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O território português era povoado por inúmeros grupos
nativos autônomos, espalhados no território, principalmente os
Tupi-guaranis. Já no território espanhol existiam civilizações
estruturadas, formadas por diferentes povos.
Além da ocupação leiga promovida pelas
duas Coroas, também chegaram à América ordens religiosas católicas.
Inicialmente, os padres franciscanos, que criaram reduções no Paraguai
(1580-1615), com a fundação de catorze povos e dez aldeias, na bacia do
rio Paraguai, entre os rios Paraná e Parapanema e ao noroeste de
Assunção.
Mas o
destaque coube aos Jesuítas que, em terras
espanholas e portuguesas, construíram inúmeros colégios, igrejas e
povoados, por meio de missões ou reduções. Enfrentaram várias
dificuldades, como os ataques dos bandeirantes às reduções, o que os
levou a desistirem da evangelização nas serras do Tape (noroeste do
atual Rio Grande do Sul. , devido ao arraso de dezenas de reduções em
que viviam cerca de cem mil guaranis.
Num período seguinte, o Pe. Roque
Gonzales criou missões onde hoje é o atual Rio Grande do Sul, fundando a
redução de São Nicolau. Junto com os missionários João de Castilhos e
Afonso Rodrigues, organizou a redução de Nossa Senhora da Candelária
(1627), a de São Francisco Xavier, perto da atual cidade de São Borja,
e a de Japeju, na margem direita do rio Uruguai. Voltando ao Tape, criou
a de Assunção do Ijuí (1628).
Em novembro de 1628, fundou sua última
redução, a do Caaró, porque foi, pouco dias após, assassinado por
indígenas mandados pelo cacique Nheçu, chefe de um grupo contrário às
missões. Com ele morreu também o padre Afonso Rodrigues.
Dois dias depois, foi morto o padre João de Castilhos, na
redução de Assunção do Ijuí. Estes três jesuítas são os mártires das
missões, venerados até hoje no santuário construído na região do Caaró.
Após a derrota do cacique Nheçu, outros
jesuítas puderam fundar mais doze reduções no que é hoje o atual Rio
Grande do Sul, entre os anos de 1631 e 1634
¹
- BIANCA TRINDADE DA FONSECA possui graduação em História Licenciatura
Plena pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões
- Santiago /RS(2009). Graduação no Programa de Pós-graduação e
Especializa em Coordena Pedagógica e Supervisão e Gestão Educacionais da
Universidade Luterana do Brasil - Santiago (2011).
Todavia, o período grandioso veio noutra etapa, quando
foram criados trinta povos missioneiros no Paraguai, Argentina e Brasil.
Tudo
corria bem nas missões até que um fator determinou o reinício das
hostilidades: Portugal decidiu instalar-se no estuário Platino, através
da fundação da Colônia de Sacramento, em 1680. Isto implicava a inclusão
de novos contingentes populacionais na vida colonial rio-platense,
modificando as relações sócio-culturais existentes.
A presença dos portugueses trouxe
alteração em toda região com a preocupação que se formou entre jesuítas,
guaranis e autoridades espanholas quanto ao significado da expansão
portuguesa. Ainda estavam presentes na memória de alguns missionários e
dos indígenas mais idosos as atrocidades cometidas pelos bandeirantes no
passado, fato que inclusive determinara o êxodo do Tape.
Persistindo Portugal em manter a posse
da Colônia de Sacramento, a Companhia de Jesus percebeu a importância de
fundar novas reduções. Assim, uma parte da população missioneira foi
transferida para o lado de cá do rio Uruguai, reocupando uma área que
havia sido abandonada antes devido aos ataques bandeirantes. Aos índios
transladados ficou a tarefa de ocupar e patrulhar a Banda Oriental,
ficando a cargo destas novas reduções a defesa da extensa região
circunscrita entre o Uruguai, o Prata e o litoral Atlântico, abrangendo
assim toda a área pretendida por Portugal.
Essas informações permitem formular os
seguintes questionamentos: qual era a projeção e expectativa dos índios
a respeito dos portugueses? Como eram descritos aos guaranis os
opositores lusitanos? Que entendimento possuíam do inimigo a ser
combatido?
Primeiramente, para o índio missioneiro,
o inimigo português era visto como o estrangeiro invasor, que deveria
ser eliminado, pois usurpava uma terra que pertencia a outro rei. Os
combates eram encarados como um acerto de contas, uma vingança contra os
distúrbios e as mortes promovidas em suas terras.
Em segundo lugar, a Colônia de
Sacramento representava a alteração das relações sociais e a
materialização do receio difundido na população colonial de uma futura
invasão a Buenos Aires, justificando o esforço conjunto das tropas
hispânicas e a milícia guarani.
Do outro lado, os índios eram
considerados como bárbaros ou hostis, num retrato indígena forjado pelos
primeiros europeus a visitarem o Prata, numa visão onde o nativo é visto
como selvagem, omitindo as diferenças entre os vários grupos indígenas
da região. O europeu, mal informado por cronistas da época, passou a ver
todos os índios como Tape, e que estes prevaleciam sobre os demais por
serem mais guerreiros.
