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RESUMO
Reflexão realizada a partir do estágio
profissionalizante em psicologia do trabalho e das organizações, sob a
ótica da Análise Institucional e utilizando a revisão bibliográfica como
dispositivo para a compreensão acerca de uma instituição de ensino
superior. Instituição essa montada e gerenciada por uma família, neste
contexto, e percebendo as dificuldades em propor intervenções efetivas
na organização, é que se funda a discussão sobre a ‘não produção’,
frustrações e reações sobre a presença do psicólogo dentro da
instituição.
PALAVRAS-CHAVE: Família;
Religião; Psicanálise; Culpa; Empresa Familiar; Instituição.
Abstract
Reflection held from period of training in psychology of
work and organizations, from the perspective of institutional analysis
and using literature as a device to the understanding of an institution
of higher education. Institution
that set up and managed by a family in this context and noting the
difficulties in offering effective interventions in the organization, is
that the discussion is based on 'non-production', frustrations and
questions about the presence of a psychologist within the institution.
KEYWORDS:
Family, Religion, Psychoanalysis, Guilt; Family Business; Institution.
INTRODUÇÃO
Este artigo refere-se às atividades desenvolvidas no
estágio profissionalizante de Psicologia do trabalho e das organizações
II, em uma Instituição Superior de Ensino a Distância inicialmente
realizei uma observação institucional.
Percebendo todas as movimentações existentes, tais como:
as relações existentes entre tutores, funcionários, acadêmicos e seu
funcionamento como em um todo. Portanto, este artigo trata das análises
que construí a partir da perspectiva da análise institucional e fazendo
um estudo sócio-histórico que visa contextualizar a instituição dentro
dos princípios de Engels, Roudinesco, Bleger, Baremblitt, entre outros
autores.
Dentro da percepção de Baremblitt
da análise institucional, podemos perceber este movimento de coletivos
sociais, entendendo o local em questão, como organização, observando-o
como um lugar de conhecimento específico, formada por experts,
pois os tutores tiveram uma condição privilegiada de se graduarem em
outras instituições de ensino superior, o que transmite maior
confiabilidade, em falar das temáticas especificas, aos acadêmicos.
Esses profissionais, pela forma como a sociedade se organiza, estão
freqüentemente a serviço de grupos, empresas ou instituições que podem
pagar pelo seu trabalho. (Baremblitt,1996)
Bem como as demandas do corpo
acadêmico são inexistentes ou ignorados, ou se limitam às necessidades
que os tutores julgam interessantes para o desempenho acadêmico, tal
como a utilização de material bibliográfico, dentro desta dinâmica os
acadêmicos, tornam-se restritos aos equipamentos existentes no
estabelecimento. O interessante a ser observado é que existe uma relação
‘as avessas’ quem acaba por legitimar a função do ‘expert’ são os
próprios acadêmicos, por se portarem como seres instituídos, que
se mantém estagnados e conservadores a tudo que lhe foi ensinado e os
tutores tentam ser instituintes, pois, lhes é cobrado que
orientem os acadêmicos, afinal,eles estão pagando pelo que lhes é
ensinado, logo, é obrigação dos tutores essa busca contínua por tudo que
há de novo no mundo científico e repassá-los com uma interpretação aos
acadêmicos.
Sob a ótica ‘baremblitiana’, a
instituição, seria uma organização, pois é a materialização das
instituições sob a forma de um organismo, uma entidade, assumindo uma
configuração mais complexa.
“São grandes ou pequenos conjuntos de formas materiais que põem em
efetividade, que concretizam as opções que as instituições distribuem,
que as instituições enunciam. Isto é, as instituições não teriam vida,
não teriam realidade social se não fosse através das organizações. Mas
as organizações não teriam sentido, não teriam objetivos, não teriam
direção se não estivessem informadas como estão, pelas instituições” (BAREMBLITT:
1996, p.30).
