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ISSN 1678-8419         última atualização em: sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008 15:50:53                                               

 
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REFLEXÃO
Aquele, o outro e você?    
Maria Aparecida Francisquini

publicado em 15/11/2007

 

 

 Estamos nos acostumando tanto a sempre só reclamar, que a impressão que passa, é que muitas vezes nem temos muita
certeza do que reclamamos. Sabemos que devemos reclamar!
 Tomamos conhecimento, através da imprensa, da conversa com alguns conhecidos, que demonstrar indignação, insatisfação nos dias atuais, está na moda, passa a imagem de engajamento social, de pessoa inteligente.

  Como aprendemos que aparentar ser alguém interessado nos caminhos do mundo, é importantíssimo para uma boa aceitação social, não nos fazemos de rogados, e logo damos um jeito de caprichar na imagem que acreditamos estar sendo vista pelas outras pessoas.
  E em qualquer rodinha de amigos, ou mesmo só de
conhecidos, se fala de maneira empolgante, da indignação com os políticos do nosso país, da falta de honestidade de
fulano, do quanto sicrano é hipócrita. Condena-se o
motorista que, por irresponsabilidade, provocou aquele
acidente horrível do outro dia.

  Quanto aos políticos, muitos nem sabem direito o que anda
acontecendo, pois não se interessam por política, votam por
obrigação, e em qualquer um, mas acreditam que reclamar
deles está sempre certo. ¨São todos iguais¨!
  E quase sempre, a conversa é encerrada com um suspiro de resignação, acompanhado de alguma frase de desânimo, de impotência. ¨Fazer o que?¨ ¨sempre foi assim...¨
 E nesta certeza de impotência, nesta satisfação por
acreditar ter passado uma imagem de que sabe das coisas,
continua-se a vida, o hábito de reclamar, de fazer de conta,
e a insistência em perpetuar, através de comportamentos
diários e naturalmente espontâneos, tantos episódios que
acarretam motivos de reclamação, de indignação.

 Muitos, entram em seus carros, e instantaneamente se
esquecem do assunto que a pouco conversaram, e logo na
primeira esquina, ignoram o sinal de trânsito que indica a
preferência de quem vem da outra rua,e quase provocam um
acidente com aquela moto que estava na via preferencial.
Ufa! Escapa desta. Ainda bem que ficou no quase! Mais uma!
  Outro, no caminho de casa aproveita para dar uma pequena parada num barzinho da esquina, tomar uma cervejinha para relaxar, e ainda dar uma paquerada de leve com aquela mulher que está lhe dando a maior bola! A esposa sempre passa na escola para buscar o filho depois do trabalho e hoje na hora do almoço, ela disse que ia se atrasar um pouco, pois a professora disse que precisava conversar com ela. Ele estava liberado hoje!

 Toma algumas cervejas, pede a conta. O garçom se distraiu, e deixou de cobrar uma. É claro que ele nem pensa em corrigir este erro do garçom. Sente até mesmo uma certa
satisfação, é esperto. Gosta de levar vantagem!
 Antes de sair do bar, vai até a mesa onde está aquela
mulher que paquerou com o olhar, conversa um tempinho e
aproveita para pedir o número do telefone dela. Não tem o
hábito de trair a esposa, mas gosta de seduzir outras
mulheres, afirmar para ele mesmo que pode! Gosta de parecer que trai... Ele gosta tanto de parecer, de fazer de conta. E só!

  Mesmo se sentindo um pouco alcoolizado, liga o carro e sai
dirigindo...
  Reclamamos facilmente de tantos comportamentos do outro. Sentimos profunda indignação, e muitas vezes até mesmo uma grande irritabilidade diante de tantas situações que presenciamos, ou das quais nos sentimos atingidos.
Reclamamos, resmungamos, protestamos e nos posicionamos
verbalmente contra.
 Mas colaboramos para continuar exatamente do jeito que
está!
 
  

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Maria Aparecida Francisquini é psicóloga
 

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