Os próprios jesuítas, falando do
passado atribuíam-lhe um sentido histórico, reforçando as memórias
indígenas sobre o guará, potencializando a consciência de unidade
e identidade étnico-cultural.
Esta compreensão do presente orientada
a partir do passado seria novamente sugerida aos guaranis dos Sete
Povos, diante da ofensiva lusitana em direção às Missões Orientais. O
motivo foi a celebração do Tratado de Madri, em 1750, determinando a
troca dos Sete Povos pela Colônia do Sacramento.
Apesar de toda a oposição e
resistência ao Tratado, ambas as Cortes empenharam-se na sua execução,
pois era a primeira tentativa de fixar a fronteira entre os domínios
Ibéricos na região Platina.
O início dos trabalhos de demarcação
dos novos limites meridionais causou desentendimentos entre os guarani
dos Sete Povos e os integrantes das Comissões demarcadoras. O governador
de Buenos Aires enviou uma carta que, depois de traduzida ao guarani,
foi lida e explicada aos índios revoltosos. Como resposta, os caciques
de cada redução redigiram e enviaram uma resposta ao governador, pedindo
a anulação das disposições, lembrando as repetidas promessas do rei de
Espanha quanto à inviolabilidade das reduções e os serviços que os
índios já haviam prestado aos espanhóis.
A oposição mais radical ao Tratado de
Madri partiu dos índios de duas reduções: São Miguel e São Nicolau, cuja
população era formada por remanescentes do Tape durante o chamado
primeiro ciclo jesuítico na Banda Oriental, entre 1626-1637, e
deslocadas para a outra margem do rio Uruguai, diante das investidas dos
bandeirantes.
Depois do grande conflito, com milhares de mortos,
especialmente de índios, Portugal e Espanha voltaram atrás, mas logo
dariam o golpe definitivo contra as reduções, expulsando os jesuítas e
deixando os guaranis sem qualquer coordenação. Seguiram-se
administradores militares e os índios acabaram sendo transformados em
guerreiros, nos diversos episódios militares ocorridos no Prata, sendo
exterminados completamente nos 60 a 70 anos que se seguiram à expulsão
dos jesuítas.
Por tudo isso, pode-se constatar que a
mobilidade populacional, determinada por interesses estratégicos,
configurava-se como uma das características mais marcantes do período em
questão, determinando a emergência de novas fronteiras étnico-culturais.
Tal mobilidade das reduções e suas populações, criou uma
flutuação de fronteiras na região, que veio a influenciar na delimitação
definitiva das mesmas.
OS SETE POVOS
Sete Povos das Missões é o nome dado
ao conjunto de sete aldeamentos indígenas fundados pelos Jesuítas no Rio
Grande do Sul, composto pelas reduções de São
Francisco de Borja, São
Nicolau, São
Miguel Arcanjo, São
Lourenço Mártir,
São
João Batista, São
Luiz Gonzaga e Santo
Ângelo Custódio.
Foram fundados na última onda colonizadora
jesuíta na região, após as reduções anteriores serem destruídas pelos bandeirantes
brasileiros e exploradores portugueses. Dentre as causas apontadas para
o retorno estão a abundância de gado na
região e o desejo da Coroa espanhola de assegurar a posse daquelas
terras, em virtude da crescente presença portuguesa no sul. Contudo,
essas teses são controversas.
São Francisco de Borja
foi a primeira, fundada pelo padre Francisco
Garcia, e contava com 2.814 habitantes. Dela nasceu a
cidade de São Borja, no ano de 1707.
São Luiz Gonzaga Sua teve origem
na transferência, em 1687, de 2.922 pessoas. Foi a origem da cidade
moderna de São
Luiz Gonzaga.
São Nicolau,
cuja população antigamente habitara o mesmo local, na redução criada
pelo padre Roque
Gonzales, mas expulsa pelos ataques dos bandeirantes.
Em 1687, voltaram ao Rio Grande, e refundaram São Nicolau. Deu origem à
cidade de São
Nicolau.
São Miguel Arcanjo
teve como primeiro fundador o padre Cristóvão
de Mendonça, em 1632.
Atacados por bandeirantes, abandonaram o local e se refugiaram no
Paraguai. Voltaram em 1687.
Suas
ruínas são ainda visíveis hoje, pertencentes ao
município de São
Miguel das Missões, constituindo o mais importante sítio
arqueológico de sua natureza no estado, tendo sido
declarado Patrimônio
da Humanidade, pela UNESCO,
junto com outras ruínas no Paraguai,
Argentina e Bolívia.
São Lourenço Mártir foi fundada,
em 1690, com
nativos de Santa Maria Maior, descendentes dos fugitivos de
Guaíra. Seus remanescentes estão localizados em São
Lourenço das Missões, no município de São
Luiz Gonzaga.
São João Batista
foi fundada pelo padre Antonio
Sepp. Sob orientação dele, esta redução mostrou alto
nível de atividade cultural. Suas ruínas se localizam na cidade de Entre-Ijuís.
