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A esperança dança, em corda bamba de
sombrinha...
Elis Regina
Este texto foi escrito em setembro de 2005,
reflete sentimentos e inferências deste período, pois como
alguém já falou, escritos são datados, precisam ser
analisados a partir de seus contextos. Refere-se à crise
política, a meu ver, a mais difícil enfrentada pelo Governo
Lula.
Hoje tomando o devido distanciamento, revisito a
questão e percebo, com alívio, que superei a idéia, de só
enxergar tristeza e decepção de outrora, presentes quando
cantarolava, Chico: “Pede perdão pela duração dessa
temporada, mas não diga nada que me viu chorando e pros da
pesada diz que eu vou levando...” (Samba de Orly,
Chico Buarque,
Toquinho e Vinícius de Moraes)
A pergunta do título deste texto pode mobilizar
muitas respostas, mas a que me interessa refletir agora, diz
respeito a meu ver, a uma dura conquista construída
resultado das lutas populares históricas e que se encontra
tão ameaçada em função dos acontecimentos decorrentes da
crise política que vivenciamos em 2005. Elejo como minha
principal imagem a feição do presidente Lula: o operário que
virou Presidente da República. Alguém que ocupou,
portanto, um espaço não autorizado na perspectiva da
História linear, conservadora e determinada.
Pra mim, essa é a principal questão
didaticamente ensinada por esta crise que assola o governo
do Partido dos Trabalhadores – entre outras interpretações,
vejo como um ato pedagógico que objetiva mostrar qual é o
nosso lugar, onde deve ficar os da Senzala, geograficamente
claro, distanciados das decisões e dos direitos básicos que
todas as pessoas têm, longe da Casa Grande.
Nunca foi tranqüilo para as forças que
tradicionalmente dirigiram nosso país, aceitar a ocupação
destes espaços pelos trabalhadores e trabalhadoras. Nesta
visão, faz sentido, interpretar esta prática como um conluio
deliberado das elites sim na medida em que agora, de certa
forma com nossa permissão, abatimento e desmoralização,
procuram resgatar e retomar os lugares que historicamente
afirmam lhes pertencer. “Apagaram
tudo pintaram tudo de cinza a palavra no muro ficou coberta
de tinta” (Gentileza, Marisa Monte)
As
notícias
cuidadosamente filtradas
pela
mídia
contribuem
para
a produção
de
um
convencimento
no
imaginário
popular
de
que
a
gente
não
deu
certo
e o
futuro,
de
acordo
com
essa
visão,
já
se pode
esperar,
vai ser
de
muito,
muito
pão
e
bastante
circo.
“É
pau,
é
pedra
é o
fim
do
caminho?”
(Águas
de
março,
Tom
Jobim) É
como
se a
cada
instante
nos
convencessem,
por
exemplo,
de
que
o
lugar
do
Lula
é
exclusivamente
como
metalúrgico do
ABC;
que
eu
-
atualmente
professora de uma
universidade
federal
deveria
ter
continuado no
interior
do
nordeste,
assumindo a
sina
tradicionalmente estabelecida e desempenhada pelas
mulheres
da
minha
família,
casar
e ter
filhos,
proibida
de sonhar
com
outras
coisas.
“O
meu
pai
foi
peão,
minha
mãe
solidão
meus
irmãos
perderam-se na
vida
a
custa
de
aventuras,
descasei, joguei, investi, desisti, se há
sorte
eu
não
sei,
nunca
vi...”(Romaria,
Renato Teixeira)
É
como
se apontassem
para
os
nossos
intelectuais
e
referências
e dissessem: “Olha,
Paulo Freire,
não
se iluda, a
História
é feita
sim
de
determinismos
e
não
de possibilidades”.
Para
Gramsci, “esse
negócio
de
intelectual
orgânico
não
se
sustenta,
trabalhador
tem
mesmo
é
que
trabalhar
e
não
sonhar
em
ser
dirigente”.
Para
eles
deve haver
uma
correspondência
imutável
entre
sujeito
e
verbo:
Trabalhador
é para
trabalhar;
dirigente
é
pra
dirigir.
Confirmando: “A
roda
da
saia
mulata
não
quer
mais
rodar
não
senhor,
não
posso
fazer
serenata,
a
roda
do
samba
acabou. A
gente
toma
a
iniciativa,
viola
na
rua
a
cantar,
mas
eis
que
chega
a
roda
viva
e carrega a
viola
pra
lá”
(Roda
viva,
Chico Buarque).
