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Revelando-se muito mais dinâmica do que apenas uma
simples disputa pelos rearranjos nos projetos de
gerenciamentos das cidades, as eleições municipais em
2004 apontaram para cenários que indicam uma preocupação
de candidatos e direções partidárias com o
fortalecimento do poder local. Em que pese todas as
expectativas que os principais partidos políticos possam
ter em relação aos processos eleitorais em níveis
estadual e federal, a disposição empreendida por eles
nessas contendas mostraram a importância e a influência
do local no contexto nacional.
No
Brasil, o debate envolvendo o poder local ganha força a
partir da Constituição de 1988, quando se inicia o
processo de descentralização envolvendo temas como
educação e saúde que começaram a fazer parte da gestão
pública dos municípios. Desde então, governos municipais
vêm sentindo um aumento progressivo da responsabilidade
ao ter que procurar soluções em áreas como saneamento
básico, política ambiental e segurança pública. Além
disso, projetos como geração de trabalho e renda,
qualificação profissional e desenvolvimento econômico
cujas ações até pouco tempo atrás eram tratadas em
âmbito federal, tendo no limite uma co-responsabilidade
dos estados estão cada vez mais no centro das
preocupações dos governos municipais.
Nas
eleições municipais, sobretudo na cidade de São Paulo,
vários analistas apontaram uma ampliação do pleito
municipal para as esferas estadual e federal, o que se
traduzia segundo eles em uma disputa antecipada das
eleições de 2006 entre o PSDB do governador Geraldo
Alckmin e o PT do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Ainda que correta essa avaliação, ela não pode ser
analisada de forma isolada, não podemos deixar de levar
em conta que a disputa eleitoral, em questão, envolvia o
comando de uma das principais prefeituras do país e o
dimensionamento da campanha pode, ao contrário, ter sido
parte de uma estratégia dos candidatos para vencer as
eleições.
Se
voltarmos ao momento eleitoral, possivelmente podemos
chegar a conclusão que os candidatos tentaram mostrar ao
eleitor uma imagem de grandes articuladores de recursos
para implementar seus projetos e promessas de campanha.
E isso pode ter ocorrido porque candidatos e governantes
interpretaram que o eleitor está cada vez mais
preocupado com o que acontece em sua volta e dessa
forma, demonstrava claras intenções de eleger um governo
local que se mostrasse capaz de trazer benefícios para o
município. Não por acaso os candidatos Marta Suplicy e
José Serra tentaram mostrar aos eleitores que seriam
capazes de proporcionar vantagens ao município através
do estabelecimento de uma parceria com os governos
federal e estadual, respectivamente. Da mesma forma, o
governador Alckmin e o presidente Lula trataram de
confirmar a disposição em apoiar o município, deixando
bastante claro para a opinião pública com qual candidato
preferiam estabelecer a parceira.
Ganhar
a eleição mostrando que há de fato uma ligação das ações
locais com as ações gerais me parece o objetivo mais
provável e neste aspecto, ninguém pode negar que houve
por parte dos candidatos um grande empenho. Apesar de
ser positivo esse esforço, percebe-se também que ele foi
muito mais vigoroso no período eleitoral, ora para
exaltar os feitos da administração e mostrar que essa
articulação é possível, ora para denunciar as não
concretizações. No entanto, mesmo tendo como principal
objetivo vencer a eleição, não foi ignorado pelos
partidos e seus candidatos o significado político que o
seu resultado provocaria na correlação de forças dos
governos federal e estadual e também no processo de
sucessão presidencial. A impressão que fica é a de que
está bastante claro que todos tem a total dimensão que
as eleições municipais contribuem para a construção de
cenários, principalmente o cenário estadual,
especialmente, quando se trata da principal capital
brasileira. Todavia, sabem também que esses fatos
contribuem, mas não podem ser considerados como
definidores.
A julgar pelo momento
eleitoral, podemos dizer que governantes e direções
partidárias compreendem concretamente a dinâmica do
poder local e entenderam os acenos cada vez mais
crescentes do eleitor mostrando que a melhoria da
qualidade de vida deve ter reflexos no local onde ele
mora, trabalha, estuda e se relaciona, ou seja, ele quer
sentir mais próximo de si os benefícios das mudanças
anunciadas em níveis estadual e federal. Mas a julgar
pela dinâmica implementada em períodos pós-eleitorais,
provavelmente o eleitor só voltará a presenciar esse
debate o ano que vem, sobretudo, porque os partidos
ainda irão passar pelo processo de debates e de disputas
internas para a escolha de seus candidatos e da
estratégia que irão implementar para ganhar as
eleições.
Diante de tais caminhos,
somente resta esperar que a manifestação do eleitor nas
urnas em diversos municípios do Brasil nos permita criar
uma expectativa de que mesmo havendo esse refluxo nas
discussões sobre poder local, será inevitável nas
próximas eleições o estabelecimento de relação entre
local, estadual e federal. Se não for este o desejo de
candidatos, governantes e seus respectivos partidos
políticos, pelo menos torcemos para ser cada vez mais o
desejo do eleitor. |
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