Sepp também foi um geólogo e minerador,
extraindo o primeiro ferro das
Missões, fazendo instrumentos variados e até os sinos da
igreja do seu Povo. Sua obra-prima foi o relógio instalado
no campanário da
igreja que, ao dar as horas, fazia desfilar pelo mostrador os 12 Apóstolos.
Santo Ângelo Custódio
formou-se com a população que anteriormente habitara
Concepción, passara por Ijuí e
por fim se fixara em Santo
Ângelo, em 1707, com 2.879 pessoas, sob o comando do
padre Diogo
de Hasse.
Após a Guerra Guaranítica, os
Jesuítas sofreram intensa campanha difamatória ( na qual se destacou o
Marquês de Pombal), sendo a Companhia de Jesus expulsa de terras
portuguesas, em 1759,
e da Espanha,
em 1767 .
No ano seguinte, todas as reduções foram esvaziadas, com a retirada
final dos Jesuítas. Então, suas terras foram apossadas pelos espanhóis e
os índios foram subjugados ou dispersos.
Quando eclodiu nova
guerra entre Portugal e Espanha (1801), os Sete Povos
estavam em tal estado de desintegração que, com apenas 40 homens, Manuel
dos Santos Pedroso e José
Borges do Canto conquistaram-nos para
Portugal.. Depois disso, Portugal anexou o território ao Rio
Grande do Sul, instalando um governo militar na
região, encerrando todo um ciclo civilizatório e dando início a outro
Os Sete Povos fazem parte de um
importante capítulo da história do Rio Grande do Sul. Deram origem a
cidades prósperas, auxiliaram na delimitação de fronteiras, e foram tema
para a formação de um grande folclore regionalista
de tom heróico em torno das figuras dos padres e dos índios, dentre os
quais
Sepé
Tiaraju. A cultura desenvolvida nestes centros chegou
a um alto nível de complexidade em termos de arte, urbanismo e
harmonia social, e suas relíquias ainda podem ser vistas nos sítios
arqueológicos e nos museus regionais. Sua importância é tamanha que foi
digna da atenção da UNESCO, e o acervo de estatuária que se preservou e
está espalhado em coleções privadas e públicas é hoje patrimônio
nacional tombado pelo IPHAN.
O FIM DE UM SONHO
Embora os
guaranis não demonstrassem sentimento de nacionalidade, sua ligação com
o lugar de origem era intensa. O Tratado de Madri, estabelecendo a
entrega dos Sete Povos, aumentou ainda mais a resistência ao seu
cumprimento.
Dizia-se que os jesuítas teriam criado um
Estado independente, que infundiram nos guaranis o ódio à Espanha e a
Portugal, intensificando as calúnias que culminaram com a expulsão dos
inacianos. As piores acusações eram as de que os indígenas tinham sido
mais escravizados nas missões do que sob os colonos. E de que os
luso-brasileiros teriam pago aos missionários elevada importância para
ficarem com os Sete Povos. Esta última intriga quase sacrifica a vida
dos padres nas mãos dos próprios guaranis.
Porém o que incentivou mesmo sua
condenação, foi a decisão contra o Tratado de Madri. Eles se reuniram em
São Miguel, em 2 de abril de 1751, para responder à proposta de adesão
incondicional ao tratado, e reconheceram a impossibilidade de se
transferirem todos os habitantes com seus equipamentos e utensílios para
a outra margem do rio Uruguai, em área desprovida de alimentos e
moradias.
A expulsão dos jesuítas após as guerras
guaraníticas precipitou ainda mais o trágico desfecho pois as missões
desempenharam a função de fronteira na geopolítica hispânica, mantida
pelo exército guarani como vanguarda deste domínio territorial.
Hoje ainda se percebem os efeitos
diretos e indiretos deste enorme esforço de soerguer toda uma proposta
cultural, econômica e administrativa. Há núcleos urbanos originados nas
missões. A produção pecuária gaúcha, argentina, paraguaia e uruguaia
derivou daquele esforço inicial dos guaranis, orientados e estimulados
pelos jesuítas. A erva-mate, com enorme aceitação internacional, foi
incentivada, desenvolvida e exportada graças aos missionários e ao
trabalho duro do gentio.
A par do cultivo e da vida na estância,
os jesuítas introduziram a música e as artes, o artesanato em barro,
couro e madeira (em parte já praticado nas aldeias), a tecelagem do
algodão, a carpintaria civil e naval, a ferraria, a pintura e até as
artes plásticas e gráficas.
Os povoados missioneiros passaram a
partir de então a ser gerenciados por administrações civis e outras
ordens religiosas que não deram continuidade ao sistema reducional.
Muitos nativos foram levados para outras regiões ou abandonaram suas
reduções. Os novos colonos europeus que chegaram à região em fins do
século 19 contribuíram para a destruição dos remanescentes, retirando
seus materiais para fazer novas construções. Passado um século, restaram
apenas vestígios arqueológicos e populações descontextualizadas.
