Resumo: A proposta do presente
texto é de apresentar os principais elementos da fenomenologia de Edmund
Husserl. Com esse fim, deter-se-á sobre os princípios básicos de
fenomenologia, trazendo-os à luz da clarividência. Tratando unicamente
dos princípios gerais da fenomenologia husserliana, ater-se-á à primeira
e segunda meditações de Meditações Cartesianas.
Palavras-chave: Husserl;
fenomenologia; princípios.
Abstract: The
purpose of this paper is to present the main elements of the
phenomenology of Edmund Husserl. To this end, stop will be on the basic
principles of phenomenology, bringing them the light of clarity. Being
only the general principles of Husserlian phenomenology, stay will be
the first and second meditations Cartesian Meditations.
Keywords: Husserl, phenomenology;
principles.
Introdução: a proposta de
uma fenomenologia
Oriundo do mundo das ciências,
Husserl aponta a necessidade de algo que possa fundamentar também a
filosofia como uma ciência autônoma. Ora, os princípios científicos não
eram os mesmos da filosofia. Entretanto, para Husserl, cabe à filosofia
o papel de ser a mais rigorosa de todas as ciências, sendo a única que
possibilita chegar à verdade das coisas. Para Husserl, em primeiro
lugar, o projeto de dar à filosofia o caráter de ciência legítima
necessita de um fundamento sobre o qual possa se erigir, ou seja, um
princípio originário e um método para chegar a ele.
O saber fundamentado não pode
ser posto em dúvida, é evidente por si mesmo. Assim, o papel da
filosofia é a busca pelas evidências. Nesse sentido, a fenomenologia
aparece como a proposta de um método capaz de partir das evidências e
alcançar o nível das essências, ou coisas mesmas. As essências são as
verdades primeiras em si, únicas capazes de suster o edifício da ciência
universal. Em todos os modos de redução, persiste a busca pelas
essências, o fundamento. Uma vez certos de que o objetivo de tornar a
filosofia uma ciência rigorosa pode ser alcançado, torna-se preciso o
total despojamento de todo o conhecimento científico erigido até então,
a fim de atingir as evidências em si, as evidências que tragam o sentido
absoluto do objeto em questão, sem dar margens para questionamentos e
desconfianças posteriores.
Tal evidência, segundo Husserl, deve
trazer em si a idéia de perfeição absoluta. Torna-se esse o pressuposto
necessário para levar à cabo a idéia de uma edificação da ciência
adequada, bem como da implantação de um método filosófico seguro. Daí a
implantação do famoso imperativo da fenomenologia: “Zu den sachen
selbst.” – vamos às coisas mesmas. Somente partindo das coisas
mesmas, clarificadas pela evidência, tornar-se-á possível alcançar a
adequação da ciência. Para tal, o método fenomenológico propõe a
suspensão, ou epoché, de todos os conhecimentos anteriores à
evidência, que, por ventura, poderiam atrapalhar o processo do
conhecimento do objeto. Suspender significa fazer a redução, deixar de
lado, a fim de alcançar a evidência mesma. De modo sistemático, como
primeira redução está a proposta de eliminar todos os pressupostos da
ciência e da filosofia, ao que se denomina por redução filosófica ou
gnosiológica.
Por conseguinte, nossa percepção sempre
traz consigo uma tese, a tese da atitude natural. Entretanto, o que é
evidente é o objeto enquanto é pensado. Torna-se necessário, de igual
modo, realizar a suspensão do mundo enquanto evidência ao sujeito que
pensa e assim, não assumir nenhuma concepção de modo ingênuo, pondo em
suspenso todas as impressões do mundo. Trata-se da redução
fenomenológica. Em todas essas reduções, persiste a redução eidética.
Reduzimos o singular para esclarecer as evidências. No fim das contas,
sempre persiste a busca pelas essências, manifestas pelas evidências.
Enfim, ao suspendermos o mundo resta a consciência que o pensa; ao
suspendermos as idéias, restam as essências; de igual modo, ao
suspendermos o próprio eu pensante, resta uma estrutura anterior, o eu
transcendental. Trata-se da redução transcendental. Basicamente,
seguindo esse percurso torna-se possível alcançar as evidências em si
mesmas e, assim, suster o edifício da ciência universal. Esse é o
propósito da fenomenologia, seu ideal e meta.