Uma organização ainda sem
estabelecimento próprio, pois onde atualmente funciona é em um reduzido
espaço físico locado, junto à escola adventista, enquanto não é
finalizada sua infra-estrutura, que brevemente abrigará a organização.
O objetivo da Análise
Institucional é verificar em cada instituição, cada organização, uma
forma de intervir buscando entender como se dão esses movimentos
considerados importantes dentro deste funcionamento social. Podendo
identificar os atravessamentos dispostos buscando entender como está
funcionando este processo educacional e analisar esta ‘transmissão do
saber’, assim como a formação destes novos profissionais, que estão
sendo inseridos no mercado de trabalho.
A FAMÍLIA
Pelo fato de que os ‘administradores’ do local em questão
estão vinculados ao estabelecimento, de forma mais particular do que
empresarial, buscou-se entender a família e suas conexões com a
economia, religiosidade, valores adquiridos, grupos e relações
familiares ali estabelecidas, configurando a análise institucional
referente a uma empresa familiar. Para entendermos o tema em questão,
devemos rememorar o conceito de família, que pode ter vários sentidos e
as mais singulares interpretações.
Muito já se foi dito, no senso comum, sobre família,
afirmações como: família é a união de laços sanguíneos, de amizade e
amor ou família é a união de pessoas de diversas idades, gostos,
preferências, opiniões, defeitos e predicados. Família é para nos apoiar
quando necessitamos e assim por diante, vejamos agora os conceitos
difundidos no ambiente acadêmico. (Wikipédia, 2009).
A família é unidade básica da
sociedade
formada por
indivíduos
com
ancestrais
em comum ou ligados por laços
afetivos.
Dentro de uma família existe sempre algum grau de
parentesco.
Membros de uma família costumam compartilhar do mesmo
sobrenome,
herdado dos ascendentes diretos. A família é unida por múltiplos laços
capazes de manter os membros moralmente, materialmente e reciprocamente
durante uma vida e durante as gerações.(Wikipédia,2009)
A família surge como primeira instituição
sócio-educativa, socializadora, incutindo valor moral, que vai inserir
ou excluir, alienar ou instruir o sujeito na construção de sua
identidade quanto a posições autonômas, a fim de mostrar as
possibilidades sobre o novo mundo de diversidades (culturais, étnicas,
religiosas) emergentes. Não menos importante a familia irá oportunizar
ao indivíduo a democratização e sugerir fundamentos ideológicos e
referências coletivas, na constituição de subjetividade do sujeito.
(Araújo,2009)
Para Foucault (1985) a estrutura familiar promove a
eclosão da sexualidade e manifestação dos sentimentos e afetos. À
família estabelece uma estrutura permanente para a sexualidade em
formação, ou seja, é na estrutura familiar que começamos a nos
desenvolver subjetivamente.
É na família que se constrói a
individualidade e o sentimento de pertença a um espaço, a um grupo.
Quando Foucault vincula família e sexualidade ele fala da importância da
família como quem modula e organiza os modos de os sujeitos lidarem com
seus corpos, sua sexualidade e, portanto, diz respeitos aos modos de
subjetivação, nesse sentido a família é uma das principais instituições
que governa as pessoas.
Percebendo, a família como uma infra-estrutura geradora
de renda, podemos entender as ligações entre a propriedade privada
herdada. É onde os laços de confiança e de lealdade se unem em um
sistema de troca de favores, as pessoas ligadas por laços criados pela
filiação (pais/filhos, matrimônio), ou seja, tende a preservar sua
‘herança’(instituição) de forma a perpetuar seu nome, permitindo que
somente os herdeiros e seus cônjuges tenham participação e atuação sobre
esta propriedade, reproduzindo questões particulares tais como os
preceitos religiosos, convicções, relações de favores e trocas de
alianças.