Na verdade, as missões provaram ser a
utopia possível, desenvolvendo com pertinácia a alternativa
auto-sustentável com gestão compartilhada. E conseguiram propagar sua
herança cultural séculos afora. Ícones e relatos, tecnologia e
conhecimento, produção e poder até hoje continuam vívidos nas ruínas das
catedrais, nas imagens de santos, na saga dos jesuítas e dos guaranis,
no maravilhoso esplendor alcançado com o aprimoramento contínuo das
artes e ofícios, cuja preciosa amostra arqueológica espelha a luta
recorrente para a conquista sublime da universal utopia de felicidade,
que transcende os povos e os tempos.
O LEGADO DAS MISSÕES
De que modo os missionários conseguiram não só
transferir populações inteiras para novos povoados, sob outra
organização social, como ainda, respeitando a cultura autóctone,
integrá-la em uma proposta alternativa que foi aceita pelos guaranis,
co-partícipes da gestão comunitária dos vários núcleos urbanos do
sistema Missões?
"As missões jesuítico-guaranis
desmentiram, de forma concreta e eloquente, o
preconceito de que os índios seriam
incapazes para a vida sedentária e inadaptáveis
às formas superiores de civilização,
argumento utilizado para tentar justificar sua
escravização ou extermínio. Na verdade,
criaram comunidades livres, fraternais e
igualitárias sem outras armas que a
compreensão e a persuasão, em contraste com
a maciça e desumana violência que marcou o
empreendimento colonial". Décio
Freitas, in Missões Jesuítico-Guaranis. São
Leopoldo: Unisinos, 1999.
Os jesuítas se destacaram como
missionários, eficientes administradores, educadores até hoje
disputados, linguistas, artistas, construtores, arquitetos, músicos,
cultos e hábeis conciliadores e negociadores, diplomatas além de
religiosos competentes em sua catequese
que respeitava outra cultura e outros valores dentro de engenhoso modelo
de segregação relativa do autóctone.
Foi admirável a lenta e persistente
catequese jesuítica que, com simplicidade e pedagogia, soube respeitar e
incorporar a cultura autóctone. Admitindo a co-participação no
gerenciamento das aldeias, estimulando o espírito comunitário e o
profundo respeito à biodiversidade ambiental, os jesuítas conseguiram
construir e manter a Confederação das Missões com a colaboração ativa
dos guaranis por mais de 150 anos.
Conseguiram transplantar da Europa
para o interior de nosso continente, há mais de 350 anos, costumes
avançadíssimos, uma arte refinada e um modelo utópico de administração,
com propriedade coletiva, sem classes e sem governo, e sem oposiçào
entre cidade e campo, que Clóvis Lugon, em seu livro "A República
Comunista Cristã dos Guaranis", chegou a definir como "a mais fervorosa
das sociedades cristãs e a mais original das sociedades comunistas".
Quanto aos Guaranis, este eram povos
migrantes, nômades, originários da Amazônia e aqui chegaram há cerca de
2 mil anos. Segundo Meliá, eles iam em busca da “terra sem mal”: a
terra boa, fácil de ser cultivada, produtiva, suficiente e amena,
tranqüila e aprazível, onde os Guaranis podem viver em plenitude seu
modo de ser autêntico
Do território, o Guarani retirava seu
sustento: a caça, a coleta e a pesca. Cultivava o milho, a mandioca, o
feijão e as cabaças.
O trabalho e as decisões eram
comunitários. A economia era baseada na reciprocidade e inexistia o
conceito de propriedade privada, apesar de haver áreas de cultivo
individualizadas, estabelecidas pelo consenso do grupo. As atividades
eram culturalmente divididas entre homens e mulheres. As mulheres
plantavam e colhiam, os homens caçavam. O Guarani não gostava de
trabalhar só, nem de ser mandado. Trabalhava em mutirão.
Os
Guaranis viviam em amplos territórios com limites difusos, que
asseguravam uma zona de transição entre um aldeamento e outro. Buscavam
localizar suas casas em terrenos altos e arejados, onde as
casas-habitação tinham uma relação fundamental com o terreiro/praça. A
grande maloca guarani que podia abrigar uma família extensa foi
transformada em unidades habitacionais menores, que abrigavam três ou
quatro famílias cada uma. Esta relação casa/oca era fundamental na vida
social e religiosa do grupo.
No que se refere à tipologia urbana
missioneira, ela se organizava a partir de um traçado com duas ruas
principais que se encontravam no centro da praça, formando uma cruz e
por dois conjuntos básicos, dispostos no entorno da grande praça
central.
O primeiro conjunto era uma grande
estrutura, com a igreja ao centro, de um lado o cemitério e, do outro, o
claustro e as oficinas e depósitos ao redor de dois pátios. A enorme
igreja era o principal marco morfológico e funcional da redução,
constituindo-se no coração da mesma No primeiro pátio, ficava a
residência dos padres. Atrás, cercada por um muro de pedra,
localizava-se a quinta dos padres, com pomar, horta e jardim.
