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ISSN 1678-8419         última atualização em: terça-feira, 04 de janeiro de 2011 17:41:43                                               

 
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Reflexão

Homem, bom ou lobo?

 

 

José Reinaldo F. Martins Filho1

publicado em 04/01/2011

 


 

Basta nos confrontarmos com algum meio de comunicação, seja ele qual for, e tão logo constatamos o alto índice de violência em nossa sociedade generalizado. Não faltam modalidades e circunstâncias para essa que se apresenta como uma verdadeira olimpíada de ferocidade. Trata-se, pois, de uma verdadeira onda de perversidade que, não poucas vezes, ameaça a certeza de nossa tão cara identidade de seres humanos, de homens, distintos dos demais viventes pelo bom senso e a capacidade do bem julgar e agir.

Acaso estaria correta a formulação de Rousseau segundo a qual é o homem bom por sua própria natureza? O que fazer diante de tamanha onda de contestação dos valores essenciais, tais como a vida, o sumo valor? Barbáries se difundem como autênticos padrões sociais. Atenuam-se os limites entre normal e patológico. Nada mais parece restar do bom homem de Rousseau! Seja por força do meio ou por instinto próprio e inato o que constantemente testemunhamos é a instalação do “homem como lobo do homem” – e nesse sentido, seria a Hobbes e a Glauco e não a Rousseau a quem deveríamos recorrer.

Para além daquilo que confirma nossa falível e descrente certeza sensorial devemos, pois, procurar algo de sólido, bom e verdadeiramente “humano” em nós. O mal que paira sobre a sociedade com sua força avassaladora reverberada em tantos atos espúrios de violência nada mais expressa senão o grito de um humano, bom em sua origem e natureza, mas que não encontra – alienado por tamanha injustiça – um modo digno para sua subsistência. Torna-se o absurdo sua única alternativa. Absurdo consigo mesmo e com a sociedade que, a preço de ouro, paga a conta.

Culpados ou inocentes, pobres coitados em um mundo de injustiças? Culpados alguns, inocentes tantos outros. Não culpados por viverem em um mundo cujas oportunidades não lhes saltam desde o berço. Mundo que não por primeiro estende-lhes a mão e aponta a bondade inata por sua natureza, mas, de outro modo, massacra-lhes a chaga, retira-lhes o que ainda lhes resta: a dignidade. Vidas ceifadas, aniquiladas e destruídas. Tornam-se lobos uns dos outros, mas não tão lobos quanto o mundo que assim os forjou.

Banalização da vida, cultura da morte, crimes e castigos. Vivemos no mundo que plantamos com nossos feitos. Crimes hediondos nada mais são que o reflexo de nossa embriaguês social. Vida ou morte são, numa tênue medida, os frutos bons ou ruins da formação de nossa consciência, e isso requer ação e não somente reflexão. Quanto antes acordarmos de nosso torpor social melhor será para nós e para eles: aqueles que convivem conosco.

 

MARTINS FILHO, J.R.F. Homem, bom ou lobo? In. Reflexões, P@rtes (São Paulo), Janeiro de 2011. Disponível em <www.partes.com.br/reflexao/homembom.asp>

 

  

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::sobre o autor::
José Reinaldo Felipe Martins Filho é graduado em filosofia pelo Instituto de Filosofia e Teologia Santa Cruz - Associação Sedes Sapientiae. Membro do Grupo de estudos VIVA VOX: Grupo de pesquisas em filosofia clássica e contemporânea - Universidade Federal do Sergipe. Membro adjunto da SBF - Sociedade Brasileira de Fenomenologia. Atua com pesquisas em filosofia, com ênfase em filosofia contemporânea: filosofia da existência, alteridade e intersubjetividade, ética, ontologia e metafísica. É músico e pesquisador sobre a relação entre música e religião e música e filosofia. Possui competências em línguas clássicas - grego e latim - e contemporâneas. Também escreve reflexões no âmbito interdisciplinar, pondo em confronto e relação ciências como a política, a educação, a religião e a psicologia. Possui especial dedicação à fenomenologia, sobretudo nos seus expoentes Edmund Husserl, Martin Heidegger, Emmanuel Lévinas e Jean Luc Marion.
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