Essa
guinada
conservadora compromete
duramente
o
projeto
utópico,
fortalece a
velha
idéia
de
que
estes
lugares
não
podem ser
sonhados, conquistados e
por
nós
ocupados,
significa,
conseqüentemente,
empurrar
uma
luta
imensa
para
trás,
para
o
fim
da
fila
e
ainda,
algo
que
não
começou
com
a
gente,
mas
envolve
muitos
e muitas das
quais
somos
herdeiros,
e
que
alguns
sequer
estão
mais
entre
nós.
“Você
não
sente,
não
vê
e
eu
não
posso
deixar
de
dizer
meu
amigo!
Que
uma
nova
mudança
em
breve
vai
acontecer,
o
que
algum
tempo
era
novo,
jovem,
hoje
é
antigo
e precisamos
todos
rejuvenescer!”
(Velha
roupa
colorida,
Belchior)
Muitos
não
viram as mudanças,
mas
sabiam
que
elas
chegariam,
nunca
aceitaram
esse
futuro
pré-dado, não-problematizado,
como:
O movimento
conhecido como a
Revolta da Chibata,
evidenciou-se em 22 de
novembro de 1910, contra os castigos determinados aos
marinheiros. A revolta já vinha sendo preparada há meses, e
eles estavam bem organizados, dominando com rapidez outras
embarcações. Apontando os canhões para a cidade do Rio de
Janeiro, exigiam o fim dos castigos corporais e a melhoria
na alimentação, e o governo de Hermes da Fonseca, foi
obrigado a atender às reivindicações e a conceder anistia
aos líderes do movimento.
Entre eles, Antonio Cândido, o líder da Revolta
da Chibata, denunciou a violação que os corpos sofriam por
meio de duros castigos impostos aos marinheiros no Rio de
Janeiro, em 1910. Os trabalhadores eram forçados a ingressar
na marinha e só podiam dar baixa depois de 15 anos.
Submetidos a trabalhos pesados, alimentação precária e
salários muito baixos, padeciam de castigos físicos
extremamente violentos, dentre os quais, a terrível chibata
- um dos
maus tratos,
comuns na marinha brasileira, que tinha o costume de
chicotear os marinheiros considerados faltosos.
O contato com marinheiros de outros lugares contribuiu para
a compreensão de que a violência sofrida não podia mais ser
tolerada. No dia 22 de novembro deste mesmo ano, um dos
marinheiros,
Marcelino
Menezes, foi
condenado a 250 chibatadas, esse fato causou uma grande
revolta e indignação, então os trabalhadores dos
encouraçados de São Paulo e Minas Gerais organizaram um
motim. Nesta ocasião, prenderam alguns oficiais, uma
estratégia para por fim das agressões corporais, a redução
de jornada de trabalho e o aumento salarial. O presidente
Mal. Hermes da Fonseca anistiou os marinheiros. Tal
atrevimento, porém, não foi perdoado pela elite dominante,
alguns marinheiros líderes do movimento, pagaram com a vida,
outros foram deportados, torturados e muitos outros
permaneceram aprisionados durante toda a sua existência.
Apesar da eliminação da chibata, os líderes do movimento
acabaram presos e muitos morreram torturados. A principal
liderança, o marinheiro João Candido, conhecido como
"Almirante Negro" acabou sendo absolvido em 1912 e a chibata
foi eliminada da marinha brasileira.
“Há muito tempo nas águas da Guanabara, um
herói do mar reapareceu na figura de um bravo feiticeiro, o
que a História não esqueceu, conhecido como um navegante
negro, tinha dignidade de um mestre-sala [...] Rubras
cascatas, jorravam das costas dos santos entre cantos e
chibatas...” (O Mestre-sala dos mares, João Bosco)
Outra lição de luta e resistência foi
demonstrada pelos guerreiros da Cabanagem, os moradores
pobres das cabanas à beira dos rios amazônidas, que
realizaram em 1835 a mais bem sucedida insurreição popular
que colocou o controle da província nas mãos da população
escrava, indígena e mestiça. Com esse movimento denunciavam
suas péssimas condições de vida e as desigualdades sociais
da época. As forças de sustentação do governo foram
implacáveis com este movimento. “A
geração da gente, não teve muita chance, de se afirmar de
arrasar de ser feliz..”
(Não vou sair, Celso Viáfora).
