Entre os anos de 1964 e 1985 o Brasil
esteve sob a intervenção militar instaurada com o Golpe de 31
de março de 1964. Nesse período a quebra do Estado de Direito,
a perseguição e o extermínio dos opositores do regime,
tornaram-se práticas freqüentes no país. Inúmeros cidadãos
foram presos, interrogados, torturados e mortos nos quartéis
das forças armadas e órgãos de repressão (DOI-CODI, DOPS,
entre outros). No Estado do Paraná, sobretudo na região norte,
não foi diferente. Em maio de 1964 foi instalado no Quartel
General da 5a. Região Militar, em Curitiba, um gigantesco
inquérito policial militar intitulado “Zona Norte do Paraná”,
que se desenvolveu nos meses seguintes por inúmeras cidades
dessa região do Estado, tomando depoimentos de todos quanto
tivessem revelado alguma participação política destacada, em
alinhamento com o governo deposto de João Goulart. (BNM, 1992,
p.157). Grande parte da repressão verificada no Paraná, em
vinte anos de autoritarismo, partiu do 30o Batalhão de
Infantaria Motorizada, sediado em Apucarana, no norte do
Estado, sob o comando do capitão Ismar Moura Romariz. O 30o.
Batalhão de Infantaria Motorizada foi fundado no dia 30 de
setembro de 1968, inicialmente com a denominação de
4a.Companhia de Infantaria. Em 15 de dezembro de 1970 o
quartel foi transferido para o prédio da atual sede, nas
margens da Rodovia BR 376 (Rodovia do Café) a 7 quilômetros do
centro de Apucarana. A 4a. Companhia de Infantaria tinha a
missão de preparar as instalações da antiga estação de ferro
Central do Paraná. Esta a versão oficial, pois acredita-se que
o Batalhão enviado para Apucarana objetivava garantir as
pretensões golpistas de 31 de março de 1964 no norte do
Estado. Atualmente o 30o. Batalhão está subordinado a 15 ª
Brigada de Infantaria Motorizada de Cascavel, no oeste do
estado do Paraná. Em relação à população, Apucarana foi a
cidade paranaense que teve maior número de presos políticos.
(HELLER, 1988, p.549). Os seqüestrados que passaram por
Apucarana, como Osvaldo Alves, João Alberto Einecke, Narciso
Pires, Genecy Guimarães, Ildeu Manso Vieira e outros sofreram
horrores nas dependências do Exército, onde o Capitão Ismar
Moura Romariz submeteu-os ao terror, usando métodos dos mais
torpes, chegando a deter esposas de presos e familiares,
provocando aborto na esposa de João Alberto Einecke, que
sofreu traumas profundos em virtude desta ocorrência. Roberto
Pompeu de Toledo em artigo publicado na Revista Veja
(21/06/1995, p.126) advertia que “se não clarear sua relação
com o passado, elas (as Forças Armadas) não clarearão sua
própria relação com a sociedade. Restará uma sombra,
sementeira de desconfianças, assim como há uma sombra no
passado de cada torturador”.
Nesse sentido o que se propôs em projeto
de pesquisa vinculado à Universidade Estadual de Maringá foi
evidenciar a função estratégica do 30o. Batalhão de Infantaria
Motorizada de Apucarana, desde a sua fundação em 30/09/1968,
enquanto órgão de repressão política na região norte do
Estado. Objetivou-se um estudo analítico das informações
colhidas em bases de dados, publicações de acesso público,
como livros, revistas, jornais e publicações eletrônicas, que
possibilitassem traçar um histórico das relações do Batalhão
de Apucarana com as táticas de repressão do regime militar. Os
procedimentos de coleta de dados utilizados foram a entrevista
individual com ex-militantes de esquerda e a análise
documental. A metodologia de pesquisa para a execução do
projeto fundamentou-se na revisão bibliográfica e na pesquisa
documental referente ao tema do Golpe de 1964, salientando,
porém, a realidade na região norte do Paraná e, sobretudo, a
participação do 30o. Batalhão de Infantaria de Apucarana à
época da ditadura. Os resultados obtidos demonstraram ter
havido forte participação do Batalhão do Exército de Apucarana
nas operações de perseguição àqueles que se opunham à
ditadura. Fica evidenciado que o quartel do 30o. Batalhão de
infantaria esteve atrelado às práticas de tortura e
perseguição política, sendo um dos órgãos responsáveis pela
preservação da doutrina de segurança nacional na região norte
do Paraná, à época do regime militar. Diante do exposto vale
ressaltar as palavras da professora Ângela Caniato (2002,
p.147) ao dispor que “novamente pode-se entender porque o
passado não passou, já que a manutenção do silêncio sobre o
ocorrido nos bastidores da Ditadura Militar de 1964 e as
manobras para o seu esquecimento que os governos vêm mantendo,
ao evitar que qualquer episódio daquela época seja denunciado
e exaustivamente examinado de forma pública, sustenta o
princípio de realidade autoritário e alienante”.
A imprensa na região de Apucarana tem
sido omissa no que tange à necessidade de se enfocar dados ou
referências históricas à repressão militar oriunda do quartel
do 30o. Batalhão de Infantaria Motorizada à época da ditadura.
Mesmo quando da ocasião do aniversário do 30o. BIMtz o que se
vê são matérias jornalísticas ingênuas e pouco informativas no
tocante à realidade histórica do município. Recentemente o
jornal “O Diário” (18/09/05, p.08) de Maringá trouxe
interessante matéria referente aos 30 anos da Operação Marumby
que visava embrutecer a repressão no Paraná, estado onde o
General Samuel Corrêa prestou total cobertura ao Capitão
Romariz, torturador do 30o. Batalhão de Infantaria e ao chefe
do DOI-CODI, que comandava a referida Operação militar. Anos
mais tarde, os paranaenses torturados acabaram sendo
beneficiados pela Lei 11.255/95 (Lei Beto Richa) que garantiu
uma indenização aos ex-presos políticos do Paraná, muitos
deles moradores de Apucarana.
FONTES DE PESQUISA:
ARNS, Paulo Evaristo (prefaciador)
Brasil: nunca mais, Petrópolis (RJ): Vozes, 1992.
CANIATO, Ângela. Das dificuldades
psicossociais para uma educação política emancipatória. In:
BRANDÃO, Elias et ali (org.) Direitos e integridade humana,
Maringá: Massoni, 2002.
HELLER, Milton Ivan. Resistência
Democrática: a repressão no Paraná, Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1988.
TOLEDO, Roberto Pompeu de. A longa sombra
do passado, São Paulo: Revista Veja, pág.126, 21/06/1995