fins do século XIX nossa produção era, quase que somente,
agrícola - voltada para a exportação de açúcar, café, tabaco, ouro etc..
A
Inglaterra dominava o comércio internacional e impedia a implantação de
indústrias no Brasil, cujos produtos agrícolas adquiriam, também,
através da troca de ferramentas e outros utensílios, produzidos por
suas indústrias. No Brasil existiam apenas oficinas de conserto ou
produção artesanal.
A
proibição do tráfico internacional de escravos e o fim da escravidão, no
Brasil, forneceriam alguns dos elementos necessários para o início da
industrialização brasileira. Essas e outras mudanças no cenário
internacional movem os fazendeiros a aplicar o dinheiro que usavam na
compra de escravos para aquisição das máquinas que deram origem às
fábricas de tecidos e industrialização de alimentos.
1-4-1-
A EXPERIÊNCIA DOS IMIGRANTES
Porém, os
trabalhadores brasileiros não tinham experiências nesse tipo de
produção. Esse problema foi resolvido com um amplo programa de imigração
envolvendo os operários europeus, principalmente italianos e espanhóis,
mas também, alemães, eslavos etc. , que enfrentavam crise de desemprego
em seus países de origem.
Tais
imigrantes trazem as suas experiências na arte da produção industrial e
também das lutas operárias. São eles que iniciam o processo de
enfrentamento contra a exploração patronal, empunhando as bandeiras das
8 horas diárias de trabalho e das leis específicas para o trabalho da
mulher e dos menores. Relatos de 1901 revelam que haviam inúmeras
crianças, cujas idades partiam dos 5 anos, trabalhando nas fábricas e
sem proteção alguma.
Portanto,
as marcas do sindicalismo brasileiro, no fim do século passado e nas
primeiras décadas deste século, são das origens socialistas e
anarquistas dos imigrantes europeus.
1-5- as GREVES
Há
registro de greves antes da era industrial (A.C.O.)1:
-1791
- dos Trabalhadores nas oficinas das Casas de Armas (Rio)
-1815
- dos Pescadores (Recife)
-1858
- dos Gráficos (Rio)
-1863
- dos Ferroviários (Rio)
-1877-
dos Carregadores (Santos)
No
entanto, é a partir de 1880 que começam a surgir e a proliferar as
greves nas fábricas das primeiras cidades operárias brasileiras: São
Paulo, Rio e Recife.
Esse
período de lutas se estende, sempre com mais força até 1930, quando
Getúlio Vargas chega ao poder.
Como vimos
no início deste livro, o sindicalismo é o resultado da acumulação das
experiências adquiridas pelos trabalhadores, nas suas lutas contra a
exploração patronal. As derrotas e vitórias, assim como o avanço da
organização patronal, exige das lideranças operárias, a busca constante
de novas formas de organização.
Podemos
simplificar afirmando que, também no Brasil, os embriões dessa
organização se desenvolvem dentro das fábricas, extrapolam para
organizações inter-fábricas e de caráter de classe.
Em 1905 é
criada a FOSP (Federação Operária de São Paulo). Já, em 1906, o Rio
sedia o 1º Congresso Operário Brasileiro, que chegou às seguintes
definições:
a)
organização federativa e não centralizada.
b)
sindicalismo de resistência e não assistencialista.
c)
combate ao parlamentarismo: o fundamental é a ação direta da classe
operaria.
d)
luta contra as proposta dos agentes do governo e da igreja.
e)
formar a COB (Confederação Operária Brasileira).
Em 1913 a
COB organiza o 2º Congresso Operário Brasileiro. Dois anos depois, em
1915, surge o Comitê de Defesa Proletária, que lidera a grande greve de
1917. Segundo Ricardo Maranhão, na sua obra "Brasil História", a greve
paralisa São Paulo totalmente e a violência patronal se dá com a entrada
em cena da polícia, com seus veículos, fuzis e metralhadoras,
requisitada que fora pela Cia Antártica e demais indústrias. Tiroteios e
barricadas faziam o cenário nos bairros fabris do Brás, Mooca, Barra
Funda e Lapa. Foi um grande confronto, que colocou frente a frente o
movimento operário e a classe dominante, sendo que esta última se
utilizou de um forte aparato repressivo do Estado.
1-5-1- A GREVE De 1917
1917 foi
sem dúvida de intensa agitação, não apenas em São Paulo onde os comícios
e passeatas juntaram em torno de 80 mil pessoas. O Rio e Recife tiveram
inúmeros movimentos grevistas, a tal ponto que leva o governo a decretar
Estado de Sitio no do Rio de Janeiro, proibindo as greves e fechando
sindicatos. As greves de São Paulo tem um final vitorioso, conquistando
aumento salarial de 20%, a não dispensa de operários, enquanto o
governador e o prefeito da cidade se comprometem a fiscalizar as
condições de trabalho das mulheres e menores, a combater os aumentos de
preços dos gêneros alimentícios e a libertar os operários presos. No
entanto, a polícia deixa sua marca de violência, com o assassinato do
sapateiro Antonio Martinez.
A
violência governamental e patronal vai aumentando daí pra frente. Há
relatos de mortes de operários, em São Paulo e Campinas. O Estado de
Sítio marcou a década de 20 e a repressão vai destruindo as organizações
operárias (Mendes Jr)17.
1-6- AS
PRIMEIRAS LEIS TRABALHISTAS
-Em
1919: é aprovada na Câmara Federal a lei sobre acidentes de trabalho;
-Em
1923: foi constituído o Conselho Nacional do Trabalho. Tinha como função
elaborar anteprojetos de leis sobre o trabalho;
-Em
1925: Surge a lei que concede 15 dias de férias anuais;
-Em
1926: A primeira lei que regulamenta o Trabalho do Menor.
Ao lado
dessas vitórias operárias, há o constante esforço do governo em reprimir
a liberdade dos trabalhadores, se contrapondo ao decreto de 1890 que
garantia o direito de greve.
Assim em
1924, surge um novo decreto anti-operário conhecido como Lei Infame.
1-7- AS
DIVERGÊNCIAS POLÍTICAS
Com a
fundação do Partido Comunista em 1922, cresce a disputa pela hegemonia
política no movimento sindical que já envolvia os anarquistas e
católicos. Somando-se às repressões patronal e do governo essa disputa
enfraquece enormemente a luta dos trabalhadores daquela época que se
encerra em 1930 com a ascensão de Getúlio Vargas.
............................................................
bibliografia
1-
AÇÃO CATÓLICA OPERÁRIA (A.C.O.)
História
da classe operária no Brasil (6 cadernos) Rio de Janeiro Comissão
Nacional de Publicações da A.C.O. 1985 a 1996.
10-
HUBERMAN, Leo História da riqueza do homem 8ª ed. Rio de Janeiro Zahar
1972.
17-
MENDES JR., Antonio & MARANHÃO, Ricardo Brasil história São Paulo
Editora Brasiliense 1979.
*******************************************************
Coleção
História do Marxismo no Brasil
Volume 5:
Partidos e
organizações dos anos 20 aos 60
Orgs.:
Marcelo Ridenti e Daniel Aarão Reis Filho
Editora da
UNICAMP
O
Marxismo no Brasil: múltiplas trajetórias, utopias, decepções e
contribuições
Resenha
de ANTONIO OZAÍ DA SILVA
História do Marxismo no Brasil
(Volume V), organizado por Marcelo Ridenti e Daniel Aarão Reis Filho,
trata dos partidos e organizações dos anos 1920-1960. Nos seis capítulos
que compõem O livro, aborda-se, de maneira sucinta, a história das
esquerdas marxistas no Brasil: o Partido Comunista do Brasil (PCB), o
trotskismo, o Partido Socialista Brasileiro (PSB), a Organização
Revolucionária Marxista-Política Operária (ORM-POLOP) e a Ação Popular
(AP).
Inicialmente, Marcos del Roio analisa a atuação dos comunistas,
nas décadas de 1920-1940. Trata-se dos primeiros passos do Partido
Comunista: as dificuldades objetivas e subjetivas em se firmar enquanto
organização política autônoma dos trabalhadores; as debilidades
teóricas, próprias da nossa exígua tradição marxista (ao contrário dos
congêneres europeus – onde, em geral, os partidos comunistas surgiram de
cisões da social-democracia –,o comunismo brasileiro deita raízes no
anarquismo, com o partido se constituindo a partir da conversão de
militantes libertários, influenciados pela Revolução Russa, ao
bolchevismo); a interferência do movimento comunista internacional,
através do Bureau Sul-Americano, que resultou no afastamento do grupo
dirigente original (Astrogildo Pereira,Octávio Brandão e Cristiano
Cordeiro), abortando os esforços, particularmente de Octávio Brandão, em
formular uma teoria da revolução brasileira; e, as relações conflituosas
com o positivismo, o liberalismo e o prestismo. O período analisado pelo
autor abrange as origens, consolidação e o quase aniquilamento do
Partido Comunista, vítima da onda repressiva durante o Estado Novo
getulista.
Segundo a
tradição egípcia, existiu uma ave mitológica que vivia por séculos e,
mesmo queimada, ressurgia das cinzas. Esta ave maravilhosa é conhecida
como Fênix. Seu nome passou a ser usado enquanto sinônimo de
persistência, tenacidade, referência às pessoas e instituições que
sobrevivem às mais duras provas. Assim foi o Partido Comunista em vários
momentos da sua história. Nos idos dos anos 1940, renascido das cinzas,
tal qual a Fênix, o partido cresce excepcionalmente, tornando-se um
partido de massas, com considerável influência sobre a política
brasileira. Este período, marcado pelos estertores do regime varguista,
o final da II Guerra Mundial, e a reconquista da liberdade e da
democracia no Brasil, termina com o golpe militar de 1964. Nesta fase o
PCB conquistou a legalidade, e perdeu-a, cassado no clima da “guerra
fria”; teve inflexões à esquerda e à direita, oscilando entre uma
política de colaboração e alianças de classes a uma retórica esquerdista
e revolucionária para, nos anos 50, com a Declaração de Março, se
definir pelo caminho pacífico da revolução brasileira. Todo este
percurso tortuoso é analisado por Daniel Aarão Reis Filho.
Da
aurora de todos os sonhos (a redemocratização do Brasil a partir de
1945), à longa noite sombria (iniciada com o despotismo militarista de
1964), o PCB se bateu entre reforma e revolução. Este é o mote deste
segundo capítulo. É um período que, guardada as devidas proporções
conjunturais e históricas, nutre semelhanças com o processo de lutas
sociais de finais de anos 70 e inícios dos anos 1980, com a reconquista
das liberdades democráticas, o crescimento do movimento sindical e
popular e o surgimento de uma organização política dos trabalhadores,
que se afirma como novidade, mas que também incorpora a herança
histórica do passado pecebista e das esquerdas marxistas.
No
terceiro capítulo, Dainis Karepovs e José Castilho Marques
Neto resgatam a trajetória dos trotskistas brasileiros, das origens
aos anos 1966. O trotskismo se caracterizou por historicamente se
restringir a pequenos agrupamentos sem inserção de massas, em geral
composto por intelectuais e estudantes. Contudo, o trotskismo também se
caracteriza por sua radicalidade e capacidade de interpretar a realidade
social brasileira. Segundo os autores, isto permitia aos trotskistas
“observar e enunciar realidades que escapavam a outras organizações
políticas contemporâneas.” O trotskismo contribuiu ainda para romper com
o monolitismo do partido único, dando um caráter pluralista à historia
do movimento operário e fornecendo chaves teóricas para a discussão dos
impasses e derrotas dos projetos da esquerda. (pp. 103-04)
As raízes
do trotskismo brasileiro estão nas polêmicas e enfrentamentos no seio do
Partido Comunista da União Soviética e na III Internacional. A derrota
de Leon Trotsky, o profeta assassinado, determinou a reconfiguração do
movimento comunista internacional com a formação da Oposição
Internacional de Esquerda e, posteriormente, a IV Internacional.
É neste contexto que Mário Pedrosa e outros militantes assumem a tarefa
de construir a alternativa trotskista no Brasil. Os autores analisam as
contribuições e dificuldades desta primeira geração de trotskistas e das
posteriores: suas formulações teóricas, a difícil convivência com os
comunistas do tronco pecebista e seus embates internos, influenciados
pela conjuntura nacional e pelas polêmicas no interior da IV
Internacional.
Chegamos
ao capítulo 4, escrito por Margarida Luiza de Matos Vieira. A
autora estuda a contribuição do Partido Socialista Brasileiro, no
período 1947-1965. um primeiro elemento que chama a atenção é que o PSB
não se afirmava como um partido marxista, embora influenciado pelo
pensamento de Karl Marx e de outros teóricos marxistas. O PSB reconhecia
esta contribuição e se pretendia um espaço aberto a todos que desejassem
lutar por uma sociedade fundada no socialismo e na liberdade. No PSB,
mescla-se o socialismo democrático, desvinculado da tradição stalinista,
com um socialismo inspirado no pensamento de Rosa Luxemburgo, e uma
concepção liberal sobre o Estado e a sociedade.
Analisando
o programa do PSB, sua prática política e sua trajetória, a autora
conclui que o mesmo se constituiu num “partido-semente”, agitador de uma
nova concepção política e cultural que deu base a um projeto de
cidadania coletiva que, ao contrário dos projetos dos liberais orgânicos
e mesmos dos comunistas, combinava as dimensões políticas e sociais da
democracia.” (pp. 181-82)
Também
aqui, é possível verificar semelhanças com o Partido dos Trabalhadores,
em especial na fase da sua formação e nos primeiros anos. Em ambos
confluíram várias vertentes do pensamento social. Também o PT assumiu-se
como alternativa ao marxismo oficial do PCB e ao trabalhismo e,
especialmente a partir do seu VI Encontro Nacional, no clima da queda do
muro de Berlim, assumiu a democracia como centro da sua política,
propugnando um resgate do socialismo democrático. Como o PSB do período
estudado na obra, o PT terminou por enfatizar a estratégia eleitoralista,
reservando para o socialismo o lugar das calendas.
A
radicalização do movimento social nos anos 1960 gerou condições
propícias para o surgimento de uma esquerda desvinculada tanto da
tradição stalinista quanto da alternativa trotskista atuante à época, o
Partido Operário Revolucionário (POR). Nesta conjuntura, acrescenta-se
mais um ingrediente: o crescimento da esquerda católica, em especial no
movimento estudantil. É neste contexto que surgem as duas organizações
políticas analisadas, respectivamente, por Marcelo Badaró Mattos
e Marcelo Ridenti: a POLOP e a AP.
Para a
formação da POLOP convergiram militantes descontentes com o reformismo
do PCB, setores radicalizados da Juventude Socialista do PSB
(Guanabara), parte da Juventude Trabalhista (em Minas Gerais) e outros
marxistas independentes. Em sua formação inicial participaram militantes
destacados na política e na intelectualidade brasileira: Theotônio dos
Santos, Moniz Bandeira, Ruy Mauro Marini, Juarez Guimarães, Emir e Eder
Sader, Michel Lowy e Eric Sachs, mais conhecido pelo pseudônimo de
Ernesto Martins. A POLOP também é reflexo de uma dissidência a nível
internacional, que se distanciara tanto do stalinismo quanto do
trotskismo. Neste sentido, seus militantes bebem em fontes
luxemburguistas e no pensamento de autores poucos conhecidos no Brasil,
como Brandler e Talheimer.
O autor do
capítulo sobre a POLOP, intitula-o, apropriadamente, Em busca da
revolução socialista: a trajetória da POLOP (1961-1967). Com efeito,
a ORM-POLOP é a primeira organização marxista, depois dos trotskistas,
que apresenta uma análise da revolução brasileira contestatória à
concepção etapista hegemonizada pelo stalinismo e propõe um Programa
Socialista para o Brasil. O autor analisa esta contribuição para o
debate no seio das esquerdas, suas origens, composição, inserção nos
movimentos sociais e faz um breve balanço.
O caso da
Ação Popular é singular. Trata-se da síntese construída nos anos 60
entre o marxismo e o cristianismo. O estudo das origens da AP, suas
propostas e sua trajetória peculiar nos ajuda a compreender
subjetividades, potencialidades e contradições de projetos societários
construídos historicamente. As relações entre religião e política, ou
mais precisamente, entre religião e marxismo, permanecem como um
mistério a ser desvendado: até que ponto a política é sacralizada? Até
onde podemos falar em secularização da religião num sentido político?
O estudo
desta experiência nos ajuda a entender esta difícil relação que, diga-se
de passagem, não se restringe ao Brasil: esquerda católica e marxismo se
mesclam em toda a América Latina. Retornando com força nos anos 1980, a
partir da atuação das pastorais e Comunidades Eclesiais de Base fundadas
na teologia da libertação, e também devido à experiência da revolução
nicaragüense, é um fenômeno que mantém atualidade.
Neste
capítulo, o autor também analisa as influências das revoluções cubana e
chinesa e a tensão vivenciada pelos militantes da AP entre um humanismo
cristão em vestes marxistas e a plena adesão ao ideário marxista, cujo
significado pode ser medido por quem experimentou crises religiosa,
pois, em última instância, trata-se da negação, não apenas da religião,
mas da própria idéia de Deus. Crise semelhante vivenciaram os comunistas
quando na década de 1950, tiverem que romper com o mito de Stalin, a
partir das denúncias dos seus crimes. A questão é emblemática: nestes
casos pode-se falar em superação plena da religião ou seria o caso de
pensarmos num sacerdócio racionalista e secular, fundado em símbolos e
na militância marxista. Com isto, sugerimos temas indicados pela
leitura; o objetivo do autor, é claro, é analisar a experiência política
da AP, das suas origens à sua completa dissolução nos anos 1980.
Sabemos
que boa parte dos militantes da AP terminaram por abraçar a idéia de que
o partido do proletariado é único e, nos debates do período,
pareceu-lhes que este partido era o Partido Comunista do Brasil
(observemos que vários dirigentes deste partido são originários da AP).
Os organizadores da História do Marxismo anunciam que o próximo volume
da História do Marxismo tratará, entre outros temas, do Partido
Comunista do Brasil. Está ótimo! Porem, em nossa singela opinião, o
presente volume, pelo período abordado, seria o espaço mais apropriado,
pois, forneceria um quadro mais abrangente das esquerdas até os anos
1960.
Sabemos
que a História do Marxismo é uma longa história. Quando, nos anos 1980,
o prestigiado historiador Eric J. HOBSBAWM organizou a História do
Marxismo, em âmbito internacional, abriu-se a possibilidade de
compreensão desta história sem os maniqueísmos, sectarismo e dogmatismos
presentes na trajetória dos marxistas. Como escreveu HOBSBAWM,
prefaciando o primeiro volume da série:
“Comecemos
pelo pressuposto evidente de que a História do Marxismo não pode ser
considerada como algo acabado, já que o marxismo é uma estrutura de
pensamento ainda vital e sua continuidade foi substancialmente
ininterrupta desde o tempo de Marx e Engels”. (1983: 13)
Um projeto
com esta amplitude só teria sucesso se partisse do princípio de que o
marxismo deve ser tratado no plural, como também os temas e os autores
devem respeitar este pluralismo. Neste sentido, o correto é mais correto
nos referirmos aos marxismos e não propriamente ao marxismo, no
singular. Como bem salientou Carlos Nelson Coutinho:
“Ao
admitir o fato real do pluralismo nas investigações marxistas, não se
está admitindo um relativismo vulgar ou um ecletismo anticientífico. O
que está é se constatando outro fato real: que também no interior do
marxismo, a busca da verdade não pode fugir à explicitação ampla e
democrática de um debate aberto, de um livre confronto de idéias.”
(Id., da apresentação)
Tudo isto
parece óbvio, não fosse a tradição sectária, dogmática e autoritária
presente no movimento comunista. Não por acaso, o próprio Marx recusou a
alcunha de marxista. [1] Não esqueçamos que nos tempos sombrios as
divergências eram superadas de uma forma abominável: pelo aniquilamento
físico (Trotsky e os militantes dos POUM, durante a guerra civil
espanhola, são exemplos clássicos desta triste memória histórica).
Tempos em que se proibia a amizade, namoro ou qualquer tipo de
aproximação com os inimigos da classe operária, ou seja, os
trotskistas. Prevalecia a lógica da política amigo-inimigo.
Portanto,
um dos aspectos mais relevantes desta História do Marxismo no Brasil,
desde o seu primeiro volume, é o tratamento pluralista dos temas,
seguindo a trilha aberta pela obra organizada por Hobsbawm.[2] O leitor
mais jovem ou menos afeito à política marxista, no passado e no
presente, pode até mesmo considerar natural tamanho pluralismo. Mero
engano! Em outros tempos não muito longínquos, uma obra com estas
características seria impensável e impraticável. Recordo-me por exemplo,
das dificuldades que tive quando, nos anos 1980, encetei a saborosa
aventura de escrever a História das Tendências no Brasil. À
época, ainda sob o rescaldo da ditadura militar, este era um tema tabu:
muitos se recusaram a falar sobre ele; outros nutriam uma desconfiança
política-ideológica (afinal, era um jovem sem militância nas
organizações tradicionalmente vinculadas ao marxismo); desconfiança no
tocante à segurança (ainda se tentava superar os insuperáveis
sofrimentos da ação repressiva e da clandestinidade). A todas estas
dificuldades, perfeitamente compreensíveis, juntava-se a exígua
disponibilidade de fontes bibliográficas.
Em
compensação, o raiar da liberdade aguçou o espírito da nova geração
sedenta de saber [3] ; uma geração sem militância nas organizações
tradicionalmente vinculadas ao marxismo e que estavam sujeitas a um
anticomunismo velado ou explícito, seja no interior de organizações como
o PT, em movimentos pastorais ligados à Teologia da Libertação, no
movimento sindical e social em geral. Nunca esqueço os conselhos
para que me afastasse de determinado indivíduo, porque este cometia o
grave pecado de ser comunista.
Minha
geração, em sua maioria, desconhecia a História do Marxismo. E os
marxistas não contribuíam muito para se fazerem conhecer. Reduzidos às
organizações sobreviventes do ciclo ditatorial apegavam-se em demasia a
uma retórica que dificultava a aproximação dos que ainda não haviam se
iniciado nos mistérios da militância
em tendências. Tratava-se
de marcar posição, ocupar as trincheiras e fazer valer suas verdades.
Este clima favorecia o sectarismo, mas não anulava os movimentos de
tentativa de converter as consciências e conquistar novos quadros. Eram
verdadeiros assédios às consciências em formação.
Converter-se pressupunha conhecer – sob o risco de se tornar um
papagaio, repetidor de fórmulas e discursos políticos memorizados pelas
leituras fáceis e a doutrinação dos líderes. E mesmo os não convertidos,
pouco a pouco, se deram conta de que era preciso conhecer os marxistas,
ainda que com o objetivo de melhor combatê-los. Num e noutro caso, o ato
de conhecer estava vinculado ao agir, à militância.
Embora a
época atual testemunhe, para muitos, a crise das utopias e o interesse
acadêmico prevaleça sobre a curiosidade militante, pensamento que se faz
ação, a obra História do Marxismo no Brasil é uma contribuição
fundamental a quem deseje conhecer a trajetória dos partidos e
organizações de inspiração marxista. Hoje, quando o Partido dos
Trabalhadores governa cidades e Estados e se credencia para dirigir o
país, torna-se fundamental retomar e aprender com a história. A
História do Marxismo também cumpre este papel. Seja por objetivos
acadêmicos, seja por desígnios militantes, é essencial conhecermos o
nosso passado histórico.
[1] HAUPT
analisa as origens dos termos marxismo e marxista e mostra
sua evolução, da singularidade à pluralidade. (Ver: HAUPT, Georges.
Marx e o marxismo. In: HOBSBAWM, Eric J. (org.) História do
marxismo. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1980. Vol. 1, pp. 347-75).
Também BATALHA, no volume 2 de História do Marxismo no Brasil, resgata
este tema. (Ver: BATALHA, Cláudio H. M. A difusão do marxismo e os
socialistas libertários na virada do século XIX. In: MORAES, João
Quartim de (Org.) História do Marxismo no Brasil – Volume II: Os
influxos teóricos. Campinas-SP, 1995, Editora da Unicamp, 1995, pp.
11-15).
[2] A
idéia de elaborar uma História do Marxismo no Brasil surgiu a partir das
discussões do Grupo de Trabalho Partidos e Movimentos de Esquerda,
vinculado à Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa
em Ciências Sociais
(ANPOCS), criado em 1982 pelos professores Marco Aurélio Garcia,
Paulo Sérgio Pinheiro e Leôncio Martins Rodrigues. O primeiro volume de
História do Marxismo no Brasil foi lançado em 1991 (Rio de
Janeiro, Paz e Terra). Esta obra, dividida em seis capítulos, trata do
impacto das revoluções sobre o movimento operário brasileiro, com
artigos de: Evaristo de Moraes Filho, João Quartim de Moraes, Michel
Zaidan, Daniel Aarão Reis Filho, Raimundo Santos e Emir Sader. A partir
do Volume II, a obra passou a ser publicada pela Editora da Unicamp. Os
organizadores da obra planejam o lançamento do volume VI, que tratará da
trajetória do PCB após o golpe militar de
1964, a
(re) organização do Partido Comunista do Brasil (PC do B), as
experiências da esquerda armada, os trotskistas nos anos pós-1966 e os
marxistas no partido dos trabalhadores. Enquanto aguardamos ansiosamente
a publicação da obra, sugiro ao leitor a seguinte bibliografia:
FREDERICO, Celso. A
Esquerda e o Movimento Operário (três volumes: o primeiro, de 1987,
editado por Edições Novos Rumos, São Paulo; os outros dois foram
publicados pela Oficina de Livros, de Belo Horizonte, 1990 e 1991,
respectivamente)
GORENDER, Jacob.
Combate nas Trevas – A esquerda brasileira: das ilusões perdidas à luta
armada. São Paulo, Ática, 1987
KECK, Margareth E.
PT: A lógica da diferença – O Partido dos Trabalhadores na construção da
democracia brasileira. São Paulo, Ática, 1991.
PORTELA, Fernando.
Guerra de Guerrilhas no Brasil. São Paulo, Global, 1986.
REIS Fº, Daniel Aarão
Reis. A Revolução faltou ao encontro – Os comunistas no Brasil.
São Paulo, Brasiliense, 1990.
REIS Fº, Daniel Aarão e
SÁ, Jair Ferreira de. (Orgs.) Imagens da Revolução: Documentos
políticos das organizações clandestinas de esquerda dos anos 1961-1971.
Rio de Janeiro, Editora Marco Zero, 1985.
SILVA, Antonio Ozaí da.
História das Tendências no Brasil (Origens, cisões e propostas).
São Paulo, Proposta Editorial, s.d.
__________. Os
partidos, tendências e organizações marxistas no Brasil (1987-1994):
permanências e descontinuidades. (Dissertação de Mestrado
apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciência Sociais da PUC/SP,
sob orientação de Maurício Tragtenberg, em março de 1998)
[3] Um
exemplo que ilustra esta sede de conhecimento sobre o marxismo foi a
aceitação que teve o História das Tendências no Brasil, publicado
em 1986/87. A primeira edição, em formato Jornal-Livro,
teve a tiragem de cinco mil exemplares; a segunda edição, formato livro,
foram dez mil. Sem contar com propaganda ou grandes esquemas de
distribuição, as edições esgotaram-se. Deve-se registrar o trabalho de
vários amigos e companheiros (que levavam os livros em suas bagagens
para os eventos que ocorriam à época), o trabalho do Centro Pastoral
Vergueiro (CPV), na verdade, o maior centro distribuidor para o
movimento operário e popular; e, a contribuição da Editora Ensaio, que
distribuiu o livro no chamado circuito comercial. Este registro não é
uma necessidade do ego, mas apenas para ilustrar o clima da época no
tocante ao tema.
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BIBLIOTECA VIRTUAL
da
História do Marxismo no Brasil
Da Declaração de
Março de 1958
ao Golpe de 1964.
A Tese essencial da
Declaração de Março de 1958 era de que a revolução no Brasil ainda não
seria socialista, mas anti-imperialista e anti-feudal, nacional e
democrática. Tal caracterização implicava na necessidade de formação de
uma frente única nacionalista e democrática. Defendia ainda, o caminho
pacífico da Revolução brasileira, pela pressão pacífica das massas
populares e de todas as correntes nacionalistas no sentido de fortalecer
e ampliar o setor nacionalista do governo de Juscelino Kubistheck. Tais
orientações refletiam a orientação da nova política adotada no XX
Congresso do PCUS (1956). A Plataforma incluía ainda, um importante
ponto: "consolidação e ampliação da legalidade democrática". Esta será a
plataforma que servirá de base para as Teses para o Vº Congresso,
ocorrido em 1960.
No entanto, no plano
internacional, tanto a Revolução Socialista em Cuba, quanto a ruptura
China/URSS tornam pertinentes para a Esquerda Brasileira questões que
apontavam em sentido aposto, tais como a necessidade da revolução armada
e da destruição do aparelho de Estado, ou ainda, a discussão sobre o
lugar e/ou papel do partido, uma vez que em Cuba a revolução se fizera à
revelia do PSP. O desenvolvimento de tais questões, forjará o
aparecimento, na década de 60, de uma "nova esquerda" : surgem a AP
(1962); POLOP (1961); MRT; PC do B (1962).
