|
RESUMO
A elaboração quanto à
compreensão do que seja o conceito de saúde é uma busca constante da
ciência. Como para todo e qualquer conceito, o entendimento sobre o que seja
saúde é um processo dialético de desenvolvimento, onde atuam forças que a
tornam uma compreensão mutável e sócio-historicamente determinada. Nossa
busca está em abordar dialeticamente o conceito de saúde, como superação à
herança positivista, aos reducionismos e mecanicismo que entendem a
constituição humana como um ser social cultural e histórico, condicionado
pela totalidade do ambiente ao qual se relaciona.
Palavras-chave:
saúde, abordagem dialética, totalidade, ambiente, ser humano.
RESUMEN
El
desarrollo
en la
comprensión
de lo que
el
concepto de
salud
es una
búsqueda
constante
de la
ciencia.
Al igual que con
cualquier
concepto,
la
comprensión
de
lo que
la salud es un
proceso
dialéctico
de
desarrollo,
donde
las fuerzas
de trabajo
que conforman
la comprensión
y el cambio
socio-históricamente
determinada.
Nuestra
misión
es
hacer frente a
la
concepción dialéctica
de
la salud,
tales
como
la superación de
la
herencia
positivista,
y
el reduccionismo
mecanicista
al
entender que
la constitución humana
como
una
historia
social
y
cultural,
condicionada
por
la
totalidad
del
medio ambiente
a
que se refiera.
Palabras clave:
la salud,
el enfoque
dialéctico,
la
totalidad,
el medio ambiente, el ser humano.
A elaboração quanto à compreensão do que seja o conceito de saúde é uma
busca constante da ciência. Essa busca geralmente se apóia em um modelo
explicativo de saúde, como forma de instrumentar ações de assistência, que
direcionem as condutas dos profissionais da área, tendo em vista a
uniformização da assistência em saúde sob a forma de atendimento
igualitário.
Como para todo e qualquer conceito, o entendimento sobre o que seja saúde é
um processo dialético de desenvolvimento, onde atuam forças que a tornam uma
compreensão mutável e sócio-historicamente determinada. Desse modo, a
saúde deve ser vista em suas configurações dinâmicas em processo de
mudança e evolução, o que gera um grande paradoxo aos sistemas
reducionistas-mecanicistas de saúde vigentes (CAPRA, 1988).
Hipócrates, médico e filósofo grego freqüentemente associado ao termo “pai
da medicina” superou o condicionamento divino da relação saúde-doença,
conferindo-lhe um caráter científico. Suas obras fornecem uma série de
descrições clínicas pelas quais se pode diagnosticar doenças, além de
escritos sobre anatomia.
Desde este importante pensador a saúde vem sendo submetida ao modelo
cartesiano de ciência, baseado em uma visão linear da saúde, já que implica
quase sempre nas relações de adaptação/desadaptação, ou
equilíbrio/desequilíbrio dos seres humanos em relação a um meio externo que
tende a perturbar sua harmonia. Esta visão linear da saúde-doença supõe duas
formas de estado: a adaptação ou o equilíbrio como a condição de saúde, e ao
contrário: a desadaptação ou o desequlíbrio como a condição de doença. Isso
condiciona o ser humano a padrões que oscilam entre a normalidade e o estado
patológico.
Aqui nos aproximamos do pensamento de Georges Canguilhem (2007), quando, em
discordância ao modelo positivista que vem conduzindo a epistemologia na
medicina, entendemos que esta oscilação entre o normal e o patológico não se
expressa em termos quantitativos, mas sim qualitativamente, sempre em
relação a um meio ambiente que influencia a vida e a convoca a lutar para
manter-se em estado de saúde.
É preciso que façamos um esforço na direção de compreender a saúde como o
processo da vida, pois é assim que ela se apresenta na consciência das
pessoas. Sendo assim, na visão do doente, a doença é realmente uma forma
diferente de vida. Citando Leriche em seus escritos traz Camguilhem: “A
saúde, diz Leriche, é a vida no silêncio dos órgãos” [73, 6.16-1]. De forma
inversa, a “doença é aquilo que perturba os homens no exercício normal de
sua vida e em suas ocupações e, sobretudo, aquilo que os faz sofrer” [73,
6.22-3].
Encaminhando a compreensão da saúde como o próprio processo da vida
Camguilhem nos lembra que “a medicina existe porque há homens que se sentem
doentes, e não porque existem médicos que os informam de suas doenças”
(p. 59). O autor nos conduz a entender como a doença, assim como a
saúde, compreendidas pela consciência humana, representam a própria vida nas
manifestações de risco à existência, sofrimento, ou de normalidade, ausência
de preocupação, respectivamente. Interessante notar que, na
representação do indivíduo, “o estado de saúde apresenta-se como a
inconsciência de seu próprio corpo. Inversamente, tem-se a consciência do
corpo pela sensação dos limites, das ameaças, dos obstáculos à saúde”
(p. 57).