Neste sentido, a relação da instituição e a família,
tomam uma significação importante no momento em que as convicções
religiosas familiares (em especial) de união e perpetuação (dos laços
geracionais) se fundem a uma instituição religiosa de ensino, o que
tende a reafirmar a função da religião no cotidiano dos sujeitos,
submetendo o funcionamento laboral e institucional aos desmandes da
igreja. Manifestando a necessidade de enquadramento e repressão dos
desejos a fim de caracterizar a tradição moral e a visão de laços
afetivos sólidos, vendendo a imagem de que a família hierárquica deve
ser apreciada como referência.
Cabe salientar, que mesmo sendo uma organização de nível
superior, ainda há uma reprodução de valores, presente no cotidiano da
equipe diretiva, que acaba por contaminar o ambiente acadêmico e laboral.
Existe um enraizamento de preceitos e uma difusão
ideológica contraditória em função de que, ao mesmo tempo no qual é
proposto um espaço para a desconstrução do tradicional e a composição de
outras formas de pensar, existe no comando uma família disposta
hierarquicamente gerenciando e selecionando o que é certo e o que é
errado, e este posicionamento afeta diretamente o grupo que ali circula,
gerando uma questão de conservadorismo e repreendendo o que não é usual,
não vendo com bons olhos a diversidade, deixando as claras que ali é a
extensão de sua casa, portanto quem está ali deve se adequar. Não era
incomum a circulação de membros familiares de tutores e funcionários,
bem como conversas informais sobre casamento, planejamento familiar,
relações matrimoniais (discussões sobre o relacionamento), questões
sexuais (orientação sexual), comentários maldosos, preconceitos frente à
diversidade (cultura, idade cronológica, ideologia, política), livre
circulação de animais de estimação, relacionamento pais/filhos
(funcionário /filho adolescente) suas dificuldades, seus atravessamentos
e é claro que orientação religiosa correta a ser seguida (como forma de
inclusão), tudo isso dentro do ambiente laboral.
A FAMÍLIA, A IGREJA E A PSICANÁLISE.
Se na sociedade em geral, vivia-se a falência do poder
paterno, Freud vem propor uma teoria do psiquismo humano na qual o
assassinato do pai - realizado ou fantasiado, desejado - terá decisiva
importância, pois, para a psicanálise freudiana, a concepção da família
é, portanto, fundada na culpa pelo assassinato do pai pelo filho, na
rivalidade deste em relação ao pai, no questionamento da onipotência
patriarcal e na emancipação das mulheres da opressão paterna.
“Devido aos avanços tecno-científicos,
os próprios costumes, provocaram uma inovação no conceito de família. Já
que a família tradicional/patriarcal imutável já foi recomposta por
pares homossexuais que passaram a pleitear a adoção ou mesmo a
paternidade ou maternidade, usando os novos recursos que prescindem da
prática natural do coito entre homem e mulher. A decadência do
patriarcado causou na Europa um grande temor do feminino, antevia-se uma
emasculação e uma feminização da sociedade. Produziu-se uma ideologia
que satanizava a mulher, vista como fonte do caos e da destruição
social”.(Roudinesco,2003)
A família cristã e moralmente correta é aquela que segue
os preceitos cristãos hierarquizados, buscando sempre na igreja a
remissão dos pecados, e é na igreja que a família se funde e se une,
tudo o que é visto como imoral muitas vezes interpretado como diferente,
é desprezado, pela comunidade cristã bem como pela família. Para o
cristão não se admite formas de controle de natalidade e abstinência
sexual, tampouco outras formas de concepção, nem outros tipos de família
para alem da tradicional.
Para Steffen(s/d),
um dos autores do livro de leitura obrigatória dentro da disciplina de
Cultura Religiosa, os visionários religiosos que originaram a
instituição mantém vivos os princípios de união e familiaridade. O
cristianismo entende que a família formada pelo casamento é entre um
homem e uma mulher. Também é preciso buscar a compreensão de que nem
todos são cristãos e as pessoas agem movidas por razões diferentes.