Desdobramentos básicos da
fenomenologia Husserliana
Como se viu, o conceito de evidência é
norte para toda a abordagem fenomenológica. Quando o objeto se torna,
ele mesmo, presente na consciência, aí está a evidência. Dessa forma,
por evidência entende-se a apropriação que a consciência faz de um
objeto. Ora, a consciência sempre visa um objeto. Em alemão, Husserl
utiliza o termo meinen, ou seja, visar, apropriar-se, tomar para
si, assumir. Quando a consciência se intenciona rumo a um objeto,
assume-o. Assim, a clareza do objeto na consciência torna-se sua
evidência dele. Entretanto, tais evidências não se dão de igual modo,
bem como não ocupam o mesmo lugar em sua exposição para a consciência.
Estruturam-se sob a forma de uma hierarquia, sendo que existem a certeza
absoluta e a indubitabilidade absoluta. Em primeiro lugar, está a
evidência adequada, como maior grau de evidência possível para a
consciência. A evidência adequada é a verdade por completo; em sua
totalidade revelada à consciência. Na percepção, como um dos atos da
consciência, nunca será possível alcançar a evidência adequada; a
percepção é sempre inadequada.
Por conseguinte, existe outro
tipo de evidência que se apresenta à consciência, trata-se da evidência
apodítica. Por evidência apodítica, entende-se aquela que parte tanto da
intuição quanto da reflexão. Partindo da intuição, como princípio de
apropriação do objeto em questão, torna-se necessário submetê-lo à
reflexão. Ora, a evidência apodítica é aquela que, submetida à reflexão,
conclui que os estados de coisa não poderiam ser diferentes daquilo que
manifestam; não representa a certeza absoluta, como a evidência
adequada, mas afirma o mais alto grau de indubitabilidade. Como primeira
evidência apodítica está a certeza do sujeito que pensa – o eu pensante.
Tal certeza não pode ser posta em dúvida. Desenvolvendo sua análise,
Husserl descobrirá que nem mesmo a evidência do mundo como tal, pode ser
tida como evidência apodítica. Também os atos da consciência possuem
evidências que são apodíticas. Como disse, a percepção nunca é adequada,
sempre será inadequada. Trata-se de uma característica da percepção, da
qual não se pode duvidar. Nisso, ser sempre inadequada é uma evidência
apodítica da percepção, como ato da consciência.
Por conseqüência da redução
fenomenológica, chega-se ao encontro do ego puro e suas cogitationes.
Como afirma Husserl, “se queremos fundamentar as ciências de maneira
radical, a evidência do mundo que a experiência nos fornece necessita de
qualquer forma de uma crítica prévia de sua autoridade e de seu
alcance.” (1 Med. § 7) Uma vez que tal processo seja instaurado,
encontra-se o ego transcendental, o eu que pensa as coisas do mundo. O
ego puro é aquele que pensa o mundo; nele o próprio mundo se encontra. O
que mais poderia ser o mundo senão o conjunto dos sentidos? Ora, o mundo
é o horizonte máximo de nossas sínteses. Pensar um sentido pressupõe
pensar a consciência, o sujeito transcendental, o pensamento. Nisso, o
empirismo nunca alcançou a totalidade, pois sempre permaneceu esquivo à
realidade da consciência como fundamento para pensar o mundo. Minhas
impressões do mundo sempre trazem consigo sentidos, que estão em mim, em
minha consciência. Ora, o objeto percebido está sempre em relação com a
consciência que o visa. Desse modo, “o mundo não é para mim outra coisa
senão o que existe, e vale para minha consciência num cogito
semelhante.” (Ibidem.)