O encerramento do
período é dado pelo golpe militar. O fato, deixa claro os equívocos do
PCB que, na ocasião, preparava o seu VI Congresso pensado para novembro
daquele ano. A linha do PCB passa a ser criticada como resposta
equivocada aos problemas colocados pela conjuntura.
Revista
Teoria & Debate Nº. 1 (dez/87)
Resenha
Combate
nas Trevas
A
Esquerda Brasileira: Das Ilusões Perdidas à Luta Armada,
(de Jacob
Gorender, Editora Ática, 290 p.)
por
MARCO AURÉLIO GARCIA
............................................................................
O livro de
Jacob Gorender, Combate nas Trevas - A Esquerda Brasileira: das
ilusões perdidas a luta armada, vai contribuir para que esta
curiosidade seja em boa parte satisfeita. Gorender foi até 1967
dirigente do Partido Comunista Brasileiro, tendo com ele rompido para
formar o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR). Em 1970 foi
preso, torturado, tendo ficado quase dois anos nos cárceres da ditadura.
A partir
de sua vivência e recordações, mas, sobretudo, de uma vasta pesquisa em
livros, documentos de organizações e da realização de dezenas de
entrevistas, o autor pôde reconstituir a trajetória dos partidos e
grupos de esquerda, sobretudo no período que vai de 1964 até 1974, ano
em que a esquerda brasileira se encontrava mergulhada em sua mais grave
crise, depois de ter sido esmagada pela repressão da ditadura.
Um dos
pontos importantes da reconstituição de Gorender é o lugar dado ao
período pré-64, particularmente à intensa fase das lutas populares entre
1961 e 1964, quando grandes contingentes de operários, estudantes,
camponeses e setores de classe média, sem falar nos sargentos e alguns
segmentos da própria oficialidade das Forças Armadas, movimentaram-se
pela consecução das chamadas "Reformas de Base", um conjunto de
reivindicações apresentadas como capazes de promover um desenvolvimento
econômico com maior distribuição de renda e aprofundar a democracia no
país. A derrota da esquerda e dos movimentos populares em 64 acabou por
generalizar a impressão de que o movimento nesse período não tinha tido
a relevância que se dizia, ou, no melhor dos casos, era excessivamente
superficial. Depois de ler os capítulos que o autor dedica a esta fase,
a análise sobre ela terá de ser mais judiciosa.
Mas esta
primeira parte tem como função básica introduzir elementos de
compreensão para o que vem depois.
Entre 1964
e 1968, a despeito da perplexidade e mesmo de reações primárias de
certos setores da esquerda frente ao golpe, criam-se condições para uma
intervenção desta em alguns movimentos sociais de grande importância,
como é o caso do movimento operário e do estudantil, ambos granjeando
simpatias junto a camadas das classes médias que se sentiam ludibriadas
pelos militares.
O grande
derrotado na esquerda é o PCB, e do seu interior, principalmente, vão
surgir muitas das organizações que começarão a atuar nesse período,
algumas com claras definições pelo desencadeamento a curto prazo de
ações militares contra o governo. Num outro cenário desenvolve-se,
igualmente, uma crise no interior dos grupos que deram ou apoiaram o
golpe. O resultado deste último enfrentamento é o fechamento de 13 de
dezembro de 68 (o AI-5), quando o governo cria as condições, entre
outras coisas, para reprimir a esquerda com toda a impunidade. Gorender
mostra como modificam-se as condições de luta. A esquerda corta-se das
massas, mas continua a apostar na iminência da crise do capitalismo
brasileiro, que criaria condições para a luta revolucionária (tida como
sinônimo de luta armada). O período que vai de 68/69 até 74 é o
desmantelamento total da esquerda revolucionária, o que o Estado
consegue através de uma política de utilização sistemática da tortura.
Talvez
fosse importante que Gorender enfatizasse mais o fato de que a derrota
da esquerda - da nova e da velha - não se deve tanto à repressão, que
foi violenta, mas tem de ser creditada em muito aos próprios erros das
organizações. Ele tem presente este fato, e o afirma muitas vezes, mas
alguns aspectos ficam a nos exigir maior aprofundamento. Por exemplo, em
que medida o fracasso não se deve ao fato de que a ruptura da nova
esquerda com a velha foi mais aparente do que real, não só quanto à
caracterização de seu projeto de revolução, como por sua incapacidade de
repensar o problema do partido político, elitista e messiânico, e pela
ausência de uma reflexão mais de fundo sobre o problema da democracia.
Estas
discussões têm uma importância particular para o PT hoje. No interior do
partido militam milhares de companheiros vindos dessas organizações de
esquerda. Uma grande maioria não chegou a realizar um ajuste de contas
com seu passado. Coisa que o livro de Gorender em muito contribuirá para
que ocorra. Somente isto já aconselha sua leitura e, sobretudo, sua
discussão.
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Revista
Brasil Revolucionário Nº 20 (nov/dez/jan-1996)
Especial
GUERREIRO da Grande Batalha
A História de Mário Alves
por Otto
Filgueiras, jornalista
.........................................................
A crise
da democracia burguesa no Brasil e do stalinismo na URSS.
.........................................................
A posse de
Jânio Quadros na Presidência da República e sua renúncia sete meses
depois inauguravam um período de turbulência na vida política nacional.
Jucelino Kubistchek deixara o Brasil endividado externamente e a
inflação disparou. O governo João Goulart vacila em fazer as
transformações que o país necessitava e concilia com as forças
conservadoras que se opunham à reforma agrária e a um modelo de
desenvolvimento independente e auto-sustentável. Brasília era a nova
capital da República, mas os comunistas concentravam-se no Rio de
Janeiro, o coração da pátria. Gorender morava com a família no bairro do
Engenho Novo, zona norte do Rio, Mário Alves em Botafogo e Apolônio,
em Laranjeiras.
Freqüentavam
as casas um dos outros e trabalhavam juntos na Secretaria Nacional de
Educação do PCB, uma espécie de escola superior de política que
realizava cursos e debates em todo o Brasil sobre a realidade
brasileira, o marxismo e agitava a militância do partido. Era preciso
avançar a orientação partidária e acompanhar as exigências de mudanças
que o movimento operário e popular pretendia fazer no país. Prestes e
Giocondo Dias não gostam da agitação na militância e confiam
demasiadamente no governo para fazer as transformações. Na época,
Giocondo publica um documento criticando as Ligas Camponesas e formas de
luta não institucionais. Há tensões na direção do partido em relação ao
apoio quase incondicional ao governo Goulart. As divergências ficam
evidentes no artigo “Duas Linhas na Luta pela Reforma Agrária”,
elaborado por Mário Alves e publicado pela revista “Movimento”, da União
Nacional dos estudantes (UNE): a aliança privilegiada dos operários é
com os camponeses e não com a burguesia nacional, dizia Mário Alves. Em
1963, ele faz críticas ao Plano Trienal, elaborado por Celso Furtado
(para a nova fase, presidencialista, do governo João Goulart) e empolga
a juventude e os intelectuais do Rio de Janeiro.
O golpe
militar, a clandestinidade e a família.
... Lúcia
(filha, na época, adolescente de Mário Alves) nunca esqueceu daquele 30
de março de 1964, quando seu pai pegou uma muda de roupa, a escova de
dentes, abraçou a mulher, a filha e saiu de casa para a clandestinidade.
O golpe militar fere mortalmente a liberdade, divide e amedronta a
nação.
.........................................................
Um
habeas-corpus libertou Mário Alves (preso em julho de 1964) da cadeia em
meados de 1965. Um ano depois, ele foi julgado à revelia no processo das
cadernetas de Prestes, condenado a sete anos de prisão e seus direitos
políticos cassados por dez anos. Enquanto a repressão da ditadura se
intensifica e vai sufocando o povo brasileiro, Mário Alves é destituído
da Comissão Executiva do partido e obrigado a deslocar-se para Belo
Horizonte. Luiz Carlos Prestes, Giocondo Dias e uma parte do Comitê
Central do PCB, espalham a versão de que uma das razões do golpe militar
teria sido a esquerdização das posições do partido ao estimular o
movimento de massas na radicalização de suas lutas, isolando a burguesia
nacional e o governo Goulart. Com posições mais à esquerda, Mário Alves,
Jacob Gorender, Apolônio de Carvalho, Carlos Marighella e Joaquim Câmara
Ferreira respondem que o desvio do PCB foi de direita por não ter
alertado e preparado os trabalhadores e a militância para enfrentar os
golpistas e sustentavam que a aliança principal do proletariado era com
o campesinato e não com a burguesia nacional. O caminho da revolução no
Brasil era pacífico segundo Prestes e só eventualmente poderia ocorrer
confronto armado. Mário Alves e seus companheiros argumentavam que não
havia condições de fazer qualquer mudança estrutural na sociedade
brasileira, principalmente depois do golpe de 1964, que não fosse pela
luta armada.
No resto
do mundo, a luta pelo socialismo também demonstrava isso. Os povos
explorados e oprimidos da Ásia, África e América Latina estavam
derrotando pelas armas o imperialismo norte americano e seus aliados
internos. A revolução cubana tinha sido vitoriosa em 1959, as lutas de
libertação doas africanos contra o colonialismo incendiavam vários
países da África e a bravura do povo vietnamita desmoralizava o poderio
militar dos Estados Unidos. O Brasil carecia de sua rebelião. Nos sonhos
que foi sonhando as visões vão se aclarando e a juventude aprende a
dizer não como fazia o vaqueiro de “Dispara”. Afinal, gente não é gado,
não se ferra, não se mata. A música de Geraldo Vandré e Téo de Barros,
cantada por Jair Rodrigues no festival da canção de 1966, ganha o
primeiro lugar empatada com “A Banda”, de Chico Buarque, e emociona a
nação. A morte e o destino, tudo estava mesmo fora do lugar e era
preciso viver lutando para consertar. Empolgada, a mocidade se levantou.
A corrente
revolucionária do PCB foi organizada pela esquerda pra se contrapor às
manobras de Prestes e de uma parte da direção, que adiam sucessivamente
e não queriam a participação dos integrantes do Comitê Central, que
discordavam, no VI Congresso que deveria ter sido realizado em abril de
1964, no Rio de Janeiro. No período de 1964 a 1967, as contradições
políticas entre o setor reformista e o revolucionário se agravam e Mário
destaca-se com suas teses que circulam dentro do partido como principal
documento de contraposição à linha oficial. ... Os comunistas
dividiam-se nacionalmente em ralação a apoiar ou não o MDB nas eleições
de 1966. Na Guanabara, a maioria dos militantes organiza uma dissidência
e termina expulsa em janeiro de 1967. Em abril daquele ano, a
conferência Estadual de São Paulo sustenta que a derrota do regime
militar depende da luta armada. Se o congresso fosse realizado, a
Corrente Revolucionária seria maioria. Mário Alves era responsável pela
direção do partido em Minas Gerais, Apolônio de Carvalho pelo Estado do
Rio, Jacob Gorender pelo Rio Grande do Sul e Carlos Marighella por São
Paulo. Em julho de 1967 Prestes, que detinha a maioria do Comitê
Central, convoca uma reunião extraordinária e aprova a expulsão do
dirigente Carlos Marighella. Em solidariedade a Marighella, retiram-se
da reunião os seguintes dirigentes: Mário Alves, Gorender, Joaquim
Câmara Ferreira, Apolônio, Miguel Batista dos Santos e Jover Telles. Era
uma situação já esperada, o sinal para o racha do setor revolucionário,
provocando o maior cataclismo político da história do PCB. Livres do
perigo da mudança de orientação política a direção do partido apressa a
realização do VI Congresso que confirma a expulsão daqueles dirigentes.
Não há
unidade suficiente entre os que saiam do PCB para um novo projeto
partidário. A Corrente Revolucionária faz uma reunião nacional em
outubro de 1967 e não comparecem militantes de São Paulo. Mário,
Gorender e Apolônio insistem na necessidade de um partido para dirigir a
revolução e sustentam que o combate contra a ditadura precisava estar
vinculado à luta dos operários, camponeses, estudantes e setores médios
da cidade. Enquanto isso, Carlos Marighella já estava em Cuba
articulando apoio para o seu plano de guerrilha urbana. No retorno ao
Brasil, em início de 1968, Marighella, impetuoso por natureza, prefere a
grande aventura da batalha e organiza, a partir do agrupamento de São
Paulo. A Ação Libertadora Nacional – ALN. Mário Alves e seus
companheiros não desistem e passam sete meses debatendo, escrevendo
teses e articulando militantes espalhados pelo Brasil.
.............................................................
... Em
fevereiro de 1968, Mário e Jacob Gorender, que também residia em São
Paulo, aceitaram um convite feito por Diógenes Arruda para uma reunião
com João Amazonas, Maurício Grabois e Pedro Pomar, representantes do
grupo que saiu do PCB em 1962 e fundou (ou reorganizou, segundo
Amazonas) o PCdoB. O encontro entre camaradas que se estimavam pela
integridade pessoal e dedicação à causa proletária, não levou a um
acordo. Mário e Gorender “não aceitaram a idéia de subordinação à China
e Albânia como fazia o PcdoB, inclusive porque acabavam de se livrar de
um partido subserviente à União Soviética”. Havia outras contradições
doutrinárias fundamentais que separavam os antigos companheiros. A
revolução não podia esperar.
O
congresso de fundação do novo partido aconteceu em abril de 1968, numa
casa na Serra da Mantiqueira, no Estado do Rio. Estavam presentes uns 25
representantes de vários estados, entre eles, Jacob Gorender, Mário
Alves, Apolônio de Carvalho, Bruno Maranhão, Miguel Batista dos Santos e
Jover Telles. O Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR)
nascia da esperança dos que ousavam desafiar o capitalismo e o regime
militar e que sonhavam também em revolucionar o comunismo. Os princípios
teóricos e as bases políticas foram estabelecidos num documento redigido
por Mário Alves. O texto defendia a construção de um partido
marxista-leninista, a necessidade da luta por um estado popular
revolucionário para construir o socialismo, considerava o Brasil
capitalista e dizia que o combate contra a ditadura era armado, mas
apoiado na luta de massas dos operários, camponeses, setores médios da
cidade e na pequena burguesia urbana e rural, forças sociais
interessadas em modificar a estrutura da sociedade brasileira. A
principal base da luta armada, o campo. Na hora de escolher o secretário
político, equivalente a secretário geral, Apolônio indicou o nome de
Mário, por considerá-lo o quadro mais preparado. O baiano recusou
argumentando que Apolônio preenchia as condições e contribuíra
destacadamente para a fundação do novo partido. O desprendimento dos
dois comunistas foi exemplar. A reunião escolheu por unanimidade
Apolônio, inclusive porque na época Mário Alves estava com úlcera no
estômago. Um ano depois, o jornalista baiano assume a função.
Na
reunião, os fundadores do PCBR suspeitavam que Jover Telles e duas
outras pessoas já tinham entrado no PcdoB. Dois meses depois, Jover
Telles publicou no “Jornal do Brasil”, um documento intitulado “Um
reencontro histórico”, conclamando os militantes do PCBR a entrarem no
PcdoB. Mário Alves respondeu com o artigo “Reencontro histórico ou reles
mistificação?” criticando as posições do PcdoB e daquele antigo
militante operário. Às vezes, a vida é irônica: anos mais tarde, talvez
por ter moldado a sua personalidade na dupla militância, Jover Telles
trabalhou também para a repressão e sem ninguém saber levou a polícia
até a reunião que o Comitê Central do PcdoB realizava numa casa no
bairro da Lapa, em São Paulo, em 1976, onde foram assassinados Pedro
Pomar, Ângelo Arroyo e posteriormente, na tortura, João Batista Drumond.
Outros participantes foram presos e torturados.
Em São
Paulo, Mário Alves critica também as idéias foquistas que predominavam
entre a juventude dissidente do PCB e a maioria das organizações de
esquerda da época. Foi numa conversa organizada por Valdizar, com um
grupo de jornalistas para discutir o livro de Régis Debray e a teoria
foquista, que Sérgio Sister conheceu Carlos Ferreira em 1968. No início
o baiano limitou-se a ouvir, inclusive as opiniões favoráveis à invasão
da Checoslováquia pela União Soviética. Depois de os jovens argumentarem
que a agressão se justificava porque era preciso salvar o socialismo,
Mário Alves surpreendeu a todos quando disse que um país socialista não
podia ser imperialista e agir daquela forma. Era preciso respeitar a
autodeterminação dos povos e o desenvolvimento da luta em cada país. O
PCBR adotou a resolução política condenando a invasão da Checoslováquia,
posição quase inédita entre as organizações comunistas a nível
internacional. Ele queria um partido novo sem compromisso com o
Stalinismo, renovado, democrático e vinculado à luta dos trabalhadores.
O PCBR já tinha militantes em várias partes do país. No Estado do Rio e
Guanabara, participavam estudantes, bancários, marítimos, estivadores,
portuários, ferroviários, jornalistas e publicitários. Havia um trabalho
em Londrina (Paraná). No nordeste, a militância atuava da Bahia ao
Ceará. Em Pernambuco, Bruno Maranhão e outros companheiros que
articularam a Corrente Revolucionária nesses estados, conseguiram eleger
militantes para as diretorias da União Estadual de Estudantes (UEP) e
Diretório Central dos Estudantes (DCE), em 1968, derrotando as chapas
articuladas pela Ação Popular (AP).
Anos
rebeldes: das grandes manifestações às ações armadas.
A
juventude tinha pressa e já começa a sua rebelião. Milhares de
estudantes protestavam nas ruas do Brasil contra o governo por causa do
assassinato pela polícia do secundarista Edson Luiz de Lima Souto, no
restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro. Em Contagem, os operários vão
em busca do salário, entram em greve em 16 de abril de 1968 e obrigam a
ditadura a atender as suas reivindicações. Em São Paulo, a comemoração
do Primeiro de Maio levou 10 mil pessoas à Praça da Sé. O então
governador Abreu Sodré, representante do regime militar, é escorraçado a
pedradas pelos manifestantes. Em clima de vitória eles fazem uma
passeata a te a Praça da República. Nas semanas seguintes, os operários
paralisam fábricas automobilísticas em São Bernardo do Campo. Prevendo
que os metalúrgicos, com dissídio marcado para outubro também entrariam
em greve, Mário e Gorender reúnem-se com militantes de outras
organizações. Em Osasco, contudo, um grupo ligado à Vanguarda Popular
Revolucionária (VPR)
antecipa-se à greve geral marcada para outubro e incentiva os
trabalhadores a fazerem parede local. O movimento começou na Cobrasma,
estendeu-se por outras fábricas, durou cinco dias e foi derrotado. As
passeatas estudantis não recuavam e continuavam levando milhares de
pessoas às ruas para protestar contra a ditadura. No Rio de Janeiro, a
maior manifestação contra a repressão ocorreu em 26 de junho de 1968:
cem mil pessoas reúnem-se na Cinelândia e percorrem as ruas da cidade.
Entre os organizadores estavam a Dissidência Universitária da Guanabara,
ativistas da Ação Popular e do PCBR. Além de Vladimir Palmeira,
presidente da União Metropolitana do Estudantes e membro da Dissidência,
também discursou das escadarias do Teatro Municipal a principal
liderança dos secundaristas e militante do PCBR, Elinor Brito.
O governo
reage e proíbe as manifestações de rua. Ainda assim, em cinco de julho,
300 mil estudantes protestavam nas praças das principais cidades
brasileiras.Reprimidas pela ditadura, as lutas populares foram
minguando. O golpe final aconteceu em 12 de outubro de 1968: soldados da
Polícia Militar cercaram uma fazenda em Ibiúna, interior de São Paulo, e
prenderam 1.240 estudantes que participaram do 30º Congresso da UNE. O
governo já dominava a situação política no país e, ainda assim, em 13 de
dezembro decreta o Ato Institucional número 5, colocando em recesso o
Congresso Nacional, as Assembléias Legislativas e acabando com o
hábeas-corpus para as pessoas detidas por motivos políticos. Os
militares reiniciam as cassações dos opositores por tempo indeterminado
e estabelecem a censura prévia à imprensa. O pretexto do governo para
decretar o AI-5, foi a recusa do Congresso Nacional em conceder licença
para os militares processarem o deputado federal Márcio Moreira Alves ,
que meses antes fizera um discurso propondo ao povo o boicote nos
desfiles de sete de setembro. Além do avanço das lutas populares e de
resistência democrática, um dos motivos determinante do AI-5, é a
contradição dentro da própria ditadura e o fortalecimento da
chamada”linha dura” nas Forças Armadas, que já pretendia estabelecer o
fechamento completo do regime. Em abril de 1968, o brigadeiro João Paulo
Burnier ordenara a um grupo de homens do PARASAR (unidade de busca e
salvamento da Aeronáutica), a execução de um plano terrorista que
incluía a explosão de gasômetros e a destruição de instalações de força
e luz. O terror seria atribuído aos comunistas para criar um clima de
pânico e histeria coletiva, que os militares aproveitariam para eliminar
fisicamente personalidades da oposição. A chacina não foi concretizada
porque o capitão-aviador Sérgio Miranda de Carvalho, o Sérgio Macaco,
apoiado por colegas de farda, recusou-se a obedecer às ordens do
brigadeiro Burnier, na época chefe do gabinete do ministro da
Aeronáutica, Márcio de Souza e Mello. Por conta disso, em 1969, o
capitão foi reformado e afastado da Força Aérea.
As praças
ficaram vazias, as fábricas vigiadas pela polícia, centenas de
sindicatos sob intervenção, suas diretorias destituídas, grêmios
estudantis fechados, teatros invadidos, músicas, filmes e peças teatrais
censurados, parlamentares cassados, jornalistas e intelectuais
amordaçados e as prisões lotadas de brasileiros opositores do regime.
Quase todos torturados e muitos assinados. O “milagre econômico” dos
militares precisava de um Brasil amorfo e sem resistência à nova etapa
de brutal acumulação capitalista no país. Uma parte da oposição escolhe
o caminho do exílio. Muitos, no entanto, recusam-se a abandonar a
pátria. Ficam para lutar. Despojada das suas organizações sindicais e
estudantis, grande parte da militância identifica-se e fortalece os
agrupamentos que defendem a luta armada e fazem o enfrentamento direto
com a ditadura. A rebelião agora é com metralhadora na mão. As ações de
desapropriação de bancos e confisco de armas, que o Agrupamento de São
Paulo iniciara desde dezembro de 1967, são intensificadas também por
outras organizações de esquerda. Nas veredas do asfalto, a guerrilha
urbana contagia uma parte da juventude brasileira, que não admite o
recuo e fustiga a ditadura com atitudes ousadas e espetaculares. Os
jovens argumentavam que a brutalidade da repressão não deixava
alternativa de resistência pacífica e respondiam na bala.
Cuba e o
exemplo da guerrilha vitoriosa em Sierra Maestra,
comandada por Fidel Castro e Ernesto Che Guevara, , era uma das
referências dos brasileiros que ousavam lutar nos anos rebeldes. No
final de 1968, Mário Alves desembarcou na Ilha com a missão de buscar
apoio dos comunistas cubanos para a luta no Brasil. Bem recebido, ele
obteve da direção do partido cubano, o reconhecimento do PCBR e o
treinamento guerrilheiro de seus militantes. Mas tudo deveria ser feito
por intermédio da ALN, considerada por Cuba como a organização
preferencial no Brasil. O jornalista aceitou a oferta e deixou clara a
posição de independência de seu partido, que tinha outro entendimento da
realidade brasileira, seu plano de rebelião incluindo a participação
decisiva da maioria do povo. Quando retornou ao país no início de 1969,
Mário Alves continuava animado e conversou
em São
Paulo com Valdizar e Sônia, no apartamento da rua Cubatão. Contou que
também foi à Itália, participou de manifestações políticas e redigiu até
uma nota em nome do PCBR. Estava irrequieto e dizia que Marighella havia
saído na frente e tinha todos os contatos internacionais. O sucesso
final das ações da guerrilha urbana e a necessidade de dar respostas
concretas à escalada da repressiva da ditadura deixava no dilema até os
comunistas mais tarimbados. Pela primeira vez, ele criticava a direção
de seu partido por causa do emperramento burocrático e por não ter
lançado o jornal nacional como estava previsto antes de viajar. Mário
estava ansioso vendo o tempo passar e queria uma ação mais efetiva. Pela
repressão o regime militar que se consolidava e a revolução perdia a sua
hora e sua vez.
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Um ano
depois da fundação, o PCBR havia crescido. ... Gorender fez objeções às
formas que o embate armado assumia. Os grupos de esquerda realizavam
ações isoladas e distanciavam-se do apoio do movimento de massas. O PCBR
não poderia fazer o mesmo. Mas o clima belicista no mundo contagiava os
rebeldes brasileiros. Havia divergências importantes que distanciavam as
posições dos dois dirigentes. Debateram prudentemente para preservar a
amizade que vinha dos tempos da luta contra o nazi-facismo. ... A
transferência para o Rio significava uma mudança brusca na vida dos
Alves...
...A
primeira iniciativa partiu da direção regional do Nordeste que englobava
Pernambuco, Paraíba, Rio grande do Norte e Ceará: em maio de 1969, um
grupo armado arrebatou de funcionários do Banco da Lavoura, em João
Pessoa, uma valise com um depósito da Companhia Souza Cruz. Outras
desapropriações em agências bancárias e ações de propaganda armada
aconteceram no Recife. As iniciativas autônomas deixavam os jovens
militantes da Guanabara e Estado do Rio frustrados e querendo fazer o
mesmo. Os dirigentes nacionais do PCBR são criticados.
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Uma Junta
Militar havia assumida a Presidência da República no final de agosto de
1969 e afastado Pedro Aleixo, o vice-presidente da própria ditadura que
deveria ter sucedido o general Costa e Silva, que sofrera um trombose
cerebral. Formada pelos ministros militares Lyra Tavares, da Guerra,
Augusto Rademaker, da Marinha e Márcio Souza e Mello, da Aeronáutica, a
Junta é desafiada nos seus primeiros dias de governo pelo seqüestro do
embaixador norte-americano praticado por um comando revolucionário da
ALN e Dissidência da Guanabara. Pressionados pelos Estados Unidos, o
militares aceitaram as exigências do resgate e libertaram 15
prisioneiros políticos. Entre eles, Gregório Bezerra, o revolucionário
do PCB, que em abril de 1964 foi preso e espancado barbaramente nas ruas
do Recife pelo coronel Villocq Viana. Embora bem sucedido, porque
garantiu a libertação e o embarque dos presos políticos para o exterior,
o seqüestro do embaixador ianque, o primeiro realizado pela guerrilha
urbana em todo o mundo, resultou na intensificação da repressão no
Brasil. A Junta Militar estabeleceu a pena de banimento, penas de morte
e de prisão perpétua. Em 28 de setembro entrou em vigor a brutalidade da
nova lei de segurança nacional. Um dia depois, o operário químico
Virgílio Gomes da Silva, militante da ALN e que comandara o seqüestro do
diplomata norte-americano, foi barbaramente torturado e morto na
Operação Bandeirantes (OBAN), em São Paulo.
No mês
seguinte, uma emenda da Junta Militar impôs uma nova Constituição ao
país e deu posse ao general Emílio Garrastazu Médici na Presidência da
República que levou o Brasil definitivamente à escuridão e inaugurou o
período de maior terror da história da ditadura. Centenas de pessoas são
presas, torturadas e assassinadas nas prisões do governo. Nas trevas do
perigo, Mário Alves lutava o combate à sua maneira e não carregava o
revolver que Bruno lhe presenteara. Embora estivesse de acordo com a
necessidade política da luta armada de resistência à ditadura, o
jornalista não tinha treinamento militar e achava complicado andar
armado no Rio por causa das batidas policiais, como aquela que ocorreu
durante a viagem. Guardava a arma em sua casa.
A
ditadura instala o terror no país.
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O assalto
da agência do Banco Souto Maior, no bairro da Penha, no Rio de Janeiro
aconteceu no dia 17 de dezembro de 1969: um grupo de fogo arrebatou com
sucesso todo o dinheiro da agência. Na hora da fuga, porém, trocou tiros
com um carro rádio patrulha. Um dos policiais foi morto e um militante
do PCBR preso. Posteriormente parte do dinheiro foi recuperado pela
polícia. A partir dali, o partido estava exposto. Uma reunião do Comitê
Central, mar cada anteriormente para a segunda semana de janeiro de
1970, foi mantida. Um dos objetivos principais da reunião, conforme
explica Apolônio de Carvalho era debater a polêmica que existia no
partido de fazer ou não refluxo temporário na guerrilha urbana para
escapar do cerco da repressão e criar as condições para iniciar a
guerrilha rural. Na época, o combatente da guerra civil espanhola e da
Resistência Francesa entendia que o partido não dispunha de bases,
aliados e influência política suficientes junto as massas na área rural.
Mário Alves avaliava que as condições no campo poderiam ser preparadas
mais rapidamente. As posições ao se extremarem poderiam levar a um
impasse.
...................................................
O dia
amanheceu e permaneceu calorento naquele 16 de janeiro de 1970. Mário
Alves vestia camisa de mangas curtas quando saiu de casa para cobrir o
derradeiro ponto de sua vida. ... No local e hora marcada, a fúria do
inimigo, na tocaia, o alcançou. ...
...................................................
O
torturado recusava-se a dar qualquer informação aos inquisidores. ...
...................................................
...