Sendo obrigação dos pais incentivarem os filhos as atividades escolares
bem como a valorização dos professores que são os detentores do saber, e
a preservação da moral e da religiosidade no cotidiano, seguindo esses
preceitos é possível ter cristãos a serviço da construção do reino de
Deus e cidadãos livres e altruístas.
Buscando compreender Freud (1913), ele elucida a igreja
influenciando a família ao promover a remissão dos pecados humanos
através do perdão e fazendo com que os sujeitos sintam-se culpados por
possuírem desejos, em suma, sexuais em relação ao outro, criando a
ilusão consoladora de uma salvação através do arrependimento e a fé na
Sagrada Família: (Deus-pai, Igreja –Mãe-, Irmandade Religiosa – filho).
Assim, para Freud, a origem da religião seria a mesma que a origem da
moralidade e da civilização: o sentimento de culpa pela morte do pai
primitivo.
Na opinião de Freud, (1913), a religião surge do
sentimento filial de culpa (o parricídio), como apaziguador deste
sentimento, logo a religião surge para ressaltar o‘Triunfo do Pai –
remorso’, Deus é introduzido como pai que puni e recompensa, sem direito
a recriminação.
A família freudiana adota como sua base à culpa e a lei
moral fundamentam o desejo entre condições conflitantes da autoridade,
rebeldia, universal, diferença, crime, castigo (Roudinesco, 2003).
Um aspecto em comum, entre a psicanálise e a doutrina
luterana é o debate sobre o sentimento de culpa e sua conexão com
a família.
Na igreja a culpa surge como uma forma de gratidão para
com Deus em razão da ‘proclamação da salvação ’para com a humanidade
oprimida, esta salvação não tem preço, pois o cristão não ‘deve’ nada em
função do grande sacrifício dispensado por Deus que entregou seu único
filho Jesus Cristo, concebido sem o pecado sexual para salvar os justos
e injustos.
É Deus mesmo quem
paga, Deus mesmo pagou o preço de uma vez por todas, o preço mais caro
que ele poderia pagar: a sua própria morte, em Jesus Cristo, na cruz. A
obliteração (destruição/ eliminação) de nossa culpa é livre para nós por
que Deus pagou o preço. Jesus Cristo veio ‘para salvar o que estava
perdido’
(MT 18:11)
A libertação total ou remorso é praticamente inexistente
a partir do momento em que se segue o principal preceito, Amar a Deus
sobre todas as coisas independentemente de seu credo
religioso.(Freud,1913)
Sob a perspectiva de que falamos sobre três
instituições: família, religião e ambiente laboral, em âmbitos
diferentes, que são atravessados pela primeira instituição, de forma
excessiva, pois, há legitimação da conexão de ambas, visto pelo fato de
ser uma empresa de ensino superior guiada por uma doutrina religiosa
‘dirigida’ por professores (de filiação e formação tradicional), com
ênfase na formação de docentes que zelam por princípios (re) afirmados
dentro do ambiente acadêmico, limitando o olhar sobre o diferente, e
pensando, a longo prazo, na colaboração instituir um padrão de certo e
errado,reprimindo desejos, incentivando a tradição de uma família
nuclear, excluindo e culpabilizando o futuro aluno, por não estar
padronizado e criando na religião a saída para a resolução das
conflitivas.
Conhecendo um pouco, dos diferentes conceitos de família,
fazendo um pequeno debate sobre a questão da culpa e sua ligação com a
família e entendo que a família humana se reinventa permanentemente,
mantendo-se desde os inícios dos tempos, como uma instituição
insubstituível para nossa própria constituição de sujeitos humanos.
