Diariamente muitas noticias
escapam de nossos registros. E tudo indica que o fenômeno seja mais
recorrente com os distantes fatos africanos, independentemente de
quão próximos estejam dos nossos narizes.
Faz pouco tempo, a Folha de São Paulo (18/06/2008) nos informou
sobre o julgamento de Simon Mann, cidadão britânico, acusado de
participar de uma tentativa de golpe de estado para derrubar o
presidente Teodoro Obiang em 2004.
Não fossem as referências a respeito de Mark Thatcher, filho da
antiga primeira-ministra do Reino Unido, Margareth Thatcher, como um
dos financiadores da frustrada tentativa ficaríamos sabendo ainda
menos de mais uma de tantas tristes e despudoradas empreitadas
imperiais naquele continente. Nessa ocasião, os tribunais da Guiné
Equatorial condenaram 11 estrangeiros à penas de prisão e se contava
com a extradição de Mark Tatcher para aquele país rico em petróleo
para enfrentar as acusações de promoção mercenária e tentativa de
derrubada de governo.
A Guiné Equatorial pertence a uma região que foi repetidas vezes
alvo da presença mercenária, e tema de denúncias bem documentadas a
partir dos anos 60 na seqüência dos processos de independência
africanos.
Supostamente soberana e indecentemente pobre, mas sobejando
reservas petroleiras, a Guiné Equatorial é juntamente com a Nigéria,
Camarões, Gabão e o arquipélago de São Tomé e Príncipe parte dos
sinistros bastidores da guerra do petróleo, envolvendo países,
corporações internacionais, agências de inteligência, grupos
mercenários, sobrinhos e afilhados de presidentes, etc., tudo a
mando dos três primeiros.
Uma olhada mais atenta aos antecedentes da Guiné revela a
importância deste antigo porto de escravos destinados às plantações
do novo mundo. Logo após sua independência, a jovem nação foi
imediatamente presa de um dos mais brutais ditadores africanos.
Macias, subjugou o país até inicio do anos 80. Os recursos naturais
da região do Golfo da Guiné, e em especial o petróleo desde sempre
atraíram a fortemente a cobiça das potências ocidentais Em 2001 se
calcula que das novas reservas mundiais de petróleo estimadas em 9
bilhões de barris, 7 bilhões estariam localizadas no Golfo da Guiné
e principalmente em espaços territoriais pertencentes à Guiné
Equatorial e o arquipélago de São Tomé e Príncipe.
Aos olhos de muitos leitores, inclusive os bem informados, o Sr.
Mann era peça de uma trama mirabolante, mais próxima das aventuras
de Tintin, o menino prodígio belga ou dos piratas caribenhos do
passado. Porém uma leitura em conexão com a história da região e dos
interesses imperiais se aprende que a história é bem outra. Os
fatos, como vêm sendo expostos, trazem uma riqueza de detalhes que
deixam estupefatos a qualquer um, diante da crueza e a ousadia dos
representantes imperiais e os gigantes corporativos do petróleo.
Com o desastre da operação encabeçada no “terreno” por Mann, a
imprensa londrina passou a denominar tratava o golpe como um
“segredo aberto”, alegando inclusive, que o mesmo tinha sido
discutido com certa anterioridade até em reuniões públicas do setor
de energia na Inglaterra.
Os acontecimentos que levam à prisão de M. Tatcher em
Johannesburgo e Simon Mann em Harare, Zimbabue em 2004 tiveram
inicio alguns meses antes em Malabo, capital da Guiné Equatorial. Os
serviços de segurança sul africanos passaram informações da
iminência do golpe aos serviços secretos dos Estados Unidos,
Inglaterra e da Espanha, antigo poder colonial na Guiné.
Coincidentemente ou curiosamente, estes países não repassaram o
alerta ao presidente ameaçado, apesar de suas boas relações com os
barões petroleiros americanos.
As estrepolias das grandes empresas ligadas aos antigos
interesses coloniais, desde muito tempo foram objetos de
reportagens. Nos anos 60, o escritor inglês Frederick Forsyth (Cães
de Guerra e o Dossiê Odessa) nos faz lembrar as tragédias da região
mediante um apelo dramático em favor do movimento de secessão de uma
das regiões da Nigéria. Em Biafra, um de seus livros, Forsyth
denuncia a ação das potências coloniais e das grandes petroleiras. O
terrível drama de Biafra representou a imagem paradigmática da
miséria, crueldade e baixeza humanas.
Como numa visão profética, Forsyth em Cães de Guerra, esmiuça a
ação de mercenários a serviço de conglomerados mineiros para a
tomada de um país imaginário da África Ocidental, mas que todos
reconhecem como a Guiné.