Todo o sentido universal ou particular,
toda a validade da existência é, por sua vez, retirada dessas
cogitationes. Nas cogitationes do ego puro transcorre toda e qualquer
vida intramundana. Sem elas o eu não poderia viver, experimentar a
realidade, julgá-la, pensá-la, pois todas essas atitudes são atos da
consciência. Voltar-se para essa vida, colocando o mundo como existente,
de modo exclusivo para essa vida em si, segundo Husserl, é o mesmo que
encontrar-se com o ego puro e suas cogitationes. Assim, afirma Husserl
categoricamente que “o domínio de existência natural, portanto, só tem
uma autoridade de segunda categoria e pressupõe sempre o domínio
transcendental.” (Ibidem.) Assim, se a epoché que põe em suspensa
a existência do mundo como tal, descobrindo o eu que pensa como
primordial, denomina-se redução fenomenológica, à constatação da
existência de um ego puro, transcendental, e suas cogitationes como
pressuposto para a própria existência do mundo natural, Husserl evoca
pelo título de redução fenomenológica transcendental.
De modo especial no § 14 de suas
meditações, Husserl apresenta a corrente das cogitationes e sua
importância diante da compreensão da estrutura da consciência. Tendo por
base a estrutura da consciência, ego-cogito-cogitatum, podemos
concluir que a consciência sempre é consciência de algo. Diante desse
caráter bipolar, a saber, o fato de a consciência ser sempre consciência
de um objeto, o processo de intencionalidade torna-se o condutor
fundamental para todos os atos da consciência em sua atitude de visar.
Não se trata, portanto, de um eu que reflete de modo isolado dos objetos
do mundo e nem mesmo de que os objetos simplesmente se encontrem como
produtos duma consciência unilateral. Ora, a consciência sempre é
consciência de algo. Segundo Husserl, quando penso, penso sobre alguma
coisa. Não há um pensamento desprovido de alguma relação com o objeto.
Na verdade, o próprio eu que pensa se constitui a partir da relação com
os objetos. Desse modo, segundo Dartigues, o resultado da epoché
fenomenológica não é somente o eu penso, mas também o seu objeto de
pensamento, ou seja, não só o ego cogito, mas o cogito cogitatum. Disso
se constitui a estrutura da consciência, ego-cogito-cogitatum,
que não indica para um solipsismo do cogito, mas, de modo distinto, para
uma correlação entre o próprio cogito e cogitatum.
Tudo o que existe está na relação entre
os objetos e minha consciência. Diante disso, segundo Stegmüller, a
consciência em Husserl pode ser definida pelos seguintes aspectos: a
consciência como o entrelaçamento das vivências psíquicas empiricamente
verificáveis numa unidade de fluxo de vivencia; como percepção interna
dessas próprias vivências e como designação que resume todas as
vivências intencionais. Mais uma vez, vale dizer que a consciência é
sempre consciência de alguma coisa, ou seja, é aquilo que dá sentido às
coisas. Sendo a consciência o que doa sentido às coisas, o objeto de seu
viso, torna-se objeto intencional, ou seja, é sempre, segundo Dartigues,
um objeto para um sujeito. Assim, segundo Husserl, a intencionalidade,
entendida como a particularidade intrínseca e geral que a consciência
tem de ser consciência de qualquer coisa, de trazer, na sua qualidade de
cogito, o seu cogitatum em si próprio, é o que define o fundamento de
toda a corrente da consciência. Tal intencionalidade não visa somente à
idéia de objeto contida na consciência, nem mesmo à existência do objeto
em si mesmo, mas, de outro modo intenso, a essência de tal objeto, que
corresponde à representação transcendental do mesmo na consciência,
gerada pelo cogito e doada pelo cogitatum. A isso corresponde a proposta
de Husserl de um retorno “às coisas mesmas”.
Como vimos, a evidência se dá
quando o objeto se torna ele mesmo presente na consciência. Ora, a
consciência sempre visa um objeto. Desse modo, todo o processo de busca
pela evidência dos objetos toma como base a intencionalidade da
consciência. A intenção, por sua vez, se preenche pela intuição do
objeto. Por intuição ou indução entende-se o conhecimento imediato a
partir do contato com o objeto. O objeto se dá por ele mesmo;
estabelece-se a experiência com o próprio objeto. Segundo Husserl, na
percepção, como um dos atos da consciência, o objeto se dá “em carne e
osso”. A intencionalidade, desse modo, se apresenta como a principal
característica da consciência, que possibilita aos objetos aparecerem e
se manifestarem a ela. Com efeito, a consciência sempre é consciência de
alguma coisa. Quando percebo, imagino, penso ou recordo, eu percebo,
imagino, penso ou recordo alguma coisa. Daí, segundo Husserl, pode-se
perceber a diferença entre sujeito e objeto.