O segundo conjunto era estruturado a
partir da praça e das vias principais, ao redor das quais se organizam,
em lugar de quarteirões, grandes pavilhões avarandados, ortogonalmente
distribuídos, com as habitações coletivas utilizadas pelos índios.
A praça era o espaço público e aberto
onde se realizavam atividades cívicas, religiosas, culturais, esportivas
e militares. Ali se realizavam as celebrações de colheitas, os desfiles
militares, as procissões, os teatros sacros, os jogos esportivos e era
onde se exercia a justiça. A praça era o elemento estruturador da
organização espacial de uma redução.
É somente na terceira fase, no período do
seu apogeu, que aparecem obras mais sofisticadas, fruto da ação de
jesuítas arquiteto, que passaram a utilizar sistemas construtivos
europeus e a usar como referência a igreja de Jesus, em Roma.
A maior parte das igrejas missioneiras
possuía apenas uma torre ou campanário, que se localizava no lado oposto
ao batistério. São poucas as obras desta fase concluídas antes da
expulsão dos jesuítas
Nas missões, a casa da família-extensa
da tradição guarani foi adaptada aos padrões de moral estabelecidos
pelos padres, sendo subdividida em cômodos, que passaram a ser
utilizados, cada um, para apenas uma família, evitando a
poligamia.
Por todo o território das estâncias e dos
ervais, a iconografia encontrada aponta a existência de outras
edificações, como capelas ou postos de guarda, onde sempre estão
presentes as cruzes. Cercados de pedra também fazem parte destes
equipamentos, sendo utilizados para reunir os rebanhos e cavalos.
Nas reduções, o espírito barroco
prosperou no espaço físico das igrejas e das praças, nas manifestações
imateriais das orquestras, dos coros em latim, da dança e da encenação,
das celebrações sacras, missas, procissões, enterros e das festas, com
ritos e vestimentas especiais
No que diz respeito à economia, dois
produtos básicos se destacaram na economia missioneira. Um, nativo, de
tradição guarani e que aos poucos foi sendo assimilado na colônia, a
erva-mate. O outro, trazido pelos europeus, provocou grandes
transformações na paisagem e no comportamento da região, o gado. Ambos
foram contribuições tipicamente missioneiras que vieram a configurar a
base econômica da região.
O cultivo da erva--mate foi
intensificado e se tornou um produto de muito interesse nos mercados
coloniais. Posteriormente, estabeleceu-se como grande indústria, sendo
um dos principais produtos de exportação no comércio colonial.
Com a introdução do gado, surgiram
grandes estâncias e as vacarias, como as Vacarias do Mar e dos Pinhais,
no sul do Brasil. Cada povoado tinha uma vasta retaguarda pecuária,
verdadeiras estâncias, como a de São Miguel, no Brasil, e de Japeju, no
Uruguai, assim como várias na Argentina. Vinculada à produção da carne e
do couro, estava a do leite e todos os seus derivados.
Outros produtos importantes na economia
missioneira foram o trigo e o algodão. O primeiro propiciou a criação de
moinhos que também abasteciam outras cidades coloniais espanholas e o
segundo era utilizado nas tecelagens.
Segundo Reis (2000), a chamada “Republica
Guarani” foi o primeiro estado industrial da América Latina, onde houve
a primeira fundição de ferro, produziram-se os primeiros tecidos e se
iniciou a criação de gado no continente, contribuindo para a vocação
econômica das regiões.
IMPACTOS SÓCI-CULTURAIS
Paralela à submissão dos indígenas, os
missionários iniciaram uma conquista espiritual, buscando civilizar e
cristianizar os grupos de horticultores guarani da floresta subtropical,
conduzindo-os à vida nas Aldeias luso-brasileiras ou nos Pueblos de
Índios espanhóis. Ao criarem estes espaços de liberdade limitada e
controlada, objetivaram os missionários civilizar em primeiro lugar e
evangelizar, posteriormente, os grupos étnicos locais.
A República Guarani foi uma sociedade
fraternal organizada segundo os princípios cristãos, onde o espírito
comunitário estava presente na estrutura, no regime de propriedade, nos
modos de produção e distribuição e em todas as suas instituições. Os
costumes eram puros, as principais necessidades humanas eram
satisfatoriamente atendidas.
Inexistia o Estado tal como hoje e
tampouco a divisão em classes sociais. O apoio à produção e à
criatividade eliminava qualquer possibilidade de monopólio ou controle
da oferta. De cada indivíduo exigia-se o esforço e o trabalho segundo a
sua capacidade e a cada um era destinada a produção conforme a sua
necessidade, o que, após a saída dos jesuítas , inviabilizou a
tentativa de introduzir a propriedade privada fracassou, pois os índios
já estavam acostumados a produzir em comum nas terras indivisas,
mantendo garantida sua sobrevivência, além do excedente comunitário.
Não se pode
ignorar a complexidade do processo histórico que deu origem à sociedade
americana colonial, a partir de seus segmentos indígena e europeu. Não
nos basta afirmar simplesmente que houve miscigenação, quando as duas
sociedades entraram em contato. Esta nova sociedade apresenta uma série
de elementos sócio-culturais específicos.
