|
RESUMO:
Em um ambiente concorrencial cada vez mais
intenso e complexo, sobretudo com o processo de abertura comercial, as
atividades de P&D se tornaram fundamentais para os países/regiões em
desenvolvimento atingirem um elevado padrão tecnológico que conduza à
conformação de novos processos e produtos. Como estratégia para se elevar o
padrão tecnológico e estimular a inovação, o estado de São Paulo por meio da
FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) criou a Rede
ONSA, visando entre outros objetivos sanar o principal gargalo da
citricultura paulista, ou seja, os problemas fitossanitários. As redes de
pesquisa permitem, portanto, a interação entre diversos agentes que acabam
gerando conhecimentos complexos e interdisciplinares, além da redução de
custos e riscos para os países/regiões.
Palavras-chave:
Redes de Pesquisa, Sistema Nacional de Inovação, Citricultura Paulista
1 SISTEMAS NACIONAIS
DE INOVAÇÃO E REDES DE PESQUISA
A abertura comercial
trouxe consigo seu braço político, conhecido como neoliberalismo. De acordo
com este, o Estado deve restringir sua participação na economia, deixando
que sua regulação se faça através das forças do mercado. Segundo esta
perspectiva, o Estado deve ser um agente regulador, que controle apenas
inflação e dívida e não um participante. Subjacentes a isso estão a
desestatização e a privatização.
Todavia, não se pode
dizer que tal postura seja a mais coerente para um programa de
desenvolvimento científico e tecnológico, principalmente em um país
subdesenvolvido.
O desenvolvimento de
um País depende estruturalmente de uma Política de Ciência e Tecnologia, que
estabeleça prioridades e investimentos para pesquisa, bem como conexões
entre os diversos agentes que compõem uma rede e crie instituições que
favoreçam o intercâmbio e a incorporação dos resultados da pesquisa na
atividade produtiva. As instituições, de acordo com North (1990), não podem
ser relegadas a segundo plano, principalmente, no estudo do ambiente
econômico e do ambiente inovativo e podem ser organizações formais –
universidades, agências governamentais, etc – ou um conjunto de regras e/ou
normas construídas pelos indivíduos – tabus, costumes, tradições, leis, etc.
– cujo objetivo é pré-definir e padronizar a conduta. (Dosi & Orsenigo,
1988).
A ausência de
instituições que sirvam como elemento articulador entre as atividades de
pesquisa e a indústria (Bridge Institutions) é apontada por Herrera
(1995) como o mais sério entrave ao crescimento e desenvolvimento da América
Latina. A desconexão existente entre o sistema de P&D e a sociedade a que
pertencem faz com que os institutos de pesquisa se tornem ilhas de
excelência, contribuindo pouco para a resolução dos problemas básicos de uma
região. Em países desenvolvidos a situação é diametralmente oposta, estando
os sistemas de P&D diretamente envolvidos com os objetivos nacionais e com o
progresso social, ou seja, o progresso científico se reflete diretamente na
indústria, na agricultura e no aumento da produção.
Os países
desenvolvidos também formulam políticas que procuram integrar os
pesquisadores, a fim de criar um fluxo de informações que possam favorecer a
atividade científica e inovadora. Como exemplo, citamos a Alemanha, que já
na primeira metade do século XIX organizou seus Institutos Públicos de
Pesquisa. Esse foi um importante passo para a institucionalização e
organização da pesquisa científica (OCDE, 1992).
Outro problema
apontado por Herrera (1995) se refere ao pouco comprometimento verificado
nos governos de países subdesenvolvidos em priorizar, fortemente,
investimentos em C&T. Os programas criados padecem de grande instabilidade,
por estarem sempre subordinados a outros aspectos macroeconômicos. Isso faz
com que os referidos países apresentem duas formas de política de C&T: a
Política Explícita e a Política Implícita:
La primera es la
‘política oficial’; es la que se expresa en las leyes, reglamentos y
estatutos de los cuerpos encargados de la planificación de la ciencia, en
los planes de desarrollo, en las declaraciones gubernamentales, etc.; en
resumen: constituye el cuerpo de disposiciones y normas que se reconecen
comúnmente como la política científica de um país. La Segunda, la política
científica implícita, aunque es la que realmente determina el papel de la
ciencia en la sociedad, es mucho más difícil de identificar, porque carece
de estructuración formal; en esencia, expresa la demanda científica y
tecnológica de ‘proyecto nacional’ vigente en cada país (HERRERA, 1995:106).