Depois, os soldados rasos que serviam no quartel comentaram que Mário
Alves havia morrido.
Aquela
reunião do primeiro Comitê Central do PCBR nunca se realizou. Entre os
dias 12 a 20 de janeiro daquele ano, a maior parte da direção do partido
foi presa. ...
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Revista Teoria e Debate nº 24 (mar/abr/mai 1994)
Memória
Otaviano Alves da
Silva
por Valter Pomar
Otaviano Alves da
Silva, começou a militar no Partido Comunista Brasileiro a partir de
1951, participou da fundação da Polop e foi membro da direção nacional
da organização. Filiou-se ao PT e foi presidente do partido em Contagem
e membro da Direção Estadual na Bahia.
Nesta entrevista a
TD
ele conta sobre sua participação na resistência ao golpe de 64, na
organização da Greve de Contagem e sobre a clandestinidade e o exílio.
...................................................
Quando você tomou
contato com o grupo que deu origem à Polop (Política Operária)?
Em 58, conheci um grupo
de jovens que militavam na mocidade trabalhista do PTB: o Simon
Schwartzman, de origem judaica, sua namorada Suzana, Artur Mota, que
hoje é advogado, Teotônio dos Santos Júnior, Vânia Bambirra, Betinho,
Vinicius Caldeira Brant, Jair Ferreira de Sá, que depois foi da AP (Ação
Popular), entre outros. O Theotônio nunca foi do Partidão. Nessa época
discutia-se uma intervenção no PTB e, ao mesmo tempo, um projeto
político de combate ao reformismo. O Leonel Brizola bancou o Congresso
da Mocidade Trabalhista no Rio Grande do Sul, foram quatro pessoas de
Belo Horizonte: o Vinícius, o Pedrinho, um menino da JOC (Juventude
Operária Católica), ligado ao Sindicato dos Têxteis, e eu. Quem bancou
as passagens de avião foi o Santiago Dantas. Ali nasceu a futura chapa
de direção da UNE, do Congresso que ia acontecer em Belo Horizonte.
......................................................
O Eric (Eric Sachs)
dirigiu uma revista de intelectuais do PSB do Rio de Janeiro. Saiu antes
do golpe. Era austríaco, a mãe dele era russa, morava no Rio, e não
falava uma palavra em Português. O pai parece que era austríaco, não
tenho bem certeza. Quando veio o nazismo na Alemanha, eles fugiram para
a Rússia. O pai era bolchevique, participou junto com Lenin. Quando Eric
falava da história do Partido Bolchevique, citava fatos de pessoas que
ele conheceu e Rosa Luxemburgo, inspiradora da Polop conviveu. Aqui no
Brasil ninguém tem muita coisa sobre ele. O Eric trouxe uma terceira
visão marxista, além da trotskista e da stalinista. Colocava Rosa
Luxemburgo como porta-voz dessa nova concepção. Ele sempre valorizou a
formação teórica do militante. Seu sonho eram as escolas de formação
onde Rosa Luxemburgo tinha sido professora.
......................................................
Qual a opinião do
Eric sobre o PT?
Entusiasmada. Para ele
todos tinham que participar do PT , inclusive a Polop. Falou-se em
auto-dissolver a organização em função do partido. O Eric também queria
que trabalhássemos junto com o Perseu Abramo. A idéia era fazer um
grande jornal de massas. Tínhamos uma experiência acumulada de boletim
na clandestinidade, que chamávamos de caixas postais. Rodávamos o
boletim e deixávamos em determinado lugar, de baixo de uma pedra ou de
um tijolo, e o militante passava e pegava.
O núcleo que deu
origem à Polop tinha trabalho entre os operários?
O Eric dava assistência
aos têxteis do Rio e o Eder aos gráficos de São Paulo. No Sindicato dos
Marceneiros, tínhamos O Serrote, um boletim que tratava dos
problemas da categoria. Tinha um editorial com uma análise de conjuntura
nacional, escrito por Carlos Alberto de Freitas, o Beto, estudante de
sociologia, um dos fundadores do Colina (Comando de Libertação
Nacional), hoje é um dos "desaparecidos", preso no Rio. O Serrote
chegava todas as segundas-feiras nas marcenarias. Conseguimos organizar
um grupo de uns cinqüenta marceneiros, distribuídos nas várias fábricas,
mas nunca tivemos a preocupação de fazê-los militantes da Polop. A
preocupação era de que atuassem no sindicato, na fábrica.
Fale um pouco sobre
como foi a fundação da Polop.
O Congresso de Fundação
aconteceu em Jundiaí. Dos operários só fui eu, representando os
marceneiros. Nesse Congresso de Formação participaram um grupo de
espanhóis, o Eder e o Emir Sader, o Paul Singer. Antes de 64, o Paul
Singer era ligado ao PSB, foram o Eder e o Emir, jovens estudantes da
época, que o motivaram. Aquele congresso foi só uma tomada de posição
mais aberta, mas não se unificou. O Juarez Brito, que morreu durante a
repressão, também participou do Congresso de fundação. E continuamos
nossa militância dentro da perspectiva de um sindicato autônomo, um
projeto político revolucionário marxista-leninista, fundamentado na
realidade brasileira. Nossa posição era de crítica aberta ao stalinismo
e ao reformismo, embora reconhecêssemos os acertos da União Soviética.
Como a Polop reagiu
ao golpe?
Apesar de termos uma
análise de que o golpe era latente e trabalhássemos com essa
perspectiva, torcíamos para não acontecer tão rápido. Em janeiro de 64,
me parece, saiu um jornal Política Operária, de tiragem nacional,
em que o pessoal colocava a iminência do golpe. Esse jornal foi
distribuído durante o famoso comício do 13 de março. Fizemos o 3º
Congresso da Polop em São Paulo. O Emir foi um dos responsáveis.
Tínhamos um jornal, uma sede num salão alugado em Belo Horizonte. Nós
marceneiros fizemos os móveis, uma mesa, um quadro negro e os bancos.
Esse Congresso de março de 64, nós preparamos com os companheiros de
Goiânia, o Pirajibe, mais a Eveline (já ex-esposa do Paul Singer), Guido
Rocha, que fez sociologia e Belas Artes, o Juarez Brito, do Colina, e a
Maria do Carmo, sua mulher. Eu saí delegado. É importante dizer que eu
tive uma situação privilegiada na categoria. Tinha o melhor nível de
escolaridade e formação política, e eu e minha mulher não tínhamos
filhos. Ela trabalhava para seu sustento e, às vezes, também para o meu.
Então, podia participar de tudo, enquanto os outros não. O Congresso foi
em frente à casa do Ademar de Barros, no cursinho da Faculdade de
Filosofia. No domingo, ao meio-dia, em 30 de março, veio um companheiro
e disse: "o golpe está aí". E disse que não dava para continuar o
Congresso porque teve a marcha da Cruz lá no Viaduto do Chá. Nunca se
viu tanta gente.
Foi nesse congresso
que você foi eleito para a direção nacional?
Fui eleito para ser o
representante dos operários junto a esse grupo. A Polop era um grupo
muito mais de intelectuais, muito preocupado em ganhar os quadros do
Partido Comunista que já tinham experiência de militância para formar
uma oposição e um partido revolucionário.
O que aconteceu
depois do golpe?
Segunda-feira de manhã
fui para a fábrica, de noite fui para a clandestinidade, em Belo
Horizonte mesmo, com o Antonio Ribeiro Romanelli, que era presidente do
Conselho das Ligas Camponesas em Minas Gerais. Atuávamos na base junto
com as Ligas Camponesas.
Como era o trabalho
sindical das organizações clandestinas?
Elas tinham uma base
sindical, mas muito limitada, parecida com a da Polop. Minha atividade
começou a ter uma conotação diferenciada, de organizar os trabalhadores,
apesar da repressão e da clandestinidade, valorizando o espaço sindical,
da fábrica. Já as organizações usavam esse espaço para cooptar para a
luta armada. Isso é uma diferença de fundo para ser discutida e
analisada no futuro.
E a guerrilha de
Copacabana?
Durante o mês de abril
ficamos mantendo contato clandestino. Não tínhamos muito claro o tempo
de duração da ditadura, seu poder de fogo. O Eric, que tinha contato com
os marinheiros no Rio, era muito otimista com relação à resistência,
política e armada, ao golpe. Então foram criadas condições de se fazer
um levantamento. Eu e o Arnaldo fomos fazer levantamento na região de
Caparoba no Rio de Janeiro. Eu saí de trem no dia 1º de maio de 64, para
encontrar com o Arnaldo, e fazer o reconhecimento da região. Fui para o
Rio, quando começaram a estourar os apartamentos, na chamada Guerrilha
de Copacabana. Os marinheiros do porto alugavam os apartamentos de uma
imobiliária, que alugava também para a própria polícia. O próprio
marinheiro é uma pessoa estranha num apartamento de classe média,
aqueles que a Polop alugava, no centro de Copacabana. O pessoal chamava
a atenção dos porteiros e começou a cair. Aí o Guido Rocha e outro cara
que eu não consigo lembrar foram presos. O Arnaldo, preso pelo Cenimar
(Centro de Informação da Marinha), na Guerrilha de Copacabana, foi quem
fez a primeira denúncia de tortura. Mandou o esquema de como funcionava
o sistema de repressão em um mapinha para o Carlos Heitor Cony, que o
publicou no Correio da Manhã.
Onde a Polop estava
implantada?
Ela esteve implantada no
Paraná, no Rio Grande do Sul, em Goiás, em Brasília. No Nordeste,
chegamos só até a Bahia. Em Brasília, praticamente era o pessoal de
Minas que foi trabalhar na Universidade: o Theotônio (Theotônio dos
Santos), o Teodoro Lamounier, a Vânia e outros. O Teodoro logo depois do
golpe, disse não ter estrutura psicológica para enfrentar a
clandestinidade. Quando eu vim para a Bahia, ele já era diretor do
BNDES. Em Belo Horizonte foi um cara muito humano, muito solidário.
Simon (Simon Schwartzman) foi da mocidade do PCB, fundador da Polop,
integrou o staff que recebeu o Kissinger quando ele veio ao
Brasil, hoje não sei o que ele está fazendo. O Theotônio fez sociologia,
mas sempre se destacou mais como economista. Editamos na clandestinidade
dois jornais: Política Operária, uma folha de ofício dobrada,
impressa à mão, e também o boletim, que era semanal. É o que falta hoje
ao partido, ao PT falta uma imprensa militante.
A Polop tinha um
dispositivo militar?
Não. O Éric, o Ceici
Kameiama e o Arnaldo estudavam teoria militar. A preocupação deles era
estudar o Karl von Clawsevitz. Era mais uma reflexão teórica do que uma
preocupação prática. O Eric defendia que a Polop organizasse o que ele
chamava de socorro vermelho, criado na União Soviética. Preparar bases
de apoio para solidariedade, em caso de ferimento, ou de uma greve se
houvesse de fato um combate. Mas isso numa fase superior, quando tivesse
a massa na rua.
Qual era
aproximadamente o número de militantes nessa época?
Acho que era por volta
de uns 300 militantes, no máximo. A maioria do movimento estudantil e da
intelectualidade. O núcleo operário era muito pequeno. Eram os
marceneiros, em Minas; os alfaiates e a indústria de vestuário, no Rio,
e os gráficos em São Paulo. Só nos marceneiros é que tínhamos uma
intervenção que seria o ponto de partida para uma política sindical da
Polop. O golpe impediu que isso acontecesse, frustrou a nossa vontade de
ter um representante dos marceneiros junto ao coletivo dirigente da
organização.
Isso ficou castrado
porque fui para a clandestinidade. Fui profissionalizado para ganhar
inserção nos movimentos de massa, participava de todos os congressos do
movimento sindical, mas como não tínhamos uma política sindical
discutida, participava mais como observador. Em 63, a Polop apoiou a
fundação do CGT (Centro Geral dos Trabalhadores), só que defendíamos que
o CGT não deveria se limitar apenas aos comandos nacional e estaduais,
queríamos que fosse organizado nos municípios também. Para uma eventual
resistência ao golpe, também participávamos dos grupos dos 11 do
Brizola. A história do movimento sindical, daquele período, termina por
aí. Fui profissionalizado na direção da Polop, mas continuei trabalhando
três dias por semana. Fazia móveis nas casas dos companheiros,
consertos, trocava lâmpada, chave queimada. Isso me fez conhecer muita
gente, então à medida que a repressão foi avançando era uma coisa
complicada, porque eu conhecia todo mundo, nome e endereço verdadeiros.
O pessoal de Minas
não é o mesmo que vai para o Colina?
Depois da leitura de
Debray, Revolução na Revolução, eles tomaram uma posição
contrária ao que se esperava. Eles tinham uma posição conservadora, de
direita, e depois tomam uma posição de ultra-esquerda. Aí houve também
um fato que o pessoal fez uma leitura equivocada. O Eder conseguiu um
exemplar em francês do livro do Debray. O Eric traduziu e publicaram
aquilo. Nós não concordávamos que o partido fosse transformado em grupo
guerrilheiro, distante da realidade local. Víamos o partido como um
instrumento de direção do movimento revolucionário, quaisquer que fossem
as circunstâncias. Mas distribuímos massivamente, vendemos o livro entre
militantes e simpatizantes. O pessoal da Polop de Minas não fez a mesma
leitura crítica. Pelo contrário, assimilou. No Congresso, saiu o racha.
E depois do
Congresso?
Devido à divisão, o
pessoal avaliou que eu tinha que voltar para Minas, para organizar o que
tinha sobrado da Polop: o Nilmário Miranda, o José Antonio (estudante de
engenharia), um que usava o nome de guerra de Lima, uma menina que hoje
mora em Guarulhos, a Iara e os marceneiros que tinham sobrado. Desses
marceneiros, o Ernesto entrou para a direção nacional. Era um operário
simples, uma pessoa que não tinha muita informação, que distribuía
boletim. Com a clandestinidade, ele veio para a Polop. Aí fizemos uma
reunião na qual o Beto deu sua versão sobre o Congresso. A saída do
Juarez e do Beto me deixou muito abalado. Como é que a gente ira fazer
uma discussão sem esses companheiros? Mas o pessoal do Colina não
conseguiu sensibilizar os marceneiros para o movimento de oposição ao
Comitê Nacional. Eles fizeram um trabalho junto aos metalúrgicos, a
Belgo-Mineira tinha um jornalzinho - O Piquete - e puxaram a
greve de abril de 68. Nós já estávamos lá, mas não dava para participar
porque não conhecíamos nenhum contato.
Mas você ajudou a
organizar a segunda greve?
Eu propus contato com o
pessoal do Sindicato dos Metalúrgicos, porque quem tinha que chamar a
greve eram os sindicatos. Articulei com o pessoal da Ação Popular, o
Ênio Seabra e o Mário, metalúrgicos da Manesmann. Como dirigentes
sindicais, também tinham influência na Belgo. Procurei o Benigno que era
do partido, diretor do sindicato, a Maria Imaculada Conceição, da
Corrente Revolucionária, ligada ao Marighela e ao Mário Alves.
Procuramos também o Sr. Joaquim, que era tesoureiro do Sindicato dos
Metalúrgicos. Nós fizemos uma reunião na qual coloquei uma proposta de
preparação da greve. Tínhamos clareza de que a repressão não ia sair
como em abril. Olha, a greve de Contagem foi feita. A Belgo nunca
conseguiu parar. O Jarbas Passarinho, que era Ministro do Trabalho, foi
correndo porque não podia permitir que se quebrasse o acordo salarial. E
ele concedeu um aumento de 10%, o que deu um rebu tremendo no esquema da
ditadura. Não ia acontecer uma greve pacífica na data base, ia acontecer
intervenção no sindicato. Então montamos a greve que ficou conhecida
como a Greve de Contagem. No dia 30 de setembro, os metalúrgicos
deveriam estar mobilizados, com organização mínima para dirigir a greve
na clandestinidade, mas a partir do próprio sindicato. ...
... Como o Sindicato dos
Bancários também estava em campanha salarial, eu tinha articulado com
eles uma greve de solidariedade. Foi um desastre, prenderam gente
adoidado. ... Quando eu cheguei na reunião (da direção da Polop) eles
quase caem duros, pensando que atrás de mim estava a polícia. Logo em
seguida, em 13 de dezembro de 68, sai o AI-5 e fecha-se toda a
possibilidade de um trabalho mais de massa. Teve uma reunião nacional
depois da greve quando me criticaram por um "um desvio sindicalista".
Nessa reunião eu decidi não participar mais da direção.
E o seu contato com o
Mário Alves?
O PCBR procurou a gente
para discutir o programa e a questão da Primavera de Praga. O Eric
colocava para a gente que não tinha nenhuma informação a não ser pela
imprensa burguesa, então era prudente não entrar num apoio aberto. Mas,
de qualquer forma, era bom saber quem eram esses caras, que já tinham
manifestado apoio. Para discutir essas duas coisas, o Eder arranjou uma
chave de um apartamento em Higienópolis. Ele era muito esquecido, muito
desligado, fazia mil coisas ao mesmo tempo, e alguma tinha que furar. Eu
só conhecia o Mário Alves de nome, ele foi de chapéu e com uma capa de
chuva esquisita. Ele só andava assim. Foi também o Gorender. Combinamos
aquele esquema em que dois dos companheiros subiriam de elevador dois
andares acima daquele onde deveria acontecer a reunião e desciam dois
lances de escada. Outros dois desceriam do elevador dois andares abaixo
e subiriam dois lances de escada, para despistar o porteiro. Eder foi na
frente para abrir a porta. Nesse vai e vem, enfia a chave errada, no
apartamento errado e quebra a chave na fechadura. Ficamos esperando
enquanto ele foi buscar a chave. O Mário Alves morreu sem saber disso.
Um dia eu conto para o Gorender.
E afinal, o que vocês
acertaram?
Precisávamos de mais
informação para apoiar. O Mário Alves não deu nenhum dado novo a não ser
da imprensa, do Jornal do Brasil, informações dadas pelo Mauro
Santayanna, que era do Partidão, e portanto não mereciam tanto crédito.
............................................................
Foi quando você
conheceu o Peri?
A direção nacional do
POC,
que foi escolhida no congresso fez uma cooptação, e cada estado tinha um
representante. O Peri eu conheci como um dos representantes da Bahia, um
dos últimos moicanos que tinha sobrado do racha com o Colina. Ele foi
preso, era um dos quadros da UNE clandestina. O Peri foi preso na casa
da Neusa. Quando o Peri foi para uma reunião na casa dela, a repressão
já estava de olho. Ele se escondeu atrás da cortina, os caras olharam,
não viram ninguém, iam embora, quando viram os pés dele atrás da
cortina. Foi levado para o Colégio Militar, tentou o suicídio, cortando
os pulsos, pensamos em um esquema de seqüestro, mas não deu certo. O
Peri era o maoísta do Comitê Nacional. Eu sei que ele foi preso de novo
já no Nordeste, trabalhando com os canavieiros.
........................................................
Você conhecia o Pila
Vares, o Marco Aurélio Garcia e o Flávio Koutzi?
O Pila Vares parece que
foi um dos delegados da fundação da Polop. Ele mantinha contato com o
Eric e o Eder e mais um pessoal. Já o Marco Aurélio e o Koutzi eram da
dissidência leninista, tomaram a direção do partido. O Marco Aurélio
estudou na União Soviética, me parece que ele chegou aqui logo depois do
golpe. Ele não esteve no Congresso de fundação do POC, mas era para ser
o responsável pela formação de quadros do POC. O Eric dizia que ele
tinha estado na União Soviética, que tinha tido uma formação marxista.
Do Flávio Koutzi, lembro bem, inclusive acompanhei a trajetória dele na
Argentina, quando foi preso e torturado.
......................................................
Pediu asilo ao
Uruguai?
... Fui o último
brasileiro a se exilar. Daí para a frente não negaram asilo a ninguém,
mas também não deram asilo a ninguém. Isso foi mais ou menos em 69 ou
70. Foi no governo Pacheco Areco. Voltei para o Brasil em 10 de outubro
de 73.
Você teve contato com
os tupamaros?
Tive um relacionamento
de exilado. Não tinha muito interesse em me aprofundar nas questões
locais. Eu era um crítico do conjunto político deles. Não tinham esquema
organizativo para os trabalhadores. Em geral, o povo achava que os
Tupamaros eram o braço armado do Partidão. Eles não faziam o trabalho
que fazíamos aqui, de confronto ideológico. Então tinha toda uma
política nacionalista e de uma certa forma populista. Muita gente não
participava, nem dos Tupamaros nem da Frente Ampla, apesar deles terem
convidado.
...................................................
Como foi sua volta ao
Brasil?
... Foi o Tarso Genro
quem me deu apoio na entrada. Ele foi a primeira pessoa que eu encontrei
no Brasil. Era da AV (Ala Vermelha)
do Rio Grande do Sul. Já nos conhecíamos do exílio, ele já tinha voltado
e vivia legalmente. Eu tinha um companheiro em Juiz de Fora, o Luiz,
dono de uma financeira, que foi um bom suporte. Ele fez contato com o
juiz auditor, que disse não ter problema em me apresentar. Quando essa
notícia chegou, em janeiro de 73, tinha ocorrido aquele episódio do
Massafumi, que foi obrigado a gravar um depoimento de adesão à
redentora. Eu fiquei apavorado, com medo que fizessem o mesmo comigo.
Mas não teve problema, me apresentei na Auditoria.
......................................................
Quando você saiu do
Uraguai já tinha acontecido o golpe?
Já. Fiquei ainda uns
dias. O golpe aconteceu em 28 de junho, esperei minha filha nascer, dia
2 de julho, e saímos no começo de outubro
.....................................................
E como você retornou
à militância?
Meio como se fosse um
jornal clandestino, eu comprava o Movimento. Raciocinava o
seguinte: o Movimento nas minhas mãos, podem me pegar e querer
saber quem é quem no jornal. O Nilmário já tinha saído da prisão, estava
articulando a fundação do Jornal dos Bairros. Ele me procurou mas
eu não quis entrar, mas deu certo a coisa. Então o Nilmário me procurou
para entrar no PMDB jovem, tomar a direção do PMDB de Contagem. Eu
coloquei para ele que esse caminho não era o correto. Disse que a única
coisa concreta era o PT. Eu via no PT algo como sonhávamos na Polop.
Outra coisa também que me despertava era o negócio da anistia. Mas foi à
partir do atentado que a direita fez contra o Em Tempo, que
assumi mais porque percebi que o resultado da repressão não tinha dado
no que eu temia, pelo contrário, houve solidariedade. Então, o meu
estado de espírito foi melhorando. Comecei a trabalhar em função do PT e
organizei um núcleo lá em casa.
E a Polop?
Eu estava marginalizado
do processo de discussão que os próprios quadros da Polop tiveram.
Quando o Eric chegou do exílio, em 79, me procurou para discutir uma
estruturação dos companheiros da Polop. Talvez tenha sido quem primeiro
pensou em organizar uma tendência. Eu não concordei. Achava que a Polop
tinha cumprido seu papel. Pelo menos queria isso, apenas aconteceu de
uma outra forma. Aí ele não gostou muito. O Nilmário estava fundando o
Diretório do PT em Contagem. Nesse intervalo tinham chegado o Theotônio
e a Vânia. O Theotônio defendia reconstruir o PTB com o Brizola. Ele e o
Betinho eram parte do chamado Grupo do México, que colaborou no
Congresso de Lisboa do PTB. Nessa época eu já estava com dificuldades na
marcenaria e acabei indo para o extremo sul da Bahia.
Para qual cidade?
Eunápolis. Fundei o PT
em Eunápolis, Cabrália e Porto Seguro. Procurei dar uma certa
assistência ao partido, mas eu acho muita coisa errada, apesar de o PT
ser a melhor coisa que se construiu até hoje. O projeto geral do partido
é sempre sacrificado em função de uma cadeira atrás de uma mesa, do
aspecto burocrático. O pessoal briga. No 4º Concut você viu o que
aconteceu.
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Revista Teoria e Debate nº 62 (abr/mai 2005)
Memória
Paul Singer
por
Paulo Vannuchi e Rose Spina
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Qual o
seu vínculo com a Política Operária, a Polop?
Fui
fundador em 1959. Erich Sachs e eu éramos praticamente os líderes
daquele momento da Polop.
Em 1953,
nós do PSB elegemos Jânio e participamos do governo. Fúlvio Abramo foi
secretário de Abastecimento e um outro membro era secretário de Obras.
Jânio no início foi bastante progressista, governava com os chamados
comitês. Em 1955, quando foi eleito governador, o partido se dividiu, e
os janistas tomaram conta do Partido Socialista. Enfim, em 1956 fomos
expulsos eleitoralmente da direção.
Erich
Sachs então entrou em contato comigo, para eu escrever em sua revista.
Ele era um alemão, gráfico, que no Brasil se ligara ao grupo socialista
democrata, formado principalmente na Faculdade de Direito. Ele vinha de
uma dissidência do Partido Comunista alemão. O nome Política Operária
ele trouxe da Alemanha, pois assim se chamava a facção dele. Nos
aproximamos então politicamente, por causa da revista, e decidimos
formar uma nova facção, mas tendendo a um partido político de esquerda.
Fizemos uma assembléia, na qual estavam Michel Löwi, Emir e Eder Sader,
Theotônio dos Santos, Juarez de Brito, Simon Schwartzman, entre outros.
Era a
esquerda do Partido Socialista de São Paulo, com a esquerda do PTB de
Minas e um grupo do Rio de Janeiro também do Partido Socialista.
Por que
formar um novo partido?
O Partido
Socialista esta completamente na mão dos janistas e tínhamos
divergências fundamentais com o PC. Praticamente alguns meses depois, os
janistas foram derrotados no Partido Socialista e saíram em massa, pois
o partido apoiava Lott para a eleição presidencial em 1960. Voltamos e
tomamos conta.
Coloquei
para a Polop que deveríamos assumir a direção do partido, pois não tinha
cabimento ficarmos numa organização menor, que pretendia um dia virar
partido, quando havia uma legenda que tinha uma história etc. Durante
algum tempo tive duas camisas, dirigente do PSB e membro da Polop.
Acabei me
afastando da Polop por falta de tempo, não que houvesse divergência
política. Isso é de 1960 em diante, período que antecede o golpe militar
e o PSB se torna, em São Paulo, o pólo da esquerda. Havia reuniões com o
PC, os trotskistas, todos que queriam militar.
Ele
abrigava os comunistas também?
Não como
membros, mas como aliados, que usavam as instalações e a legenda do
Partido Socialista.
No PSB
o senhor ficou até quando?
Até 1965,
quando o AI-2 acabou com os partidos e criou o bipartidarismo.
Nas
principais assembléias estudantis do Brasil, aparece uma certa
tripartição, PCB, AP e Polop, que era bem mais “radical” do que o PSB.
Que balanço o senhor faz do papel da Polop?
Era um
grupo pequeno muito intelectualizado. Erich Sachs era um intelectual, o
fato de ser gráfico não significava nada. Éramos da classe operária, mas
como intelectuais.
Eu me
sentia absolutamente livre para assumir qualquer posição que eu achasse
lógica. Por exemplo, nunca aceitei a idéia de que não houvesse
feudalismo no Brasil. É só olhar como é que funcionava o latifúndio no
Brasil. No fim da escravidão, a agricultura brasileira passou a ter um
modo de produção muito semelhante à servidão da gleba. Há uma população
que trabalha na terra do patrão ou como meeira. São relações de produção
clássicas servis. Inclusive a servidão política, o voto de cabresto.
Muito importante na época eram as Ligas Camponesas, que tinham sentido
de luta antifeudal. Os primeiros camponeses que obtiveram uma vitória
histórica, em Pernambuco, eram arrendatários.
Podemos
dizer que o senhor era um dos principais elaboradores marxistas do
Brasil nesse período. Sua bibliografia se intensifica a partir de 1968.
Aparentemente influenciei bastante. Estava ativo como teórico de
esquerda desde meados dos anos 50. Participei praticamente de todas as
revistas que foram feitas, escrevi um artigo sobre crises econômicas que
repercutiu muito na Civilização Brasileira, logo depois do golpe
militar.
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(Extraído
de fotocópia do documento da Solicitação
do
reconhecimento de que, como preso político,
foi vítima
de crime hediondo de tortura perpetrado
por
agentes públicos do regime militar no Estado
de São
Paulo, tendo por isso direito a indenização
pecuniária
simbólica, previsto na Lei Estadual nº
10.726/01.
O requerente e autor desse documento,
feito em
São Paulo e datado de 02 de julho de 2002,
foi o
camponês, militante sindical e político
Manoel
Conceição Santos).26
(Manoel
Conceição e a AP)
.................................................
Senhoras e Senhores,
..................................................
... A
violência não tardou e terminamos expulsos novamente, porque o
latifundiário e grileiro Manacé Alves de Castro, filho de Raimundo Alves
de Castro, delegado de polícia do município, resolveu tomar a terra de
nós.
Fomos
atacados quando fazíamos uma reunião com todos os lavradores no povoado
vizinho de Copaíba dos Mesquitas e o grileiro Manacé chegou com uns 20
jagunços atirando. Eles mataram cinco camponeses na hora com golpes de
faca e punhal. Uma velhinha pediu ajoelhada para matarem seu filho, que
já estava estirado no chão. A resposta foi uma peixeira enfiada nas suas
costas, pregando a velha mulher no chão. Pelo fato de estar chorando, em
prantos, porque viu o pai ser morto pelos pistoleiros, um menino de
apenas 3 anos foi agarrado pelos cabelos por um jagunço, que o rodopiou
e o arremessou sobre uma parede de taipa, onde sua cabeça espatifou-se e
seus miolos espalharam-se por cima do corpo do pai morto no chão.
