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Cultura |
Ano I - Nº 3 - Junho de 2000 |
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MúsicaSensibilidade e arteWandir Marques Gonçalves No lumiar de um novo século, oramos pela nobreza de seus versos, que tantos e a todos estes artistas narrou em suas canções, tem até quem diga: "Chico Buarque é um grande artista e poeta", mas sim um grande músico, suas melodias soam corretas em nossos ouvidos, é como uma manequim nua, com suas curvas e suavidades, linda de se admirar. Logo em seguida vem suas vestes, e faz com que a mesma manequim linda e nua se torne linda e maravilhosamente vestida. Homem de grande sensibilidade que une ação, força e a realidade num mesmo frasco, como se a química já estivera pronta pôr si própria. Sua arte nos dá profundidade, buscando-nos no mais profundo sentimento de igualdade, a cada canção ele está mais à frente, mais atrás, mais ao meio, enfim ele nos encontra em todo momento. Salve Chico Buarque!
Em filme sobre FHC não!
Chico de Hollanda, de aqui e de alhures Aqui, mais um trecho da carta do amigo Ruy Guerra ao velho amigo Chico "Parceiro de euforias e desventuras, amigo de todos os segundos, generosidade
sistemática, silêncios eloqüentes, palavras cirúrgicas, humor afiado, serenas
firmezas, traquinas, as notas na polpa dos dedos, o verbo vadiando na ponta da língua -
tudo à flor do coração, em carne viva... Cavalo de sambistas, alquimistas, menestréis,
mundanas, olhos roucos, suspiros nômades, a alma à deriva, Chico Buarque não existe, é
uma ficção - saibam. Curiosidade Chico Buarque é filho do historiador Sérgio Buarque de Hollanda e de dona Maria Amélia Nesta edição, a letra da canção Pedro Pedreiro, letra e música de Chico feita em 1965, boa viagem e até mais amigo leitor Pedro Pedreiro Chico Buarque/1965 Pedro pedreiro penseiro esperando o trem Manhã, parece, carece de esperar também Para o bem de quem tem bem De quem não tem vintém Pedro pedreiro fica assim pensando Assim pensando o tempo passa E a gente vai ficando pra trás Esperando, esperando, esperando Esperando o sol Esperando o trem Esperando o aumento Desde o ano passado Para o mês que vem Pedro pedreiro penseiro esperando o trem Manhã, parece, carece de esperar também Para o bem de quem tem bem De quem não tem vintém Pedro pedreiro espera o carnaval E a sorte grande no bilhete pela federal Todo mês Esperando, esperando, esperando Esperando o sol Esperando o trem Esperando aumento Para o mês que vem Esperando a festa Esperando a sorte E a mulher de Pedro Está esperando um filho Pra esperar também Pedro pedreiro penseiro esperando o trem Manhã, parece, carece de esperar também Para o bem de quem tem bem De quem não tem vintém Pedro pedreiro está esperando a morte Ou esperando o dia de voltar pro norte Pedro não sabe mas talvez no fundo Espera alguma coisa mais linda que o mundo Maior do que o mar Mas pra que sonhar Se dá o desespero de esperar demais Pedro pedreiro quer voltar atrás Quer ser pedreiro pobre e nada mais Sem ficar esperando, esperando, esperando Esperando o sol Esperando o trem Esperando aumento para o mês que vem Esperando um filho pra esperar também Esperando a festa Esperando a sorte Esperando a morte Esperando o norte Esperando o dia de esperar ninguém Esperando enfim nada mais além Da esperança aflita, bendita, infinita Do apito do trem Pedro pedreiro pedreiro esperando Pedro pedreiro pedreiro esperando Pedro pedreiro pedreiro esperando o trem Que já vem, que já vem, que já vem (etc.) Wandir Marques Gonçalves, é artista plástico
Cinema
Perfeição, pra quê? Rodrigo Contrera Das várias formas de abordar temas-tabu, a comédia é uma das mais comuns. Isso não quer dizer que essa seja a forma mais eficaz de levantar discussões, já que comédia mal conduzida pode acabar tornando o tema alvo de zombaria. Pelo título, pelo tema e pelo cartaz, os desavisados podem até achar que Flawless (Ninguém é Perfeito, péssimo), dirigido por Joel Schumacher, é um desses filmes que aposta em situações ridículas e no mal-afamado humor americano para tornar o movimento das dragqueens algo palatável ao cidadão comum. A carimbada figura de Robert De Niro pode ser até um argumento a mais em favor dessa tese. O roteiro é simples, embora cheio de idas e voltas. De Niro faz um ex-policial meio obtuso que fica com um lado do corpo paralisado após sofrer um derrame. Ele vive num pequeno prédio habitado por várias figuras estranhas, dentre elas uma dragqueen que dá aulas de canto e que lidera um movimento de direitos civis. Desesperado, De Niro dá o braço a torcer e pede à dragqueen, que diz precisar de dinheiro, que lhe dê aulas de canto. Aos poucos os dois acabam se conhecendo. Ela quer fazer uma operação de mudança de sexo, coisa que ele acha ridícula, já que para ele a dragqueen é apenas um homem que jamais será mulher de verdade. Deixando de lado as inevitáveis cenas de ação, permeia todo o filme uma série de cenas que dizem respeito a um concurso de beleza (cujo nome dá origem ao título do filme) e às disputas políticas no interior do movimento gay. O que surpreende no filme são dois aspectos. Primeiro a lucidez com que é tratado o tema da política, aparentemente irrelevante na trama principal da fita. A dragqueen nega apoiar republicanos ou democratas com um único argumento: "vocês têm vergonha de nós, nós não temos de vocês, republicanos / democratas gays. Agora, já que vocês têm vergonha de nós, não terão o nosso apoio. Não mesmo". O segundo detalhe não diz respeito tanto ao filme, mas à platéia, composta de gente tão heterogênea que simplesmente é de se duvidar que ela consiga ser reunida de outra forma, que não através do filme. Vi desde casais homossexuais a pequenos executivos e famílias inteiras (ditas "comuns") assistindo-o. Pelo que sei, isso está muito longe de ser comum, e revela muito da fita. Não há nada de inovador em Flawless (cuja tradução correta é Perfeição ou Sem Defeitos). Diria mais, o filme é até careta no momento atual. Como o pessoal GLS diz, é um filme bem mainstream. Mas, pelo jeito, incomoda e atrai, pelo bem ou pelo mal, um determinado público que acaba obrigando a si mesmo a assisti-lo. É verdade que gente reunida em um local fechado para ver uma fita e que não conversa entre si não tem muito de revolucionário. Mas, se ao menos isso não é uma real convivência, pelo menos é uma opção à cômoda guetificação das diferenças em benefício da frivolidade mútua. Rodrigo Contrera é jornalista
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