Resumo
A partir da leitura de
Peregrinações de uma pária (1838), livro que surgiu dos diários
de viajem de Flora Tristán __ símbolo do feminismo e precursora do
socialismo utópico __, à recém fundada República do Perú; é possível
perceber que certas estruturas do período de colonização espanhola
ainda existiam. O objetivo do artigo que se segue, é situar nos
relatos de Flora Tristán, as instituições,
costumes e preconceitos remanescentes da era colonial.
Palavras-chave: história,
literatura, Perú, século XIX.
Resumen
Con la lectura de
Peregrinaciones de uma paria (1838), libro que vino de
los diarios de viaje de Flora Tristán __ símbolo del feminismo y
precursora del utopismo socialista __, a la recent Republica del
Perú; es possible dar cuenta que unas
estructuras
del tiempo de
colonización española todavía existían. El
objetivo del artículo, es encontrar en los informes de Flora Tristán,
las instituciones, las costumbres y los prejuicios de la era
colonial.
Palabras-llave: historia,
literatura, Perú, siglo XIX.
Flora Tristán é
considerada uma das maiores figuras libertárias do século XIX e
precursora do socialismo utópico. Filha de um oficial espanhol e de
uma francesa, cujo casamento não foi reconhecido, acabou na miséria,
após a morte do pai. Foi obrigada a se casar muito cedo e diante de
uma relação mal-sucedida, fugiu levando uma filha pequena (KONDER,
1994).
Trabalhou em casas de
família na Inglaterra, até descobrir que era parente de uma das mais
influentes famílias do Perú. Viajou ao país para reivindicar a
herança que nunca havia recebido de seu pai. Desta viagem, surgiu o
livro Peregrinações de uma Pária (1838), com o qual, obteve
grande reconhecimento intelectual (KONDER, 1994).
Flora Tristán, descreve em seu diário de viajem, o modo de
organização social, político e econômico da recém formada República
do Perú. Apesar de livre desde 1821, o país ainda mantinha certas
estruturas do período colonial. O objetivo do presente artigo é
situar no relato da autora, as instituições, costumes e preconceitos
remanescentes da América Espanhola.
Nas
regiões peruanas visitadas por Flora Tristán __ Arequipa e Lima __,
havia grande descaso dos governantes para com a população, o que se
traduz na falta de investimento em infra-estrutura básica. Nos
diálogos entre Flora e sua prima Carmen, nota-se que não havia
preocupação com o desenvolvimento agrícola, construção de estradas
ou industrialização
Durante Revolução de Lima (1834), Flora Tristán, ao visitar um
hospital, constata que não havia médicos o suficiente para atender
os feridos, nem irmãs de caridade que ajudassem. O trabalho era
realizado por curandeiros indígenas, que pouco zelo dispensavam à
tarefa. Não tinham ambulâncias para transportar os enfermos e estes
eram colocados no chão sem nenhum cuidado.
¡Daba pena ver el patio de este hospital!
(...) No hay una solo hermana de caridad para cuidar de los enfermos
y son índios viejos los encargados de hacerlo. Esos hombres venden
sus servicios y no se puede esperar e ellos ningún celo (...). Los
heridos transportados al hospital eran colocados en el suelo sin
ningún cuidado (...). El ejército no tenía organizados servicios de
ambulância y los médicos de la ciudad eran insuficientes para este
aumento de trabajo (TRISTÁN, 1838, p. 62).
O exército era
desorganizado e frágil, em conseqüência dos baixos investimentos.
Durante a guerra, Flora chegou a visitar alguns acampamentos em
Arequipa. Ela descreve que a infantaria tinha um ar miserável. Os
soldados dormiam em tendas tão finas e mal fechadas que não os
protegiam nem da chuva!
Flora conheceu de perto a pobreza dos vilarejos de Lima. Algumas
casas, mal pintadas e sujas, se assemelhavam a ruínas. Outras
lembravam cabanas de uma população selvagem. Ao passo que, as
moradias das altas classes sociais, ostentavam grande luxo de
acentuada influencia européia. Aliás, como toda a arquitetura
da nova República. Em suas visitas a diversas igrejas e conventos
Flora relata que, os interiores lembravam o estilo gótico medieval.
A Europa também servia
como parâmetro tanto para a organização social e política __ afinal,
os descentes da nobreza espanhola formavam a elite governante,
__ como os costumes da sociedade. Flora alega que, até mesmo as
freiras enclausuradas, estavam preocupadas com a moda francesa.
Perguntavam a ela, como se vestiam em Paris, o que se comia e quais
eram os tipos de música apreciados.