As sociedades ibéricas que invadiram e
colonizaram esta América ainda indígena, estabeleceram formas
diferenciadas de relações sócio-culturais com estas variadas populações
indígenas. Umas foram escravizadas e dizimadas, outras foram cooptadas
como aliadas ou simplesmente ignoradas, para só serem contatadas
recentemente.
Os missionários tiveram mais sucesso por
serem já estes grupos habituados à vida em aldeias e à produção dos
alimentos. Mesmo assim, com as contínuas agressões dos indígenas não
submetidos e os ataques dos escravagistas, muitas destas tentativas das
diversas ordens religiosas fracassaram, provocando inclusive a morte de
alguns missionários.
Tiveram um grande e importante progresso
material e cultural, principalmente na primeira metade do século XVIII,
originando pequenas cidades muito ativas e povoadas no conjunto por
mais de 150.000 indígenas. Uma experiência humana extraordinária levou
estas populações a uma situação absolutamente nova. Segundo a
documentação histórica da época, jesuítica e administrativa,
modificou-se substancialmente o seu modo de vida.
As contribuições da Arqueologia
Histórica, no caso dos sítios arqueológicos no Rio da Prata, oportunizam
novas interpretações principalmente em relação a alguns aspectos
básicos. E abrem novas perspectivas para as interpretações que podemos
sugerir para nossas cidades coloniais de fronteira.
Em primeiro lugar, permite compreender
melhor o processo de colonização, seus impactos, seus contatos e seus
resultados. As relações de contato cultural e de miscigenações
interétnicas, em meio aos complexos processos de ocupação e povoamento,
talvez tenham sido os aspectos mais evidenciados pelas pesquisas
arqueológicas. Descobriu-se, na bacia do Prata, um mundo colonial
dinâmico em sua agitada história política e próspero em sua história
econômica.
Assim, grupos extensos das populações que
habitaram estas frentes de colonização, sem ter acesso à história
escrita pelas elites da época, puderam ter suas histórias escritas pelos
arqueólogos, a partir dos dados materiais da cultura, não apenas os
aspectos tecnológicos dos meios de produção, mas igualmente os aspectos
relativos à saúde e às epidemias, os problemas de produção e consumo
alimentar, etc.
Um dos mais importantes aspectos
destacados pelas pesquisas arqueológicas, sem dúvida, refere-se às
realizações culturais. Os territórios conquistados são de fato “novos
mundos”, onde o dinamismo dos colonizadores, aliados ao das populações
nativas, se materializou em realizações culturais grandiosas , em
fronteiras com historicidades tão ricas e variadas como a das
metrópoles.
Ao longo dos séculos o que se pode
perceber é que todas as frentes de colonização foram palcos em que
ocorreram múltipas e complexas interações entre nativos e conquistadores
coloniais. Novos tipos de contatos interétnicos, de intercâmbios
culturais e de trocas comerciais ocorreram. Eles não envolveram apenas
etnias como um todo, mas evidenciaram também as especificidades das
relações entre os povos instalados nas colônias com as cidades de onde
se originaram, as metrópoles.
A Arqueologia Histórica nos mostra como os
elementos materiais da cultura dos sítios arqueológicos urbanos são
importantes para podermos recuperar informações sobre esta problemática
extraordinária que são as historicidades entre fronteiras.
TURISMO
No Sul, além de praias, cidades serranas e
belezas naturais únicas em todo o Brasil, no inverno ou no verão, pode
ser visitado um "país" diferente, esquecido pelos livros de história,
marginalizado pelos roteiros turísticos tradicionais e muito pouco
conhecido em quase todo o Brasil: A República Guarani, que ocupou áreas
dos atuais Estados do Paraná e Rio Grande do Sul, e ainda do Paraguai,
Argentina e Uruguai, onde foram edificadas dezenas de reduções, as
missões, que levaram, para as selvas do Cone-Sul, sob o comando dos
padres jesuítas, o esplendor da arte européia e um desenvolvimento
urbano que muitas cidades ainda não conhecem, já passado tanto tempo.
O turismo é uma alternativa importante
para o desenvolvimento integrado deste território, uma vez que a região
é considerada como um dos principais corredores histórico-culturais
internacionais do mundo.
O Circuito Internacional das Missões
Jesuíticas foi lançado em Santo Ângelo (1995), Havana (1997) , Recife
e Londres (1998), como o primeiro Roteiro Turístico oficial do Mercosul
e declarado pela UNESCO como um dos quatro roteiros históricos
internacionais mais importantes do mundo.
Entre seus objetivos estão: divulgar a
história dos Trinta Povos Missioneiros, resgatar as obras realizadas
pela comunidade Jesuítico-Guarani, consolidar a região como polo
turístico internacional, resgatar e transmitir os valores culturais e
regionais às futuras gerações, valorizar e preservar o patrimônio
regional, constituir-se em uma alternativa para o desenvolvimento
regional.