Utilizei o viés psicanalítico em função de que os
escritos de Freud, se fundam na origem da família, bem como a moral
religiosa e sua doutrina de remissão dos males e pecados, aliviando a
culpa de desejos, ações e sentimentos inconscientes. A ligação que fiz
com a organização se deu pelo fato de ser uma instituição familiar, com
relações hierárquicas familiares, que envolve uma moral e doutrina
religiosa, primando pela educação (não é em vão que a equipe diretiva é
constituída por professores) e pela constituição familiar tradicional
onde os costumes, crenças e religiosidade são evidenciados e primados a
todo o momento.
A FAMÍLIA E AS INTERAÇÕES
Entendendo que a família, originou-se firmada em um
conceito religioso, passando por diferentes interpretações e adaptações,
a partir da experiência dentro do estágio de psicologia do trabalho, foi
realizada uma leitura acerca dos circuitos de interação social do
estabelecimento de ensino superior, levando em consideração o fluxo de
pessoas que lá circulavam.
Neste sentido, as interações que a família estabelece
deve manter a homeostase, sendo (re) significada, mesmo numa instituição
repressora e interventora, como a família. Tende a se reproduzir alguns
comportamentos a fim de garantir a hegemonia e a continuidade dos
costumes familiares, e a partir daí os afetos bons ou ruins dela
provindos se produzem. Neste momento o princípio de atuação é captado
por alguém da família que ao pressentir possíveis agentes externos faz
com que esta interação seja cortada pela raiz.
Nesse sentido, a família é um organismo que seleciona e
qualificam as experiências do indivíduo, dando-lhe condições para
vivência individual e social, por intermédio de noções fundamentais como
procriação, cuidado com a saúde, criação e aperfeiçoamento de pautas
sociais e culturais.
EMPRESA FAMILIAR
Em um primeiro momento o comercio primitivo
se alia às relações familiares existentes, sendo que a renda circulava
entre os membros da família.
A família foi mudando de feições, suas regras de
constituição foram se alterando, surgindo novas modalidades de vida em
sociedade que, acrescidas de uma série de outros fatores, criando outras
necessidades para além das que o grupo familiar pode suprir, dando
origem a uma nascente indústria, a um sistema de compra e venda sistema
que viria a ser a atividade comercial. (Engels,1995)
A mulher se converte na primeira criada e foi afastada da
participação na produção social. Só na atualidade é que a grande
indústria lhe abriu oportunidades. Mas isso fez com que a mulher que
trabalha fora tenha uma rotina dupla de trabalho ou opte, pelos deveres
com sua família ou se dedique ao seu trabalho integralmente. Da mesma
forma que na fábrica, acontece o mesmo com a mulher em todos os ramos de
atividade. Relacionando a empresa, seria a comunidade regida pela
suprema administração do dono da casa (domacin),aqui ligada a figura da
Diretora Geral da instituição, , que a representa diante do mundo
exterior, tem o direito de alienar objetos de menor valor,administra as
finanças, é responsável por elas, assim como pelo bom andamento dos
negócios. É eleito e, para isso, não precisa ser o mais idoso. As
mulheres e o seu trabalho estão sob a direção da dona da casa(domaica)
que costuma ser a mulher do domacin. O chefe da família, ou no caso da
instituição, presta contas a essa assembléia e é ela que toma as
resoluções decisivas, ministra a justiça entre todos os membros da
comunidade, decide sobre as compras e vendas mais importantes, sobretudo
aquelas referentes a terras, etc.
A comunidade familiar patriarcal adquire agora, com a
posse em comum da terra e seu cultivo também em comum, um significado
totalmente diferente do anterior, pois agora começam a cuidar e a
investir em seu patrimônio, que lhes será entregue por direito.
Com o poder patriarcal os filhos, dentro de um estágio de
transição, ou seja, são os filhos quem irão partilhar e cultivar as
terras, ao ofício, os bens e de certa forma dará continuidade a
linhagem. Torna-se uma questão de proteger a honra da família, através
das possibilidades de aumentar a lucratividade do capital que fora
investido inicialmente e também na expansão e reconhecimento da empresa.
