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ISSN 1678-8419         última atualização em: terça-feira, 04 de janeiro de 2011 17:05:13                                               

 
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Reflexão

A menina dos sonhos de ouro

 

 

José Reinaldo F. Martins Filho1

publicado em 04/01/2011

 


 

Tem gente que vive com um pé no “mundo da lua” e o outro alçado sobre o duro chão da realidade. Assim é a vida de Luane, garota de treze anos, sonhos e esperanças a saltitar, dona de um mundo fantástico cujo próprio nome já parece acenar. Prova disso foi um fato que testemunhei num dia desses. Manhã ensolarada como as demais.

 

Era manhã de domingo e tudo parecia estar como num fim de semana qualquer. Rompendo o silêncio que pairava, surge no portão uma de nossas vizinhas, dona Maria Baiana, portando um cesto repleto de ovos, uma dúzia, todos fresquinhos, pois haviam sido reunidos ao logo da semana. Chamando a jovem Luane fez-lhe a proposta de que fosse à feira para vendê-los, diante do que o lucro obtido seria dividido entre as duas, meio a meio, sem ganância de nenhuma das partes. Luane não exita, toma a cesta de ovos da velha senhora e, botando-a sobre a cabeça, sai a cantarolar pelo caminho rumo à feira.

 

Tão logo botara os pés para fora do portão, viu-se a menina povoada por devaneios. “o que vou fazer com minha parte do dinheiro?” – pensou. “Já sei”, uma idéia lhe saltou à mente: “Comprarei outros ovos e os botarei para chocar. Após chocá-los nascerão muitos pintinhos, os quais cuidarei até que cresçam e se tornem frangos. Ora, frangos valem muito mais que ovos numa feira e, assim, ganharei bastante dinheiro.” Seu plano parecia perfeito, tão rico em detalhes e projetos. Mas com tanto dinheiro para uma moça de sua idade, o que faria Luane? Foi então, o mundo de devaneios, a causa de seu infortúnio.  Sonhando acordada continuou: “Com todo o dinheiro que ganharei comprarei o melhor creme para os cabelos. Após usá-lo, por onde quer que eu passe, todos me verão jogando a cabeleira de um lado para o outro; que bela menina, dirão...” Nesse momento, ao simular o modo como jogaria os cabelos, nem se deu conta de que arremessara no chão a cesta com os ovos. Não haveria creme para cabelos; não haveria franguinhos e sequer ovos. Vivendo num mundo de sonhos descuidou-se da realidade.

 

Triste fim de domingo para Luane, que volta para casa sem seus ovos e seu dinheiro. É aqui que a ficção se interliga com a realidade e um simples fato de um cotidiano remoto torna-se fonte inesgotável de reflexão. Inegável é a força motriz de um sonho atuando sobre a esperança de uma menina, de um homem, de uma família ou de um povo. Contudo, que jamais se descuide da realidade, estabelecendo firmemente os limites entre o normal e o patológico. Sem sonhos não viveríamos. Somente com eles nos fadamos ao salto na imensidão. Nela nos perderemos. Fantasia e realidade, eis o equilíbrio que buscamos encontrar.

 

 

MARTINS FILHO, J.R.F. A menina dos sonhos de ouro. In. Reflexão, P@rtes, (São Paulo). Janeiro de 2011. Disponível em <www.partes.com.br/reflexao/meninadeouro.asp>...

 

  

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::sobre o autor::
José Reinaldo Felipe Martins Filho é graduado em filosofia pelo Instituto de Filosofia e Teologia Santa Cruz - Associação Sedes Sapientiae. Membro do Grupo de estudos VIVA VOX: Grupo de pesquisas em filosofia clássica e contemporânea - Universidade Federal do Sergipe. Membro adjunto da SBF - Sociedade Brasileira de Fenomenologia. Atua com pesquisas em filosofia, com ênfase em filosofia contemporânea: filosofia da existência, alteridade e intersubjetividade, ética, ontologia e metafísica. É músico e pesquisador sobre a relação entre música e religião e música e filosofia. Possui competências em línguas clássicas - grego e latim - e contemporâneas. Também escreve reflexões no âmbito interdisciplinar, pondo em confronto e relação ciências como a política, a educação, a religião e a psicologia. Possui especial dedicação à fenomenologia, sobretudo nos seus expoentes Edmund Husserl, Martin Heidegger, Emmanuel Lévinas e Jean Luc Marion.
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