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E tudo se transforma num faz de conta. Vivemos, andamos, nos relacionamos,
fazendo de conta. E cada vez aperfeiçoamos mais esta nossa capacidade de
interpretar, de despistar, de fazer de conta.
Fazemos de conta que nem ligamos para as injustiças as quais presenciamos a
todo momento. Fazemos de conta, que não é da nossa conta, os absurdos que
acontecem, ali, ou até mesmo aqui, bem pertinho de nós, bem do nosso lado,
na nossa frente e bem ao alcance dos nossos olhos. Não ouvimos, não sabemos,
não vemos! Não nos interessa! Não tomamos conhecimento!
Nos anestesiamos, fechamos a boca, tampamos os ouvidos. E vamos, aos poucos,
ou dependendo das circunstâncias, aos muitos, de forma bastante acelerada e
assustadora, nos transformando em algo que fica até difícil definir, tamanha
estranheza, falta de lógica e ausência de verdade, de autenticidade.
Andamos por aí, fazendo de conta. Que está tudo bem, ou melhor ainda, para
ser mais condizente com o que
aparentemente acontece, está tudo muito bem.
Aprendemos (?) que quanto mais indiferentes mais fortes somos. Fazer de
conta é sensacional, é característica
imprescindível para demonstrarmos superioridade!? Quanto mais não estamos
nem aí, menos somos atingidos, mais chance temos de sobreviver!
Que não tem nada demais, por exemplo, ludibriar alguém com falsas promessas.
Que dar esperanças a alguém, é
simplesmente mais uma parte deste script que nos habituamos a seguir. Mentir
está simples, e em alguns momentos, tenho a triste impressão que se tornou
habitual. Parte integrante da personalidade dos habitantes deste planeta!
Viver por aí, sem dar muita importância ao que antes nos era extremamente
caro e imprescindível, como por exemplo, ser cordial, gentil.
Respeitar as pessoas, fazer a parte que cabe a cada um de nós para uma vida
social harmoniosa, tranqüila. E sorrimos,
mesmo quando temos motivos de sobra para chorarmos muito. E balançamos a
cabeça afirmativamente, diante de situações com as quais, no fundo do que
ainda restou da nossa essência de seres humanos, discordamos veemente!
Estamos tão negligentes com a nossa consciência e com o nosso senso ético,
que acredito que dentro em breve, eles
serão extintos. Por falta de uso! Por não serem mais considerados
importantes e muito menos úteis! Afinal,
precisamos sobreviver! É a única possibilidade que resta, a todos aqueles
que desistem de viver. Que insistem em
simplesmente correrem em busca da sobrevivência.
Quando não se vive, quando se abre a mão desta oportunidade linda,
fantástica, de realmente se viver, resta
apenas, e desesperadamente, se buscar pelo menos, sobreviver!
E cada vez mais, um número maior de pessoas abre mão da vida. Pelos motivos
mais variados, usando as justificativas
mais elaboradas e até mesmo aparentemente convincentes, se desiste de viver.
Precisamos urgentemente sobreviver. A qualquer custo! De qualquer maneira!
Por que o mundo nos força a isso!? A desconsiderar importantes valores, a
esquecer valiosos aprendizados, a
abrir mão de sentimentos maravilhosos que todos trazemos dentro de nós.
Para correr em busca da sobrevivência, negligenciamos de forma aparentemente
tão habitual, esta vontade imensa de
viver de verdade que temos.
E cada dia ficamos mais distantes de tudo aquilo que realmente nos
proporciona felicidade verdadeira, satisfação
genuína. Afinal, fazer de conta que se está feliz, não é sentir felicidade.
Se enganar que está tudo muito bem, não
corresponde a um bem viver de verdade. Se ludibriar com falsas idéias de
satisfação, não corresponde exatamente com uma satisfação real. Interpretar
um papel de constante alegria, tranqüilidade, serenidade, não é exatamente
se
sentir feliz, tranqüilo e sereno.
Ficar alerta, com os olhos bem abertos, os ouvidos atentos. Sempre de
prontidão! Para se defender, atacar,
aproveitar bem as oportunidades que aparecem.
Não abrir mão, nem perder de vista, a necessidade enlouquecida de se dar
bem, de se defender a própria
sobrevivência. Não importa se nesta luta, o ataque maior seja direcionado a
nossa possibilidade de viver.
Afinal, para se sobreviver, vale tudo. Tudo mesmo! Até matar a oportunidade
de se viver plenamente! De verdade!
Maria Aparecida Francisquini |