Ferido na
perna, por um tiro de espingarda, escapei por pouco, mas naquele
instante jurei dedicar toda a minha vida à luta contra o latifúndio.
Voltei para Pirapema, ajudei a fundar a Associação Rural que aglutinou
180 famílias de lavradores e partimos para recuperaras pequenas glebas
de terras que dona Margarida Soares tinha tomado de nós. A latifundiária
reagiu e mandou um tenente e 28 soldados, todos armados até os dentes,
atirarem nos trabalhadores e mataram 8 de nós. Mas, desta vez, o povo se
defendeu e deixou o tenente e um soldado estirados no chão.
Para fugir
da perseguição fomos para Pindaré-Mirim (MA), onde continuamos lutando e
sempre observando as lições no livro do mundo, mas agora também
aprendendo e ensinando lições no mundo dos livros. Num curso que fiz
sobre sindicalismo no Movimento de Educação de Base (MEB). Ligado a
Igreja Católica e legalmente reconhecido pelo então Presidente da
República, João Goulart, finalmente tomei consciência que para acabar
com a exploração e a violência era preciso dizer não ao latifúndio, e
também ao capitalismo. E para conseguir isso era necessário educar o
povo, lutar contra o analfabetismo e organizar sindicatos de
trabalhadores rurais.
Ao sair do
curso, em pouco tempo conseguimos implantar, em mutirão, mais de 30
escolas de alfabetização para adultos e crianças no município, as quais
demos o nome de João de Barro. Em agosto de 1963 fundamos finalmente, em
Pindaré-Mirim, o primeiro sindicato de trabalhadores rurais do Maranhão.
O Brasil
precisava mudar. Afinal, na época, a população somava 70 milhões de
habitantes, dos quais 38 milhões ainda vivia uma vida miserável na zona
rural. Por isso, ousávamos sonhar com aquele Brasil que fazia as
Reformas de Base, a estatização das refinarias de petróleo e a Reforma
Agrária. Para isso lutavam as Ligas Camponesas, os sindicatos rurais e a
Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), o
Comando Geral dos Trabalhadores impulsionado pelas greves operárias de
São Paulo, dos petroleiros e dos mineiros, em Nova Lima. Lutavam também
a Juventude Estudantil Católica (JEC), Juventude Universitária Católica
(JUC), Juventude Operária Católica (JOC) e Juventude Agrária Católica (JAC),
uma geração de jovens generosos e sonhadores que vislumbravam um país
sem fome, sem miséria, sem opressores e oprimidos e que lutavam pela
construção de uma sociedade socialista. Jovens católicos e protestantes,
alguns sem religião, políticos progressistas, militantes operários e
camponeses, que fundavam a organização política de esquerda Ação Popular
(AP), em 1963, na cidade de Salvador, e na qual eu me engajei algum
tempo depois.
Mas o
Brasil da democracia que precisava mudar, não mudou. Foi golpeado pelos
capitalistas e latifundiários, com a ajuda do governo norte americano.
João Goulart foi deposto no dia 31 de março de 1964 por um golpe vil
militar. O poder é assumido à força pelos militares golpistas que
instauraram um regime militar que vai durar 20 anos, acabando com a
democracia, retirando do povo o direito de votar nos seus governantes,
dissolvendo partidos políticos, cassando mandatos de parlamentares,
governadores e prefeitos, fechando sindicatos, perseguindo e prendendo
sindicalistas, operários, camponeses, estudantes, padres, artistas,
jornalistas, torturando e matando cidadãos.
.................................................
4 – Das
provas das alegações
.................................................
Provas
Testemunhais
.................................................
Por isso,
denuncio ainda os assassinatos de todos os presos políticos durante o
regime militar e, particular, dos meus companheiros da Ação Popular
Marxista Leninista do Brasil: o engenheiro baiano Jorge Leal Gonçalves,
preso e assassinado no Rio de janeiro, em 1970, pelo DOI-CODI e até hoje
“desaparecido”, o operário Raimundo Eduardo da Silva, preso
em
São Paulo e
assassinado no DOI-CODI, em 1970, o engenheiro agrônomo Luis Hirata,
preso e assassinado pelo DOPS paulista, em 1971, o ex-deputado Paulo
Stuart Wright, preso
em São
Paulo entre 4 e 5 de setembro de 1973 pelo DOI-CODI e assassinado, e até
hoje “desaparecido”, o presidente da UNE, Honestino Guimarães e Humberto
Câmara, ex-diretor da UNE, presos no Rio de Janeiro em outubro de 1973,
assassinados e até hoje “desaparecidos”, os estudantes José Carlos da
Mata Machado e Gildo Macedo Lacerda, presos em outubro de 1973 em São
Paulo e em Salvador, respectivamente, depois assassinados em Recife, os
estudantes Eduardo Collier e Fernando Santa Cruz, presos em 1974, no Rio
de Janeiro, assassinados e até hoje “desaparecidos”.
Denuncio
ainda que os trabalhadores rurais José Francisco da Silva e Joaquim
Matias Neto, militantes da Ação Popular, presos e torturados pela
ditadura em 1972, no Maranhão, morreram depois, no final da década de
1970, já fora da cadeia, de seqüelas da tortura. Portanto, também foram
assassinados.
Denuncio
também os assassinatos de dois companheiros que foram da AP e já estavam
no PCdoB quando foram presos e mortos pela ditadura: o engenheiro Rui
Frazão, preso e assassinado em 1974, em Pernambuco, e até hoje
“desaparecido”, e João Batista Drumonnd, preso em 1976 em São Paulo e
assassinado.
.................................................
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Jornal do
Brasil – editoria Brasil, Domingo 24/10/99
Um
perfil da luta armada
Livro traz
levantamento de organizações e partidos que resistiram à ditadura
VASCONCELO QUADROS
SÃO
PAULO
- O livro Dos filhos deste solo, de autoria do deputado
Nilmário Miranda (PT-MG) e do jornalista Carlos Tibúrcio (Boitempo
Editorial e Editora Fundação Perseu Abramo, 650 páginas), é a primeira
publicação de referência histórica dos anos de chumbo a fornecer um
perfil completo dos partidos e organizações de esquerda que optaram pela
luta armada para combater a ditadura militar instalada em 1964. Também
mostra o número de ativistas e dirigentes políticos (293) assassinados e
as 11 organizações a que pertenciam. O total de mortos apontado no
livro, incluindo os que não pertenciam a organizações, morreram no
exterior ou se suicidaram chega a 424 casos.
O
levantamento tem como base os três anos de trabalho da Comissão
Especial, criada pela Lei 9.140 (1995-1998), que analisou 364 casos de
presos políticos mortos ou desaparecidos entre setembro de 1961 e agosto
de 1979, período de vigência da anistia. Desses, 280 - 132 listados na
época como desaparecidos - foram oficialmente reconhecidos como mortos e
suas famílias, indenizadas.
Tabu
- Isso equivale a dizer que o governo brasileiro, na
gestão do presidente Fernando Henrique Cardoso, reconheceu oficialmente
que o Estado, através dos militares e dos órgãos policiais, prendeu,
seqüestrou, torturou, matou e forçou o sumiço de ativistas que
confrontaram o sistema - um velho tabu, que até então as Forças Armadas
se recusavam a tocar. O reconhecimento é também uma reparação moral à
memória de ativistas que, certos ou errados, pegaram em armas para
defender um ideal e combater o arbítrio.
Das 11
organizações envolvidas na luta armada, a Ação Libertadora Nacional (ALN)
e o Movimento de Libertação Popular (Molipo), que atuavam numa faixa
idêntica, foram as mais atingidas pela repressão. Juntas, tiveram 72
ativistas mortos, dos quais quatro foram justiçados por decisões
internas e outros quatro faleceram em acidente.
Seqüestro
- Dissidência do Partido Comunista Brasileiro (PCB), a
ALN era intimamente ligada a Carlos Marighella, que, com o lema "a ação
faz a vanguarda", tentou disseminar a guerrilha urbana entre os anos de
1968 e 1973. A mais famosa ação da ALN foi a participação no seqüestro
do embaixador americano Charles Burke Elbrick, no Rio, com o Movimento
Revolucionário 8 de Outubro (MR-8).
No dia 4
de novembro de 1969, a ALN perdia seu comandante e um dos mais
expressivos líderes da guerrilha: atraído para uma emboscada na Alameda
Casa Branca, nos Jardins, em São Paulo, Marighella foi cercado e
executado à queima-roupa com quatro tiros. A ALN permaneceria combatendo
até 1975.
Pela ordem
de baixas, o Partido Comunista do Brasil (PC do B) foi a segunda
organização mais reprimida: 68 militantes foram assassinados, 58 deles
na Guerrilha do Araguaia. Do PC do B saíram ainda outras duas
organizações, o Partido Comunista Revolucionário (PCR), que tinha suas
bases no Nordeste, e o Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), cada
um deles com quatro baixas, incluídas entre os 68 mortos.
Guerrilha rural
- O PC do B acreditava que o palco da guerrilha seria o
meio rural, concentrou sua base de treinamento na região do Rio
Araguaia, no Sul do Pará, e praticamente desprezou a luta urbana. Acabou
sofrendo uma implacável caçada por parte das forças de repressão, que
cercou a região com 20 mil homens.
Um dos
poucos que escaparam foi Ângelo Arroyo, que, no fim de 1976, seria
assassinado, com outros dois dirigentes de peso do partido, Pedro Pomar
e João Baptista Franco Drumond, durante uma reunião do comitê central. O
massacre, no Bairro da Lapa, Zona Oeste de São Paulo, ficou conhecido
como a Chacina da Lapa.
A
Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), fundada pelo ex-capitão Carlos
Lamarca - que depois passaria para o MR-8 -, perdeu 37 ativistas, dos
quais dois pertenciam ao Comando de Libertação Nacional (Colina).
Ela surgiu
em 1968 como uma fusão de dissidentes de outras organizações, tentou
implantar um foco de guerrilha e de treinamento no Vale do Ribeira, em
São Paulo, e depois participaria do seqüestro de três diplomatas - do
Japão, Alemanha e Suíça -, que seriam devolvidos mediante a libertação
de presos políticos.
Herzog
- O PCB perdeu 38 militantes e sofreu um duro golpe com o
desmantelamento, pela repressão, do aparelho sindical que mantinha sob
seu controle. Os casos mais famosos de assassinato nos porões da
ditadura foram os do jornalista Vladimir Herzog, em outubro de 1975, e
do operário Manoel Fiel Filho, em janeiro de 1976. Essas duas mortes
desencadearam grandes manifestações contra a tortura e forçaram o regime
a recuar. O PCBR, que surgiu como uma corrente revolucionária no Rio e,
em 1968, assumiu a condição de partido clandestino, teve 16 ativistas
assassinados.
Originado
de uma dissidência do PCB, o MR-8 perdeu 15 ativistas. Foi de seus
membros a idéia do primeiro seqüestro político no Brasil - o do
embaixador americano -, planejado e executado com a ALN, que abriria
caminho para a libertação de dezenas de presos políticos, trocados por
autoridades e depois banidos. Quando Lamarca morreu, em setembro de
1971, depois de uma implacável perseguição pelos sertões da Bahia,
pertencia aos quadros do MR-8.
Adhemar
- A outra organização que amargou grande número de perdas
foi a Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares (VAR-Palmares), fundada
em 1969 como uma fusão da VPR e da Colina. A mais atrevida ação da
VAR-Palmares, que teve 17 ativistas assassinados, foi o assalto à
residência da secretária e suposta amante do ex-governador paulista
Adhemar de Barros, Ana Capriglione. Foi a mais rentável ação da
guerrilha: o cofre levado pelos guerrilheiros tinha US$ 2,5 milhões (em
valores da época), dinheiro que teria origem na corrupção.
O
Movimento Nacional Revolucionário (MRN), estruturado no Uruguai durante
o exílio do ex-governador Leonel Brizola, teve 10 ativistas
assassinados. Era formado por militantes que já tinham lutado pelas
reformas de base antes de 1964 e, mais tarde, por sargentos, cabos -
entre eles o maior traidor da guerrilha, o cabo Anselmo José dos Santos
- e marinheiros excluídos pelas Forças Armadas.
Liderado
por Brizola, o MNR tentou, sem sucesso, montar três focos de guerrilha
no país, um deles na Serra de Caparaó, entre Minas Gerais e Espírito
Santo. Em 1967, depois de sucessivas frustrações, o MNR registrava
várias baixas.
AP
- A Ação Popular (AP), resultado do movimento iniciado em
1963 pela Juventude Universitária Católica (JUC), perdeu 10 militantes.
Sua direção tinha duas vertentes: uma estudantil católica, liderada por
Herbert de Souza, o Betinho, e outra protestante, dirigida pelo
ex-deputado Paulo Stuart Wright, irmão do pastor protestante Jaime
Wright, um dos organizadores do livro Brasil nunca mais.
Das outras
organizações que integravam a linha de frente da guerrilha, a Política
Operária (Polop) - que englobava também o Partido Operário Comunista (POC),
gerando outras organizações nas quais os autores do livro militaram -
teve sete ativistas mortos; e o Partido Operário Revolucionário
Trotskista (Port), que existia desde 1953, perdeu três integrantes.
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O Caso do PRT texto inédito,
elaborado por William Jorge Gerab,
organizador desta coletânea.
O CASO DO
PRT
William
Jorge Gerab
O PRT,
Partido Revolucionário dos Trabalhadores, foi um pequeno agrupamento de
militantes políticos de esquerda, que existiu sob as duras condições de
clandestinidade impostas pela ditadura militar, foi conseqüência de um
rompimento político e evoluiu para um processo de fusões com outros
agrupamentos, após quatro anos de trabalho de organização e politização
nos movimentos sociais. Como acontece até hoje, foi um dos muitos
pequenos grupos surgidos das divergências e dificuldades de
funcionamento democrático nos agrupamentos políticos. ...
Mas, por
sua origem e, talvez, por ter surgido já no declínio das concepções
guerrilheiras e das organizações armadas, o PRT pode seguir outro
caminho, desenvolver sua metodologia de construção partidária e de luta
pela transformação socialista voltado para a mobilização social,
buscando um forte vínculo com a realidade, na qual viviam seus
militantes. Sem a pretensão de esgotar o assunto, este texto tenta,
justamente, descrever os motivos e as condições do surgimento desse
partido, mostrando também seus objetivos, iniciativas e comportamento,
no contexto em que teve presença.
Era
segundanista da Escola de Sociologia e Política de São Paulo (ESP), em
1974, quando se iniciou o processo, no qual se inseriu o PRT. Vinha de
experiências no movimento estudantil, secundarista e universitário, de
algum tempo na oposição sindical bancária - pré-sindicalismo autêntico -
e de, no campo político partidário, ter participado da dissidência
secundarista do PCB, em São Paulo, durante a segunda metade da década de
1960. ...
1- O
ambiente na esquerda do final da década de 70:
...................................................
Ilusões e
equívocos de interpretação das revoluções chinesa e cubana fizeram a
ousadia mais sedutora do que o paciente trabalho de organização das
bases sociais oprimidas; a visão de mundo stalinista, que dá um papel
secundário aos movimentos sociais na luta pela transformação socialista;
a avaliação precoce de que as dificuldades econômicas eram maiores do
que realmente eram e de que elas levariam a uma perda do controle
social; o voluntarismo de achar que ações exemplares e emanações
positivas dessas ações, ainda que fracassassem, levariam à multiplicação
das mesmas, enquanto a maioria da população sequer conseguia acompanhar
ou mesmo entender os acontecimentos, são algumas das interpretações
possíveis de parte dos erros cometidos.
................................................................
2- A Liga
Operária e o primeiro racha interno, o PRT.
................................................................
Com a Liga
Operária, uma das bisavós do atual PST-U, chegavam a dezenas (depois,
centenas e, talvez, milhares) de jovens militantes importantes idéias
marxistas, desenvolvidas por Lênin e Trotsky, dirigentes da revolução
russa de 1917:
• a
importância de construir o partido com base no seu programa político (o
programa como eixo);
• o papel
do jornal do partido como organizador coletivo, coerentizando a ação de
toda a militância (o organizador coletivo);
• o
cuidado com o método de organização dos integrantes do partido e a
democracia interna, possibilitando a unidade na ação (o polêmico
centralismo democrático);
• o
caráter internacional da revolução proletária e a necessidade do partido
internacional (o internacionalismo);
• a
compreensão de como a sofisticação da economia dos países desenvolvidos
foi construída à custa do retardamento forçado das economias dos países
menos desenvolvidos (a teoria do desenvolvimento desigual e combinado);
• a
elaboração de um programa de demandas transitórias, capaz de por em ação
os movimentos sociais dos paises coloniais e semi-coloniais e lava-los
das lutas por melhorias econômicas e independência nacional até o
controle do poder central e reestruturação do poder, rumo ao socialismo,
nesses países – demonstrando porque os países economicamente avançados
fariam depois a revolução, mas chegariam primeiro ao socialismo - (O
Programa de Transição); etc.
Passada a
euforia da fundação, do aprendizado das concepções teóricas e políticas
diferentes sobre a realidade e das promessas de uma democracia interna
efetiva, com a superação do centralismo burocrático e autoritarismo
dogmático das organizações stalinistas, começaram a surgir as decepções.
Como fator
de afirmação do partido e, em especial, do núcleo profissionalizado de
direção, incutia-se a idéia messiânica de que aquele seria o único
partido da revolução socialista, o que leva à coincidência com a postura
pelo partido único do stalinismo. Se alguma revolução houvesse, sem ser
dirigida por esse partido, ainda não seria a verdadeira revolução
socialista. Mais do que isso, se algum outro partido estivesse ocupando
o lugar “reservado” a esse partido, crescendo na mesma base social, por
exemplo, seria um partido usurpador e, portanto um partido inimigo a ser
destruído.
A
concepção de partido se afunilava, a ponto de se poder resumi-la ao
núcleo de dirigentes profissionalizados. A democracia interna era
cuidadosamente controlada, sendo que as divergências surgidas num setor
não possuíam canais para ser discutidas, também, em outros setores. A
insistência na tentativa de homogeneização das discussões de divergência
no conjunto da organização, fossem através de documentos e/ou contatos
pessoais, era passível de pesadas punições, inclusive a expulsão.
Fechando o
círculo de aço do controle do funcionamento interno, a ampliação desse
núcleo de dirigentes profissionalizados dependia, exclusivamente, da
direção estabelecida - os militantes de base não podiam opinar, tanto
sobre quando se ampliaria, quanto sobre quem comporia essa ampliação.
Todavia, isso não conseguia impedir uma certa disputa, mesmo com
resultados previsíveis, pelos cargos profissionalizados.
Paralelamente, havia um forte culto a um ente abstrato e fictício: “o
operário ou a operária”. Equivocadamente, emanava-se um ser ideal do
conceito de classe operária como dirigente da revolução socialista, que
saberia de nascimento, mesmo que a sua classe ainda não tivesse se
constituído em sujeito coletivo, o que fosse certo ou errado para a
construção de uma nova sociedade.
Com a
combinação de todos esses fatores, estava criada uma situação, na qual
os militantes de base para poderiam ser deslocados para as fábricas (proletarização)
ou para o movimento estudantil e, em conseqüência dos ou acertos, inflar
ou encolher o número de integrantes, pois essas oscilações não
afetariam, de imediato, o poder de decisão política do tal núcleo
dirigente. Assim, direção central construía uma blindagem protetora, que
a liberava para quaisquer desvios, como os voluntaristas e/ou
impressionistas,
mexendo negativamente não só com a vida política dos militantes de base
e intermediários, mas, também, com as suas vidas familiares e com suas
condições, enquanto trabalhadores ou estudantes.
Não
tardaram a surgir divergências mais sérias: primeiro, na disputa por
profissionalizações; depois, numa afobada e equivocada decisão por
panfletagem aberta no ABC, que levou à prisão e tortura de dois
militantes proletarizados; e, ainda, pelo impedimento de circulação
interna de um documento de crítica à direção, elaborado por uma célula
(agrupamento de militantes de uma mesma frente de luta) operária, da
qual alguns membros protagonizavam as polêmicas com o núcleo dirigente.
Num encontro de rua, entre o coordenador da célula e um membro da
direção, houve uma troca de textos: o da célula anunciava o afastamento
de todos os seus integrantes da organização, já o da direção comunicava
a expulsão de dois desses integrantes.
3- O PRT
(1977-1981): a síndrome de membro da 4ª Internacional, a trajetória e o
processo de fusões.
A origem
no movimento estudantil de parte da célula operária, que se desligou da
Liga Operária, permitiu um pequeno rompimento do bloqueio do contato
entre as células, imposto pelo núcleo dirigente. Com isso, uma célula
estudantil pode solidarizar-se com a operária e foi juntar-se a ela.
Tinha-se, isso já no final do ano de 1977, a composição inicial do que
seria o Partido Revolucionário dos Trabalhadores, o PRT. Na verdade, por
mais ilusões que tivessem, esses militantes não achavam que poderiam,
sem surpreendentes avanços quantitativos e qualitativos, sequer iniciar
as gigantescas tarefas, que aguardavam uma organização revolucionária.
Tratava-se
de esboçar um rumo, manter os militantes unidos e buscar contatos
internacionais, no âmbito do morenismo. Talvez, assim fosse possível
fazer as discussões, que não podiam ser feitas na seção brasileira,
provocar mudanças democráticas no funcionamento da dessa organização e,
no futuro, poder voltar para a L.O. Para alcançar esses objetivos,
definiu-se:
-
o aprofundamento da atuação nas categorias profissionais, as quais se
avalia serem as prioritárias no país e nas quais já estávamos,
metalúrgicos de São Paulo e de São Bernardo, assim como no movimento
estudantil, a partir da Universidade de São Paulo (USP);
-
a elaboração um jornal para divulgarmos e discutirmos nossas posições
sobre políticas nacionais e internacionais; outro jornal para servir às
atividades sindicais, cujos nomes homenageavam as publicações do Partido
Bolchevique,
“A Verdade” e “Faísca”, respectivamente e
-
a elaboração de dois tipos de boletins mensais de circulação interna,
cujas edições se revezavam quinzenalmente, um para canalizar a linha
política do núcleo dirigente, composto por quatro militantes eleitos,
sendo que o outro era destinado à divulgação de propostas e divergências
de qualquer militante;
-
a busca contatos internacionais, a princípio pelo correio, enviando
cartas e nossas publicações a partidos da América Latina, além de buscar
e desenvolver contatos com organizações políticas brasileiras
internacionalistas.
................................................................
Viabilizou-se a viagem à Colômbia, que deixou claro serem as posições da
L.O., não só apoiadas internacionalmente, mas que partiam de orientações
internacionais do setor minoritário do S.U. Com isso, terminaram as
expectativas de reconhecimento por aquele núcleo dirigente
internacional, do PRT como uma segunda seção nacional. Por outro lado,
este partido estava liberado para definir uma outra identidade
internacional.
Alguns
meses depois dessa viagem, viabilizou-se a realização do Congresso, que
atingiu seus objetivos de definir políticas, criar uma instância mais
ampla e superior de direção, permitindo que houvesse um Comitê Central e
uma Executiva, além avançar na coesão interna – por ter debatido as
divergências e construído consensos. Porém, com as precárias condições
financeiras, baseadas apenas nas cotizações mensais dos militantes e
campanhas pontuais, só foi possível adquirir o novo mimeógrafo um ano
mais tarde, já em 1979.
Com o
aumento da tiragem dos instrumentos de divulgação das propostas
políticas, combinadas a consolidação da presença do PRT, nas respectivas
frentes em que atuavam seus militantes, o partido pode experimentar
algum crescimento, tanto no número de participantes, quanto na sua
influência sobre as decisões tomadas democraticamente nas mencionadas
frentes do movimento social. Isso era resultado, não só do adequado uso
dos seus periódicos e da militância séria e comprometida com suas
propostas políticas, mas também pela dinâmica democrática entre as
instâncias partidárias e no interior delas:
•
as divergências eram divulgadas e discutidas, mais do que isso, apesar
de nunca terem sido necessárias, fosse pelas pequenas dimensões do
partido, fosse pela curta longevidade que, afinal, acabou tendo, o
acúmulo propiciado por experiências partidárias anteriores, permitia a
existência da regulamentação de alternativas para a organização de
minorias internas,
-
a “corrente de opinião” (no caso de divergências pontuais e limitadas no
tempo),
-
a “tendência” (para divergências parciais, mas duradouras, com relação
às linhas políticas) e
-
a “fração” (na situação de divergências de fundo, envolvendo as ou
algumas das principais políticas, envolvendo a necessidade de
substituição dos e das dirigentes);
•
o ingresso e aumento das responsabilidades dos militantes no interior do
partido eram marcados por cursos de formação política;
•
somava-se o fato de que, a postura contra a discriminação dos setores
sociais oprimidos, tinha o seu reflexo na própria composição das
instâncias dirigentes;
•
havia, porém, uma divergência de fundo, sob o aspecto do método de
construção partidária, tratava-se da adoção do “centralismo-democrático”
– conceito leninista, definido como “total liberdade na discussão e
total unidade na ação”, que impunha à minoria a adoção da posição da
maioria interna na ação política na sociedade -, o qual, era visto por
boa parte da militância como uma espécie de “corpo estranho”, uma
herança compulsória do tal bolchevismo, sem a qual o partido não seria
revolucionário, mas que cheirava a autoritarismo dogmático, causando
sérias insatisfações para importantes parcelas de militantes, em muitas
oportunidades.
Assim, se
o trabalho junto ao movimento social tinha resultados positivos, se as
publicações realmente contribuíam para o aumento da influência e o
crescimento, se as relações internas eram democráticas e fraternais, no
início dos anos 80, começaram a demonstrar claros sinais de
insuficiência. Havia a perspectiva de um forte ascenso do movimento
social. Afinal, já haviam ocorrido greves em 1978 e 1979, possibilitando
o avanço dos “sindicalistas autênticos”, que iniciavam a retomada dos
sindicato; no início da década de 70 o “Movimento Contra a Carestia dos
Preços” já tinha apontado para uma robustecida presença da mobilização
popular nos novos tempos, que se iniciavam; o movimento estudantil já
havia marcado a sua presença, embora pontualmente, em vários momentos
dessa década – demonstrando alguma recuperação do massacre sofrido no
final da década anterior.
O Governo
Geisel,
que assumiu em 1974, já dava sinais de que, também, o regime militar
preparava-se para a democracia, mas buscando controlar o processo de
transição e manter o que pudesse do aparato repressivo. A anistia, cuja
Lei foi assinada em 1979 pelo sucessor de Geisel, o General João
Figueiredo, acabou sendo ampla: todos da esquerda puderam voltar, porém
os da direita – entre eles os torturadores – escaparam da punição por
seus crimes. Mesmo com uma poderosa mobilização pelas eleições diretas
para a Presidência da Republica, Governos Estaduais e Prefeituras das
Capitais e Estâncias Hidrominerais , em 1985 a população teve que
amargar, embora só até 1989, mais um governo escolhido pelo “Colégio
Eleitoral”.
Apesar de
tudo, ao se aproximarem os anos 80, os saltos organizativos eram
notáveis. Realizaram-se os Conclat(s) – Congressos da Classe
Trabalhadora -, que gerariam a Central Única dos Trabalhadores – CUT e a
Força Sindical. Além disso, já se começa a falar e a realizarem-se as
primeiras articulações, em torno da idéia de um partido “sem patrões“. O
PT já estava a caminho.
O PRT,
pelo qual passaram cerca de cento e cinqüenta militantes, mas que, num
mesmo tempo, nunca havia tido mais de cinqüenta, já começava a dar
sinais de esgotamento. Mesmo que tivesse conseguido elaborar as
políticas mais adequadas e que respondessem à maior parte da
diversidades de questões levantadas por aquele momento da realidade, já
não conseguia atrair ou mesmo reter um grande número de militantes, que
se dirigiam para os agrupamentos maiores, com publicações
profissionalizadas e intelectuais e dirigentes sindicais bastante
conhecidos do público. Esses agrupamentos maiores já não estavam mais
tão distantes politicamente, pois o processo de mobilização social
fornecia, a todos, fortes indicações do caminho a seguir. Além disso, a
clandestinidade das organizações de esquerda já não era tão rigorosa.
4- Se
abrindo para o futuro: o processo de fusões.
................................................................
É claro
que esses procedimentos tinham, como pano de fundo, uma identidade
metodológica e uma mesma linguagem, isto é, havia entendimento sobre
como se fazer as coisas. Assim o PRT pode aproximar-se e fundir-se à
FURP – Fração Unitária pela Reconstrução do Partido, o segundo racha da
L.O., que teve motivos muito semelhantes aos do primeiro para o
rompimento, com a vantagem de ter quatro vezes mais militantes,
distribuídos em três estados e não apenas em um.
