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Um grande número de famílias carentes tem a mulher como pai
e mãe. Muitas vezes, os pais abandonam a família (alguns com
tristeza, mas por covardia ao se sentirem incapazes de
proporcionar uma vida melhor à família). A mulher fica,
assumindo a tarefa de pai e mãe. Sofrem, se consumem de
tristeza diante da miséria, das privações. A mãe, para os
filhos, é a pessoa mais importante, mais querida, com quem
repartem o sofrimento por perceberem a tristeza e a
desesperança em seus olhos.
Para estas mulheres, não
existe até o momento qualquer projeto ou política social com
objetivo de resgatar este ser humano, que tem sonhos, planos
e esperança. Esquecida dos programas sociais, a mãe pobre
não tem ânimo para alegrar o ambiente de casa, para, pelo
menos, continuar acreditando e passando esperança de uma
vida melhor aos filhos.
A mulher que faz papel de mãe
e de pai vive aflita pela tensão de não saber o que reserva
o amanhã para si e os filhos. Ela não tem condições mínimas
até mesmo de cuidar da aparência pessoal, renunciando a si
pelos filhos. Esta mãe é o retrato do sofrimento, revelando
nos olhos a angústia da incerteza de não saber se terá o que
preparar para alimentar as crianças. Num país rico, de
dimensões continentais, é inaceitável que uma mãe conviva
com a fome dos filhos. Ela revela total impotência diante
das demandas mínimas de sobrevivência tanto para si quanto
para a prole que gera e que ama. No entanto, o sofrimento
esconde o sentimento de afeto, substituindo-o pelo profundo
sofrimento que a acompanha ao longo da vida.
Em muitos casos, diante da
miséria, em momento de descontrole emocional, ela acaba
maltratando e algumas até abandonando os filhos. A maioria,
todavia, permanece firme, até ausente de afeto, de carinho,
por total desamparo, mas interiormente os filhos são sua
única razão de existência. São vidas despedaçadas pelo
destino e por uma sociedade injusta! Sentimentos de
impotência, frustração, rejeição, desvalorização, sem um
mínimo de perspectiva, numa escuridão total, sem vislumbrar
luz no fim do túnel! Esta é a realidade de milhares, talvez
milhões, de brasileiras, que deixam seus filhos sozinhos,
mesmo pequenos, para buscar em trabalhos insalubres e mal
remunerados, alguns tostões para tornar menos dolorosa a sua
e a vida dos filhos. Muitas crianças, mesmo as pequenas,
fazem qualquer coisa para aliviar o sofrimento da mãe.
Meninos pobres acabam se sentindo culpados pelo sofrimento
da mãe.
Muitos sacrificam a infância,
a oportunidade de estudar, vivendo pelas ruas em busca de
algo, de algumas moedas obtidas no trânsito de médias e
grandes cidades, numa busca desesperada de aliviar um pouco
o sofrimento das mães. São meninos e meninas que crescem
convivendo e sentindo na própria pele a miséria. Carregam
cicatrizes profundas pelo resto de suas vidas, experimentam
desde cedo o sabor amargo da fome, da tristeza, do desânimo
e da desesperança daquelas que os geraram, que apesar de
tudo, sempre estiveram presentes nos momento mais dolorosos,
aquecendo-os nas noites frias, sacrificando suas próprias
vidas pelos filhos.
São as mulheres esquecidas
pelo Estado. Que não aparecem nas promessas de campanha, as
que são mãe e pai ao mesmo tempo, que sofrem, mas que
conseguem assim mesmo gerar tanto amor, que os filhos,
apesar de tudo, acabam vencendo as barreiras e, muitos,
conquistam a vitória, superando a dor pelo amor. São as
mulheres valentes, que deveriam ser lembradas por algum
candidato, que, se eleito se comprometesse com algum projeto
direcionado para o resgate do ser feminino dessas
guerreiras, dando-lhes a oportunidade de serem felizes.!
*Psicóloga
mafrancisquini@navinet.com.br
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