O sujeito é um eu capaz de atos da
consciência, como julgar, perceber, recordar; enquanto o objeto é o que
se manifesta a esses atos. Se a condição da consciência para com o
objeto é sempre a intencionalidade, tal objeto se denomina objeto
intencional, ou seja, aquele para o qual a consciência se intenciona.
Daí a diferença entre noese e noema. Como noese
entendem-se todos os atos da consciência em sua intencionalidade, ao
passo que o noema é o próprio objeto em questão, o objeto
intencional. A consciência sempre possui esse caráter bipolar. Sempre
parte de um de seus atos de consciência e sempre tem em vista um objeto
a visar. Desse modo, sempre que a consciência visa um objeto
transcendente a si mesma, a compreensão de tal objeto já está dada
imanente em si. Ora, não vejo sensações de cores, senão algo colorido,
não ouço sensações de som, senão a voz da cantora. Entretanto, tal
compreensão de colorido ou de som já existe de modo apriorístico em
minha consciência. O objeto enquanto pensado é um fenômeno puro. Os
objetos designativos formam parte do noema. É por eles que o objeto
encontra significado como objeto consciente. Segundo Fragata, «objeto
intencional» está, portanto, no prolongamento do «sentido objetivo» e,
por isso, transcende, em certo modo, a vivência, num pólo oposto ao «eu
puro». Esta «transcendência» efetua-se, porém, na imanência. O «objeto
intencional» difere portanto do objeto existente em si, exteriormente à
consciência. De «evidência apodíctica» é só a consciência do objeto, que
brota da apreensão imediata do «sentido noemático». A existência
exterior do objeto foi precisamente o que se pôs «entre parênteses»; não
se duvida dela, mas também não se considera filosoficamente. Desse modo,
pode-se dizer que o objeto intencional é imanente à consciência, sendo
distinto do objeto em si mesmo, exterior a ela. Do mesmo modo, torna-se
ele um pólo de identidade, pois não se confunde com a própria
consciência, permanecendo sempre um objeto para a mesma. É sempre
apresentado com um sentido pré-concebido e a ser realizado. Segundo
Husserl, “ele é, em cada momento da consciência, indicador de uma
intencionalidade noética que lhe pertence por seu sentido,
intencionalidade que podemos pesquisar e que pode ser explicada.” (1
Med. §19) Por isso defini-lo como um pólo de identidade.
Como é apontado por Husserl, o sentido
é maior do que cada ato visado; é o seu conjunto. Quando dizemos: “o que
é a mesa?” Em nossa resposta não diremos: “quatro hastes de madeira...”
Pensaremos o sentido como um todo. Pensaremos no conjunto subentendido
na palavra: mesa. O viso é o todo. O sentido sempre ultrapassa o
que é dado em cada cogito. Tais sentidos, por sua vez, se manifestam à
consciência através de dois modos distintos, a saber: o atual e o
horizonte. No modo atual está todo o sentido dado imediatamente no
objeto, o que ele é no momento presente. De certo modo, em sentido lato,
o atual é sempre parte do horizonte do que já foi pertencente às
possibilidades. Por outro lado, por horizonte, no sentido estrito,
entende-se o conjunto de possibilidade de sentidos no qual o objeto se
encontra envolto. O visar atual da consciência traz implícito o
horizonte potencial, o sentido. Desse modo, também os atos da
consciência se distinguem entre si no fato de pertencerem aos diferentes
modos de visar, atual e potencial. À percepção, cabe unicamente o modo
atual de visar o objeto. De outro modo, no horizonte potencial, se
enquadram os atos da consciência tais como a memória, a imaginação, a
lembrança... Tal é o papel do horizonte na fenomenologia que Husserl
chega a definir o mundo como o horizonte máximo de nossas sínteses – o
mundo implica tanto experiências empíricas, quanto éticas, religiosas e
assim por diante.