O Projeto Nacional de
um país deveria guardar grande conexão com um Sistema Nacional de Inovação
(SNI). Esse Sistema, composto por uma série de agentes, econômicos e
não-econômicos, teria como principal função incentivar e criar mecanismos e
instrumentos para a institucionalização da pesquisa e desenvolvimento, como
forma de se agregar maiores condições de competitividade. (OCDE, 1992).
Caberia também ao SNI a coordenação das atividades de P&D e a prospectiva (foresight)
tecnológica.
Para que um SNI tenha
maiores condições de funcionar adequadamente, é necessário um grupo de
instituições diretamente envolvidas. Destacam-se aquelas responsáveis pela
pesquisa (Universidades, Institutos Públicos de Pesquisa, Grandes Empresas e
seus Departamentos internos de P&D, Incubadoras, Empresas Especializadas,
ONGs, Organismos Militares e outros), planejamento (órgãos governamentais,
empresas, câmaras setoriais), financiamento (agências públicas de fomento,
mercado de capitais, empresas, bancos, órgãos supranacionais), dentre
outros.
O SNI deve ter um
funcionamento permanente, e se parece muito com uma rede de pesquisa. A
grande diferença reside no fato que redes de pesquisa são normalmente
desenvolvidas para responder a um problema, ou executar um projeto
específico, enquanto o SNI deve ter um funcionamento permanente.
As redes são um
aspecto fundamental dentro de um SNI:
Networks are an important
componemt of national systems of innovation. An important function of
science and tecnology policy is to strengthen existing innovation-related
networks and to help build networks in areas where they are. While, many
networks do not necessarily coincide with the boundaries of the national
economies, the use of innovation-related linkages as policy instrument can
only occur on the basis of a proper identification of such linkages and
their categorization (OCDE, 1992).
Na atualidade, de
acordo com Dal Poz (2000), os EUA estruturam uma importante rede de pesquisa
em inovação genômica que deu origem a novos produtos e processos
biotecnológicos. Esta rede articula setores de P&D públicos e privados e
também investimentos de ambas as esferas.
Uma das redes que
mais tem se desenvolvido nos últimos anos, principalmente nos países em
desenvolvimento, se referem à conexão entre as universidades e as empresas.
Historicamente, as universidades públicas desenvolviam grandes projetos
ligados à pesquisa básica, enquanto Institutos Públicos de Pesquisa
dedicavam-se à Pesquisa Aplicada e ao Desenvolvimento Tecnológico. Porém a
necessidade de enxugamento do Estado introduziu um novo perfil às
universidades. A fim de legitimarem socialmente sua importância, passaram a
criar mais “links” com as atividades industriais, e desenvolver também
pesquisa aplicada e desenvolvimento de produtos e processos.
Visando a capacitação
de mão-de-obra especializada e o desenvolvimento de produtos e processos na
área de biotecnologia, o estado de São Paulo por meio da FAPESP (Fundação de
Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) destinou recursos da ordem de US$
25 milhões na montagem de um complexo sistema de operações que recebeu o
nome de ONSA.
Esta Rede possui
uma estrutura de
pesquisa leve, flexível e eficiente, uma espécie de instituto virtual de
pesquisa - a ONSA, Organization for Nucleotide Sequencing and Analysis - sem
paredes, descentralizado e baseado na idéia de rede de laboratórios, tomada
de empréstimo a alguns grandes projetos internacionais, em particular o do
seqüenciamento genético da Saccharomyces cerevisiae (levedura). Só que a
essa idéia, a iniciativa paulista agregou princípios de liderança e
hierarquia próprios de um instituto convencional, chegando a uma receita, no
mínimo, original (Revista Notícias Fapesp, n.º 31, maio de 1998).
A
infra-estrutura da rede que conta com 33 laboratórios — incluindo-se aí o do
coordenador de DNA do projeto — um centro de bioinformática, 2 laboratórios
centrais de sequenciamento e 29 laboratórios de sequenciamento espalhados
por algumas cidades do Estado, todos com seqüenciadores novos e outros
equipamentos indispensáveis. A Rede desenvolve quatro projetos: Genoma Cana,
Genoma Câncer, o Genoma Xanthomonas citri e o Genoma Xylella fastidiosa.
