.ISSN 1678-8419  

Revista Partes - Ano V - 12/08/2006 18:06:03 

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 Reflexão

Essas mulheres valentes!
Por Maria Aparecida Francisquini


Um grande número de famílias carentes tem a mulher como pai e mãe. Muitas vezes, os pais abandonam a família (alguns com tristeza, mas por covardia ao se sentirem incapazes de proporcionar uma vida melhor à família). A mulher fica, assumindo a tarefa de pai e mãe. Sofrem, se consumem de tristeza diante da miséria, das privações. A mãe, para os filhos, é a pessoa mais importante, mais querida, com quem repartem o sofrimento por perceberem a tristeza e a desesperança em seus olhos.

Para estas mulheres, não existe até o momento qualquer projeto ou política social com objetivo de resgatar este ser humano, que tem sonhos, planos e esperança. Esquecida dos programas sociais, a mãe pobre não tem ânimo para alegrar o ambiente de casa, para, pelo menos, continuar acreditando e passando esperança de uma vida melhor aos filhos.

A mulher que faz papel de mãe e de pai vive aflita pela tensão de não saber o que reserva o amanhã para si e os filhos. Ela não tem condições mínimas até mesmo de cuidar da aparência pessoal, renunciando a si pelos filhos. Esta mãe é o retrato do sofrimento, revelando nos olhos a angústia da incerteza de não saber se terá o que preparar para alimentar as crianças. Num país rico, de dimensões continentais, é inaceitável que uma mãe conviva com a fome dos filhos. Ela revela total impotência diante das demandas mínimas de sobrevivência tanto para si quanto para a prole que gera e que ama. No entanto, o sofrimento esconde o sentimento de afeto, substituindo-o pelo profundo sofrimento que a acompanha ao longo da vida.

Em muitos casos, diante da miséria, em momento de descontrole emocional, ela acaba maltratando e algumas até abandonando os filhos. A maioria, todavia, permanece firme, até ausente de afeto, de carinho, por total desamparo, mas interiormente os filhos são sua única razão de existência. São vidas despedaçadas pelo destino e por uma sociedade injusta! Sentimentos de impotência, frustração, rejeição, desvalorização, sem um mínimo de perspectiva, numa escuridão total, sem vislumbrar luz no fim do túnel! Esta é a realidade de milhares, talvez milhões, de brasileiras, que deixam seus filhos sozinhos, mesmo pequenos, para buscar em trabalhos insalubres e mal remunerados, alguns tostões para tornar menos dolorosa a sua e a vida dos filhos. Muitas crianças, mesmo as pequenas, fazem qualquer coisa para aliviar o sofrimento da mãe. Meninos pobres acabam se sentindo culpados pelo sofrimento da mãe.

Muitos sacrificam a infância, a oportunidade de estudar, vivendo pelas ruas em busca de algo, de algumas moedas obtidas no trânsito de médias e grandes cidades, numa busca desesperada de aliviar um pouco o sofrimento das mães. São meninos e meninas que crescem convivendo e sentindo na própria pele a miséria. Carregam cicatrizes profundas pelo resto de suas vidas, experimentam desde cedo o sabor amargo da fome, da tristeza, do desânimo e da desesperança daquelas que os geraram, que apesar de tudo, sempre estiveram presentes nos momento mais dolorosos, aquecendo-os nas noites frias, sacrificando suas próprias vidas pelos filhos.

São as mulheres esquecidas pelo Estado. Que não aparecem nas promessas de campanha, as que são mãe e pai ao mesmo tempo, que sofrem, mas que conseguem assim mesmo gerar tanto amor, que os filhos, apesar de tudo, acabam vencendo as barreiras e, muitos, conquistam a vitória, superando a dor pelo amor. São as mulheres valentes, que deveriam ser lembradas por algum candidato, que, se eleito se comprometesse com algum projeto direcionado para o resgate do ser feminino dessas guerreiras, dando-lhes a oportunidade de serem felizes.! *Psicóloga mafrancisquini@navinet.com.br

Maria Aparecida Francisquini é psicóloga.
mafrancisquini@navinet.com.br



 

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