A PRODUÇÃO DO NADA NA INSTITUIÇÃO
Através da revisão bibliográfica, e conversas informais,
pude visualizar que ocorreram mudanças físicas, em função da finalização
da parte física do novo polo regional do empreendimento, logo se iniciou
toda uma (re) estruturação e otimização do espaço físico, a fim de que
todos estejam “treinados” para como deverá funcionar, a nova modalidade
de melhorar as praticas laborais e funcionais dentro da instituição em
questão.
Dentre as observações cabe salientar, algo não comentado
durante a primeira etapa do estagio profissionalizante, em todos os
cursos do polo acadêmico é obrigatório que os estudantes tenham o
componente curricular de Cultura Religiosa, desde que se tenha bem claro
que a religião sempre está ligada à família. E família sempre trabalha
em negócios seculares. E porque não a educação?
No que tange a instituição e a interação com alguns
funcionários, notei certa tolerância por parte da equipe diretiva em
relação a algumas pessoas, em especial as pertencentes às famílias de
tutores, acadêmicos. Inclusive em relação a minha presença, já que era
“conhecida” da equipe, propiciou de certa forma dar “seguimento”. O
mesmo não aconteceu com os outros acadêmicos que fizeram estágio de
psicologia escolar, não faziam parte do ‘círculo de familiar’ ali
estabelecido, sendo assim não tiveram o mesmo êxito no sentido de
permanecer com suas propostas.
A respeito da intervenção do psicólogo dentro da
instituição, em especial, a do referido estágio, experimentei a questão
da não valorização, pois sempre que algo era pontuado ou assinalado
acerca de pertinências do ambiente laboral, sempre recebia a resposta,
“ah, mas isso, nem precisava, um psicólogo
falar” (cic).
“Este lugar do
psicólogo-analista é, portanto, aquele que se reveste da condição de
assimilar, pontuar e interpretar as defesas às fantasias e as ideologias
dos grupos. Somente em condições privilegiadas o profissional psicólogo
poderá fazer Psicologia Institucional. Isto porque raras são as vezes
que se contrata um psicólogo como assessor ou consultor. Via de regra
ele é um técnico empregado da organização” (Bleger,1984)
Ou seja, nunca conseguiria ter êxito em qualquer
atividade proposta já que a relação de poder existia, talvez não na
configuração necessária, pois pelo fato de estar “familiarizada” com o
contexto, logo nunca fui ‘vista’ como uma simples técnica, incapaz de
propor qualquer mudança. (Guirado apud Lapassade,1977). Para Bleger(1986)
o que inviabiliza a intervenção institucional é a questão do quão
integrado o psicólogo pode estar, ou seja, ele exerce qualquer outra
função que não a de psicólogo institucional, por isso o psicólogo
institucional , é geralmente alguém de fora da instituição, um
consultor.
Segundo Guirado o psicólogo deve contar sempre com a
presença de resistência (explicita ou implícita), ainda que da parte
daqueles que manifestamente o aceitam. Estes conflitos de que o
psicólogo é depositário não deveriam ser considerados índices de
patologia porque se apresentam como novo, o desconhecido, ou melhor,
representam a ocasião de alteração das estereotipias nas relações
institucionais.
O adoecimento da instituição não está em ter conflitos e
sim em não problematizá-los, o psicólogo surge como um auxiliar na
produção de insights dentro do local em questão, pois é necessária a
mobilização. Pensando neste aspecto, vejo que minha tentativa frustrada
de propor algum trabalho a fim de mobilizar, funcionários, equipe
diretiva e tutores caiu por terra no momento em que não foi explicitada
mesmo que precariamente um pedido se quer de intervenção, pois dentro
deste enquadre percebe-se que os “ataques” e “boicotes” eram eminentes.