Ato
contínuo, com um espaço de apenas alguns meses, a nova organização,
composta pelos dois agrupamentos oriundos da L.O., repetiu o exercício
de discussões, realizações de encontros internos e entre militantes da
mesma frente dos dois agrupamentos, de visitas de representantes de um
grupo a outro, acordos sobre a proporcionalidade na composição das
instâncias de direção e, num segundo Congresso de Fusão, compôs com o
agrupamento Democracia Socialista, que reunia seus militantes em torno
do periódico “Em Tempo”. Tínhamos, então, no final de 1981, a
Organização Revolucionária Marxista – Democracia Socialista – ORM-DS.
................................................................
... (O PRT)
Conseguiu conduzir-se até uma situação organizativa e política superior.
Há acerto na afirmação de serem os acordos totais, característica dos
cemitérios. Mas, por tudo o que foi dito neste estudo de caso, pode-se
construir um consenso pontual em torno da avaliação de ter tido o PRT
uma trajetória vitoriosa.
Sader,
Emir Coleção História Viva
A
TRANSIÇÃO NO BRASIL –
Da
Ditadura à Democracia?
10ª
edição Atual Editora 1991 –
São Paulo.
A
TRANSIÇÃO NO BRASIL
Emir
Sader
Capítulo 2 – A transição realmente existente.
O sonho de
uma transição controlada de cima para baixo foi sendo questionado pela
perda de legitimidade do regime militar no transcurso da década de 70,
conforme as bases de expansão econômica iam revelando sua fragilidade, a
crise social voltava a se expandir e a oposição política a ganhar corpo.
Ainda assim, o general Golbery do Couto e Silva, o mais lúcido teórico
do regime militar, conforme a doutrina de segurança nacional, propunha
um processo de abertura gradativa, que fosse desativando os focos de
tensão acumulados pelo regime ditatorial, para que a transição pudesse
ser feita sob controle.
Faziam
parte desse processo a institucionalização do regime, a anistia política
restrita, uma nova lei de partidos políticos - que, ao mesmo tempo que
abrisse campo para novas expressões contidas das lutas políticas,
enfraquecesse a oposição, dividindo-a – e a convocação de eleições, para
governadores primeiro e, finalmente, para presidente da República, numa
dinâmica gradual que levaria anos.
................................................
O projeto
original de Golbery tropeçou em vários obstáculos. O primeiro foi a
campanha popular pela anistia geral e irrestrita, que terminou
triunfando sobre o projeto governamental de decretá-la de maneira
restrita. Isso possibilitou a volta ao país de todos os exilados
políticos, concluindo um período de exclusão prática da cidadania a
todos aqueles processados e perseguidos pelo regime militar que se
haviam refugiado no exterior. Brizola, Arraes, Luis Carlos prestes,
Gabeira e centenas de outros tiveram os seus retornos comemorados
simbolicamente como expressão de ruptura dos vetos militares à
participação política plena de todos os brasileiros como cidadãos.
Os atos
institucionais que haviam caracterizado o Estado de exceção tiveram sua
vigência concluída. Com eles, se reabriu o processo de amplo de
organização partidária. Até aquele momento, o Movimento Democrático
Brasileiro (MDB) abrigava todas as tendências de oposição à ditadura, de
moderados como Tancredo Neves a grupos de todas as orientações da
esquerda, mesmo os mais radicais.
Surgiu uma
nova estrutura partidária. A direita, antes organizada na Aliança
Renovadora Nacional (Arena) mudou seu nome para Partido Democrático
social (PDS), enquanto o MDB assumia o nome de Partido do Movimento
Democrático Brasileiro (PMDB). Deste saíram setores mais conservadores,
como os mencionados ligados a Tancredo Neves – que logo depois voltariam
ao PMDB –, e setores à esquerda.
...................................................
As
tendências mais marcadamente de esquerda saíram do MDB para formar o PT.
Neste, o eixo central foi formado pelos sindicalistas de base, antes de
tudo pelos metalúrgicos do ABC paulista, mas incluindo também bancários,
petroleiros e vários outros setores desenvolvidos nos anos anteriores de
resistência à ditadura. Lula, Olívio Dutra, Jacó Bittar, Luis Gushiken,
entre outros, a partir dessa atividade sindical e com a fundação do
Partido dos Trabalhadores, se lançaram à vida política.
Uniram-se
a esse núcleo intelectuais, artistas, profissionais liberais, homens de
cultura, gente ligada às atividades direitos humanos, religiosos, todos
de concepção que ultrapassava o plano político para o social, com uma
visão ética a respeito das injustiças sociais existentes no país. Também
se agregaram militantes originários das lutas dos anos 60 e grupos – ou
seitas – de tendência trotskista ou maoísta. Em nível de base se
juntaram as Comunidades Eclesiais de Base – órgãos populares de trabalho
social da Igreja, conforme a Teologia da Libertação, ligadas às
pastorais da terra, do menor, operária, etc.
................................................
Ficou
assim constituído o novo quadro partidário que seria o cenário político
básico da transição: PDS, PMDB, PTB (Partido Trabalhista Brasileiro),
PDT
(Partido Democrático Trabalhista), PT. A maior novidade em relação à
estrutura partidária anterior ao golpe militar de 1964 era a formação do
PT, já que o PDS cobria a direita tradicional, o PMDB reunia os setores
heterogêneos do centro e da centro-esquerda, enquanto o PTB e o PDT
tratavam de ocupar o espaço do trabalhismo getulista. O PT se
diferenciava, já na sua constituição, da esquerda tradicional – PCB, PC
do B, trabalhismos. Socialmente, incorporava os setores das classes
dominadas normalmente excluídos da vida política, como os sem-terra, os
sem-casa, os sindicalistas de base, organizações comunitárias da Igreja,
minorias.
..................................................
Capítulo 4 – Transição: para o quê?
A nossa
transição
..........................................
As tutelas
militar e financeira pendem sobre o país como espadas que bloqueiam a
instalação de uma democracia política e social no Brasil. O monopólio
dos grandes meios de comunicação por algumas famílias – Marinho, Bloch,
Saad, Santos, Frias, Nascimento Brito, Mesquita, Civita – impede a livre
expressão da heterogeneidade de interesses e opiniões existentes no
país, trabalhando na direção oposta, de impedir o desenvolvimento da
autoconsciência e de uma visão crítica e independente por parte de
amplos setores do povo. As condições materiais miseráveis em que se
encontram fazem com que as grandes maiorias gastem toda sua energia na
luta pela sobrevivência de suas famílias, ameaçadas pela fome, pelas
doenças, pela violência, pelas arbitrariedades do Estado, pela justiça
classista, pela degradação material e moral a que o capitalismo
brasileiro condena quatro de cada cinco habitantes do país.
Apesar de
tudo, essas mesmas condições geraram, ao longo do processo de luta
contra a ditadura e, depois, no desenrolar de uma transição
conservadora, consciência, organização e força social e política
próprias por parte do povo, possibilitando-lhe chegar aos anos 90
fortalecido. Essa força vem, em primeiro lugar, de uma organização
sindical como nunca o país havia conhecido. A Central única dos
Trabalhadores (CUT), que agrupa a maioria dos trabalhadores
sindicalizados – um índice ainda baixo, inferior a 20% -, tem uma
posição independente diante da tutela tradicional das estruturas
estatais sobre o movimento sindical. Ela se fortaleceu no transcurso dos
anos de transição, deixando sua rival – Confederação Geral dos
Trabalhadores (CGT) – debilitada e dividida em duas entidades, como
organização secundária, devido a sua posição moderada e tendente ao
acomodamento às estruturas do Ministério do Trabalho e às políticas
econômicas do governo.
Em segundo
lugar, essa força vem dos movimentos sociais surgidos durante a década,
que se cristalizaram em organizações dos sem-terra, dos sem-casa, de
resistência à destruição da Amazônia e das reservas florestais e
minerais do país, em movimentos agrupando os índios, os negros, as
mulheres, os homossexuais – enfim, todos aqueles considerados minorias
políticas – consolidando um espaço próprio de luta e de organização. A
atuação dos setores progressistas da Igreja e dos sindicatos rurais
possibilitou o processo de conscientização e emancipação dos
historicamente relegados trabalhadores do campo avançasse grandemente
nas áreas tradicionalmente dominadas pelo caciquismo - como o Nordeste,
o interior da Bahia e de Minas Gerais. A organização popular, no seu
conjunto, se estendeu grandemente e assumiu formas próprias de autonomia
e de expressão no campo político.
Na luta
política essa força se traduziu no fortalecimento dos partidos, tanto
maior quanto mais eles se distanciam e criticam as direções assumidas
pela transição. Assim, o partido que melhor captou a dinâmica da
sociedade brasileira e as ansiedades da maioria da população foi o PT,
seguido pelo PDT e depois pelo PSDB, as formações partidárias que saíram
mais bem estruturadas do período de transição. ... .
...................................................
**********************************************************
Cicone,
Reinaldo Barros
Da
Intenção ao Gesto: Um Olhar Gramsciano sobre a Possibilidade de
Integração do PT à Ordem
Cópia da Dissertação de Mestrado, Apresentada na Universidade Estadual
de Campinas – Unicamp - Departamento de Sociologia do Instituto de
Filosofia e Ciências Humanas, em maio de 1995
Da
Intenção ao Gesto:
Um
Olhar Gramsciano sobre a possibilidade
De
integração do PT à ordem.
Reinaldo Barros Cicone
INTRODUÇÃO
............................................
... Neste
estudo trataremos apenas de uma pequena parcela da enorme variedade
leituras possíveis da história , da atuação e das concepções políticas
do Partido dos Trabalhadores. Esta parcela será composta quase que
exclusivamente das Resoluções Partidárias aprovadas em seus encontros
Nacionais, principalmente do V ao IX. Ao menos formalmente, são estes
textos que trazem a avaliação da atuação partidária e que traçam sua
estratégia para o futuro. Utilizaremos também alguns outros textos
partidários não aprovados em encontros, artigos escritos por militantes
petistas e de outros estudos sobre o PT, elaborados anteriormente.
Dois são
nossos objetivos. Em primeiro lugar pretendemos conhecer e compreender o
desenvolvimento dos conceitos de Partido, Estado, Socialismo e Hegemonia
do PT, ao longo de sua história. Para esta compreensão utilizaremos os
conceitos elaborados por Gramsci, notadamente no período do cárcere.
Pretendemos verificar o grau de aproximação entre resoluções partidárias
e as idéias gramscianas sobre estes pontos. Em segundo lugar pretendemos
verificar o grau de rebaixamento dos horizontes do Partido, ao longo de
sua história.
............................................
Outra
análise importante deveria confrontar as decisões partidárias com a
prática do PT, isto é, verificar em que medida as resoluções são
efetivamente praticadas. ... Infelizmente, esta análise não cabe em sua
totalidade, nessa dissertação. ...
Capítulo II – Da Fundação ao IV Encontro Nacional
..............................................
No início
de 1978, aquele que seria a principal figura do PT até hoje, Lula, ainda
era contra a criação de um partido. Em julho do mesmo ano, entretanto,
Lula já admitia a necessidade de criação de um (ou mais) partido(s) e,
em 1979, compreendia plenamente a necessidade do PT.
Um dos
princípios básicos do PT, desde sua fundação, é o da democracia interna
e o respeito às diferenças. E não podia ser diferente, uma vez que
haviam vários grupos envolvidos na construção do PT:
a) Um
grupo de intelectuais democráticos e/ou de esquerda;
b)
políticos da esquerda do MDB;
c) setores
progressistas da Igreja Católica,
d) vários
grupos políticos de esquerda;
e) setores
vinculados ao movimento sindical.
Estes
diversos grupos, principalmente as mais de dez organizações
de esquerda, possuíam diferentes concepções de partido, revolução,
diferentes táticas e estratégias para a superação do capitalismo, além
de diferentes formas de encarar o PT, isto é, se como partido tático ou
estratégico, de massas ou de quadros, como partido ou como frente de
partidos, etc.
...............................................
Em seu
início o PT decidiu priorizar a ação nos movimentos sociais em
detrimento de uma ação mais parlamentar. Neste momento de afirmação do
seu projeto, também optou por evitar alianças eleitorais: ”assim, o PT
não fará coligação. Não por uma questão de princípio, mas por uma
questão de tática. Fazer ou não coligação depende do momento político,
do programa proposto e dos partidos que estejam interessados em
realizá-la”. (Carta Eleitoral – 1982 -, Partido dos Trabalhadores)
...............................................
No
Manifesto de Fundação, de 1980, as idéias de Socialismo, Democracia
Interna e democracia como valor permanente apareceriam claramente. A
importância e a forma de construção da democracia aparecem no primeiro
parágrafo do Manifesto, o que se justifica também pelo fato do PT surgir
lutando contra uma ditadura. “O Partido dos Trabalhadores surge da
necessidade sentida por milhões de brasileiros de intervir na vida
social e política do País para transformá-la. A mais importante lição
que o trabalhador brasileiro aprendeu em suas lutas é a de a democracia
é uma conquista que, finalmente, ou se constrói pela sua mão ou não virá
(...) Queremos a política como atividade própria das massas que desejam
participar, legal e legitimamente, de todas as decisões da sociedade.”
A idéia de
partido enquanto “Estado em Potência” também aparece desde o início:
“Queremos, por isso mesmo, um Partido amplo e aberto a todos os aqueles
comprometidos com a causa dos trabalhadores e com o seu programa. Em
conseqüência, queremos construir uma estrutura interna democrática,
apoiada em decisões coletivas e cuja direção e programa sejam decididos
em suas bases.”
Embora
pouco elaboradas, a crítica ao Capitalismo e a defesa do socialismo
também aparecem desde o Manifesto: “O PT nasce da decisão dos explorados
de lutar contra o sistema econômico e político que não pode resolver
seus problemas, pois só existe para beneficiar uma minoria de
privilegiados.”
................................................
Tratava
também da forma como o PT encarava a construção desta sociedade: “o
socialismo que nós queremos se definirá por todo o povo, como exigência
concreta das lutas populares, como resposta política e econômica global
a todas as aspirações concretas que o PT (é) capaz de enfrentar. Seria
muito fácil, aqui, sentados comodamente no recinto do Senado da
República, nos decidirmos por uma definição ou outra. Seria muito fácil
e muito errado. O socialismo que nós queremos não nascerá de um decreto,
nem nosso, nem de ninguém. O socialismo que nós queremos irá se
definindo nas lutas do dia-a-dia, do mesmo modo como estamos construindo
o PT. O socialismo que nós queremos terá que ser a emancipação dos
trabalhadores. E a libertação dos trabalhadores será obra dos próprios
trabalhadores.”
................................................
Plataforma
Nacional Aprovada:
“1.
Sem liberdade a vida não vai mudar;
2.
Num país tão rico é possível acabar com a fome;
3.
trabalhadores do campo: terra e melhores salários;
4.
Não é por falta de tijolo que o trabalhador não tem onde morar;
5.
Neste País há pouca saúde e muito lucro com a doença;
6.
A educação e a cultura são um direito e não um privilégio de classe;
7.
Somos todos iguais: chega de discriminações;
8.
No dinheiro do povo ninguém poderá meter a mão;
9.
Com os contratos de risco os tubarões pouco arriscam e muito petiscam;
10.
O poder para os trabalhadores e o povo;
11.
A
luta dos trabalhadores é a mesma em todo o mundo;
12.
Só o socialismo resolverá de vez os nossos problemas.
................................................
Em outubro
de 1982 foi lançado o documento O PT e a Economia. Projeto de Programa
Econômico. Este documento recebeu apoio de diversos economistas , mesmo
não petistas.
Este
documento reafirmava o caráter socialista do PT, mas também tratava das
questões de curto prazo.
Propunha a
renegociação da dívida externa, submetendo o seu pagamento ao
crescimento da economia e da satisfação das necessidades básicas da
população. Afirmava também que estas negociações deveriam ser conduzidas
por um governo democrático e com respaldo popular, deveriam tratar de
uma nova política industrial que permitisse o aumento da produção e a
substituição de importações, e não a redução do consumo interno. Além
disso, estas negociações deveriam ser articuladas com outros países
devedores, a fim de aumentar o poder de barganha dos endividados.
Denunciava
o desemprego de cerca de cinco milhões e setecentas mil pessoas e
propunha o salário desemprego. Além de medidas para aumentar a oferta de
empregos, como a jornada de quarenta horas semanais, aumento dos
serviços públicos de natureza social, reforma agrária, créditos
especiais para setores industriais que utilizassem mais mão-de-obra e
que produzissem bens de consumo popular.
Defendia o
aumento imediato do salário mínimo, a autonomia sindical, o direito de
greve, a estabilidade no emprego e a construção de uma central sindical
como forma de garantir a distribuição de renda no país.
Propunha
escala móvel de salários para garantir os trabalhadores da inflação,
“disputa entre as classes sociais para manter ou aumentar a sua
participação na renda nacional”.
Defendia
também uma reforma tributária e fiscal que cobrasse mais impostos
diretos que indiretos, aumentasse os impostos sobre grandes heranças e
produtos de luxo e isentasse os produtos de consumo essencial, entre
outros.
................................................
Em 2 de
junho de 1983 ocorre o lançamento do Manifesto dos 113, embrião da
Articulação. Defendia “o caráter estratégico do PT, sua independência de
classe e sua participação na vida política nacional.” Criticava também
as posturas conciliatórias e autônomas de vários deputados e de alguns
setores do partido, acordo com o mote Terra, Trabalho e Liberdade,
criticava as tendências que se comportavam como partidos dentro do
Partido e os comandos paralelos no interior do PT.
................................................
CAPÍTULO III – O PT LÊ A CONJUNTURA
................................................
Apesar da
diferença entre a intenção do IX Encontro
e a realidade da campanha não caber neste texto, não podemos deixar de
notar a astronômica distância entre a linha de campanha aprovada pelo IX
Encontro e a colocada em prática pela direção da campanha. A troca de
elogios entre Lula e Fernando Henrique, a poucas semanas do primeiro
turno; a insistência em debater o programa, quando sabidamente o
candidato do governo apresentava um livro vazio; a tentativa de comparar
as propostas petistas preparadas ao longo de anos com as propostas
demagógicas do adversário, e não insistir na linha de que estas
propostas não poderiam ser aplicadas devido aos acordos com os
conservadores, são ilustrativos de apenas uma parcela das diferenças
entre as decisões e a prática. Diferenças estas que consideramos como
uma das causas fundamentais da derrota do candidato da Frente Brasil
Popular.
Capítulo VI – Concepção e Construção Partidária
do V ao IX Encontro
................................................
O PT
percebeu a necessidade de repensar a organização partidária. Já que
crescia a responsabilidade e novas tarefas impunham-se ao partido,
principalmente as tarefas institucionais.
... Para o
VII Encontro,
o modelo de socialismo deveria estar relacionado com o modelo de
organização partidária. Nenhum dos dois, dizia-se, pode ser simplesmente
importado de outras experiências. Detectava-se um descompasso entre
discurso e prática organizativa petista.
Para
superar esta falta de sintonia era necessário tomar algumas iniciativas,
teóricas e práticas. Era preciso desenvolver melhor sua concepção de
socialismo e a forma para alcançá-lo. Esta elaboração deveria facilitar
a criação da identidade que o partido necessitava. Este processo deveria
abarcar a ação institucional, mas não deveria se restringir e nem se
subordinar a ela.
................................................
Considerado por muitos, dentro e fora do PT, como um encontro distinto
dos demais pela radicalidade das suas resoluções, na verdade o VIII
Encontro
rompeu apenas com a prática que a direção partidária vinha adotando, e
não com as resoluções aprovadas nos encontros anteriores do PT. Em
muitos pontos, apenas reafirmou pontos já aprovados anteriormente. Não
foi diferente na parte referente à organização do PT.
Se
criticava a prática, nada melhor do que fazer um balanço da direção. Em
resumo, o VIII Encontro afirmava: “para dirigir a campanha Lula e a ação
partidária nos próximos anos, o PT necessita de um novo núcleo
dirigente”, uma vez que o atual, desgastado por 3 anos de mandato e,
principalmente, pelo “desaparecimento da maioria da política que a
compôs”, não estava mais apta a cumprir as tarefas que o partido exigia.
CONCLUSÕES
................................................
Apesar das
inúmeras passagens, em todas as resoluções dos encontros, em defesa do
socialismo como objetivo último do PT, notamos que com o passar dos
anos, seus horizontes vão rebaixando-se. Não se trata, obviamente, de
dizer que o PT caminha rápida e inexoravelmente para a
social-democracia, mas de reconhecer que as alterações de rumo do
partido não decorrem apenas de modificações das concepções ou na forma
de encarar a realidade de seus militantes e dirigentes.
O que me
parece claro, ao final desta etapa de estudos, é que a conjuntura
nacional e internacional influencia significativamente as propostas de
governo e a linha de ação do PT. Influencia também, sem dúvida, a
relação do PT, seus militantes e principalmente dirigentes, com a
institucionalidade.
Percebemos
claramente que, quanto mais próximo do poder, menos avançadas são as
propostas do partido. O programa do PT vem se transformando, cada vez
mais, em um programa de governo, abandonando a utopia socialista de sua
fundação. O Mesmo ocorre em relação às alianças. Se antes não se admitia
alianças com partidos de ideais e objetivos diferentes, se as alianças
poderiam apenas realizar-se mediante um programa, a solução adotada, em
muitos casos, foi o rebaixamento do programa a ser proposto.
................................................Sem estas elaborações,
sem políticas claras, sem objetivos estratégicos, ganha espaço a luta
imediata, conjuntural e, consequentemente, o institucionalismo e o
aumento em número e poder dos centros autônomos de decisão
(parlamentares, prefeitos, personalidades etc.). Em palavras gramscianas,
caso não seja interrompido este processo, o PT caminha seguramente para
uma integração passiva à ordem. ...
As
soluções para reverter este curso e garantir a independência do PT em
relação às classes dominantes já foram ditas, escritas e aprovadas.
Estão nas próprias resoluções petistas. Priorizar de fato a nucleação,
incentivar a formação política e a comunicação, fazer balanços
constantes da atuação partidária e das direções, incorporar as massas ao
seu projeto, elaborar este projeto, sua concepção de mundo, e
difundi-los. Numa palavra, construir a hegemonia das classes
subalternas.
................................................
BIBLIOGRAFIA
•Gramsci,
Antonio Maquiavel, a Política e o Estado Moderno Rio de Janeiro
Civilização Brasileira 1998 tradução Luiz Mário Gazzaneo.
•Gramsci,
Antonio Concepção Dialética da História Rio de Janeiro
Civilização Brasileira 3ª ed. 1978 Tradução de Carlos Nelson
Coutinho.
•Gramsci, Antonio Due Rivoluzioni, In L”Ordine Nuovo...3 jul. 1920
Citado por
Dias,
Edmundo Fernandes Democracia Operária Campinas Unicamp
1984 vol
2.
•Dias,
Edmundo Fernandes Democracia Operária Campinas Unicamp
Série
Teses 1987.
•Gadotti,
Moacir & Pereira, Otaviano Pra que PT – Origem, Projeto e
Consolidação do Partido dos Trabalhadores São Paulo Cortez 1989.
•Partido
dos Trabalhadores. Manifesto in: Documentos Básicos do Partido dos
Trabalhadores São Paulo Sindicato dos Bancários 1990.
•Pont,
Raul Breve História do PT Brasília Câmara dos Deputados 1992.
•Pomar,
Valter Ventura da Rocha A Hora do Balanço (Quem são os radicais
do PT e
como lutam contra os sociais democratas) – versão preliminar
São
Paulo novembro 1994.
**********************************************************
Entrevista de Plínio
de Arruda Sampaio aos
Entrevistadores:
Verena Glass, Marina
Amaral, Natalia Viana, José
Arbex Jr, Marcos Zibordi, Ricardo Vespucci, Thiago Domenici da
Revista “Caros Amigos” - (nº98 – maio/2005).
O sonho de
um resgate
Plínio de
Arruda Sampaio
.......................................................
....Daí o
Lula começou a fazer o PT aqui, Aí, o José Álvaro Moisés me telefonou e
disse: “Olha, estamos fundando o PT, o Lula pediu para você fazer um
projeto de estatuto”. Então, eu voltei e comecei a ter contato, mas não
entrei no PT no primeiro dia. Pensei: “Deixa eu olhar”. Porque eu estava
escabreado.
Aí, quando percebi que o negócio era forte mesmo, fiz o tal projeto de
estatuto, que era realmente para fazer um partido popular, socialista,
democrático. A idéia era de um núcleo de base, todo poder ao núcleo de
base. Como é que você faz um esquema de partido? Direção, direção
regional, direção municipal, eu fiz ao revés o núcleo de base, a coisa
era o núcleo. E fiz um processo de consulta em que se faria o seguinte:
você tem aqui o diretório nacional, aqui o diretório estadual, o
diretório municipal, o núcleo. Então, nenhum toma decisão sem consultar
o núcleo. O diretório municipal não tomas as decisões municipais sem
consultar o núcleo. Então há esse xis núcleos, centenas de núcleos, e
você faz a consulta à base. Fiz isso detalhadamente.
.......................................................
Marcos
Zibordi – E o que aconteceu com esse estatuto?
A primeira
coisa foi o seguinte: fizeram uma comissão de advogados pra examinar o
estatuto, fizeram três projetos, apareceu um de uma corrente, outro que
um companheiro fez, e o meu. Então votaram a minha tese, aí fez-se uma
comissão de advogados para examinar, a comissão veio para mim e disse:
Plínio – isso é 80 ainda, ainda é ditadura -, você fez um texto tão
detalhado, amanhã essa Justiça Eleitoral nos impede de funcionar. Vamos
fazer o seguinte, a gente põe o princípio e depois isso vai pra
regulamento”. Não gostei, mas não tinha como, era um argumente forte e
aceitei. Meu núcleo era excelente.
Mariana
Amaral – Qual era?
O do
Ibirapuera, eram pessoas de correntes diferentes, de pensamentos
diferentes, mas era um respeito espantoso e dava grandes discussões, o
pau comia.
José
Arbex – Durou três anos isso, né? Acho que foi a campanha de governador
do Lula que acabou...
Quando
veio a campanha do Lula para governador, tive uma discussão difícil com
o Weffort, um pouco porque eu disse o seguinte: “O Lula não vai ganhar,
então vamos uma campanha mais par organizar o partido”. Ficaram bravos
comigo: “Campanha é pra ganhar!” Fizeram um esforço brutal,
desmantelaram tudo para virar comitê eleitoral, é o que acontece no PT.
E é isso que já chega um pouco nessa posição que eu estou hoje e não é
de hoje. Há tempos estou com isso, que é o seguinte, o PT começou em
dois pés, a proposta do PT é: somos um partido socialista, portanto um
partido contra a ordem estabelecida, um partido contra o capitalismo,
não somos capitalistas, queremos acabar com o capitalismo. Não está em
condições de fazer isso agora. Agora temos uma proposta de
transformações estruturais no capitalismo, para amanhã criar condições
para a transformação socialista, e esse amanhã não tem prazo, pode ser
que as condições surjam amanhã mesmo. Mas, se não surgirem, vai indo,
enquanto isso vamos transformando a sociedade brasileira, e para fazer
isso precisamos de dois pés. Um é o da pressão direta de massa, é o da
desobediência civil, o pé da ocupação. A ocupação é ilegal, ela está
além, é o da marcha, o do bloqueio da estrada, é o da rua, e naquele
tempo a CUT ia pra rua. Então você tinha a CUT e o MST e, por outro
lado, vamos crescer na coisa institucional. Vamos disputar vereança,
vamos disputar... nunca imaginei que fôssemos tão rapidamente pro
Executivo, achei que teríamos um período grande de Legislativo. Então, o
que aconteceu no PT? Esse pé em 1989 parou, porque até 1989 você tinha
uma pressão de massa fortíssima. Fizemos a Constituinte, tínhamos
dezesseis deputados, mas uma influência enorme na Constituinte, por quê?
Porque lá havia o pavor do cartaz da CUT. Tinha deputado que vazia
política de clientela comigo na base do cartaz da CUT. “Eu voto isso,
mas você fala pro cara lá não colar o cartaz”. Eu dizia: “Não posso, não
mando na CUT”.
.......................................................
Marina
Amaral – Mas o impeachment do Collor não deveria ter sido uma porrada na
cabeça da direita?
Eu estou
convencido de que o impeachment do Collor não fomos nós, quem impediu o
Collor foi o Roberto Marinho. Foi a direita, a Rede Globo. Porque ele
era demais. Era demais.
José
Arbex – Escapou ao controle.
É, ele
disse: não, esse cara acaba deixando uma revolução aqui dentro, vamos
parar com isso. Ele foi deposto pelos outros. Não foi deposto por nós.
Aliás, uma forma muito interessante de saber o lado que ganhou é você
pegar a fotografia da massa. Quando é bonita, organizada...
Marina
Amaral – Os caras pintadas...
É bonito
demais, não é o povo. Mas eu estou desenvolvendo um raciocínio, se não
eu perco. O negócio é o seguinte: naquela hora começamos a sofrer
derrotas. Eles começaram a ter vitórias. E a partir daí tem um processo,
quer dizer a esquerda explode no mundo, e obviamente tem reflexo aqui.
Tem reflexo na intelligentsia do partido. Porque a intelligentsia do
partido é toda de um socialismo europeu. Então, isso teve um baque aqui
no PT, muito forte. A CUT parou, não deu uma greve. E, depois o Fernando
Henrique estourou com os petroleiros e mandou um recado dizendo “olha,
aqui comigo acabou esse troço”, a CUT acabou.
Marina
Amaral – E foi logo no primeiro dia já...