Em Meditações Cartesianas
Husserl não aborda com tanta profundidade a temática do horizonte,
apenas explanando-a nos §§ 9 e 19. Segundo Husserl, para além do núcleo
do ego cogito, existe um horizonte indeterminado, de uma
generalidade vaga, horizonte daquilo que, na realidade, não é objeto
imediato de experiências, mas somente o do pensamento, que,
necessariamente, o acompanha. A esse horizonte vago, segundo Husserl,
pertence o passado do eu. Por outro lado, na percepção externa o sujeito
percebe, no objeto que se apresenta, um conjunto aberto e infinito de
possibilidades indeterminadas que não são atualmente percebidas. A esse
horizonte de possibilidades, Husserl denomina espectro. A experiência
apodítica do eu transcendental permite perceber a implicação desse
horizonte indeterminado e aberto sobre si mesma. Na filosofia de
Husserl, a consciência desse horizonte é a garantia de que o eu
transcendental pode enganar-se a respeito de si próprio, e até mesmo de
até onde se estendem os dados absolutos e indubitáveis. Ao mesmo tempo,
a abertura a um horizonte possível é a garantia de que o ego cogito seja
capaz de alcançar evidências sempre mais precisas em sua aproximação com
o objeto de sua intencionalidade. Também no § 19, onde trata da
atualidade e potencialidade da vida intencional, Husserl trabalha a
idéia de horizonte. Segundo ele, cada estado de consciência possui um
horizonte que varia conforme a modificação de suas conexões com outros
estados e com as próprias fases de seu decorrer. É um horizonte
intencional, cuja característica é remeter a potencialidades da
consciência que pertencem a esse mesmo horizonte. Assim, como o próprio
nome já indica, os horizontes ou espectros são potencialidades
pré-traçadas. Mesmo sendo imperfeito enquanto possibilidade, possui uma
estrutura de perfeição. A existência desse horizonte já é um momento da
consciência, é parte dela.
Como se sabe, atribui-se ao fluxo da
consciência a possibilidade de apreensão dos objetos intencionais. Tais
objetos se apresentam numa multiplicidade de perfis, de modo a
necessitar de um elemento de unificação. Diante disso, a síntese aparece
com importância salutar, pois somente através dela instaura-se o sentido
na consciência. Em breves termos, a consciência é formada pelo conjunto
de sentidos, que por sua vez se estruturam como o todo das sínteses. Se
não houvesse síntese não haveria o sentido. A demonstração do cogito
como consciência de alguma coisa somente se institui graças à
possibilidade inata à própria consciência de fazer síntese. Somente pela
síntese são esclarecidos os atos da consciência. A tarefa das reduções
consiste, basicamente, em desfazer as sínteses da consciência; o
fenomenólogo mostra como as sínteses são formadas, bem como os elementos
que virão a ser unificados.
Ora, pensar a consciência significa
pensá-la como formadora de sínteses. Em primeiro lugar, Husserl aponta
para a existência da síntese passiva. Somente através de tal síntese a
consciência pode identificar os objetos. A síntese passiva apresenta-se
sob a forma da consciência interna contínua do tempo. O tempo é uma
síntese da consciência. Cada vivência possui uma duração. Tal duração,
por sua vez, apresenta-se sob distintas possibilidades: há a duração
objetiva, presente no próprio objeto; como também, a duração imanente à
própria corrente da consciência. Para Husserl, a consciência sempre atua
de modo a formar sínteses. Tais sínteses, por sua vez, devem ser
caracterizadas como uma pura passividade ou como uma atividade do eu.
Segundo o autor, mesmo as contradições e incompatibilidades são formas
de sínteses. Não obstante, assinala o filósofo, a síntese não é somente
o próprio de cada estado de consciência individual, bem como não liga
estados individuais a outros apenas de forma ocasional. Para Husserl,
“toda vida psíquica em seu conjunto é unificada de maneira sintética.”