Em uma perspectiva mais primitiva, questiono, quem
gostaria que um vizinho adentrasse sua casa e começasse a propor
modificações na rotina familiar? Num primeiro, momento o dono da casa
seria delicado e até ouviria as sugestões sem muito apreço, tampouco lhe
passou pela cabeça de fato alterar seu ambiente que talvez até lhe
remeta a questões pessoais. Em um segundo momento, o dono da casa será
um tanto mais enérgico sendo indiferente, as sugestões do vizinho que
aponta para as ranhuras existentes nas relações estabelecidas ali.
O que o dono da casa, de certo modo propõe ao vizinho é
contemplar que mesmo não valorizando estas pontuações realizadas pelo
vizinho, as relações se mantém se estabelecem de formas diferenciadas
propiciando transformações,criações e subjetivações das mais variadas
formas.
Sendo assim a comunicação entre os funcionários se dava,
por mais que não conseguissem ter acesso, existia uma via de escoamento
de angústia, as conversas intervalares, ou seja, quando nenhuns dos
chefes estavam presentes. E através destas conversas ditas informais
coletei dados formais suficientes para sinalizar que o grupo constituído
mesmo que esporadicamente produzia tanto ou mais diferentes formas de
resistência à instituição. Outro ponto, que senti também foi não ter
montando em conjunto com eles um grupo para conversar questões
referentes à questão do trabalho e dos trabalhadores. No entanto
escrevendo este artigo, começo a me perguntar, mas e quem disse que eu
não participava de um grupo, de certa forma organizado já que tinha
horário para encontro (horário do intervalo dos superiores), tinham
assuntos e temáticas pré – definidos e eu pontuava levemente, a única
diferença é que não havia exatidão no tempo dispensado às “trocas de
idéias”. Porque não consegui pensar em um grupo diferenciado, um
grupo sincrético? Porque é mais bonito pensar um grupo com funcionários
devidamente dispensados para aqueles minutos e devidamente sentados,
esperando eu iniciar a dinâmica?
E parando pra (re) pensar, quem disse que uma empresa
necessita desta articulação entre um grupo diferenciado e um grupo
organizado, porque não consegui ver a empresa, como um grupo só? E
porque os funcionários deveriam se mobilizar e falar o que não lhes
agrada? Será que desta forma não quebraria a homeostase da organização.
Talvez seja este não falar, que sustenta mesmo que frágil a relação
entre chefes – funcionários?
O que este não falar matinha e o que o mal estar causado
por coisas não ditas potencializou? Lembrando-me da funcionária da
limpeza, quando a questionei em relação ao não falar, “...a gente
engole muito sapo, né J.? às vezes é melhor não falar, sabe como é...
tenho filhas e o emprego não ta fácil...às vezes é melhor ficar quieta”
(cic)
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ressalto nesta finalização do artigo a angústia da ‘não
produção’ concreta, ou seja, é sofrida a idealização de um trabalho
efetivo munido de resultados efetivos. Mas que de certa forma ignoramos
muitas vezes as pequenas modificações que a simples presença do
psicólogo e da avaliação institucional bem como um estudo sócio
histórico contextualizado de acordo com a realidade da instituição em
foco.
Despertando o interesse em outros autores, que em alguns
momentos no esquecemos de utilizar e nos despertam curiosidades sobre
teorias e contextualizações há muito “esquecidas”.
O sentimento de impotência frente à não realização de
trabalhos significativos ou mesmo palpáveis dentro do local de estágio,
tornou-se constante transparecendo a fragilidade do saber operacional e
da necessidade de movimento, a partir daí criou-se à produção do nada.
Mesmo o nada é uma produção, tem corpo, face,
instiga, no faz pensar a seu respeito, pois é uma existência, possui uma
essência, há um envolvimento teorizado, é construção, problematização, é
um processo de subjetivação, pois há afetamentos, atravessamentos,
questionamentos e nem tantas respostas.
Dentro das produções do nada, uma foi
deliberadamente salientada, a produção de conhecimento e os aspectos
reflexivos dele provindos.
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