Eu não quero de
maneira alguma, deixar de acreditar que por menor que seja o que eu possa fazer,
sempre fará diferença, e será útil para ajudar de maneira positiva no resultado
final.
Eu não quero nunca, mas nunca mesmo, deixar de acreditar que é possível se
construir um mundo realmente mais justo e humano, onde as pessoas cultivem a
autêntica sensibilidade de se comover e de se mobilizar para ajudar alguém que
necessite (melhor seria se não houvessem necessitados).
Eu só não quero como também não posso, pois se isso acontecesse, se eu perdesse
a esperança, eu cairia na mais profunda depressão que se possa imaginar, e com
grande possibilidade de nunca mais conseguir (ou querer conseguir) ter forças
para sair dela.
Eu me recuso a acreditar que a miséria em que vivem milhões de seres humanos é
uma situação irreversível, que nunca haverá, do outro lado, número suficiente de
pessoas para se mobilizarem e cada um fazer a sua parte para reverter esta
situação, ou pelo menos amenizá-la um pouco.
Eu me recuso terminantemente a reprimir a vontade de chorar que eu sinto, ao
saber que neste momento, e em todos os outros, existem milhares de pessoas que
são seres humanos como eu, como você, e que, apesar de todo frio que está
fazendo, estão sem teto e sem ao menos um agasalho para se aquecerem. Me dói
profundamente saber que existem pessoas, seres humanos, que morrem de fome. Me
angustia pensar na imensa dor que sente alguém, até chegar ao ponto de morrer
por falta de alimento.
Eu não consigo ficar indiferente diante das cenas de violência produzidas pelas
guerras estúpidas que homens mais estúpidos ainda, de dentro de seus
confortáveis gabinetes, insistem em declarar, mas nunca vão até lá, no campo de
batalha, para participarem pessoalmente. Eu tenho um amor grande demais por
seres humanos!
Eu não aceito conviver naturalmente com injustiças, sem me indignar, sem me
posicionar, sem pelo menos tentar fazer alguma coisa para impedi-las, ou se de
tudo não for possível, pelo menos diminuir o mal provocado por elas. Em
situações que aviltam a minha consciência e ferem a minha sensibilidade, eu não
consigo permanecer neutra e devido a
isso, para mim, é impossível manter os braços cruzados e a boca fechada, mesmo
após várias experiências ao longo da vida em que me senti prejudicada por não
ter aceitado tampar os olhos, fechar a boca e desligar os ouvidos.
Eu me recuso definitivamente em usar uma armadura e uma máscara de indiferença
diante de situações em que seres humanos sofrem. Eu já deleguei poder absoluto à
minha consciência, e já dei força suficiente à minha sensibilidade, para
conseguir permanecer calada e submissa diante de fatos que claramente percebo
serem injustos e desprovidos de ética.
Eu me nego a simplesmente balançar a cabeça, concordando com o que eu discordo.
Eu sempre acredito que algum jeito tem. Alguma solução existe, mas nós só vamos
encontrá-la se a procurarmos, se verdadeiramente quisermos e se cada um se
empenhar em fazer a sua parte!