A Igreja Católica exercia
grande influência em todas as esferas sociais. Os únicos festejos
ocorridos em Arequipa deviam-se ao calendário religioso. Não
existiam escolas laicas, o que demonstra outra permanência da era
colonial: a falta de instrução pública. A grande maioria da
população era analfabeta e segundo a prima de Flora, Carmen, nem
mesmo a elite detinha um conhecimento básico da literatura
universal, mal conheciam o catecismo e nem sequer o compreendiam.
...
y es preciso, si quiere pintar esas bellezas, cultivar la
inteligência, ejercitarse en el manejo del idioma y leer Buenos
livros. Antes de que sus arequipeños hagan versos será preciso que
haya escuelas en donde puedan aprender a leer, em donde pueda
formarse el gusto por la lectura de Homero y Virgilio, de Racine y
Byron. Entre ustedes solo las personas de la primera sociedad saben
leer, y aun así, solo han leído el catecismo sin intentar siquiera
compreenderlo (TRISTÁN, 1838, p.45).
Do mesmo modo, não havia
um estado leigo deveras constituído, pois a separação entre Igreja e
Estado não estava bem definida, uma vez que o clero ocupava cargos
políticos ou interferia constantemente na administração pública.
Flora cita renomados cléricos que detinham grande importância
política, como o monje Valdivia.
A sociedade era patriarcal
e machista, visto que as mulheres estavam submetidas ao jugo de seus
maridos e sofriam diversos tipos de violência doméstica e sexual.
Além de que, não lhes era garantido o direito de participação
política. Carmen lamenta-se muito de sua falta de liberdade. Diz a
Flora que as mulheres, devido a sua fragilidade física, eram
escravas das leis e sujeitas a mil sofrimentos.
__
Pero, querida Florita, usted pretende que basta uma voluntad firme
para ser libre. Y es usted, débil mujer, esclava de las leyes, de
los prejuicios, sujeta a mil sufrimientos, com uma debilidad física
que la hace incapaz de luchar contra el menor obstáculo
(TRISTÁN, 1838, p. 11).
Contudo, de todos os
aspectos coloniais subsistentes, a escravidão é a mais forte. Flora,
ao visitar um engenho em Lima, constata que as condições de vida dos
escravos eram deploráveis, como demonstrava a alta mortandade e a
conseqüente necessidade de importação de novos africanos. Os filhos
dos cativos não chegavam a completar 12 anos, diante do mal cuidado
dispensado pelos pais. Outra forma de protesto eram os constantes
abortos praticados pelas negras. Este era um dos modos encontrados
pelos escravos de se sublevarem contra a dominação: não aceitavam
criar seus filhos no cativeiro.
__
Pero, señorita, agrego, la imposibilidad de conseguir nuevos negros
es desesperante. La falta de esclavos traerá la ruína de todos los
ingenios. Perdemos muchos de ellos y las tres cuartas partes de los
negritos mueren ante de llegar a los doce años (...). __ El clima es
muy sano, pero las negras se hacen abortar a menudo y los padres no
tienen cuidado con sus hijos (TRISTÁN, 1838,
p. 81).
Em discussão com os donos
do engenho, Flora Tristán mostra seu pesar em relação à persistência
desta instituição, alegando ser impiedosa aos olhos de qualquer
religião. E ainda defende a emancipação gradual dos escravos, para
que estes se transformassem em membros úteis para a sociedade.
Portanto, as heranças coloniais subsistentes na nova sociedade
resumem-se na falta de infra-estrutura básica para a população
(indústrias, sistema de transportes, escolas, hospitais,
habitações); a inexistência de um exército organizado e eficiente; a
influência européia na arquitetura, costumes, organização social e
política; a ligação entre estado e igreja; a submissão feminina; e a
persistência da escravidão.
Bibliografia
KONDER, Leandro. Flora
Tristán, uma vida de mulher, uma paixão socialista. Rio de Janeiro:
Relume-Dumara, 1994.
TRISTÁN, Flora.
Peregrinaciones de una paria. In: Utopismo socialista
(1830-1893). Disponível em:
http://www.bibliotecayacucho.gob.ve/fba/index.php?id=97&no_cache=
1&download=Utopismo_socialista.pdf&catalogUid=26&filetype=ayaDigit.
Data de acesso:
10/03/2010.
Como citar este artigo:
PONCE,
Gelise. A
persistência das estruturas coloniais na recém fundada República do
Perú: relatos de Flora Tristán Revista P@rtes (São
Paulo). V.00. P.eletrônica. Abril de 2010. Disponível em <www.partes.com.br/politica/relatosdefloranttristan.asp>