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Existe uma predominância tão grande do desleixo
por valores éticos, que fica parecendo que se busca justamente a extinção destes
valores. Agir de maneira egoísta, mal educada, com total grosseria nos nossos
atos e nas nossas falas está se tornando tão habitual, que quase nos convence
que tudo isto é natural, que estas são as maneiras certas de agir. Fica
parecendo que o errado passou a ser certo, que conceitos básicos de cidadania,
de respeito pelo outro, de boa convivência social, são antinaturais. Que o
natural é ser desonesto, é agir com total falta de respeito por quem quer que
seja, é sair gritando e esbravejando por qualquer coisa, é começar logo uma
briga pelos mais insignificantes motivos. E isto tantas vezes nos deixa com uma
desagradável sensação de que estamos ultrapassados, que os valores que norteiam
a nossa vida são obsoletos. Ser mal educado, maltratar o outro, enganar, ser
¨esperto¨ é mais importante. Levar vantagem sempre, em qualquer circunstância
(mesmo quando sei que estou errada!), não aceitar carregar ¨desaforo¨, cultivar
o egoísmo, ser arrogante, ostentar uma falsa aparência! Não ser sincero, e se
aproveitar de todas as maneiras possíveis de quem se atrever a ser.
Nunca ser gentil e muito menos educado, para não fazer papel de bobo, para não
ser passado para trás. Ter ambição, não aquela ambição saudável que nos
impulsiona e nos faz ultrapassar os obstáculos que surgem, mediante o nosso
esforço e nosso mérito, mas uma ambição doentia e desenfreada, que nos faz
procurar sempre o caminho mais fácil, mesmo que seja um atalho ilegal e
desonesto, ou ainda que tenhamos que pisar em quem quer que seja, ou usar o
outro como degrau para a nossa subida. E se apegam naquela frase absurda que diz
que ¨os fins justificam os meios¨. São tantos atos insistentemente repetidos
infinitamente todos os dias, por um número assustadoramente crescente de
pessoas, que apesar de assustarem, de causarem tanta indignação e mal estar, são
tão bem assimilados e rapidamente espalhados na convivência social atual.
É tão comum pessoas demonstrarem tanto espanto com alguns (muitos)
acontecimentos que tomam conhecimento, expressam imensa indignação diante de
certas atitudes que presenciam, mas ao mesmo tempo, não fazem nada para
mudá-los, muito menos para impedir muitos deles. O que se vê inúmeras vezes é a
facilidade com que protagonizam estas mesmas situações que criticaram, assimilam
e incorporam na própria vida, comportamentos que tantas vezes até mesmo condenam
no outro. E como fica mais cômodo e conveniente, passam inclusive a fazer de
conta que é natural agir assim! E se empenham em convencer um número cada vez
maior de pessoas a agirem assim também, a se deixarem levar pela insensata
maneira de viver e conviver que tanto mal estar acarreta, que nos deixa com uma
desconfortável sensação de medo, de indignação e de preocupação, no que diz
respeito aos caminhos que têm tomado o nosso mundo. A qual destino chegaremos,
se insistirmos em ignorar valores éticos básicos e imprescindíveis para a boa
convivência humana? |