Já a luta social da
Balaiada, protagonizada pelo artesão Balaio ou Manuel
dos Anjos Ferreira, líder de revolta de escravos e seus
companheiros denunciava os conflitos raciais no Maranhão em
1838. Foram massacrados pela classe dominante da época
representada pelo conhecido matador e enforcador de gente, o
comandante Luis Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias,
apontado nos livros didáticos tradicionais como vulto da
história, mas que para nós, está mais para visagem. “Revela
a leveza de um povo sofrido de rara beleza que vive cantando
profunda grandeza... A sua riqueza vem lá do passado de lá
do congado
eu tenho certeza”. (Filhos de Ghandi, Clara Nunes).
E o que
podemos dizer do significado dos quilombos, um mecanismo que
materializava a liberdade, uma alternativa protagonizada
pelo movimento negro de resistência a escravidão, vivenciada
por aqueles e aquelas que nunca se conformaram com a idéia
naturalizada pela moral escravocrata da época de que uma
pessoa poderia ser proprietária de outra. A meu ver, o
quilombo simbolizava uma outra carta de alforria, uma
resposta autônoma, como se por si só dissesse: não é você
que vai permitir a minha liberdade e sim eu mesmo, eu mesma,
que se traduzia nas fugas em massa. “Ninguém
ouviu um soluçar de dor, no canto do Brasil. Um lamento
triste sempre ecoou desde que o índio guerreiro foi pro
cativeiro e de lá cantou. Negro entoou um canto de revolta
pelos ares, no Quilombo dos Palmares, onde se refugiou.
Fora a luta dos inconfidentes, pela quebra das correntes,
nada adiantou. E de guerra em paz, de paz em guerra, todo o
povo dessa terra, quando pode cantar, canta de dor.” (Canto
das três raças, Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro).
E poderíamos mencionar muitas outras lutas, como
a das mulheres, dos indígenas, enfim, das pessoas anônimas
que não viram as mudanças, mas trabalharam nela, apostaram
que estava chegando e, em muitas situações comprometeram
suas próprias vidas. “Quando
colherem os frutos, digam o gosto pra mim... “ (Aos nossos
filhos:Ivan Lins).
Sinto-me
profundamente envergonhada em função de alguns elementos
evidenciados por esta crise, como a corrupção, por exemplo.
Sinto-me devedora de todos e todas as pessoas que ao longo
do processo histórico participaram e contribuíram com uma
luta que hoje, com nossos erros e fraquezas, negamos,
decepcionamos e, sobretudo não honramos, não continuamos.
Pra mim, “[...] essa lembrança é o
quadro que dói mais... “ (Como nossos pais, Belchior)
Olho para o Partido dos Trabalhadores e vejo um
grande buraco, vai ser preciso rever muitas coisas: “Eu
sei de tudo da ferida viva do meu coração...” (Como nossos
pais, Belchior). Ainda estou muito triste. “Seu olhar
não conta mais histórias, não brota o fruto e nem a flor e
nem o céu é belo e prateado e o que eu era eu não sou
mais...”
(L'Avventura,
Legião Urbana).
Entretanto, nunca tive a ilusão de que o PT
no governo fosse o paraíso na terra, mas pensava que nossas
concepções iriam nos orientar na busca de soluções e
caminhos transparentes e solidários. Sei que é ingenuidade
supor que só as concepções poderiam responder por decisões
mais coerentes, até porque a realidade opera com processos
contraditórios, as coisas não estão dadas, há necessidade de
construí-las, o que requer esforço político e muito
trabalho, mas é difícil lidar com estas constatações.
Concluo este breve ensaio com a esperança
presente nos versos do poeta político: “Há pessoas que
lutam um dia e são boas, há outras que lutam um ano e são
muito boas, mas há, aquelas que lutam a vida inteira. Estas
pessoas são as imprescindíveis”. (Bertold Brecht). É isso
aí, para o alto e para frente, sempre, porque o amanhã está
vindo aí, para todos e todas nós que fazemos este país.
Apesar de tudo, Lula faz sentido. Agora, é Lula, de novo, de
forma nova, novamente: “Amanhã será um lindo dia, da mais
louca alegria, que se possa imaginar [...]. Amanhã mesmo que
uns não queiram será de outros que esperam, ver o dia raiar,
amanhã [...], será pleno, será pleno...” (Guilherme
Arantes). Seja bem vindo, amanhã, pode brotar. |