A
Rede ONSA se destacou internacionalmente ao realizar o sequenciamento
completo da bactéria Xylella fastidiosa causadora da doença denominada de
Clorose Variegada dos Citros (CVC), popularmente conhecido como
“amarelinho”.
Dando, dessa forma,
um importante passo para solucionar um dos maiores obstáculos à
competitividade da citricultura brasileira que é a questão da fitossanidade.
À exceção das crises econômicas enfrentadas pelo setor – normalmente
causadas pela superprodução, associadas às boas safras na Flórida – os
problemas relativos à sanidade dos pomares já foram responsáveis por crises
históricas no setor, cuja solução normalmente vinha do investimento do
governo em pesquisas que pudessem erradicar tais problemas.
Os problemas de
fitossanidade derivavam, em parte, de negligência daqueles que produziam as
mudas. Isso porque mudas e borbulhas sempre foram vistas como fator de
custeio, o que resultava em constantes tentativas de reduzir seu impacto na
estrutura de custos, ainda que comprometesse a qualidade. Hoje se compreende
a importância de se obter mudas sadias para o cultivo, e investe-se mais
nesse aspecto.
A
percepção de que mudas e borbulhas deveriam ser mais bem preparadas e
desenvolvidas para originar os pomares veio nos anos 40, quando o vírus da
“tristeza” provocou a morte e erradicação de cerca de 12 milhões de plantas.
Através da atuação de vários órgãos de pesquisa governamental – com destaque
para o Instituto Agronômico de Campinas (IAC), desenvolveram-se ferramentas
para combater a praga, incluindo a adoção de um novo porta-enxerto, mais
resistente à “tristeza”, o limão-cravo. Isso permitiu a recuperação da
citricultura brasileira.
Na
década de 1960, quando começava a se consolidar o mercado internacional para
o suco brasileiro, uma nova doença atacou os pomares com grande intensidade.
Tratava-se do cacítrico. Centenas de pomares foram erradicados, e diversos
municípios tiveram sua produção banida do mercado. Novamente, esforços foram
feitos para erradicar a doença. Destaque-se a importância do Fundecitrus,
que estabeleceu sua Campanha Estadual para Prevenção do Cancro Cítrico, em
1984. Acreditava-se que a doença havia sido definitivamente vencida, mas o
cancro cítrico surgiu novamente, com grande intensidade a partir de 1997,
tendo a larva minadora como grande “aliada” para disseminação na área de
plantio. Durante a “varredura” realizada entre maio a novembro de 1999, no
interior de São Paulo, foram detectados 4.026 focos, em 132 municípios,
sendo que 333 são focos novos. Foram erradicadas 1,3 milhão de plantas
(Amaro, 1999).
Houve ainda outras
doenças que atacaram os pomares, mas seu reflexo foi menos intenso e nocivo.
Entretanto, na década de 1990 surgiu a Clorose Variegada dos Citros (CVC),
popularmente conhecidoacomo “amarelinho, ataca a copa da planta e já
aniquilou diversas áreas produtoras no norte do estado, tornando-se a
principal inimiga da citricultura no Estado de São Paulo. As árvores
afetadas apresentam ramos excessivamente carregados de frutos muito
pequenos, precocemente amarelecidos e com casca extremamente dura, o que
compromete sua utilização pela indústria de suco, já que poderia danificar a
própria extratora. Além disso, o sabor é tão ácido que compromete também o
consumo da fruta in natura. A transmissão da bactéria é feita principalmente
por cigarrinhas e por borbulhas infectadas. As formas mais comuns de
controle envolvem a poda das árvores infectadas e a substituição por mudas
seguramente sadias, caso contrário a doença poderá se alastrar por todo o
pomar. Um reflexo de sua rápida disseminação e conseqüências aterradoras
pode ser vista pelos prejuízos já causados no Estado de São Paulo, onde o
“amarelinho” atingiu cerca de 34% dos pomares, com prejuízos da ordem de US$
200 milhões (Pinazza & Alimandro, 2000).
Não seria exagero
afirmar que o “amarelinho” constitui a principal ameaça já existente à
citricultura paulista. Embora haja formas de controle, a necessidade de mais
pesquisas que possam viabilizar um controle mais intenso é iminente, pois o
Brasil é na atualidade o principal produtor mundial de citros, sendo o
estado de São Paulo a principal região produtora, concentrando também a
maior parte das indústrias processadoras. Apesar das indústrias
processadoras de SCCL serem muito importantes para a economia brasileira
(geração de divisas), se os problemas fitossanitários e de qualidade não
forem combatidos, as laranjas (subsistema de produção citrícola) deixarão de
existir e de impulsionar o subsistema de processamento industrial,
provocando graves problemas socioeconômicos (Neves, 2000).