Ou seja, na vida em harmonia, o estado de saúde, o corpo passa desapercebido
pela consciência humana. A saúde, caracterizada na inaparência do nosso
organismo, leva-nos a uma visão de vida “normal”. Ao contrário, a presença
de dor, calor, paralisia, o sofrimento do corpo que grita e pulsa pela
doença, faz-nos, enquanto seres ontologicamente em busca da felicidade,
notar a existência do corpo, dos órgãos, dos mecanismos e das funções
fisiológicas, como uma “vida diferente”, pois o sofrimento nos faz crer que
algo ameaça a vida, limita-a, desarmoniza-a.
A compreensão que temos da dialeticidade da relação saúde-doença não nos
permite concordar com o modelo cartesiano, já que, por meio de uma visão
linearizada, este tende a excluir relações de interdependência que estão
muito mais próximas de uma compreensão de totalidade da saúde e do ser
humano, do que de uma compreensão reducionista e fragmentada de ambos.
O modelo cartesiano de ciência sob o qual surgiu a abordagem científica da
saúde subdividiu o ser humano em sistemas, e seu enfoque voltado ao
diagnóstico e tratamento das doenças (o estado de desequilíbrio). A visão de
totalidade a qual estamos trazendo não pretende reduzir-se ao aspecto da
remediação, mas busca as causas que influenciam os processos de
saúde-doença. É possível supor que esta abordagem em saúde aproxima-se de um
modelo preventivo[i].
Temos uma tendência, que parte do nosso fundamento teórico-metodológico, a
enxergar a saúde numa perspectiva dialética, quando os diversos elementos
que constituem o sujeito participam, por meio da existência de contradições,
no estabelecimento da saúde ou da ausência desta, a doença. Partindo de uma
concepção de ser humano em sua totalidade, não podemos considerar somente o
aspecto orgânico, a biologia do indivíduo, mas também os demais fatores que,
em maior ou menor grau influenciam os processos de saúde e doença em cada
sujeito.
A autora Bader Burihan Sawaia, em seu texto “O sentido ético-político da
saúde na era do triunfo da tecnobiologia e do relativismo” (2003, p. 83 in
GOLDENBERG; MARSIGLIA e GOMES), de certa forma vem afirmar o que foi dito,
quando coloca que:
É
preciso revolucionar a ontologia da saúde e da doença, concebendo-a como um
processo dialético em que o subjetivo e o objetivo, o ético e o biológico
nem estão cindidos, nem se confundem, mas se dilaceram, acrescentam-se,
identificam-se e superam-se ao mesmo tempo.
Ao colocar nesta sua escrita o que a autora vem chamar de o sentido
ético-político da saúde, a mesma traz uma crítica ao sentido dado à saúde
num contexto neoliberal, que, ao contrário de utilizar as biotecnologias
para promover a felicidade e a emancipação, faz uso desta para a
disciplinarização desumanizadora.
Um ponto importante discutido pela autora ainda é o questionamento aos
modelos tradicionais de medicina, os quais tendem a focar o aspecto orgânico
na constituição do sujeito, defendendo o confinamento da saúde ao
funcionamento biológico. Nesse sentido é sugerida uma abordagem que
considere a saúde em sua complexidade, com ênfase na importância das forças
sociais e culturais, sem, contudo negar o elemento orgânico desta. Isso
significa dizer que saúde e doença não são determinadas apenas pelo aspecto
biológico, à função ou disfunção orgânica, mas envolvem também, em
importância compatível, os condicionantes sociais e culturais.
A atenção individualista, a centralização do cuidado aos aspectos
específicos das doenças e suas manifestações biológicas e psíquicas, pode
relegar ao segundo plano, ou mesmo esquecer a saúde no seu sentido amplo,
que traz consigo todas as causas que influenciam no processo de “estar
saudável”, bem como implica na reflexão que leva ao conhecimento das razões
do adoecimento. Nesse sentido, os autores Granda e Breilh (1989, p. 7) nos
atentam para um dos maiores obstáculos quando se trata de investigação em
saúde: “a maior dificuldade reside em passar de uma investigação que
prioriza o objeto de estudo individual a outra onde o objeto é coletivo e,
consequentemente, o modelo é social”.
