Você faz de conta que está fazendo, que eu faço de
conta que estou vendo, ou você faz de conta que não fez nada, que eu faço de
conta que não vi.
Neste contrato, a maneira de se relacionar é sempre
conduzida pelo conveniente e antiético faz de conta.
Conveniente para as duas partes, pois supõe-se que todos os participantes são
contemplados : quem cala, não é punido (quase sempre é até mesmo recompensado),
e quem faz, não é incomodado, e com isso, conquista a permissão e a liberdade de
sempre fazer.
Faz de conta que você não ouviu, que eu faço de conta que
não falei!
Faz de conta que você não viu nada, que eu faço de conta que nada aconteceu!
Algumas pessoas defendem este tipo de contrato, pois usam o absurdo argumento de
que aceitá-lo, muitas vezes pode ser determinante para a sobrevivência (eu diria
subvivência),
para se manter um emprego (e os ganhos pessoais). E para
estas pessoas, ele se faz obrigatório no que costumam
denominar bom convívio social.
Algumas vezes, se recusar a compactuar pode custar a quem ousa, ser taxado de
inconveniente, e ser até mesmo excluído.
Ou seja, ser autêntico, não concordar em fazer parte do
jogo, se recusar a se submeter, a não aceitar o cabresto,
insistir em fazer o uso devido dos sentidos, em não abrir
mão dos valores éticos, de ter a consciência tranqüila, pode
ser considerado defeito, rebeldia, uma característica
negativa da pessoa, e ocasionar a punição.
Prezar a verdade, que durante um bom tempo foi considerada valor, no meio onde
predominam as cláusulas deste contrato, está se tornando prejudicial e passível
de causar danos.
E as pessoas preferem se acostumar a não se posicionarem, a inibirem as suas
opiniões, a compactuarem com situações que lhes afrontam a consciência, de uma
maneira tão corriqueira e habitual, que quase chegam a acreditar que não tem
outro jeito, que é assim mesmo que tem que ser.
Muitos que a princípio resistiam a participar deste pacto,
com o tempo, após inúmeras situações que vivem e que
presenciam onde prevalece este “faz de conta”, após serem
constantemente criticados, acabam também se acostumando, e desistem de resistir,
pois cansam de ser prejudicados, e quase sem perceber, mesmo às custas de muito
sofrimento, se sentem na obrigação de entrarem para a corrente.
E passam a fazer parte. E habitualmente vão incorporando
comportamentos considerados fundamentais e imprescindíveis para corresponder ao
pacto: não verbalizam mais as próprias opiniões, não procuram mais respostas
para as suas dúvidas, não demonstram a indignação que sentem diante das mais
variadas injustiças e da falta de ética que presenciam, e muito menos ousam mais
expor a própria criatividade.
E se habituam a não terem ética. E ficam tristes, amargos,
rancorosos.
Inibindo a criatividade, se assemelham às máquinas e perdem
a vivacidade. Passivamente direcionam o seu cérebro para
concordar, para não questionar, apenas para seguir e
obedecer. E principalmente para não pensar! Para
passivamente compactuar e colaborar para o fortalecimento da hipocrisia.
E acabam tristemente se tornando hipócritas também!