Em um paralelo com o livro de Forsyth, a ação real programada em
2004 é abortada com a apreensão de um avião no aeroporto de Harare,
no Zimbabue e de seus 64 passageiros que declaravam-se engenheiros,
prospectores e agentes de segurança de empresas internacionais de
mineração no Congo.
A sinistra operação contêm os elementos clássicos do teatro das
guerras africanas. Por um lado, o presidente deposto no exílio, por
outro, um contrabandista de armas, mercenários em espera do golpe
final para ficarem ricos além dos interesses indizíveis das antigas
potências coloniais representados por “laranjas” e seus instrumentos
de ação; “ex-membros” das forças armadas dos países imperiais
(mercenários). Esta situação é por demais conhecida, como o são
também as promessas de pagamento post-projeto “em espécie”. De
acordo com o jornal britânico The Observer, em 2003 Mann assinou um
contrato de fachada com um grupo de investidores libaneses aos quais
tinha sido garantida uma rica concessão petroleira, assim que Obiang
fosse deposto. Ainda
Nesse emaranhado chama atenção o grande número de empresas
norteamericanas na região. É notável a presença de corporações como
a Amereda Hess e Halliburton, ambas ligadas ao mundo do petróleo, o
Texas e naturalmente à quem recentemente deixou a Casa Branca.
Ainda como governador do Texas, George W Bush, obteve um lucro de
15 milhões de dólares com um investimento de 600.000, graças à
intervenção de executivos das empresas mencionadas. Halliburton, uma
das donas da guerra do Iraque e que foi dirigida pelo vice
presidente Dick Cheney, não fica atrás em matéria de transações na
região e já foi acusada de pagar uma propina de 180 milhões de
Dólares na Nigéria para obtenção de uma concessão para exploração de
gás.
As conexões e as dimensões do “imbroglio” africano, trazem à tona
uma eventual vulnerabilidade do Brasil, ante a ação de grupos
organizados a serviço de interesses corporativos internacionais como
no caso da empobrecida Guiné. As evidências de tal possibilidade são
muitas e inclusive respaldadas por alguns acontecimentos recentes.
Um deles é a súbita presença da quarta frota americana em áreas
próximas às águas territoriais brasileiras, e também a ação pouco
disfarçada de multinacionais petroleiras em território nacional.
Com o anúncio da descoberta de reservas da chamada camada do
pré-sal em janeiro de 2008, chama atenção o supostamente casual
roubo de alguns computadores de um contêiner da Petrobrás. É de
conhecimento público que a carga do contêiner era vigiada por uma
empresa contratada pela Halliburton no estado do Rio de Janeiro. A
seqüência dos acontecimentos causa espanto que a Petrobrás tenha
confiado guarda de sua carga sigilosa à Halliburton, de tão
conhecidos antecedentes. Como no caso da anedota, é como se a
fábrica de lingüiça ficasse sob vigilância de um cachorro.
Halliburton é muito conhecida da imprensa nos Estados Unidos,
desde mediados dos anos 80, a empresa participa de esquemas de
terceirização de funções de logística militar promovidos pelo
exército americano.
As atividades da empresa foram exponenciadas durante a
administração Bush e com a invasão do Iraque. onde mais do que nunca
se confundem as funções da estado invasor com os serviços prestados
pelos “contratistas”. A esteira de falcatruas se estende da Colômbia
ao Iraque, passando pelo Afeganistão, Paquistão e Guantânamo. Muitos
detalhes das operações fraudulentas não somente da Halliburton, mas
também de outras organizações como a Dyn Corp estão fartamente
documentados pela Auditoria Nacional dos Estados Unidos e no livro
The Three Trillion Dollar War do prêmio Nobel em economia Joseph E.Stiglitz
e Linda J. Bilmes (Norton, 2008).
Hoje através da perícia policial realizada nos contêineres
violados, ficou comprovado o desaparecimento de informação
estratégica referentes à bacia de Santos e informações sobre a
reserva do Campo de Júpiter. O caso não é o primeiro, já que vários
laptops foram subtraídos de residências de pessoal técnico da
Petrobrás de acordo com o diretor da Associação de Engenheiros da
Petrobrás (AEPET) e ex-engenheiro da área de exploração e produção
da estatal, Fernando Siqueira. Segundo Siqueira a ação criminosa
detrás do desaparecimento dos computares implica na subtração de
dados de 30 anos de pesquisas da empresa brasileira.
Fica difícil entender como a Petrobrás pôde tão facilmente dispor
informações de uma riqueza que pertence a 180 milhões de
brasileiros.
Julio Paupitz
Eng. Florestal
Curitiba, 17.10.2009