Foi logo
no comecinho. Então, o que a gente sente é que a partir daí este pé
ficou difícil e este outro ficou muito fácil. Porque você cotejava o
político do PT, o vereador do PT, o deputado do PT com aquele deputado
tradicionalão, nepotista, os Severinos
da vida. Ora, é lógico que o povo moderno, a mocidade e tal começaram a
votar no PT. E o PT começou a crescer, crescer, crescer. Até que ele se
converteu numa possibilidade eleitoral de conseguir o governo. E aí eu
acho que houve uma opção. A opção foi: “Vamos pelo governo”. E uma certa
ilusão: a ilusão que, estando no governo você muda. E sempre acho que o
fundamental é o poder. Tem o governo e o poder. Mas você pode ir pro
governo e não ter o poder. O Jango era governo e não tinha poder.
.......................................................
Verena
Glass - Você acha que, se o Lula fosse pro embate, teria apoio para
fazer tudo o que se propôs? O povo brasileiro estaria do lado dele?
Eu acho
que teria. E vou dizer por quê. Porque, com 55 milhões de votos, e
aquela animação do pessoal, era essa a expectativa. O que todos nós
esperávamos? Se o Lula partisse para uma reforma agrária, no primeiro
mês, pra valer, vocês se assustariam? Não, nem a direita se assustaria.
Porque ela sabia que era isso.
Ricardo
Vespucci – Agora, a Carta aos Brasileiros marca uma posição do Lula. Ele
assume aquela coisa sobre a qual já vinha falando. Só vou ser candidato
quando puder ganhar, tal...
É, o
problema aí é o seguinte: ele sofreu uma chantagem. Como é que eu
interpretei a carta? Eu disse: “Bom, ele está debaixo de uma chantagem
e, dentro da chantagem, disse: “Ta bom, eu truco doze”. Mandou uma
carta.
Verena
Glass – Chantagem de quem?
Do
mercado, porque o mercado ameaçou fazer um estouro antes da eleição.
Vocês estão lembrados. O dólar foi lá pra cima. E isso é tudo
manipulador da bolsa, isso é chantagem. Isso é grupinho! Que ia fazer
uma chantagem eleitoral. Ia assustar o eleitorado e dizer: “Olha, viu,
se esse cara entrar, é o que acontece”. Aí ele perdia. “Não, não, tudo
bem, eu dou uma carta”. Mas, dentro da carta dá pra fazer mais. Esse é
que é o problema.
.......................................................
José
Arbex Jr. – Ele não é uma vítima das circunstâncias objetivas. Ele fez
todo o acordo que precisou fazer pra se eleger.
Foi uma
opção não só dele, foi de todo o partido, mas ele estava entre aqueles
que tomaram essa opção. Houve um debate positivo sobre isso que eu
acabei de falar.
Um debate sobre a proposta da campanha não pra ganhar, mas pra fazer uma
pregação socialista, e fazer uma denúncia. Essa tese foi derrotada.
Então, ele tem culpa, sim, tem parte de culpa nisso. Ele também optou
por essa linha de “eleição é feita pra ganhar”.
.......................................................
**********************************************************
Entrevista do
Sociólogo Francisco de Oliveira
ao Jornalista Roldão
Arruda para o
Jornal O
Estado de S. Paulo.
Domingo, 6
de Fevereiro de 2005.
NACIONAL
'PT
abandonou suas propostas e tornou-se
governo
anti-reformista'
Francisco de Oliveira
Para
Francisco de Oliveira, partido perdeu a base trabalhista e hoje ataca
direitos que ajudou a consolidar.
Roldão
Arruda
No grupo
de intelectuais que se uniram 25 anos atrás para ajudar a pensar e a
construir o PT, encontrava-se o sociólogo Francisco de Oliveira,
professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e um pensadores
mais respeitados da esquerda brasileira. Ele participou da histórica
reunião no Colégio Sion, na qual o partido foi oficialmente criado, no
dia 10 de fevereiro de 1980, e permaneceu filiado até 2003. Em junho
daquele ano anunciou publicamente seu desligamento, por não concordar
com a política do governo de Luiz Inácio Lula da Silva.
Às
vésperas de mais um aniversário de fundação, o sociólogo analisa as
transformações que PT sofreu no caminho em direção ao poder. Hoje,
segundo Oliveira, "a maior máquina partidária do País" tem pouco a ver
com sua origem reformista e conduz um governo que ameaça os direitos dos
trabalhadores.
As
explicações para as mudanças, segundo Oliveira, devem ser buscadas
dentro e fora do partido. Ele destaca a globalização e a
desregulamentação da economia, que resultaram na eliminação de milhões
de postos de trabalho, erodiram as bases do partido e permitiram a
ascensão de grupos burocráticos no seu interior.
Nos anos
70, Oliveira trabalhou com o também sociólogo Fernando Henrique Cardoso
no Cebrap. No ano passado contribuiu para a fundação do PSOL, a
dissidência petista capitaneada pela senadora Heloisa Helena.
Aposentado, coordena atualmente o Centro de Estudos dos Direitos da
Cidadania (Cenedic), da USP. É autor de A Crítica da Razão Dualista - O
Ornitorrinco e Os Direitos do Anti-Valor, entre outros estudos.
O que o
senhor destacaria como aspectos mais importantes na trajetória de 25
anos do PT?
Duas
coisas. A primeira é a contribuição que o partido deu para a queda da
ditadura e a construção de um Estado de direito no Brasil. Isso é
inegável. Se você olhar a redemocratização brasileira como uma espécie
de poliedro, verá que uma das faces dele é petista. A segunda coisa está
em oposição à primeira. É a virada do PT ao ascender à chefia do
Executivo federal. Ele abandonou suas propostas reformistas e tornou-se
antireformista.
O PT
nasceu reformista?
Sim. A
imprensa se equivocou muito nas avaliações do PT, tomando-o como um
partido revolucionário. Mas ele nunca foi revolucionário - o que não é
um defeito, mas uma qualidade. As reformas são um processo da razão,
enquanto a revolução é uma irrupção histórica que ninguém pode
programar. Os partidos reformistas é que são importantes. Os
revolucionários existem quando as condições para as reformas são
impossíveis.
Onde o
senhor vê o anti-reformismo do governo do PT?
Nas
questões centrais. Ele é anti-reformista do ponto de vista dos direitos.
O que se vê todos os dias é o governo atacando direitos que o PT ajudou
a consolidar no passado.
Sobretudo
os direitos do trabalho, que eram a viga central de sustentação do
partido.
Ele
transformou a vocação reformista num simulacro de políticas
assistencialistas.
Refere-se às políticas de combate à pobreza?
Elas não
têm nenhum efeito sobre a pobreza. Servem apenas como uma espécie de
funcionalização da pobreza. O PT abandonou o desafio que a pobreza
sempre representou para a esquerda, para o socialismo, para os
democratas. As chamadas políticas sociais não são mais do que o
conformismo anti-reformista do partido.
O PT
sempre lembra que quando assumiu, o risco Brasil estava nas alturas - e
que só foi possível vencer a crise com a política econômica que adotou.
De acordo
com um conjunto importante de economistas, a crise não tinha as
dimensões que o PT alardeou. O crescimento do risco Brasil e a subida do
dólar eram previsíveis. João Sayad, que não é nenhum radical, previu que
o dólar chegaria a quase US$ 4 até a posse a governo. E foi o que
aconteceu. Era um movimento especulativo, que recuaria tão logo o
governo tomasse posse e não houvesse reações armadas ou do empresariado.
O PT
inclui entre os bons resultados de sua política econômica a queda do
chamado risco Brasil.
O risco
caiu para todos os países que, numa literatura ruim, são chamados de
emergentes.
Não foi o
PT que pôs as coisas no lugar, mas o ambiente internacional que mudou. O
risco da Argentina, que deu um calote na dívida dizendo que só paga 75%,
é mais baixo que o do Brasil. O risco cai até na Venezuela, o bode preto
do Bush.
Como o
partido reformista virou anti-reformista? O que pesou? As questões
internas, ligadas ao controle da máquina partidária, ou as questões
externas?
As duas
coisas. A externa é mais fácil de identificar. Está ligada à
globalização, que tornou universal o processo de reprodução do capital e
a desregulamentação. No livro A Década dos Mitos, Márcio Pochman
mostra que entre 1989 e 1999 houve uma liquidação total de 3 milhões de
postos de trabalho no Brasil, dos quais 2 milhões no setor industrial.
Houve uma
redução quantitativa das categorias mais importantes. O setor bancário
hoje emprega um terço das pessoas que empregava há 15 anos. Deu-se,
portanto, um paradoxo: o PT chega ao poder quando as forças que o
sustentavam já não têm mais força. Isso destruiu a possibilidade da
hegemonia, no sentido mais rico da palavra, que é o sentido da direção
moral da sociedade.
A
globalização detonou as forças de suporte do PT?
Sim. Como
já disse, ela foi acompanhada pela desregulamentação nos campos da
economia e dos direitos e pelas privatizações, que reduziram a
capacidade do Estado de fazer política econômica. Os sindicatos perderam
tanta força que a CUT não pôde resistir à reforma da Previdência.
Recentemente os bancários tentaram uma greve geral que não deu em nada,
ficando restrita às agências do Banco do Brasil e da Caixa.
E as
questões internas?
Com o
processo de perda qualitativa e quantitativa na estrutura interna,
cresceu o outro lado. Emergiu a cara burocrática do PT. Não falo no
sentido pejorativo. Refiro-me a uma tendência estudada desde o princípio
do século 20 por cientistas políticos, segundo os quais os partidos
tendiam a se parecer com organizações burocráticas. Isso quer dizer
organizações que calculam, prevêem e ajustam fins e meios. O que chama a
atenção é que a burocratização do PT foi muito precoce. O Partido
Social-Democrata da Alemanha tem 130 anos. Tornou-se um partido da ordem
há menos de 30. O PT passou de reformista a antireformista em apenas 25
anos de história.
Sua
argumentação chama a atenção para uma coisa que parece contraditória: as
forças sindicais que constituíam a base do PT perderam força, mas ao
mesmo tempo são os antigos líderes sindicais que o presidente Lula chama
para ocupar postos importantes em seu governo. Como vê isso?
Eles fazem
parte do que eu já chamei de uma nova classe social, surgida no processo
de financeirização da economia - a cara mais ostensiva da globalização e
que no Brasil se sustenta sobretudo nos grandes fundos de pensão
estatais. É lá que estão encastelados os sindicalistas convidados pelo
Lula. Quem é Luiz Gushiken senão alguém que trabalha há 20 anos com
fundos de pensão? Ele faz parte de uma nova classe social que não
acumula para si, mas tem a chave do cofre. Os fundos de pensão estatais
é que definiam as privatizações no Brasil nos tempos de Fernando
Henrique. A outra metade dessa laranja são os tucanos, que, no mesmo
estudo sobre a nova classe social, chamei de dublês de economistas e
banqueiros. Pedro Malan, depois dos três meses de quarentena, foi bater
aonde? Ele é vice-presidente executivo do Unibanco. Edmar Bacha foi
bater aonde? Pérsio Arida?
A
presença dos sindicalistas na direção dos fundos também é contraditória
com a tradição do PT?
Quando o
fundo de pensão tem de tomar uma decisão sobre determinada empresa,
quais critérios sãos usados? Em primeiro lugar vem a rentabilidade,
porque o fundo tem de se prover de meios para no futuro pagar suas
pensões e aposentadorias. Qual o último item considerado? O emprego.
Eles agem nitidamente como capitalistas. E dos mais vorazes.
Os
antigos líderes trabalhistas mudaram o modo de pensar?
Claro. Não
só porque o interesse molda automaticamente a cabeça, mas também porque
as pessoas estão sendo formadas para isso. Observe a carreira de certos
membros importantes do governo. O Gushiken, depois que deixou a carreira
de bancário, foi se graduar na Fundação Getúlio Vargas. O Berzoini
graduou-se onde? Na mesma FGV. O ex-ministro do Planejamento e atual
presidente do BNDES era o quê? Professor da FGV. É evidente a formação
de uma nova classe - quer você se apóie no critério de interesse, no
modo conceber o mundo, ou no critério de exclusividade.
No
conjunto de partidos brasileiros, onde situa o PT?
É a maior
máquina partidária brasileira.
Maior
que o PMDB?
O PMDB não
é uma máquina partidária, mas uma federação de caciques. O PT foi
fundado na tradição clássica de esquerda, substancialmente diferente
daquela dos partidos de centro e de direita. É da tradição da esquerda
formar partidos altamente organizados.
Na
eleição passada, os petistas perderam força nos grandes centros urbanos
e avançaram nos grotões. Como viu isso?
É uma
característica do que Habermas chamaria de perda das energias utópicas.
O PT nasceu espraiando-se do centro desenvolvido para as demais regiões
e hoje o resultado é inverso.
O que
deve acontecer com o partido daqui para a frente?
Continuará
formando com o PSDB o par que está no centro de gravitação partidária do
País. São os mais modernos do ponto de vista da organização da política.
A lástima é que se tornaram partidos estatais - o que representa enorme
contradição, pois o partido é uma associação livre criada para
representar a sociedade e não para ser uma extensão do Estado. O PSDB e
o PT funcionam para cumprir funções estatais. A política tende a ser
cada vez mais irrelevante.
O
anti-reformismo do atual PT abre espaço para um novo partido reformista
e apoiado na classe trabalhadora?
O PT
surgiu numa conjunção excepcional e irrepetível. Foi formado num caldo
denso de luta pela redemocratização, com a aglutinação de forças contra
a ditadura. Hoje o partido tem a pretensão de dizer que inventou a luta,
mas quem viveu aquela época sabe que, se Ulisses Guimarães não botasse a
cara para apanhar e não saísse liderando a marcha que defendia a greve
dos metalúrgicos em 1978, tanto a greve como o PT não teriam acontecido.
Deve-se levar em conta também a Teologia da Libertação, que criou uma
exigência de transparência em certas bases da sociedade e ajudou a
formar o PT; e um movimento sindical que não se repete. Hoje, em
decorrência da globalização e da desregulamentação, 60% da força de
trabalho brasileira é informal. Como se vai fazer um partido de classe
sem classe?
E o
PSOL, que o senhor também ajudou a fundar?
O PSOL não
vai ser um novo PT, nem restaurar o antigo.
**********************************************************
Texto de
João Machado, publicado no jornal eletrônico Palavra
Cruzada –
www.palavracruzada.cjb.net –
transmitido, também,
em redes
de e-mails, à partir do próprio autor - abr/2005.
Abaixo
segue uma contribuição para a discussão dos militantes da DS. A partir
do dia 21 a parte da DS que ainda está no PT realizará uma conferência
nacional. Embora o texto seja voltado para os companheiros e
companheiras da DS, acredito que a DS tem muitos amigos que se
interessam pelos seus debates. E que, além disso, os temas discutidos
interessam também a toda a esquerda.
(João
Machado)
QUESTÕES PARA OS MILITANTES SOCIALISTAS DA DS
João
Machado (militante da DS e do P-SOL) - 18/04/2005
1.
A partir de 21 de abril será realizada uma conferência de uma parte da
DS. Isto é, será realizada a conferência do setor da DS que ainda está
no PT. A maioria da direção da DS rejeitou a possibilidade de uma
conferência de toda a DS, quando, em dezembro, votou (de forma
ilegítima) a exclusão da corrente dos militantes que participam da
construção do P-SOL.
.............................................................................
1) O
governo Lula
5.
Não há dúvida de que a questão fundamental, diante da qual os militantes
socialistas brasileiros devem se posicionar, é a de qual é o caráter
governo Lula e, a partir daí, quais relações devemos manter com ele.
Esta foi, com razão, a questão central tratada tanto na carta que os
companheiros Chico Louçã, Daniel Bensaid e Michael Lowy enviaram "aos
camaradas e amigos da DS" quanto na resolução do Comitê Internacional da
IV Internacional.
A
constatação de que o governo Lula tem uma orientação geral
social-liberal, e esta orientação é irreversível, está claramente
colocada nas contribuições internacionais mencionadas ao nosso debate e,
além disso, nas contribuições divulgadas por diversos companheiros e
companheiras da DS (bem como por outros setores da esquerda brasileira)
nos últimos meses. Não é necessário, aqui, voltar a fundamentá-la.
6.
Mas, para deixarmos mais claras as conclusões que devemos tirar desta
constatação, é importante lembrar um corolário desta constatação: os
interesses de classe fundamentais defendidos pelo governo são os do
grande capital, nacional e internacional, especialmente do capital
financeiro. É justamente este o significado de uma linha geral
social-liberal.
Desde a
formação do governo, ficou clara a preponderância no núcleo de poder e
na composição dos ministérios que têm mais influência de setores
alinhados com o grande capital, nacional e internacional, quando não de
seus representantes diretos. Desde a campanha de 2002, ficou claro que
Lula e seu grupo querem uma aliança ampla com a burguesia brasileira;
depois do início do governo, com a montagem da "base aliada", esta
orientação tornou-se ainda> mais evidente. Foi exatamente devido à força
da presença burguesa que o governo, desde o início, adotou uma
orientação geral neoliberal: estamos numa época em que a burguesia, e
especialmente seu setor financeiro, tornou-se neoliberal.
O
predomínio burguês existiu apesar de a composição do governo ser
bastante heterogênea - onde não houve heterogeneidade foi na ocupação
das posições centrais, que condicionam o conjunto do governo.
É
importante repetir, para enfatizar: desde o início do governo Lula ficou
claro que ele é um governo burguês. Como ele inclui representantes das
classes populares, é um governo burguês e de colaboração de classes - o
que implica dizer que os representantes populares no governo aceitam
subordinar os interesses populares aos interesses burgueses. Sendo a
linha burguesa e neoliberal adotada sob a direção de um partido de
origem socialista, cabe dizer que a orientação geral do governo é
social-liberal.
7.
Além da presença de burgueses ou de seus representantes nos
lugares-chave da área econômica e da montagem de uma "base aliada" com
amplo predomínio burguês, a força dos interesses burgueses no governo
ficou evidente, também, na orientação geral das suas prioridades.
Uma
primeira prioridade, como é bem conhecido, é política macroeconômica
conservadora e a manutenção das "boas relações" com o FMI e com o
capital financeiro internacional (é claro que "boas relações" aqui é um
eufemismo piedoso; o que existe é a completa subordinação da política
econômica do governo Lula ao FMI e ao capital financeiro).
Outra
prioridade do governo claramente afinada com os interesses burgueses são
as principais "reformas" (na verdade, contra-reformas) que ele
implementou ou pretende implementar: a "reforma" da Previdência, as
Parcerias Público-Privadas, etc. E outra demonstração evidente da
orientação burguesa do governo é seu entusiasmo pelo "agronegócio", que
contrasta tristemente com a pouca importância dada por ele à reforma
agrária.
8.
No início do governo Lula, falou-se muito de "governo em disputa". Mas
nunca existiu o que poderia dar sentido a esta caracterização, isto é,
uma disputa geral de orientação. Desde meados de 2004, no entanto,
quando o maior fortalecimento do já forte ministro Palocci ficou
evidente, esta caracterização dificilmente pode ser sequer levada a
sério.
...........................................................................
11.
Outro tema que é necessário comentar é o da comparação do governo Lula
com os governos social-liberais europeus, que se tornou bastante comum.
De fato,
os governos social-democratas têm assumido uma orientação geral
neoliberal, tentando, às vezes, incorporar alguma dimensão "social". Daí
que seu campo político seja realmente o mesmo ocupado hoje pelo governo
Lula e pelo "campo majoritário" do PT.
Embora
esta analogia seja contestada por alguns defensores do governo Lula que
a acham desfavorável ao atual governo brasileiro, a verdade é que ela
até atribui ao governo Lula um papel menos negativo do que o que ele
desempenha, na realidade. Pois há diferenças importantes entre o governo
Lula e os governos social-liberais europeus que lhe são desfavoráveis. A
primeira, obviamente, é que o nível de bem-estar que serviu de partida
para estes governos é muitas vezes superior ao do Brasil. Aqui,
portanto, a crueldade das contra-reformas neoliberais, da retirada de
direitos, pesa muito mais do que lá.
Além
disso, ainda que os governos social-democratas europeus costumem
implementar políticas neoliberais, eles, em geral, polarizam com as
forças políticas de direita de seus países, e não se misturam com elas.
É justamente o contrário do que acontece com o governo Lula, que
incorpora amplamente, na sua base, forças políticas de direita -
inclusive várias das mais à direita do país. O PTB, o PL e o PP, por
exemplo, não são menos à direita do que o PSDB ou o PFL. Embora este
contraste possa ser explicado pelas diferenças entre os sistemas
políticos do Brasil e de outros países, ele não deixa de ser um ponto em
que o governo Lula contrasta negativamente com seus congêneres europeus.
Há outro
ponto, no entanto, em que o contraste negativo do governo Lula com seus
congêneres é ainda mais nítido: ele tem uma capacidade muito maior do
que os governos social-democratas europeus de "agir por dentro" dos
movimentos sociais e das forças políticas mais à esquerda no país (a
partir da sua história e das ilusões com que ainda conta). É, portanto,
um governo mais perigoso para os interesses populares.
12.
Por esta e por outras razões, não podemos comparar a situação criada no
Brasil com o governo Lula com a que existia antes (no governo FHC, por
exemplo) olhando apenas para as diferenças entre os governos. Temos de
analisar, também, a configuração geral governo/oposição.
Se tomamos
este cuidado, somos obrigados a ir além da conclusão bem conhecida de
que há muita continuidade no governo Lula em relação ao governo anterior
(e que, inclusive, em algumas áreas, ele aprofundou as políticas de seus
antecessores). Temos de levar em conta, também, que ele trouxe a maior
parte da antiga oposição de esquerda para o governo, e anulou, em grande
parte, o potencial de luta dos movimentos sociais. De fato, o governo
Lula abriu uma grande crise nos movimentos sociais e na esquerda
brasileira. Foi por isso que ele pôde ir além do governo FHC na
contra-reforma da Previdência (lamentável maldade de que, aliás, o
próprio Lula fez questão de se vangloriar).
Em
conseqüência, somos obrigados a concluir que a chegada de Lula ao
governo representou uma mudança na correlação de forças entre as classes
sociais desfavorável aos interesses populares e favorável aos interesses
burgueses.
13.
Toda esta avaliação da natureza do governo Lula só pode levar a uma
conclusão: este não é um governo do qual militantes socialistas possam
participar sem entrar em choque som suas convicções fundamentais.
Eventuais "coisas boas" que se fazem no governo devem ser comparadas com
as conseqüências negativas da participação: a legitimação do governo, a
obrigação de apoiar as grandes maldades, e a conseqüente maior
dificuldade para construir uma alternativa ao rumo geral neoliberal.
Quem participa do governo Lula torna-se também responsável pelas "coisas
más" que ele faz - que têm um peso muitas vezes maior do que as "coisas
boas".
É
justamente por considerações como essas, e não por dogmatismo ou por
doutrinarismo, que um dos elementos mais importantes na identidade
programática da IV Internacional tenha sempre sido a defesa da
independência política de classe dos trabalhadores, da qual uma das
chaves é a recusa à participação em governos de colaboração de classes
(que, como vimos, são governos burgueses, isto é, dominados pelos
interesses da burguesia). É evidente que a defesa da participação no
governo Lula representa uma ruptura profunda com esta tradição
programática.
14.
Finalmente, esta conclusão quanto ao governo Lula tem uma implicação
evidente para as eleições de 2006. Lula será, então, um re-candidato
muito mais explicitamente social-liberal do que foi em 2002 (quando a
campanha preservou cuidadosamente uma grande margem de ambigüidade, para
favorecer a ilusão de que o governo Lula seria um governo de "mudanças"
e uma vitória da "esperança"). Portanto, militantes de esquerda,
socialistas e revolucionários não poderão, de nenhuma maneira, apoiar
esta candidatura. A necessária oposição ao governo Lula, desde agora,
combinada com a defesa dos interesses populares que este governo ataca,
terá de se prolongar na recusa à sua re-candidatura e na construção de
uma alternativa a este governo e ao social-liberalismo. A não ser, é
claro, que haja uma mudança radical nas bases políticas da
re-candidatura Lula - coisa em que é extremamente difícil de acreditar.
2) O PT
15.
Muitos companheiros e companheiras sentem que a conclusão resumida no
item 14 acima é inescapável, mas recuam diante da conseqüência quase
direta decorrente: será necessário também construir uma alternativa ao
PT, já que não é imaginável nem que o "campo majoritário" do PT (apoiado
por suas periferias, como o "Movimento PT" e o grupo do ministro
Berzoini) perca a maioria do partido nem, muito menos, que este campo
apresente outro candidato, com outra linha política. Ou seja, a questão
da ruptura com o PT, em tempo hábil para a construção de uma alternativa
à candidatura Lula em 2006, coloca-se de forma incontornável para os
militantes socialistas conseqüentes.
A
alternativa ao PT, capaz de ocupar pelo menos uma parte importante do
espaço de esquerda que este partido abandonou (e que aliados seus, como
o PC do B, também abandonaram), ainda não existe. O P-SOL, tal como
existe hoje, representou um primeiro passo - perfeitamente legítimo
(como reconhece a carta dos companheiros Chico, Daniel e Michael), mas
insuficiente (voltaremos a este tema adiante, na parte 3 do texto). A
esquerda socialista do PT e, especialmente, os militantes socialistas da
DS, não podem se furtar à sua responsabilidade na construção desta
alternativa.
16.
Diversos companheiros e companheiras concordam em princípio com a
constatação feita no item anterior, mas avaliam, no entanto, que é
necessário fazer uma "última disputa", participando do "PED" (Processo
de Eleição Direta) do PT.
A idéia de
uma disputa a sério no PED, fazendo a fundo tanto a crítica ao governo
Lula quanto a contraposição ao "campo majoritário" do PT e a seus
aliados, tem muitos atrativos. O principal é a possibilidade de
impulsionar, nas bases de militantes socialistas que ainda participam do
PT, um debate mais amplo do que houve até agora.
...........................................................................
17.
Apesar de seus aspectos positivos, no entanto, a linha da disputa a
sério do PED tem problemas que precisam ser bem avaliados.
Antes de
mais nada, é necessária uma avaliação realista: não se trataria de uma
verdadeira disputa, se entendemos por "disputa" um processo em que há
alguma possibilidade de ganhar. O resultado do PED e do Encontro que se
seguirá já é conhecido desde antes: será aprovado, com algumas poucas
modificações, o texto apresentado pelo "campo majoritário".
Este
texto, aliás, deverá incorporar até um novo programa do PT. Segundo o
jornal Brasil de Fato, o deputado Ivan Valente, do Bloco de Esquerda,
declarou a respeito que esta mudança proposta de programa seria "a
assimilação do paloccismo" e "a maior traição dos últimos 25 anos"
(Brasil de Fato nº 111, 14 a 20/04/2005, p. 4). Trata-se, é claro, de
uma boa caracterização do documento do "campo majoritário" do PT -
documento que, como já observamos, e como todos sabem, será aprovado com
poucas modificações.
Diante
desta aprovação inevitável, e da "traição" que ela representará (segundo
a correta caracterização feita pelo deputado Ivan Valente), será difícil
a permanência no PT dos setores socialistas conseqüentes. Na lógica da
disputa a sério no PED, esta derrota anunciada não invalidaria a linha:
o processo todo teria servido para ampliar a consciência de amplos
setores da militância petista com relação aos problemas do PT, da sua
direção, e do governo Lula. A partir daí, seria possível até uma saída
massiva de militantes do PT.
18.
O raciocínio é sedutor. No entanto, haveria, em primeiro lugar, sérios
problemas com os prazos. A votação do PED está prevista para meados de
setembro, e o Encontro para dezembro. No dia 2 de outubro se encerra o
prazo para a mudança de partido, para os que pretendem disputar as
eleições em 2006.
Ou seja,
uma eventual saída massiva do PT teria de se dar antes do Encontro de
dezembro (quando formalmente a revisão do programa seria aprovada) e
imediatamente depois da votação do PED. Haveria tempo e condições para
isto?
Além
disso, seria preciso confiar na existência já pronta, em setembro, de
uma alternativa partidária - o P-SOL, por exemplo. Enquanto se disputa o
PED, seria preciso, portanto, contar com o trabalho de outros militantes
que, em condições difíceis, já assumiram a tarefa de construir uma
alternativa. Digamos que esta é uma linha que pode ser vista como uma
escolha que joga nas costas de um punhado de militantes a
responsabilidade que deveria ser de muitos mais.
19.
Este grave problema de prazo, no entanto, não seria o único. Também
haveria, muito provavelmente, uma grande dificuldade para fazer os
debates necessários no espaço do PED. Por exemplo: será possível
discutir neste espaço a natureza do governo Lula, e tratar também da
conseqüência desta discussão, que é a impossibilidade para os
socialistas de apoiar em 2006 a re-candidatura Lula nos moldes em que
ela se anuncia?
Seria
possível debater as alianças que vêm sendo realizadas pelo governo Lula
e que têm sido anunciadas para 2006 pela direção do PT, e propor em
contraposição a necessária alternativa de classe?
...........................................................................
20.
Ou seja: tomando como dado que não há chances de mudar a natureza do PT
com o debate do PED, esta disputa enfrentaria dificuldades de prazos, de
temas de discussão, e de público. Não seria um esforço grande demais,
desviado dos objetivos mais úteis?