Toda a vida é um cogito universal. Por isso afirmar o mundo como o
horizonte máximo de nossas sínteses. O mundo é o lugar de unificação de
todos os objetos. Como vimos, a consciência imanente do tempo é o que,
em suma, torna-se o fundamento para toda a forma de síntese universal.
Em última instância a consciência é esse fluxo absoluto de tempo. Não há
um tempo profundo, mas um fluxo absoluto. Disso se constitui o tempo da
consciência. O objeto percebido está sempre em relação com a consciência
que o visa. Não poderíamos, porém, apreender os objetos senão pelos
tempos da consciência, que os possibilitam ao todo. Tudo ocorre, porém,
sem a consciência do eu, de modo passivo.
De modo semelhante aos demais momentos
da filosofia, na fenomenologia de Husserl também se faz imprescindível a
clara distinção entre os termos transcendente e transcendental. De modo
explícito, Kant foi quem trabalhou a idéia de uma distinção entre tais
conceitos. Em Husserl, utiliza-se a mesma distinção feita por Kant,
dando a ela a devida aplicação no universo da fenomenologia. Em primeiro
lugar, pode-se dizer que enquanto o transcendental diz respeito
unicamente à consciência, o transcendente se refere às coisas do mundo.
Transcendente é tudo aquilo que se encontra no exterior do sujeito, no
externo de sua consciência. O mundo em si é o transcendente ao cogito.
Por sua vez, a idéia de transcendental forma-se tomando como pressuposto
a corrente da consciência: ego-cogito-cogitatum. Enquanto
existentes no mundo os objetos, árvores, casas, mesas..., são
transcendentes ao sujeito. Entretanto, em sua intencionalidade, a
consciência toma para si tais objetos, apreendendo-os em seus atos de
consciência, tais como a percepção e memória. O cogitatum é o objeto em
si, no exterior do ego, ao passo que no próprio cogito persistem
características desse mesmo objeto. De certo modo, na síntese, está ele
apropriado pela consciência. Enquanto presente na consciência torna-se,
esse objeto, um transcendental. Basicamente, pode-se definir como
transcendente tudo o que está fora de mim, ao passo que por
transcendental, entendem-se as idéias que tenho em mim dos objetos que
em si me ultrapassam. O mundo em si é um transcendente a mim. A idéia de
mundo presente em minha consciência é um transcendental por expressar a
detenção de um conhecimento que me ultrapassa.
Ao propor a novidade de sua análise
intencional, Husserl pretende distingui-la de toda análise no sentido
natural do termo. Para Husserl, o papel da análise intencional é o de
revelar as potencialidades implicadas nas atualidades da consciência.
Enquanto significação da coisa que visa, o próprio cogito se afirma em
seu caráter intencional. O cogitatum assume seu papel diante do próprio
cogito. Ao contrário de uma atuação unilateral, na qual prevalece a ação
do pensamento sobre o objeto, resignando-lhe à condição de passividade,
na ação intencional, também o objeto causa influência sobre o ato do
pensamento. Trata-se de uma atividade bipolar. Todo cogito é a
significação da coisa que visa. É a absorção de seu sentido. Somente
pela síntese o sentido se revela. Compreendendo a significação do objeto
que visa, o cogito atua de modo sintático sobre ele, retirando-lhe o
sentido. Ao mesmo tempo, não se limita, o objeto, à posição estática de
um sentido. Por seu horizonte de possibilidades, influi no próprio
cogito, inúmeras possibilidades de significação, que se concretizam e se
distanciam de acordo com a particularidade de cada ato de visar. Para
Husserl, essa superação da intenção na própria intenção deve ser
considerada como essencial a essa consciência. A novidade instaurada
pela análise intencional, consiste no fato de que, como intencional, tal
análise ultrapassa os estados singulares que são objetos de análise.
Segundo Husserl, explicando seus horizontes correlatos, a análise
intencional coloca os estados anônimos extremamente variados no campo
daqueles que desempenham papel fundamental na constituição do sentido
objetivo do pensado - cogitatum. Desse modo, não se referem,
unicamente, aos estados vividos atuais, mas também aos potenciais, que,
por sua vez, já se vêem implicados ou pré-traçados nos estados atuais.