Foz do Iguaçu, no Oeste do Paraná, às
margens dos rios Paraná e Iguaçu, é considerado o epicentro deste
roteiro, por estar estrategicamente localizado no centro desses
territórios, fazendo fronteira com Paraguai e Argentina e integrando o
Mercosul
O Parque Nacional do Iguaçu foi palco
da história dos guaranis, através do período de passagem, quando vinham
da região do Guairá, deslocando-se para a Argentina. O Parque Nacional
do Iguaçu, no espaço explorado da Trilha do Poço Preto, está protegido
para estudos, pois há presença de arqueologia e vestígios dos índios
guaranis.
Tendo
como cenário terras argentinas, brasileiras e paraguaias, o Roteiro
Iguassu-Misiones é o primeiro roteiro turístico do Mercosul, onde
o turismo é uma alternativa importante para o desenvolvimento integrado
deste território, já que a região é considerada como um dos principais
corredores histórico-culturais internacionais do mundo.
O pleno
desenvolvimento deste potencial passa, necessariamente, pela construção
de uma visão comum, uma meta clara onde se queira chegar e estabelecer
os passos para alcançá-la, a partir de planos de gerenciamento e gestão
integrados. Percebendo o imenso potencial desta vasta região, disposta
de forma compartilhada entre os países envolvidos no Roteiro,
implantou-se um processo integrado, que possibilitasse ampliar os
resultados positivos do turismo. Prova disso, é a existência de nove
locais tombados como Patrimônio Mundial da Humanidade pela UNESCO, na
Argentina, no Brasil e no Paraguai.
Hoje o
cenário começa a mudar, a partir da iniciativa conjunta entre o
Ministério do Turismo do Brasil e o SEBRAE – Serviço Brasileiro de Apoio
às Micro e Pequenas Empresas. A região foi escolhida para representar o
Sul do Brasil na Rede de Cooperação Técnica para a Roteirização, dando
um novo rumo para o processo de integração.
O roteiro possui um valioso patrimônio
histórico-cultural, representado pelos remanescentes da cultura
Jesuítico-Guarani, dentre os quais destacam-se vários sítios
arqueológicos tombados pela UNESCO (São Miguel das Missões, São Ignácio,
Santa Maria, Loreto, Jesus, Trinidad). Somente para o sítio de São
Miguel das Missões, no Brasil, convergem em torno de 70 mil
turistas/ano.
..llTodas
as noites ocorre nas ruínas o espetáculo de “Som e Luz”, um dos
principais atrativos do turismo missioneiro na região. Sentado de frente
para a igreja, numa arquibancada construída no meio do sítio
arqueológico, o espectador assiste a um show de luzes que mostra onde
ficavam as antigas estruturas da redução (casa dos índios, cemitério,
olaria...) ao som de uma locução cheia de efeitos, sob uma interpretação
dramática da história das Missões, desde seu início até os sangrentos
últimos dias. Artistas da televisão brasileira emprestam suas vozes a
alguns dos principais personagens históricos da saga missioneira.
A presença indígena no local não se resume apenas a um
passado distante. Hoje vivem cerca de 200 guaranis na região, numa
reserva criada recentemente a 30 Km de São Miguel das Missões. Lá eles
procuram garantir sua sobrevivência física e cultural, através da caça e
da manutenção de plantações tradicionais, entre outros hábitos típicos.
Os guaranis frequentam regulamente a cidade, inclusive vendendo
artesanato dentro das ruínas.
....
Outro importante monumento é o Santuário de Caaró, a 35
km da cidade de São Luiz Gonzaga. Muito visitado por romeiros, ele marca
o local onde foram mortos os padres Roque Gonzales e Afonso Rodrigues,
pioneiros na catequese de índios na região.
......
A redução de San Ignácio Mini é o principal atrativo do
turismo missioneiro argentino. Fundada em 1611, ela ficava originalmente
num território que hoje pertence ao estado do Paraná. Em sua localização
definitiva, San Ignácio Mini chegou a abrigar mais de 4 mil habitantes.
O sítio arqueológico tem o maior conjunto urbano preservado das Missões,
e permite uma boa noção dos diversos ambientes e espaços que constituíam
as reduções jesuítico-guaranis (pátio central, igreja, casa dos índios,
cemitério, etc.). Às vezes, a sensação é de estar caminhando numa cidade
fantasma. Ao lado da redução é mantido um museu com peças de artesanato
esculpidas pelos indígenas e trabalhos artísticos do período
missioneiro.
Além
de San Ignácio Mini, vestígios de outras três reduções (Santa Ana,
Loreto e Santa Maria Maior) podem ser visitados na Província de Misiones.
Porém muito pouco sobrou para ser visto nestas três localidades.
. .O sítio
arqueológico de Trinidad, a 25 km de Encarnación, é o principal do
Paraguai, e talvez o mais bonito de todos os que ainda restam. Fundado
em 1706, é considerado um exemplo do avanço arquitetônico das Missões em
sua fase final. A redução conserva estruturas como a cripta, a pia
batismal e o púlpito, além do resto de duas igrejas. São impressionantes
os detalhes das paredes e portas esculpidas em pedra, além das imagens
sacras decapitadas (provavelmente pela ação de saqueadores), que se
encontram perto da igreja principal. Também estão conservadas escadas da
estrutura original, permitindo caminhar pelos patamares da redução e
admirar a região e as próprias ruínas vistas de cima.