Não seria
preferível pensar uma outra maneira de radicalizar o debate no interior
do PT, sem o amarramento aos prazos, aos processos e ao público do PED?
..........................................................................
Esperamos
que, depois da conferência, possamos debater a situação do país, bem
como as tarefas para a esquerda e, especialmente, para os militantes
identificados com a DS e com a IV Internacional, com todos os
companheiros e companheiras da DS (e de outras correntes) que mantêm uma
perspectiva socialista e revolucionária.
**********************************************************
Plínio de Arruda
Sampaio Jr. para o Jornal
Folha de
S.Paulo – 12/02/2005 – pg. A 3,
Respondendo, após a José Genoino, se
“O PT
ainda é um partido de esquerda?”
Réquiem
ao PT
PLINIO
DE ARRUDA SAMPAIO JR.
Decididamente, não. Mas o processo de acomodação do PT às exigências da
ordem não ocorreu sem fortes embates dentro do partido. Decididos a
chegar ao governo a qualquer custo, os atuais dirigentes do partido
esmagaram todos os que se colocaram diante de seu caminho. A vitória do
pragmatismo desfigurou o partido. As carreiras individuais
sobrepuseram-se ao projeto coletivo. A organização do povo, que
constituía a essência da vida partidária, foi abandonada, e o PT virou
uma simples máquina eleitoral, com todos os vícios da política burguesa.
Essa
guinada à direita é ainda mais grave se lembrarmos que o partido foi
forjado nas lutas contra a opressão política e a exploração econômica,
tornando-se um importante instrumento do povo brasileiro na sua
caminhada pela construção de uma sociedade justa e democrática.
Impulsionado por sua aguerrida militância, o PT cresceu e se consolidou
como a principal força política do Brasil, tornando-se o grande portador
do sentimento anticapitalista que brota das terríveis contradições de
uma sociedade em crise permanente. É inaceitável, portanto, que no seu
governo não haja o menor vestígio de transformação social.
Seguindo à
risca as recomendações do FMI, o governo Lula aprofundou o
neoliberalismo, transformando o Brasil num paraíso dos grandes negócios.
Sob a consigna "tudo pelo capital, tudo para o capital", aos
endinheirados o governo oferece vantagens tangíveis: megasuperávits
primários, populismo cambial, juros estratosféricos, arrocho salarial,
reforma da Previdência, gigantescos saldos comerciais, Lei de Falências,
independência do Banco Central, Prouni, Parceria Público-Privada,
liberdade para os transgênicos, cumplicidade com os "contratos espúrios"
que sangram o erário e espoliam a população, opção preferencial pelo
agrobusiness, reforma trabalhista.
Convertido
à filosofia do Banco Mundial, o governo do PT abandonou toda veleidade
de combater as desigualdades e eliminar a pobreza. Aderindo à lógica das
políticas compensatórias, que atuam sobre os efeitos dos problemas
sociais e não sobre as suas causas, contenta-se em minorar, dentro das
limitadas possibilidades orçamentárias, o sofrimento do povo. Sob a
palavra de ordem "tenham paciência e confiem em mim", aos descamisados
Lula faz promessas vãs. Sem qualquer fundamento, ressuscita o "mito do
crescimento" -há muito desmascarado por Celso Furtado e Florestan
Fernandes. Com uma mão, retira direitos sociais, e, com a outra,
distribui fortuitamente as migalhas da arrecadação fiscal, anunciando um
punhado de programas sociais esquálidos, mal definidos e desarticulados
(Bolsa Família, Fome Zero, Programa de Crédito Fundiário (ex-Banco da
Terra), Prouni, Farmácia Popular, etc).
A política
externa, apresentada como a frente mais ousada da administração petista,
mal dissimula sua subserviência aos cânones da ordem global. Nos fóruns
internacionais, Lula faz bravata e cobra coerência neoliberal aos países
ricos. Nos bastidores da diplomacia, em troca de um eventual assento no
Conselho de Segurança da ONU, negocia o envio de tropas ao Haiti para
cumprir o triste papel de gendarme do intervencionismo norte-americano.
A chegada
de Lula ao Planalto iniciou o último ato do desmonte. Em nome de uma
suposta "razão petista de Estado", começou um vale-tudo: alianças
políticas espúrias, massificação das filiações, acordos eleitorais com
oligarquias retrógradas e corruptas, campanhas eleitorais milionárias,
atropelos ao estatuto do partido, censura e expurgos de parlamentares,
cooptação e intimidação dos militantes, absoluta subordinação do partido
aos interesses do Planalto. Enfim, o PT completa seus 25 anos vivendo
uma grave crise de degeneração política e moral.
A ruptura
com a tradição de luta em defesa dos trabalhadores obrigou a direção a
sufocar o debate democrático. É inútil continuar lutando nas instâncias
do partido. O PT é irrecuperável. O tempo do PT acabou, mas o das
transformações sociais não. A retomada das lutas populares é mais
necessária do que nunca, pois, ao contrário do que diz a propaganda
oficial, nada foi feito para enfrentar os problemas responsáveis pelas
mazelas do povo. Na realidade, o Brasil entra na terceira década de
estagnação econômica e grave crise social.
Estar
livre das amarras do PT é condição necessária para combater o
ilusionismo lulista e derrotar a ofensiva neoliberal que acelera o
processo de reversão neocolonial e faz avançar a barbárie. Estar fora do
PT é condição necessária para começarmos, em franco debate com todas as
forças comprometidas com a mudança social, a árdua tarefa de reorganizar
a esquerda brasileira.
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REVISTA ESPAÇO ACADÊMICO – ANO III –
Nº 24 – MAIO DE 2003 – MENSAL – ISSN 1519.6186
É possível
uma refundação comunista no Brasil?
Por MARCOS
DEL ROIO
Prof. de
Ciências Políticas da FFC –
Unesp
(Campus de Marília - SP)
................................................................................
A
emergência de uma classe operária de matriz fordista potencializou a
formação do Partido dos Trabalhadores, um novo partido de viés
sindical-corporativo, para o qual confluíram todas as forças dispersadas
pela derrota dos anos 60, que não o PCB e o PcdoB. A defesa da autonomia
operaria e da organização popular diante da burguesia e do Estado
possibilitaram que a vertentes de origem comunista, mas também da Polop
e da AP, principalmente esta, tivessem uma influencia decisiva na
orientação política do PT ate o inicio dos anos 90. Note-se também que
as correntes de inspiração trotskista se fortaleceram de um modo
significativo naquele período, potencializada pela organização do PT,
ainda que preservando uma crônica fragmentação política.
Em uma
conjuntura de ascensão da luta social e da organização popular o PT
viu-se beneficiado pela crise orgânica do PCB e também de uma crise
persistente do PcdoB, derivada da avaliação de experiência guerrilheira
do Araguaia e da inserção internacional do partido, que de maoísta,
passara a pró-albanês e voltava a apoiar a política econômica
anti-maoista da China. O PCB, principalmente, foi seriamente afetado
pela crise orgânica do socialismo de Estado, nucleado na URSS, e de toda
sua tradição político cultural. O PcdoB, por sua vez, após a eleição de
1986, estabeleceu uma aliança estratégica com o PT.
A ofensiva
do capital contra o mundo do trabalho, que se desenvolvia globalmente
desde fins dos anos 70, só encontrou passagem no Brasil no final da
década seguinte. A desintegração do socialismo de Estado teve como
desdobramento o fim do PCB, em 1992, e criação no seu lugar de um
partido identificado com o socialismo liberal (que não mais considera o
problema da revolução socialista). Mas também o PT sentiu os efeitos do
fim da URSS, o principal trunfo da ofensiva do capital e de sua veste
neoliberal.
A partir
de seu I congresso, em 1991, o PT começa um sub-reptício deslocamento no
seu posicionamento político programático. As tendências reformistas
preservam o seus viés sindical-corporativo, só que agora por meio do
entrelaçamento com a ideologia liberal-democrática de chegar os governo
do Estado, com o fito de governar melhor, governar honestamente e
estabelecendo políticas publicas compensadoras ao esbulho do trabalho
que o capital promove. Com parte da militância e dos simpatizantes
ganhos parcialmente pela ideologia neoliberal, o PT desloca seu discurso
e pratica política para temas clássicos do bom governo e da extensão dos
direitos de cidadania. Essas vertentes ampliam a sua maioria dentro do
partido, ao mesmo tempo em que as esquerdas diminuem a sua influencia
nas tomadas de decisão. No limite ocorre a expulsão daqueles que
organizaram em seguida o PSTU, em 1994.
Essa
tendência de deslocamento ao centro político e de mudança estratégica
atingiu o seu objetivo em 2002, quando da eleição de Lula para a
presidência da Republica. Foi somente então que as alianças político
eleitorais se alargaram em direção ao centro liberal, com as devidas
concessões programáticas (ou ate mesmo de princípio). Eleito em uma
situação política desfavorável do ponto de vista institucional, mesmo
dentro dos limitados objetivos de estabelecer um bom governo que aja em
favor do conjunto dos cidadãos por meio de um pacto social - ou seja,
objetivos condizentes com a hegemonia burguesa sob a forma
liberal-democrática – Lula só pode contar com 3 governadores de seu
próprio partido -- todos de estados de pouca expressão demográfica e
econômica – e com uma maioria parlamentar cujo cerne esta composto pela
tendência majoritária do PT, pelo PL e pelo PMDB, ainda que esse não
faca parte formal no governo. Mesmo os partidos que se agregaram a
coalizão de governo, como o PTB e o PPS, sopram no mesmo diapasão.
Assim,
retido dentro das regras do jogo, o governo Lula, eleito com a
expectativa de que rompesse com o circulo vicioso da inserção subalterna
na chamada globalização neoliberal, tende a fazer um governo
social-liberal, uma mera correção de rota na mesma direção. Nessa
partida, as esquerdas socialistas revolucionárias que compõem a coalizão
governamental estão postadas em uma situação muito difícil. A oposição
explicita às diretrizes governamentais pode levá-las a arcar com a
responsabilidade de um eventual descaminho do governo Lula, mas o apoio
parlamentar, em nome da governabilidade (outra categoria teórica do
liberalismo) pode levá-las a trair a sua própria identificação com os
interesses operários e populares.
A
alternativa do governo Lula para levar a cabo reformas substantivas, que
penalizem o grande capital, e a pressão de massa. Contudo, como se pode
observar, em nome do objetivo maior da vitória eleitoral, o próprio
candidato e a maioria do PT preferiram conter o movimento de massas,
embora o poder catalisador do presidente esteja ainda longe de se
exaurir. Mas não são muitas as possibilidades de uma reversão de rota
que não esteja ligada a uma mobilização de massas, mesmo essa pouco
provável se observarmos as tendências majoritárias da CUT e da Força
Sindical, cujo objetivo é o de vincular o sindicalismo ao Estado, em uma
nova roupagem liberal do sindicalismo corporativo.
E a
própria circunstancia histórica do governo Lula que coloca na prática a
necessidade de uma refundação comunista no Brasil. Se, como apontam
fortes indícios, o governo seguir a sua trajetória social-liberal os
comunistas e socialistas revolucionários de todos os matizes deverão ser
ejetados do governo e seguir o caminho de um relançamento político no
campo da esquerda.
Hoje se
apresentam três vertentes principais que vislumbram a fundação de novas
organizações políticas de esquerda. Uma que parte do PSTU e visa
unificar as forças e tendências políticas inspiradas no ‘marxismo
revolucionário’. O escopo é, antes de tudo, caminhar para a unificação
das vertentes de inspiração trotskista presentes dentro do PT, seja a
influente Democracia Socialista, sejam os grupos de inserção regional
como a Corrente Socialista dos Trabalhadores ou o Movimento de Esquerda
Socialista, embora não se exclua a participação de outros agrupamentos
como Força Socialista.
Uma
segunda projeção do relançamento das forças de esquerda parte da idéia
de que o PcdoB pode ser o eixo principal da reunificação dos comunistas,
agregando o PCB, comunistas que se encontram no PT, mas principalmente
uma militância comunista dispersa em pequenas organizações ou em
movimentos sociais. Uma terceira tendência vislumbra a reorganização do
PT original, a partir de suas principais vertentes de esquerda: a
Articulação de Esquerda, a Força Socialista e a DS, além de vários
grupos regionais.
É difícil
dizer, por ora, qual dessas tendências tem maior potencial de unificação
das forças sociais e políticas antagônicas ao regime neoliberal e a sua
variante social-liberal. No horizonte tanto pode estar uma consolidação
dessas três tendências, a sua transformação em duas, ou mesmo uma
tendência a uma real unificação. Na verdade a necessidade da refundação
comunista no Brasil se ressente ainda da falta de um grande salto
teórico na compreensão da realidade brasileira, ou pelo menos do
estabelecimento de uma dinâmica que indique esse caminho.
Os
corporativismos de partido e de tendência hoje existentes devem ser
deixados para trás para que possa haver uma confluência de diferentes
experiências e tradições. E preciso se afastar teórica e organicamente
do reformismo social-liberal, afim de que se possa priorizar a questão
do trabalho e da sua democracia, disputando a hegemonia no movimento
operário e popular. Caso não seja alcançada uma real unificação das
forças comunistas e socialistas, augura-se que, pelo menos, uma sólida
frente única política se estabeleça, como parte essencial de uma mais
ampla frente única de organizações sociais e culturais das classes
subalternas.
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Carta de Goiânia,
documento político aprovado pelo agrupamento
Consulta Popular, no
seu encontro nacional realizado em Goiânia,
nos dias de 3 a 6 de
março de 2005.
Produzir e
organizar esperança
Luis Bassegio
Adital
-
Está acontecendo em Goiânia/GO, a segunda Assembléia Nacional dos
Lutadores do Povo da Consulta Popular. São quase 300 militantes
representantes dos movimentos sociais, entidades, pastorais e
intelectuais.
Nos seus 8
anos de existência, a Consulta Popular realizou diversas assembléias de
lutadores. A primeira em 1997, em Itaici, na cidade de Indaiatuba, SP.
Realizou a Marcha Popular do Rio de Janeiro até Brasília em 1999,
seguida de uma assembléia com mais de 4 mil lutadores do povo. Durante
este período, vem publicando diversos cadernos de formação política,
destinados a todos os militantes sociais do Brasil.
Nesta
segunda assembléia, ao fazer a análise de conjuntura, os participantes
avaliaram que, apesar de termos eleito um governo com apelo popular, os
mesmos problemas da era FHC continuam. A exclusão social se agudiza cada
vez mais. È a continuidade da política anterior que privilegia o capital
financeiro, o superávit primário, o pagamento da dívida, em detrimento
da reforma agrária e dos investimentos nas áreas sociais. Não é à toa
que no governo Lula os bancos tiveram o maior lucro da história. Só o
Itaú declarou três bilhões de reais.
Os
participantes avaliaram ainda que ao continuar com esta política, o
governo Lula não tem futuro histórico, pois implementa um reformismo
conservador sem mudanças progressistas. Afinal, isto implicaria na
necessidade histórica de romper com o império norte-americano,
possibilidade nula segundo a postura adotada pelo atual governo.
Os
participantes exigem mudanças no rumo da economia. Querem a auditoria da
dívida externa e o plebiscito oficial sobre a ALCA.
Buscando
conscientizar o povo e suscitar mobilizações sociais, a Assembléia
reafirma seus compromissos com a soberania nacional, sustentabilidade
com o desenvolvimento do país, com a solidariedade e a democracia
popular. Segue firme também na construção de um Projeto Popular para o
Brasil, e de um poder popular que vá além dos movimentos sociais.
A palavra
de ordem é: produzir e organizar esperança; criar uma estratégia própria
para garantir os compromissos com a nação, assim como cada povo deve
criar a sua; identificar os inimigos e quais são as lutas que mais nos
permitem acumular forças e; ter consciência que estamos em tempo de
semear e não de colher.
(CONSULTA
POPULAR: História e Objetivos)
Carta de
Goiânia
Entre os dias 3 e 6 de
março, na cidade de Goiânia, reuniram-se 223 lutadores e lutadoras do
povo, oriundos de vinte estados, para debater a situação brasileira, as
tarefas para o período que se inicia e o futuro da Consulta Popular. Não
foi um evento isolado. Desde 1995, muitos desses lutadores, entre
outros, acompanham com grande preocupação os rumos da esquerda
brasileira. Em dezembro de 1997, realizamos em Itaici (SP) uma primeira
conferência, na qual nasceu a Consulta Popular, que desde então, com
acertos e erros, constituiu um pólo permanente de reflexão e de prática.
Identificamos que estava em curso na esquerda brasileira uma crise com
três faces fundamentais: uma crise de valores, com a difusão cada vez
mais ampla dos valores da política tradicional em substituição aos
valores históricos da luta socialista; uma crise de prática, com o
crescente afastamento da esquerda em relação ao povo; e uma crise de
pensamento, com a perda de referenciais teóricos e estratégicos,
substituídos pelo pragmatismo e o imediatismo.
Para
combater essas deformações, a Consulta concentrou sua atuação na
formulação teórica e política de uma alternativa para o Brasil, na
formação e articulação de lutadores do povo, e no apoio aos movimentos
sociais. Logo compreendeu que a jornada seria longa, com muitos passos
intermediários. Sua organicidade permaneceu insuficiente. Porém, o fato
de ela ter-se mantido viva e atuante mostra que correspondia a uma
necessidade real. Mais do que isso: sete anos depois da I Assembléia de
Lutadores e Lutadoras do Povo, pouca dúvida resta de que nossas
preocupações e críticas estavam corretas. Acreditamos que também estava
basicamente correta a nossa interpretação da crise brasileira como uma
crise de destino que terá de ter uma solução inédita em nossa história,
com a chegada do povo ao poder.
Este nosso
novo encontro realiza-se em uma conjuntura diferente daquela de 1997 e
1999. A força hegemônica da esquerda brasileira abandonou qualquer
projeto de transformação do país, e o governo de Lula gerou grande
frustração. É uma situação que tem disseminado perplexidades, aumentado
o descrédito do povo na eficácia da ação política e provocado a
dispersão de militantes. As dificuldades e riscos daí decorrentes são
evidentes. Isso exige de todos um esforço redobrado de superação. Ou
construímos as bases para uma intervenção dotada de nova qualidade, ou
apenas repetiremos idéias e práticas que são insuficientes para fazer
face ao imenso desafio atual.
Escolhemos
a primeira alternativa. Convidamos lutadores e lutadoras a realizar um
balanço crítico dos erros cometidos e, principalmente, a construir uma
organização política que, sempre atuando junto do povo, possa disseminar
amplamente uma nova interpretação do Brasil e propor ao país um programa
de transformações estruturais. Isso é mais do que somar reivindicações
de cada movimento social. Por isso, a Consulta não substitui nem
concorre com as diversas formas de coordenação e de articulação de
movimentos já existentes.
Reconhecemos e valorizamos o legado deixado pelos lutadores do passado.
Porém, tarefas novas demandam soluções novas, a serem construídas no
caminho. A Consulta não repete nenhuma fórmula pronta. A organização se
constrói na ação pensada.
A base
inicial dessa organização política, que começa a constituir-se, é
formada, principalmente, pelos milhares de militantes dos movimentos
sociais, que são um importante patrimônio acumulado pela esquerda
brasileira. Eles serão incentivados a assumir como objeto de reflexão e
de prática, de forma ainda mais plena, o Projeto Popular para o Brasil.
Assim, essa militância social será agora chamada a organizar-se
politicamente em torno de uma causa comum, a causa da Revolução
Brasileira.
Considerada em perspectiva histórica, a Revolução Brasileira amadureceu.
Mas as condições políticas para realizá-la não estão dadas. Para que
isso aconteça, os grupos sociais que vivem no mundo do trabalho e da
cultura, unidos ao povo mais pobre – ao qual nega-se hoje acesso às
condições mínimas para uma vida digna –, precisarão derrotar os grupos
que usufruem a desigualdade social interna e a dependência externa.
Nossa sociedade, então, poderá reorganizar-se como uma sociedade
socialista.
Assumimos
neste encontro de Goiânia o compromisso de dar um salto de qualidade na
organização da Consulta Popular. A nova coordenação nacional, aqui
indicada, com quinze integrantes, será depositária de uma
responsabilidade de direção política clara. Passaremos a ter uma vida
orgânica muito mais regular, com princípios, regras e disciplina
bem-definidos, no interior de uma estrutura democrática e flexível.
Buscaremos melhores métodos de trabalho, a serem adaptados em cada local
pelos núcleos militantes. Estabeleceremos metas. Concentraremos os
nossos esforços em tarefas multiplicadoras, com destaque para a formação
de novos lutadores, o aprofundamento da nossa compreensão teórica e
política da crise brasileira, o desenvolvimento de múltiplas formas de
comunicação e diálogo com o povo, e o fortalecimento dos movimentos
sociais. Prepararemos milhares de militantes para atuarem decisivamente
e sem hesitações, junto do povo, quando este decidir tomar em mãos o seu
próprio destino.
A Consulta
Popular, agora em via de consolidar-se como organização política,
considera-se uma parte de um conjunto maior de militantes e lutadores,
hoje dispersos, e adotará uma posição cooperativa diante de todas as
iniciativas capazes de contribuir para a renovação da esquerda e a
refundação do Brasil.
Reafirmamos hoje o compromisso expresso na carta da Assembléia de
Lutadores e Lutadoras do Povo realizada em Brasília em 1999: “Estamos
construindo uma organização de novo tipo, dirigida para a luta, e cujas
marcas são a unidade, a disciplina militante e a fidelidade ao povo. Uma
organização que pratica os valores da solidariedade, da gratuidade, da
honestidade e do trabalho coletivo. Isso é condição para que possamos
enfrentar a crise, de dimensão histórica, que vive o Brasil. Uma crise
cuja superação exigirá lutas e sacrifícios, que serão recompensados pela
construção de uma pátria livre, justa e solidária.”
Goiânia
6 de março
de 2005
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Programa aprovado no Encontro Nacional
de fundação do P-SOL, realizado nos
dias 05 e 06 de junho em Brasília.
P-SOL
Programa
do Partido Socialismo e Liberdade
Segue
abaixo o programa aprovado no Encontro Nacional de fundação do P-SOL,
realizado nos dias 05 e 06 de junho em Brasília. Com esta plataforma
programática começamos a construir nosso partido e inauguramos uma nova
etapa na elaboração programática do partido que culminará no primeiro
Congresso do P-SOL. Neste sentido, os relatórios aprovados nos grupos
abrirão a tribuna de debates desta construção programática coletiva que
apenas começa. Nos próximos dias o site estará disponível para receber
as contribuições que com certeza enriquecerão o debate e permitirão que
nosso programa seja construído pela experiência viva dos movimentos
sociais e dos seus protagonistas.
Introdução
Este
programa estabelece um ponto de partida para a construção de um projeto
estratégico, capaz de dar conta das enormes demandas históricas e
concretas dos trabalhadores e dos excluídos do nosso país.
Não se
trata, portanto, da imposição de uma receita pré-estabelecida,
hermética, fechada, imune às mudanças na realidade objetiva e a
experiência viva das lutas sociais do nosso povo. Pois definir seus
balizadores iniciais de estratégia e de princípio não significa
estabelecer qualquer restrição a constantes atualizações, para melhor
compreender e representar as novas demandas populares.
Nessa
perspectiva de caminhos novos para a discussão de um projeto socialista,
a necessidade da construção de um partido de novo tipo se afirma de
forma cada vez mais clara. É uma necessidade objetiva para aqueles que,
nos últimos vinte anos, construíram uma concepção combativa de PT, e lhe
deram a extraordinária possibilidade de abrir as portas para um Brasil
sem miséria e sem exploração, mas que viram suas lutas, seus sonhos e
expectativas traídas.
A ruptura
com o PT começou pelos servidores federais, seguida de amplos setores
intelectuais, de segmentos da juventude e de uma significativa parcela
da população, fragmentada na rebeldia, mas localizada na quase
totalidade de pesquisas de opinião realizadas.
Criou-se,
assim, um novo e histórico momento para o país e para a esquerda
socialista que mantém de pé as bandeiras históricas das classes
trabalhadoras e oprimidas. Na medida em que o governo Lula acelera a
rota para o precipício, abre-se um caminho para uma alternativa de
esquerda conseqüente, socialista e democrática, com capacidade de atrair
e influenciar setores de massas, e oferecer um canal positivo para os
que acreditam em um outro Brasil.
Parte I -
Bases do programa estratégico
1)
Socialismo com democracia, como princípio estratégico na superação da
ordem capitalista.
O sistema
capitalista imperialista mundial está conduzindo a humanidade a uma
crise global. A destruição da natureza, as guerras, a especulação
financeira, o aumento da superexploração do trabalho e da miséria são
suas conseqüências. Sob o atual sistema, o avanço da ciência e da
técnica só conduz a uma mais acelerada concentração de riquezas. A
agressiva busca do controle estratégico dos recursos energéticos do
planeta está levando à própria devastação destes recursos. A lógica
egoísta e destrutiva da produção, condicionada exclusivamente ao lucro,
ameaça a existência de qualquer forma de vida.
Assim, a
defesa do socialismo com liberdade e democracia deve ser encarada como
uma perspectiva estratégica e de princípios. Não podemos prever as
condições e circunstâncias que efetivarão uma ruptura sistêmica. Mas
como militantes conscientes que querem resgatar a esperança de dias
melhores, sustentamos que uma sociedade radicalmente diferente, somente
pode ser construída no estímulo à mobilização e auto-organização
independente dos trabalhadores e de todos os movimentos sociais.
O
essencial é ter como permanente a idéia de que não se pode propor essa
outra sociedade construída sem o controle dos próprios atores e sujeitos
da auto-emancipação. Não há partido ou programa, por mais bem
intencionado que seja, que os substituam. Uma alternativa global para o
país deve ser construída via um intenso processo de acumulação de forças
e somente pode ser conquistada com um enfrentamento revolucionário
contra a ordem capitalista estabelecida. Nesta perspectiva é fundamental
impulsionar, especialmente durante os processos de luta, o
desenvolvimento de organismos de auto-organização da classe
trabalhadora, verdadeiros organismos de contra-poder.
O desafio
posto, portanto, é de refundar a idéia e a estratégia do socialismo no
imaginário de milhões de homens e mulheres, reconstruindo a idéia
elementar -- mas desconstruída pelas experiências totalitárias dos
regimes stalinistas e as capitulações à ordem no estilo da 3ª via
social-democrata -- de que o socialismo é indissociável da democracia e
da liberdade, da mais ampla liberdade de expressão e organização, da
rejeição aos modelos de partido único. Enfim, de que um projeto de
emancipação social dos explorados e oprimidos nas condições atuais é um
verdadeiro projeto de emancipação da civilização humana, de defesa da
vida diante das forças brutais de destruição acumuladas pelo capitalismo
imperialista.
A defesa
do socialismo, finalmente, não é apenas a defesa das reivindicações dos
trabalhadores melhor organizados, mas a conseqüente busca de
incorporação das reivindicações e lutas de todos os setores oprimidos. A
luta pelo socialismo é também a luta contra todas as opressões,
injustiças e barbáries cotidianas.
2) Não há
soberania, nem uma verdadeira independência nacional, sem romper com a
dominação imperialista
O capital
financeiro-imperialista não se limita à sangria do pagamento da dívida e
dos ajustes impostos pelo FMI. Pretende impor, agora, com os acordos em
negociação (caso concreto da ALCA), as condições para um aumento maior
da exploração, com a resultante dilapidação dos nossos recursos naturais
e energéticos. A Amazônia é um alvo concreto. O controle da sua
biodiversidade, através das “leis de patentes”, e a devastação florestal
em busca dos minérios, ou na lógica do agro-negócio, são parte dessa
ofensiva. Outro alvo das multinacionais são as bacias da Petrobrás.
Um
programa alternativo para o país tem que ter nas suas bases fundadoras o
horizonte da ruptura com o imperialismo e suas formas de dominação. O
Brasil precisa de uma verdadeira independência nacional. E ela só é
possível com uma rejeição explícita à dominação imperial.
3)
Rechaçar a conciliação de classes e apoiar as lutas dos trabalhadores
Nossa base
programática não pode deixar de se pautar num principio: o resgate da
independência política dos trabalhadores e excluídos. Não estamos
formando um novo partido para estimular a conciliação de classes. Nossas
alianças para construir um projeto alternativo têm que ser as que
busquem soldar a unidade entre todos os setores do povo trabalhador -
todos os trabalhadores, os que estão desempregados, com os movimentos
populares, com os trabalhadores do campo, sem-terra, pequenos
agricultores, com as classes médias urbanas, nas profissões liberais, na
academia, nos setores formadores de opinião, cada vez mais dilapidadas
pelo capital financeiro, como vimos recentemente no caso argentino. São
estas alianças que vão permitir a construção da auto-organização
independente e do poder alternativo popular, para além dos limites da
ordem capitalista. Por isso, nosso partido rejeita os governos comuns
com a classe dominante.
4)
Reivindicações para a luta imediata e bandeiras históricas para além da
ordem
A defesa
de melhores salários, o combate contra o desemprego e contra a
corrupção, a luta pela reforma agrária, a luta por uma reforma
tributária que taxe o grande capital, a luta pela reforma urbana são
alguns exemplos de reformas verdadeiramente prementes, que devemos
defender com a compreensão de que elas não se realizam plenamente nos
parâmetros do sistema capitalista.