Sendo assim, toda intencionalidade prescreve um horizonte. Em última
instância, a análise intencional da consciência definirá a relação entre
os atos mentais da própria consciência e o mundo exterior a ela. Tal
análise se denomina intencional por necessitar de um objeto sobre o qual
se intencione. Através do fluxo de sua síntese intencional, a
consciência poderá constituir a unidade noemático-noética do sentido
objetivo das coisas do mundo. Trata-se, segundo Husserl, do reino das
estruturas típicas, de natureza essencial, suscetíveis de serem
encerradas em conceitos rigorosos.
Conclusão
Um dos mais conceituados
filósofos do século XX, Edmund Husserl marca a história da humanidade
com a introdução de seu pensamento, de modo particular, com a construção
e desenvolvimento do método fenomenológico. Na introdução de suas
meditações, o próprio Husserl é quem afirma que “em nossos dias, a
nostalgia de uma filosofia viva conduziu a muitos renascimentos.” Prova
disso, é sua própria filosofia. Resgatar o pensamento cartesiano, não
significa adotá-lo em sua totalidade. Antes disso, deve-se tomar o que
de magnífico Descartes construiu, a saber, o retorno radical ao ego
cogito puro. Trata-se do caminho pelo qual percorreu a fenomenologia
transcendental; ao que, segundo o filósofo, somos convidados a percorrer
juntos. A partir da fundação do método fenomenológico, torna-se possível
garantir à filosofia seu caráter de ciência precisa.
De modo particular, chama-me a atenção
a profundidade do alcance do método fenomenológico diante da estrutura
do pensamento. Profundidade tal, que cresce, cada vez mais, o emprego do
método fenomenológico em outras áreas do saber, bem como a educação, a
psicologia, dentre outras. Ora, o nome de Husserl ficará guardado na
história da humanidade como sendo o iniciador de tal modo de
investigação. Suas análises da estrutura da consciência são, de igual
modo, ricas. Sem margem de dúvida, a consciência é o que de primordial
existe no sujeito, sendo por sua vez estruturada pelo binômio
cogito-cogitatum. Mesmo que a intuição ou pré-disposição para o
conhecimento do objeto sempre parta do cogito, ao contrário da
modernidade, na qual o objeto se apresentava incólume diante do sujeito
que o pensava, sendo o próprio sujeito a patente única para todo o
conhecimento, Husserl admite a inter-relação entre sujeito e objeto, ao
definir a consciência como sendo sempre consciência de algo. Para mim,
trata-se de um enorme avanço. Como o próprio Husserl apresenta, a
eleição de um sujeito isolado refere-se apenas à questão metodológica. A
consciência do cogito é apenas o ponto de partida para tantas outras
questões, como, por exemplo, a Intersubjetividade – abordada na quinta
medição de Meditações Cartesianas. Não permanece o cogito fechado
em si mesmo, mas, de outro modo, aberto às interferências exteriores a
si. Diante disso, não se pode deixar de notar o esforço da análise
fenomenológica em sua tentativa de descrever como se dá a estruturação
da consciência, bem como, o modo pelo qual ela se orienta em direção ao
objeto.
A consciência é sempre
intencionalidade. A tal intencionalidade pertencem noções como sentido,
síntese, horizonte, dentre tantas outras. Tudo ocorre de modo a
corroborar a idéia de um mundo como o horizonte de todas as sínteses da
consciência, no qual a própria temporalidade do tempo se dá sob a forma
de uma síntese entre o passado e o futuro – retenção e propensão.
Basicamente, são esses os motivos pelos quais Husserl é aclamado como
portador de tão profundos méritos, afinal, tornou-se, a fenomenologia,
uma das grandes marcas do pensamento contemporâneo.
Referências:
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http://www.filoinfo.bem-vindo.net/filosofia/modules/articles/article.php?id=42
Acessado em 19 de outubro de 2009, às 11:30 hs.
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