|
Basta nos confrontarmos com algum meio de comunicação, seja ele qual
for, e tão logo constatamos o alto índice de violência em nossa
sociedade generalizado. Não faltam modalidades e circunstâncias para
essa que se apresenta como uma verdadeira olimpíada de ferocidade.
Trata-se, pois, de uma verdadeira onda de perversidade que, não poucas
vezes, ameaça a certeza de nossa tão cara identidade de seres humanos,
de homens, distintos dos demais viventes pelo bom senso e a capacidade
do bem julgar e agir.
Acaso estaria correta a formulação de Rousseau segundo a qual é o homem
bom por sua própria natureza? O que fazer diante de tamanha onda de
contestação dos valores essenciais, tais como a vida, o sumo valor?
Barbáries se difundem como autênticos padrões sociais. Atenuam-se os
limites entre normal e patológico. Nada mais parece restar do bom homem
de Rousseau! Seja por força do meio ou por instinto próprio e inato o
que constantemente testemunhamos é a instalação do “homem como lobo do
homem” – e nesse sentido, seria a Hobbes e a Glauco e não a Rousseau a
quem deveríamos recorrer.
Para além daquilo que confirma nossa falível e descrente certeza
sensorial devemos, pois, procurar algo de sólido, bom e verdadeiramente
“humano” em nós. O mal que paira sobre a sociedade com sua força
avassaladora reverberada em tantos atos espúrios de violência nada mais
expressa senão o grito de um humano, bom em sua origem e natureza, mas
que não encontra – alienado por tamanha injustiça – um modo digno para
sua subsistência. Torna-se o absurdo sua única alternativa. Absurdo
consigo mesmo e com a sociedade que, a preço de ouro, paga a conta.
Culpados ou inocentes, pobres coitados em um mundo de injustiças?
Culpados alguns, inocentes tantos outros. Não culpados por viverem em um
mundo cujas oportunidades não lhes saltam desde o berço. Mundo que não
por primeiro estende-lhes a mão e aponta a bondade inata por sua
natureza, mas, de outro modo, massacra-lhes a chaga, retira-lhes o que
ainda lhes resta: a dignidade. Vidas ceifadas, aniquiladas e destruídas.
Tornam-se lobos uns dos outros, mas não tão lobos quanto o mundo que
assim os forjou.
Banalização da vida, cultura da morte, crimes e castigos. Vivemos no
mundo que plantamos com nossos feitos. Crimes hediondos nada mais são
que o reflexo de nossa embriaguês social. Vida ou morte são, numa tênue
medida, os frutos bons ou ruins da formação de nossa consciência, e isso
requer ação e não somente reflexão. Quanto antes acordarmos de nosso
torpor social melhor será para nós e para eles: aqueles que convivem
conosco.
MARTINS FILHO, J.R.F.
Homem, bom ou lobo? In. Reflexões, P@rtes (São Paulo), Janeiro de
2011. Disponível em <www.partes.com.br/reflexao/homembom.asp> |