A Rede ONSA se
coloca, assim, como uma excelente e necessária política de diminuição do
atraso tecnológico e ampliação da capacidade competitiva do setor citrícola
paulista, mostrando que a organização da P&D em países em desenvolvimento na
forma de redes de pesquisa possibilita a articulação de grupos
interdisciplinares – cada vez mais necessários ao esforço inovativo – e a
geração de conhecimentos complexos, além de partilhar custos e riscos num
ambiente altamente complexo e competitivo.
As redes de pesquisas mostram que as
cooperações, parcerias e outras formas de relacionamento entre
pesquisadores, universidades, centros e institutos de pesquisa, incubadoras
de tecnologias e empresas devem ser estimuladas pelo Estado e também pelo
setor privado como estratégia para se elevar o padrão tecnológico e
estimular a inovação nos países da América do Sul.
REFERÊNCIAS
AMARO, A.
A. Busca Incessante. in Revista Agroanalisys, Vol. 19. nº 05.
1999.
BONACELLI,
M. B. e Salles-Filho, S.L.M. Formação e Articulação de Cadeias Produtivas
e Cadeias Inovativas na Agropecuária da América Latina e do Caribe: O
Financiamento da Pesquisa em C&T. Campinas, DPCT/Unicamp, 2000.
DAL POZ,
M. E. A Rede de Inovações Genômica nos Estados Unidos. in
Revista Redes, Agosto de 2000
DOSI, G. The nature of
the innovative process. in DOSI, G. et al (orgs) Technical
Change and Economic Theory, London: Pinter Publishers, 1988.
DOSI, G. e Orsenigo, L. Coordination and transformation:
an overview of structures, behaviours and change in evolutionary
environments. in DOSI, G. (orgs) Technical Change and
Economic Theory, London: Pinter Publishers, 1988
FREEMAN, C.
Networks of innovators: A synthesis of research issues. Research Policy,
vol. 20, 1991.
HERRERA, A. Los Determinantes Sociales de la política
cientifica en America Latina.
Politica Cientifica
explicita y Política Científica Implicita. in Revista Redes. Vol.2 nº
25. 1995.
MACHADO,
M. A & Teófilo Sobrinho, J. A Cadeia Produtiva da Citricultura. in
MCT, Agronegócio Brasileiro – Ciências, Tecnologia e Competitividade, 2. ed.
1998.
________________. Projeto Genoma FAPESP: Um Marco para a
Citricultura. in Revista Preços Agrícolas, março de 2000.
MARTINELLI
JUNIOR, O. O Complexo Agroindustrial no Brasil: um estudo sobre a
agroindústria citrícola no Estado de São Paulo, Dissertação de Mestrado,
Faculdade de Economia e Administração/USP, São Paulo, 1987.
NEVES, E.
M. Economia da Produção Citrícola e Efeitos Alocativos. in
Revista Preços Agrícolas, Abril de 2000.
NOHRIA, N. Is a network perspective a useful way of
studying organizations? in NOHRIA, N. e ECCLES, R.G. (eds.)
Networks and organizations: structure, form and action. Boston,
Massachussets., Harvard Business School Press, 1992.
NORTH, D. Institutions, institutional change and economic
performance. Cambridge: Cambridge University Press, 1990.
OCDE, Technology and Economy – The Key Relationships.
1992.
PINAZZA,
L.A. & Alimandro, R. Nascido para Vencer. in Revista
Agroanalisys, Vol. 20 nº 05. 2000.
Este artigo é fruto da
seguinte pesquisa: A Formação de Redes de Pesquisa e Competitividade:
Uma Análise do Setor Citrícola Paulista.
Mestre em Ciências
Sociais pela Universidade Federal de São Carlos – UFSCar; Professor
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia - IFRO -
Campus Colorado do Oeste; Avaliador ad hoc Institucional e
de Cursos do INEP/MEC; Especialista da ANDI/UNICEF - Agência Nacional do
Direitos das Crianças e Adolescentes na Imprensa; Pesquisador do
NEMP-UFSCar - Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política da Universidade
Federal de São Carlos.
|