CONCLUSÃO
Segundo
Tau Golin, jornalista e doutor em História, o projeto missioneiro
consubstanciou a projeção da sociedade europeia na América colonial. Do
ponto de vista geopolítico, as Missões constituíram um bloqueio espanhol
ao expansionismo lusitano, em uma aliança com o indígena, no geral
ameaçado pelo mesmo inimigo, o bandeirante, cujas bandeiras e entradas
aumentavam os domínios de Portugal e escravizavam especialmente o
guarani agricultor, mão de obra valorizada nas lavouras.
Tau Golin considera a Província Jesuítica
do Paraguai a mais consistente alternativa social do período colonial
porque, na aliança entre projeto colonial da catequese de fronteira, com
o fechamento à contaminação colonial pela presença do povoador no mundo
missioneiro, e a preservação da estrutura social e de ocupação do espaço
do indígena, se potencializou uma sociedade planejada mediada por dois
coletivos, as propriedades da corporação da igreja e a da família
extensa indígena tradicional.
Segundo Tau, o que motivou a deflagração
da Guerra Guaranítica (1753-1756) foi geopolítica. As coroas ibéricas
queriam organizar as fronteiras entre seus domínios, causas de guerras
que exauriam Portugal e Espanha e assinaram o Tratado de Madri. Na
América do Sul, procuraram solucionar um foco de tensão, a Colônia do
Santíssimo Sacramento, à margem do Rio da Prata. Ela era um enclave
português, local de interesses internacionais para a prata e o ouro das
minas espanholas, que desciam pelos vias rios Paraná e Paraguai, além do
comércio de diversas formas. A solução foi trocar a Colônia do
Sacramento por sete cidades e terras missioneiras existentes a oriente
do rio Uruguai (atual Rio Grande do Sul e norte do Uruguai), que eram
parte da Província Jesuítica do Paraguai, território espanhol. Embora a
Companhia de Jesus procurasse tirar os artigos que determinavam a
permuta, os reinos os mantiveram e as comissões demarcatórias vieram
executar o Tratado. No lugar, Portugal projetara formar a Província das
Missões, com açorianos, que já estavam nos portos de Viamão (Porto
Alegre), de Rio Grande e de Santa Catarina, aguardando para ocuparem
seus lotes, além de paulistas, que esperavam espalhados pelo caminho de
Vacaria.
Ocorreu, assim, a Guerra Guaranítica
em duas campanhas militares, o primeiro em 1754 e, o outro em 1756. Mas
foi a Batalha de Caiboaté, 10 de fevereiro de 1756, derrotou
completamente os sublevados. Com os missioneiros já derrotados, os
oficiais das tropas regulares, com muito custo, inclusive com execuções,
conseguiram conter a mortandade guarani. A causa principal foi a
presença de “paisanos”, a soldo dos latifundiários de Santa Fé e
Corrientes, e outros particulares, com base no contrato de saque feito
com os generais ibéricos. Poucos conseguiram fugir.
Tau Golin considera a Guerra
Guaranítica como o tema mais trágico da história missioneira.
Derrotados os guarani rebeldes, os espanhóis iniciaram o processo de
translado, isto é, a retirada dos missioneiros do território para
entregá-lo a Portugal. Os grupos indígenas se dividiram. Algumas
famílias concordavam, milhares seguiam escoltadas, mas, logo, retornavam
às suas cidades, às estâncias e chácaras, ou refugiavam-se no mato
Gradativamente, a corrupção, a venda
das terras indígenas para particulares, a invasão de aventureiros e a
formação de latifúndios pelos militares que se converteram em
estancieiros transformaram o espaço missioneiro num povoamento colonial,
com a posse da terra transferida para particulares, além da propriedade
do Estado das cidades, cujos prédios indígenas, mas tarde, foram
arrendados e depois vendidos. As habilidades dos missioneiros em
diversos ofícios, integraram-nos na sociedade colonial. Boa parcela
continuou com o sistema de famílias aldeadas, ou em acampamentos,
reintegrando-se ao sistema de aldeias tradicionais. Entretanto, no
geral, eram grupos intermediários entre a aldeia tradicional e a
sobrevivência ao mundo colonial, vivendo em suas proximidades e em
contato com ele, para o qual, aos poucos, foram convergindo e formando
seus extratos subalternos.
A experiência de organização social
missioneira dos séculos XVII e XVIII marcou as gerações futuras.
Quando alguém se diz missioneiro, contemporaneamente, está tomando duas
heranças, em conjunto, ou de maneira separada: a da guaranização/indianização,
sucedânea étnica e cultural mestiça; ou patrimonial, como ser de um
espaço simbolizado pelo passado jesuítico-indígena. São aspectos do
fronteirismo brasileiro, uruguaio, argentino e paraguaio.
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