5) A
defesa de um internacionalismo ativo
São tempos
de agressão militar indiscriminada do imperialismo. Os EUA se destacam
como país agressor, que agora chefia a ocupação do Iraque, intervém na
Colômbia, no Haiti, promove tentativas de golpes na Venezuela e apóia o
terrorismo de Estado, de Israel contra os palestinos. A retomada do
internacionalismo é objetivo do novo partido. Para além do nosso
continente, temos que empenhar todo o esforço no apoio ao movimento
anti-globalização, com seus fóruns sociais e suas mobilizações de massas
iniciadas a partir de Seattle.
No caso
das sistemáticas agressões, guerras de ocupação das grandes potências
capitalistas, como no caso do Iraque, devemos levantar de forma
inequívoca a auto-determinação dos povos e contra qualquer tipo de
intervenção militar.
Parte II -
Bases de análise e caracterizações
1) Aumenta
a exploração do Brasil e da América Latina
O caráter
parasitário do sistema capitalista se faz mais evidente na atual fase da
economia mundial. Somente uma parte do capital é mobilizado para
adquirir matérias primas, ampliação de recursos humanos e investimentos,
renovação de equipamentos produtivos. Sua maior parte se destina a
especular sobre o valor futuro da produção, utilizando-se dos mais
variados instrumentos especulativos, seja o câmbio das moedas, a dívida
pública, a sobrevalorização dos terrenos, as ações das empresas e dos
mercados futuros e os investimentos em tecnologia.
O atual
regime financeirizado exige um grau bastante elevado de liberalização e
desregulamentação das economias nacionais. E, por conta de dívidas
externas nunca auditadas, impõe processos de privatização. Acordos como
a ALCA e a propriedade intelectual também são fatores de aumento da
exploração.
Por conta
de benesses tributárias, tais como isenção de remessa de lucros e
dividendos para suas matrizes, grandes corporações multinacionais já se
apropriaram de mais da metade do capital de toda a indústria instalada
no Brasil. Dominam diretamente 1/3 da indústria básica (petróleo,
siderurgia, petroquímica, papel e celulose, agroindústria), mais de 80%
da indústria difusora de tecnologia (aeronáutica, química fina,
eletrônica) e metade de setores tradicionais da indústria nacional
(bebidas, têxtil, alimentos, calçados). No setor de serviços aconteceu o
mesmo, com a desnacionalização dos bancos, dos serviços de
infraestrutura (como energia e telecomunicações) e até do comércio.
O
mecanismo da dívida externa segue sendo fundamental neste processo de
exploração e de domínio do imperialismo sobre o Brasil. Dos contratos de
endividamento externo, disponíveis no Senado Federal, cerca de 92% deles
têm cláusulas que permitem ao credor elevar as taxas de juros. Além
disso, 49,5% dos contratos renunciam expressamente à soberania,
indicando um foro estrangeiro para solucionar controvérsias. Por último,
38,36% dos documentos vinculam o recebimento do dinheiro à realização de
programas do FMI ou do Banco Mundial, assim como 34,24% deles impedem o
Brasil de controlar a saída de capitais.
2) A
classe dominante brasileira é sócia da dominação imperialista
A grande
burguesia brasileira é sócia da dominação imperialista. Enquanto no
Brasil mais de 50 milhões sofrem com a fome, apenas 5 mil famílias
concentram um patrimônio equivalente a 46% da riqueza gerada por ano no
país (PIB). Por sua vez os 50% mais pobres, isto é, 39 milhões de
trabalhadores, detêm apenas 15% da renda nacional. Enquanto isso, os
capitalistas brasileiros seguem especulando com os títulos brasileiros
no exterior e mantém bilhões de dólares nas suas contas nas ilhas Cayman,
nas Bahamas, nas ilhas Virgens e em depósitos nos EUA. Registrado
legalmente no Banco Central, no final de 2002, havia US$ 72,3 bilhões de
capitais investidos no exterior de residentes no Brasil. A ampla
desnacionalização na indústria e no próprio sistema financeiro nacional
-- ocorrida nos anos 90 através de fusões e aquisições – foi aceita sem
resistência séria de setores da classe dominante nacional; sob a
aplicação do modelo neoliberal ficou evidente a incapacidade da classe
dominante brasileira e suas oligarquias setoriais e regionais de opor
qualquer resistência séria à dominação do capital financeiro.
3) Governo
Lula: guinada doutrinária a serviço do capital
A vitória
de Luis Inácio Lula da Silva foi uma rejeição do modelo neoliberal
lançado no governo Collor, mas consolidado organicamente nos dois
mandatos de FHC. Seus 52 milhões de votos eram a base consistente para
uma nova trajetória governamental.
Seu
governo, no entanto, foi a negação dessa expectativa. Depois de quatro
disputas, Lula entregou-se aos antigos adversários, e voltou as costas
às suas combativas bases sociais históricas. Transformou-se num agente
na defesa dos interesses do grande capital financeiro. Na esteira dessa
guinada ideológica do governo, o Partido dos Trabalhadores foi
transformado em correia de transmissão das decisões da Esplanada dos
ministérios.
........................................................
**********************************************************
Texto da proposta dos
Núcleos de Reflexão e Ação Socialistas,
apreciado em plenária
pela primeira vez em 21 da abril de 2004,
em São Paulo e
assinado pelos companheiros Plínio de Arruda
Sampaio; Plínio Jr.,
Paulo Maldos; Ari Alberti e Jorge Luis Martins (Jorginho da CUT).
(NÚCLEOS DE REFLEXÃO
E AÇÃO SOCIALISTAS)
Caros
companheiros,
Como
havíamos conversado, estou lhes encaminhando em anexo uma proposta de
organização política que, junto com meu pai e outros companheiros,
estamos matutando como forma de resposta à terrível crise de desalento e
confusão que se abate sobre boa parte das esquerdas. O núcleo de
reflexão e ação, certamente, não é o partido revolucionário com que
todos os socialistas sonham mas talvez seja um instrumento temporário
para que possamos enfrentar a terrível conjuntura que se abate sobre o
país com o menor grau de dispersão e imobilismo possível. Se a idéia
encontrar boa aceitação, pensamos em lançá-la no início de maio. Aguardo
a reação de vocês para ver se é o caso de tocar o barco.
Um abraço,
Plínio Jr.
(25 de
março de 2004)
Uma
proposta de atuação política
A) Origem
e Justificativa da proposta
A posição
hegemônica que o Partido dos Trabalhadores ocupou nas esquerdas
brasileiras nestes vinte anos faz com que esta proposta parta de crise
que se abateu sobre esse partido.
O PT
surgiu na contramão do projeto de reconstituição do sistema partidário
por ocasião da abertura política dos anos oitenta. Contrastando com os
“partidos da ordem”, integrados no sistema capitalista, o PT
proclamou-se um “partido de contestação da ordem”- um partido
socialista, voltado para a transformação da sociedade e da economia
brasileira.
Ao longo
dos seus 24 anos de existência, esse objetivo central, constante do
artigo primeiro dos seu Estatuto, foi perdendo força e criando
contradições internas que redundaram na crise em que se debate
atualmente.
Diante
dessa situação, muitos militantes abandonaram a legenda e outros estão
pensando em fazê-lo. Há também os que os que, embora insatisfeitos, não
desejam precipitar uma decisão que pode não estar ainda totalmente
amadurecida.
Os maiores
riscos desse estado de coisas são o desânimo e a dispersão. Para
evitá-los, surgiu a idéia da criação de Núcleos de Reflexão e de Ação
Socialista.
Os Núcleos
congregariam socialistas (petistas, ex-petistas, não petistas) dispersos
pelos vários cantos do país num esforço conjunto de reflexão e de
intervenção no processo político, a partir de um novo método de
convivência política. Trata-se de criar coletivos políticos socialistas,
nos quais os membros se comprometam a seguir um procedimento formal de
consulta prévia a todos os demais membros, antes de tomarem posição
diante das questões políticas. Aparentemente não há novidade nisso. Mas
a leitura das regras mostrará que o objetivo é realizar um exercício de
participação política destinado a explorar, na prática, formas de
resolver um problema não resolvido nos vários períodos em que o Brasil
procurou institucionalizar regimes democráticos: a discrepância entre a
vontade da cidadania e a conduta dos seus representantes nas
instituições do Estado. Esse problema estende-se aos partidos políticos,
ou seja, à discrepância entre a vontade dos militantes e a conduta da
sua direção. O PT não conseguiu resolver essa contradição e isto
constitui um dos fatores da crise atual.
A
participação no Núcleo requer uma clara opção socialista e a adesão a
normas éticas constantes da Declaração de Objetivos e Princípios
explicitada no final da proposta. Não implica, contudo, numa opção
partidária, uma vez que não há delegação de poderes de representação.
Pode-se militar em um partido e ser membro de um Núcleo. Para fazer
parte deste, basta ser socialista, comprometer-se com a ética na
política e, obviamente, respeitar a decisão da maioria dos companheiros
que escolheu para partilhar sua militância, obedecidos os requisitos de
validade da mesma: socialização de todas as informações; amplo debate;
ausência de pressões espúrias sobre qualquer dos membros.
O número
de integrantes de cada Centro será limitado a 20 pessoas, a fim de
favorecer a comunicação e o desenvolvimento do espírito de equipe, como
forma de estimular práticas de ação coletiva características do ideal
socialista.
O conjunto
dos Núcleo forma o Agrupamento Nacional. Não há hierarquia entre os
Núcleos nem representantes destes para compor a direção do Agrupamento;
Não há, portanto, centralismo que obrigue um Núcleo a adotar a posição
manifestada pela maioria dos Núcleos. A força política das posições do
Agrupamento Nacional dependerá sempre do número de Núcleos que a
adotarem. Não tendo a maioria dos Núcleos possibilidade de invocar o
principio do centralismo democrático para impor sua vontade à minoria, a
adesão desta às suas decisões será sempre o resultado da sua capacidade
persuasória e não de qualquer norma que obrigue a minoria a seguir a
maioria. Isto tira força do Agrupamento? Sem dúvida. Mas, de outro modo,
esta proposta não consistiria em um simples instrumento de articulação e
aglutinação de socialistas que, dentro e fora do PT, estão dispersos e
desejosos de experimentar formas de convivência política fraterna, sem
burocratismo, sem autoritarismo; e sem assembléias nas quais o diálogo
seja substituído pela simples aferição do número de “crachás” levantados
em favor de uma ou outra proposta..
Provavelmente a prática evidenciará a necessidade de modificar as regras
de funcionamento que serão expostas a seguir. Mas a experiência pode ser
iniciada imediatamente e, desse modo, evitar que os impasses atuais
paralisem e dispersem a militância socialista.
B) Regras
de Funcionamento dos Núcleos de Reflexão e Ação Socialista
1).
O Núcleo é uma associação livre de pessoas, que se unem para intervir
conjuntamente no processo político brasileiro, a partir de uma opção
socialista, formulada nos termos da Declaração de Objetivos e Princípios
constantes desta Proposta.
2)
Os Núcleos congregarão de 5 a 20 pessoas, associadas para refletir sobre
o processo político brasileiro e realizar ações conjuntas (livremente
decididas) isoladamente ou com outros grupos afins. O único critério da
associação é a vontade dos integrantes. Não há critério territorial,
setorial ou qualquer outro. Atingido o número máximo de membros, o
Núcleo deverá dividir-se, de modo a facilitar a integração de novos
membros e manter um tamanho favorável à comunicação e ao trabalho em
equipe.
3)
O compromisso dos membros do Núcleo consiste em:
a)
participar, com a periodicidade estabelecida, das sessões de debate das
questões políticas nacionais e internacionais;
b)
responder às consultas formuladas pelos seus próprios membros ou por
outros Núcleos, desde que a maioria as considere matéria de debate e
posicionamento do Núcleo;
c)
realizar as ações ou tomar as posições que forem decididas pela maioria
dos membros do seu Núcleo, em resposta às consultas feitas nas condições
anteriores;
d)
executar um programa de formação política livremente decidido pelos seus
integrantes.
Os gastos
necessários para a realização de atividades decididas por um conjunto de
núcleos serão rateados entre os mesmos.
4)
O prazo para responder às consultas será fixado pelo Núcleo que fizer a
consulta aos demais e deverá variar em função da exigência da urgência
da matéria e da sua complexidade. A informação necessária para o debate
do problema proposto deverá ser socializada para todos os Núcleos.
5)
O conjunto dos Núcleos constitui o Agrupamento Nacional de Núcleos
Socialistas. A estrutura do Agrupamento é “suis generis”: Não há
instâncias intermediárias ou superiores, nem hierarquia entre os
Núcleos. A posição da maioria dos Núcleos em relação a uma questão
não obriga
os membros dos Núcleos que não participarem do debate ou que ficaram em
posição minoritária.
6)
Os Núcleos manterão uma Página Eletrônica para encaminhar as propostas
de debates e de ação, os resultados e os textos relativos às questões
propostas. Os Núcleos constituídos em locais desprovidos de Internet se
comunicarão via correio postal.
As pessoas
que prestarão o serviço de manter a Página Eletrônica deverão:
- receber
e registrar os Núcleos que se constituam;
-
comunicar a inscrição de novos Núcleos;
- receber
as propostas de posicionamento e ação política e estampá-las na Página
para conhecimento dos Núcleos;
- apurar e
publicar o resultado dos debates nos Núcleos;
- publicar
os textos elucidativos das matérias em discussão ou indicar os locais
onde os mesmos podem ser encontrados.
Os gastos
de manutenção da Página Eletrônica serão rateados entre os integrantes
do Agrupamento.
C.
Declaração de objetivos políticos e princípios éticos do Agrupamento
Nacional de Núcleos de Reflexão e de Ação Socialista.
1.
Os integrantes dos Núcleos declaram-se socialistas. Sua militância
política está voltada para a construção de uma sociedade, na qual a
economia seja organizada em torno de formas de propriedade social e o
Estado garanta as liberdades e os direitos políticos democráticos.
2.
Na trajetória da situação atual para esse horizonte histórico, os
integrantes dos Centros se empenharão na efetivação da Revolução
Brasileira. Isto supõe a luta para completar, agora sob hegemonia dos
trabalhadores, o processo de construção de uma Nação independente e
autônoma, na qual uma efetiva redistribuição da riqueza, da renda e do
poder possibilite a todos um padrão de vida digno e o pleno exercício da
cidadania.
3.
As lutas do trabalho contra o capital; dos camponeses contra o modelo do
agronegócio; das mulheres contra a desigualdade nas relações de gênero;
dos índios pela demarcação de suas terras, dos aposentados pelo direito
a uma velhice tranqüila; dos negros contra o preconceito; das minorias
comportamentais contra a discriminação; do povo brasileiro contra a
devastação do seu meio ambiente; dos países subdesenvolvidos contra a
dominação imperialista são objetivos táticos, ordenados à consecução das
duas metas estratégicas da Revolução Brasileira: a igualdade social e a
afirmação do Estado Nacional brasileiro. Essas lutas incluem ações no
plano institucional e, se necessário, atos de desobediência civil, desde
que realizados às claras e justificados pela ilegitimidade da lei
infringida.
4.
Os membros dos Núcleos repudiam a visão da política unicamente sob o
ângulo da força. Não há justificativa para a força despida de conteúdo
ético. Não admitem igualmente que uma pretensa “ética da
responsabilidade” autorize o emprego de meios imorais e exonerem os
governantes da obediência aos ditames morais que guiam o comportamento
de todos os cidadãos.
5.
Não reconhecem “razões de Estado” que justifiquem o atropelo dos
direitos e da liberdade, bem como o acobertamento de atos moralmente
condenáveis. A exigência ética abrange tanto o comportamento público
quanto a conduta privada da pessoa.
6.
Recusam qualquer forma de voluntarismo e de vanguardismo. Acreditam que
nada pode substituir os trabalhadores como agentes da transformação
social. Têm ainda a convicção plena de que os trabalhadores brasileiros
conseguirão superar os obstáculos que se opõem ao seu pleno
desenvolvimento econômico, social, político e cultural e farão do Brasil
um parceiro importante na luta dos povos por uma sociedade mundial justa
e humana.
RELAÇÃO DE
PARTIDOS e
agrupamentos
políticos
DE
ESQUERDA NO BRASIL
INTRODUÇÃO
Em 50 anos, o sistema
partidário brasileiro já mudou de cara várias vezes. Embora algumas
siglas criadas no início e no meio do século permaneçam até hoje, poucas
têm a ver com suas origens. Os períodos ditatoriais sufocaram e até
colocaram partidos na clandestinidade. O golpe de 1964 chegou a impor o
bipartidarismo, reunindo toda a oposição em uma só legenda. Os ventos da
democracia trouxeram a pluralidade de volta.
Partido
Comunista Brasileiro (PCB)
- Fundado
em 25 de março de 1922, na sua gênese, convergiram os ideais libertários
do nascente proletariado. No mês de abril de 2000 realizou-se o XII
Congresso. A construção de uma frente das esquerdas em um projeto de
confronto ao neoliberalismo e a unidade dos comunistas no Brasil, foram
importantes resoluções aprovadas pelo Congresso. A consolidação da
política de organização leninista foi concretizada na aprovação do novo
estatuto partidário. Na entrada do novo milênio e completando 79 anos de
existência, o Partido Comunista Brasileiro, reafirma a necessidade
histórica de superação do capitalismo, que se dará apenas pela
libertação das classes trabalhadoras, na perspectiva do socialismo rumo
à sociedade comunista. (Extraído do site do PCB na Internet, em julho de
2005.)
Partido
Comunista do Brasil (PC
do B)
– É um dos três partidos que carrega a herança política do PCB, fundado
em 25 de março de 1922. Em 1962, um grupo liderado por João Amazonas,
Pedro Pomar e Maurício Gabrois provocou a maior cisão da história do
PCB. Foi colocado na ilegalidade na época do regime militar (1964 a
1985). Coerente com sua estratégia de “revolução à partir do campo”, o
partido criou, na década de 70, um foco de luta armada na região do
Araguaia, que acabou sendo arrasado pelo Exército. Tanto o PC do B como
o rival PCB foram legalizados em 1985, no governo de José Sarney. Este
agremiação defende idéias socialistas, e tem como bandeiras principais a
luta pela reforma agrária, distribuição de renda e igualdade social.
Partido Socialista
Brasileiro (PSB)
– Foi fundado em 1947, a partir da reorganização de um movimento chamado
Esquerda Democrática formado dois anos antes. Seu objetivo era conciliar
o processo de transformações sociais com as exigências de ampla
liberdade civil e política. Parte dos integrantes da E.D. que defendia o
liberalismo econômico fundou a UDN. O partido se define como socialista
e tem no governador de Pernambuco, Miguel Arraes, o seu maior líder.
Partido
dos Trabalhadores (PT)
– Foi fundado em 10 de fevereiro de 1980 por líderes sindicais da região
do ABC paulista, inspirados nos movimentos de greve dos metalúrgicos de
1978 e deles e outras categorias na década de 1980. . Apareceu no
cenário político para ser uma grande força de oposição e representante
dos trabalhadores e das classes populares.Tornou-se o maior partido de
esquerda e, seu programa de inspiração socialista, defende a reforma
agrária e a justiça social. Atualmente, governa o país através do
presidente Luis Inácio Lula da Silva. As principais metas do governo
Lula tem sido: crescimento econômico, estabilidade econômica com o
controle inflacionário e geração de empregos.
Partido Popular
Socialista (PPS)
- Com a queda do muro de Berlim e o fim do socialismo, muitos partidos
deixaram a denominação comunista ou socialista de lado. Foi o que
provocou uma grande cisão no PCB, em 1992. A maioria dos comunistas,
comandada pelo senador Roberto Freire (PE), rejeitou o símbolo formado
pela foice e o martelo e resolveu adotar o nome de PPS. Além disso, a
nova legenda trouxe alterações ideológicas, aproximando-se mais da
social-democracia. O PPS disputou a Presidência da República com o
candidato Ciro Gomes (ex-PSDB), já em 2002.
Partido
Socialista dos Trabalhadores - Unificado (PST-U)
– Foi fundado em 1994 e unifica várias correntes de militantes
revolucionários, que, na maioria, passaram pelo PT. A maior dessas
correntes era a Convergência Socialista (CS). Opõe-se ao capitalismo e
prega o socialismo no Brasil. É favorável a um sistema onde os
trabalhadores consigam mais poder e participação social.
Consulta
Popular
- Agrupamento de militantes, surgido em dezembro de 1997, em Itaici
(SP), numa primeira conferência. Busca constituir-se num pólo permanente
de reflexão e de prática. Construindo uma organização de novo tipo,
dirigida para a luta, e cujas marcas são a unidade, a disciplina
militante e a fidelidade ao povo, pratica os valores da solidariedade,
da gratuidade, da honestidade e do trabalho coletivo. A Consulta
Popular, agora em via de consolidar-se como organização política,
considera-se uma parte de um conjunto maior de militantes e lutadores,
hoje dispersos, e adotará uma posição cooperativa diante de todas as
iniciativas capazes de contribuir para a renovação da esquerda e a
refundação do Brasil.
Partido Socialismo e
Liberdade (Psol)
- O Encontro Nacional de fundação do P-SOL foi realizado nos dias 05 e
06 de junho de 2004, em Brasília. O seu surgimento foi conseqüência do
processo de degeneração política e ética do PT, que precipitou o
desligamento ou a expulsão de diversos e diversas militantes, dentre as
quais a Senadora Heloisa Helena, principal nome de referência nacional
da agremiação.
Núcleos de Reflexão e
Ação Socialistas (NRAS)
– Fruto, também, do processo de desagregação da militância petista e da
conseqüente necessidade de criar um espaço aglutinador, essa proposta
organizativa tomou corpo numa plenária, realizada em São Paulo, no dia
21 de abril de 2004. Diferencia-se dos demais agrupamentos por não
constituir-se, inicialmente, enquanto uma opção de caráter partidário,
mas apenas um canal para se avaliar a realidade e as possíveis
alternativas para as esquerdas, após a degeneração do PT.
Outros Partidos e
Agrupamentos Clandestinos de
Esquerda Atuantes nas
Décadas de 60 a 80.
Port
(Partido Operário Revolucionário Trotskista)
- Existia desde 1953, sendo que na década de 60 integrou a linha de
frente da guerrilha. (Vasconcelos Quadros, no Jornal do Brasil –
editoria Brasil, Domingo 24/10/99, “Um perfil da luta armada”)
Polop (Política
Operária)
– Agrupamento surgido em 1959, com integrantes oriundos do PSB, do PTB e
de setores ligados ao PCB (Juventude e periferia), todos com posição à
esquerda dos seus partidos de origem, sem, contudo, terem praticado,
diretamente, a luta armada. Tinha a “perspectiva de um sindicato
autônomo, um projeto político revolucionário marxista-leninista,
fundamentado na realidade brasileira. Nossa posição era de crítica
aberta ao stalinismo e ao reformismo, embora reconhecêssemos os acertos
da União Soviética.” (informações da T&D nº 24, Otaviano Alves da Silva,
entrevistado por Valter Pomar)
POC
(Partido Operário Comunista)
- Organização que era englobada pela Polop. (Vasconcelos Quadros, no
Jornal do Brasil – editoria Brasil, Domingo 24/10/99, “Um perfil da luta
armada”) Diferencia-se desse outro grupo, porém, por ter abraçado a luta
armada, mais diretamente. (acréscimo do organizador desta coletânea)
AP (Ação
Popular)
– organização política, surgida no início dos anos 1960. (Sader, Emir
A Transição no Brasil 10ª edição 1991 Atual Editora São Paulo)
Teve origem em organismos da juventude católica da época (JEC, JUC, JOC,
JAC),
jovens protestantes e alguns sem religião, políticos progressistas e
militantes operários e camponeses.(Manoel da Conceição Santos
Qualificação para a Estadual 10.726/01) Uma parte dela fez uma opção
pelo marxismo-leninismo, formando a APML, que depois, numa nova divisão,
acabou entrando parcialmente para o PCdoB. (organizador desta coletânea)
MRN
(Movimento Nacional Revolucionário)
- Estruturado no Uruguai durante o exílio do ex-governador Leonel
Brizola. ...Era formado por militantes que já tinham lutado pelas
reformas de base antes de 1964 e, mais tarde, por sargentos, cabos -
entre eles o maior traidor da guerrilha, o cabo Anselmo José dos Santos
- e marinheiros excluídos pelas Forças Armadas. Liderado por Brizola, o
MNR tentou, sem sucesso, montar três focos de guerrilha no país, um
deles na Serra de Caparaó, entre Minas Gerais e Espírito Santo. Em 1967,
depois de sucessivas frustrações, o MNR registrava várias baixas.
(Vasconcelos Quadros, no Jornal do Brasil – editoria Brasil, Domingo
24/10/99, “Um perfil da luta armada”)
ALN (Ação Libertadora
Nacional)
– Organização voltada à derrubada da ditadura militar pela via armada,
criada no início de 1968, a partir da dissidência paulista do PCB, cujo
principal dirigente foi Carlos Marighella. (Revista Brasil
Revolucionário nº 20, Guerreiro da grande Batalho por Otto Filgueiras)
Molipo
(Movimento de Libertação Popular)
– Organização oriunda da ALN, da qual nunca se separou totalmente. (Florência
Costa, no jornal O Globo de 19/08/99, “Livro conta a história
de 424 vítimas do regime”)
PCBR (Partido
Comunista Brasileiro Revolucionário)
- O congresso de fundação foi em abril de 1968, numa casa na Serra da
Mantiqueira, no Estado do Rio. Estavam presentes uns 25 representantes
de vários estados, todos oriundos das dissidências do PCB. Nascia da
esperança dos que ousavam desafiar o capitalismo e o regime militar e
que sonhavam também em revolucionar o comunismo. (Revista Brasil
Revolucionário nº 20, Guerreiro da grande Batalho por Otto Filgueiras)
MR-8 (Movimento
Revolucionário 8 de Outubro)
– Agrupamento formado pela Dissidência Estudantil do PCB da Guanabara,
em 1968, que assume também a luta armada. (Ridenti, Marcelo Que
história é essa? em Versões e Ficções Ed. Perseu Abramo set/1997 São
Paulo)
VPR
(Vanguarda Popular Revolucionária)
– Organização fundada pelo ex-capitão Carlos Lamarca - que depois
passaria para o MR-8, surgiu em 1968 como uma fusão de dissidentes de
outras organizações, tentou implantar um foco de guerrilha e de
treinamento no Vale do Ribeira, em São Paulo, e depois participaria do
seqüestro de três diplomatas - do Japão, Alemanha e Suíça -, que seriam
devolvidos mediante a libertação de presos políticos. (Vasconcelos
Quadros, no Jornal do Brasil – editoria Brasil, Domingo 24/10/99, “Um
perfil da luta armada”)
Colina (Comando de
Libertação Nacional)
– Fruto de cisão da Polop, no final da década de 60, que assumiu as
teses foquistas (de foco de luta armada), guevaristas e castristas de
Régis Debray, particularmente a partir de uma interpretação favorável do
texto “Revolução na Revolução”, publicado em 1967. (T&D nº 24, Otaviano
Alves da Silva)
VAR-Palmares
(Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares) - Fundada em 1969 como
uma fusão da VPR e da Colina. (Vasconcelos Quadros, no Jornal do Brasil
– editoria Brasil, Domingo 24/10/99, “Um perfil da luta armada”)
PCR
(Partido Comunista Revolucionário)
– Agrupamento que teve origem no PCdoB e tinha suas bases no Nordeste.
(Vasconcelos Quadros, no Jornal do Brasil – editoria Brasil, Domingo
24/10/99, “Um perfil da luta armada”)
MRT (Movimento
Revolucionário Tiradentes)
– Organização que, como o PRC, teve origem no PCdoB. (Vasconcelos
Quadros, no Jornal do Brasil – editoria Brasil, Domingo 24/10/99, “Um
perfil da luta armada”)
LO (Liga Operária)
–
Agrupamento de perfil trotskista, ligado ao setor minoritário do
Secretariado Unificado da 4ª Internacional, formado à partir de
militantes brasileiros, que retornaram do exílio na Argentina, em 1974.
Criou a CS (Convergência Socialista), a princípio uma frente de
socialistas de diversos matizes, que, esvaziada, veio a se tornar uma
tendência interna do PT. Depois de sair do PT e juntar-se a outros
agrupamentos menores, passou a chamar-se PST-U (Partido Socialista dos
Trabalhadores – Unificado), que obteve registro no TSE em 1994, como já
foi mencionado acima.
PRT (Partido
Revolucionário dos Trabalhadores)
– Agrupamento que existiu entre os anos de 1977 e 1981,
foi conseqüência do
rompimento político com a LO, uma das origens do atual PST-U e evoluiu
para um processo de fusões com outros agrupamentos, que formaram a
ORM-DS, que atualmente é a Tendência Interna do PT - Democracia
Socialista.
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Por uma história da esquerda brasileira. Topoi - Revista de
História. Rio de Janeiro: PPGHIS/UFRJ, n. 5, set. 2002. – Maria
Paula Nascimento Araújo: Doutora
em
Ciência Política
(IUPERJ, 1998). E-mail:mp-araujo@uol.com.br
Francisco de Oliveira é professor titular aposentado do Depto. de
Sociologia da USP e coordenador do Centro de Estudos dos Direitos da
Cidadania da FFLCH-USP.