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ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 24 de setembro de 2007 22:36:20                                               

 
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REFLEXÃO
Natural não! Habitual!    
Maria Aparecida Francisquini

 

 E estamos nos obrigando cada vez mais a acreditar (ou pelo menos fazer de conta que acreditamos) que tantas verdades que acreditávamos serem incontestáveis, são mentiras, e que valores básicos de ética que assimilamos ao longo da vida, estão ultrapassados e extintos.

 

Existe uma predominância tão grande do desleixo por valores éticos, que fica parecendo que se busca justamente a extinção destes valores. Agir de maneira egoísta, mal educada, com total grosseria nos nossos atos e nas nossas falas está se tornando tão habitual, que quase nos convence que tudo isto é natural, que estas são as maneiras certas de agir. Fica parecendo que o errado passou a ser certo, que conceitos básicos de cidadania, de respeito pelo outro, de boa convivência social, são antinaturais. Que o natural é ser desonesto, é agir com total falta de respeito por quem quer que seja, é sair gritando e esbravejando por qualquer coisa, é começar logo uma briga pelos mais insignificantes motivos. E isto tantas vezes nos deixa com uma desagradável sensação de que estamos ultrapassados, que os valores que norteiam a nossa vida são obsoletos. Ser mal educado, maltratar o outro, enganar, ser ¨esperto¨ é mais importante. Levar vantagem sempre, em qualquer circunstância (mesmo quando sei que estou errada!), não aceitar carregar ¨desaforo¨, cultivar o egoísmo, ser arrogante, ostentar uma falsa aparência! Não ser sincero, e se aproveitar de todas as maneiras possíveis de quem se atrever a ser.

Nunca ser gentil e muito menos educado, para não fazer papel de bobo, para não ser passado para trás. Ter ambição, não aquela ambição saudável que nos impulsiona e nos faz ultrapassar os obstáculos que surgem, mediante o nosso esforço e nosso mérito, mas uma ambição doentia e desenfreada, que nos faz procurar sempre o caminho mais fácil, mesmo que seja um atalho ilegal e desonesto, ou ainda que tenhamos que pisar em quem quer que seja, ou usar o outro como degrau para a nossa subida. E se apegam naquela frase absurda que diz que ¨os fins justificam os meios¨. São tantos atos insistentemente repetidos infinitamente todos os dias, por um número assustadoramente crescente de pessoas, que apesar de assustarem, de causarem tanta indignação e mal estar, são tão bem assimilados e rapidamente espalhados na convivência social atual.

É tão comum pessoas demonstrarem tanto espanto com alguns (muitos) acontecimentos que tomam conhecimento, expressam imensa indignação diante de certas atitudes que presenciam, mas ao mesmo tempo, não fazem nada para mudá-los, muito menos para impedir muitos deles. O que se vê inúmeras vezes é a facilidade com que protagonizam estas mesmas situações que criticaram, assimilam e incorporam na própria vida, comportamentos que tantas vezes até mesmo condenam no outro. E como fica mais cômodo e conveniente, passam inclusive a fazer de conta que é natural agir assim! E se empenham em convencer um número cada vez maior de pessoas a agirem assim também, a se deixarem levar pela insensata maneira de viver e conviver que tanto mal estar acarreta, que nos deixa com uma desconfortável sensação de medo, de indignação e de preocupação, no que diz respeito aos caminhos que têm tomado o nosso mundo. A qual destino chegaremos, se insistirmos em ignorar valores éticos básicos e imprescindíveis para a boa convivência humana?

 

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Maria Aparecida Francisquini é psicóloga
 

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