Focar no aspecto biológico, clínico da doença é necessário para que possamos
reconhecer os sintomas e os sinais indicativos que nos levam ao diagnóstico
de determinadas doenças. Porém, é preciso ter em mente que, diante da
totalidade do ser humano, o qual também reflete a totalidade de seu mundo,
que é uma totalidade complexa em seu sentido dialético, não podemos
permanecer restritos à causa orgânica, mas precisamos compreender o
movimento de expansão desta causa restrita para outras causas que fogem ao
“olhar” biomédico, e que encontra nos condicionantes sócio-culturais
influência importante para a dinâmica saúde-doença.
Falamos nos aspectos naturais, sociais, culturais, mesmo sem comentar sobre
a totalidade relativamente particular que cada um deles constitui, o
conjunto de relações envolvidas, que são próprias destas esferas. É possível
dizer que estes aspectos constituem o ambiente próprio da experiência humana
no mundo. Essa nossa compreensão de ambiente, enquanto um complexo conjunto
de relações interdependentes, porém relativamente autônomas abre espaço a
uma abordagem preventivo-educativa da influência ambiental nas relações de
saúde-doença.
Partindo do princípio de que a saúde dos seres humanos depende diretamente
da qualidade, ou da salutabilidade de seu meio, é possível operacionalizar
ações em saúde preventiva no sentido de tornar as condições materiais do
ambiente - e não somente o ambiente ocupacional, do trabalho, mas o ambiente
onde vivem cotidianamente as pessoas - adequadas para que seus habitantes
possam ter saúde.
Existem inúmeras condições que contribuem para a deterioração da
salutabilidade dos ambientes onde vivemos, ou de ambientes particulares,
como aqueles relacionados a um determinado trabalho, por exemplo. Podemos
exemplificar o exposto com as diversas formas de poluição: do ar, da água,
do solo, poluição sonora e visual, que ao contaminarem os ambientes
constituem causas potenciais para o comprometimento de nossa saúde.
Em relação ao
ambiente particular do trabalho, temos também fatores que comprometem a
saúde daqueles que desenvolvem suas atividades laborais. Como exemplos
podemos citar os riscos de ocorrência de acidentes de trabalho, as diversas
formas de contaminação, e insalubridade associada às próprias relações
interpessoais estabelecidas neste ambiente particular.
Também nos ambientes da vida cotidiana, que não apenas os
relacionados ao trabalho, encontramos elementos prejudiciais ao
desenvolvimento humano e à saúde dos mesmos. Além das diversas formas de
poluição, e fatores associados ao condicionamento social e cultural, como
falta de condições adequadas de existência, a exemplo de saneamento básico,
água encanada, moradia, alimentação, temos uma preocupação mínima ou mesmo
inexistente com seres humanos, esquecendo que sem estes não há sociedade e
não há humanidade.
Finalmente, nessa prática necessária de valoração do humano, é
preciso enfatizar que as ações no âmbito da saúde ambiental não devem estar
voltadas simplesmente à assistência da população, com programas muitas vezes
questionáveis de assistencialismo que nada contribuem para a resolução dos
conflitos e suprimento das necessidades reais da população em determinados
contextos ambientais. Nesse sentido é que a atenção preventiva e educativa
se faz necessária, como forma de levar a uma melhoria eficaz nas condições
de saúde das populações beneficiadas.
[1]
Modelo de abordagem em saúde desenvolvido por Leavell e Clark (1976) por
meio do que se convencionou chamar de história natural da doença. Esse
modelo admite que a influência do meio ambiente enquanto causa externa pode
contribuir para o desenvolvimento de doenças, do qual se supõe que o mesmo
afeta, desta forma, o processo de saúde dos sujeitos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CANGUILHEM, Georges. O normal e o patológico. [tradução de
Maria Thereza Redig de Carvalho Barrocas] 6 ed. Ver. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 2007.
CAPRA, Fritjof. O Ponto de mutação. 7. ed. São Paulo: Cultrix, 1988.
CLARK, E. G.; LEAVELL, H. R. Medicina Preventiva. São Paulo:
McGraw-Hill, 1976.
GRANDA, E.; BREILH, J. Saúde na sociedade. 2.ed. São Paulo: Cortez,
1989.
LERICHE, R. Introduction générale; De la santé à la
maladie; La douleur dans les maladies. Où va la médecine?
In: Encyclopédie française, t. VI, 1936. In
CANGUILHEM, Georges.
O
normal e o patológico.
[tradução de Maria Thereza Redig de Carvalho Barrocas] 6 ed.
Ver. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007.
*
Licenciada em
Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) e
Mestranda da Pós-Graduação em Educação Ambiental da Universidade Federal
do Rio Grande (PPGEA-FURG). E-mail: andreisadamo@yahoo.com.br.
|