Pecar pelo silêncio, quando se deveria protestar,
transforma homens em covardes.
Abraham Lincoln
A possível construção de uma Penitenciária Estadual no município de
Apucarana, na região norte do Paraná, está gerando um interessante e
multifacetado debate. O conjunto dos argumentos tem permitido supor que
a solução para a questão da Penitenciária exige bem mais que um mero
parecer favorável ou não.
Com efeito, muitos temas correlatos precisam ser repensados, a saber:
que atenção a sociedade civil organizada está dispensando aos
encarcerados na atualidade? Como sociedade, estamos integrados em algum
projeto de recuperação dos egressos do sistema prisional? Agimos como
cidadãos responsáveis pelos aspectos positivos e negativos da realidade
que nos cerca, ou em nós prevalece o espírito individualista? Será que
não estamos fugindo de problemas que, direta ou indiretamente, também
nos dizem respeito?
O debate atual, como é notório, evoca temas profundos relativamente
aos grupos excluídos da sociedade, em especial os presidiários. Nesse
sentido, Maria Lúcia Karam – juíza aposentada e autora de renome – nos
alerta com a tese de que o sistema penitenciário não deve atender à
necessidade de criação de bodes expiatórios, sobre os quais costuma
recair o reconhecimento individualizado de uma culpabilidade que não se
quer coletivizada.
A questão da Penitenciária Estadual de Apucarana representa,
portanto, uma excelente oportunidade para inovarmos no modo de pensar o
sistema prisional/penitenciário do país.
Na esteira de um enfoque jurídico-humanista, salta aos olhos a
freqüência lamentável com que a sociedade parece ignorar os direitos
constitucionais assegurados aos presos no Brasil. Direitos como, por
exemplo, o respeito à integridade física e moral dos detentos (art.5º
XLIX CF).
Não raras foram as ocasiões em que o Centro de Direitos Humanos em
trabalho conjunto com a Pastoral Carcerária da Diocese de Apucarana,
constatou uma afronta aos mais elementares princípios constitucionais no
interior do antigo presídio existente na cidade. As sucessivas denúncias
e os inúmeros relatórios apresentados pelo CDH resultaram em quase nada.
Isso nos leva a questionar sobre quais serão os benefícios que a
Penitenciária trará ao sistema prisional e ao município como um todo.
Se, até a presente data, as autoridades não foram competentes quanto
à garantia dos direitos dos presos, de seus familiares e da sociedade
achacada pela crescente onda de violência, em que sentido será possível
afirmar que, com a vinda da Penitenciária Estadual, tal realidade mudará
em nosso município?
Ademais, o Brasil possui em números absolutos e proporcionais a maior
quantidade de presos da América Latina – segundo dados do jornal Folha
de S. Paulo – e a criminalidade continua aumentando. Sem que sejam
questionados os fundamentos políticos e econômicos sobre os quais se
alicerça nossa sociedade egoísta e ávida pelo lucro, pouco importa a
questão em torno do local onde se erguerá a próxima prisão.