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Tem gente que vive
com um pé no “mundo da lua” e o outro alçado sobre o duro chão da
realidade. Assim é a vida de Luane, garota de treze anos, sonhos e
esperanças a saltitar, dona de um mundo fantástico cujo próprio nome já
parece acenar. Prova disso foi um fato que testemunhei num dia desses.
Manhã ensolarada como as demais.
Era manhã de domingo
e tudo parecia estar como num fim de semana qualquer. Rompendo o
silêncio que pairava, surge no portão uma de nossas vizinhas, dona Maria
Baiana, portando um cesto repleto de ovos, uma dúzia, todos fresquinhos,
pois haviam sido reunidos ao logo da semana. Chamando a jovem Luane
fez-lhe a proposta de que fosse à feira para vendê-los, diante do que o
lucro obtido seria dividido entre as duas, meio a meio, sem ganância de
nenhuma das partes. Luane não exita, toma a cesta de ovos da velha
senhora e, botando-a sobre a cabeça, sai a cantarolar pelo caminho rumo
à feira.
Tão logo botara os
pés para fora do portão, viu-se a menina povoada por devaneios. “o que
vou fazer com minha parte do dinheiro?” – pensou. “Já sei”, uma idéia
lhe saltou à mente: “Comprarei outros ovos e os botarei para chocar.
Após chocá-los nascerão muitos pintinhos, os quais cuidarei até que
cresçam e se tornem frangos. Ora, frangos valem muito mais que ovos numa
feira e, assim, ganharei bastante dinheiro.” Seu plano parecia perfeito,
tão rico em detalhes e projetos. Mas com tanto dinheiro para uma moça de
sua idade, o que faria Luane? Foi então, o mundo de devaneios, a causa
de seu infortúnio. Sonhando acordada continuou: “Com todo o dinheiro
que ganharei comprarei o melhor creme para os cabelos. Após usá-lo, por
onde quer que eu passe, todos me verão jogando a cabeleira de um lado
para o outro; que bela menina, dirão...” Nesse momento, ao simular o
modo como jogaria os cabelos, nem se deu conta de que arremessara no
chão a cesta com os ovos. Não haveria creme para cabelos; não haveria
franguinhos e sequer ovos. Vivendo num mundo de sonhos descuidou-se da
realidade.
Triste fim de domingo
para Luane, que volta para casa sem seus ovos e seu dinheiro. É aqui que
a ficção se interliga com a realidade e um simples fato de um cotidiano
remoto torna-se fonte inesgotável de reflexão. Inegável é a força motriz
de um sonho atuando sobre a esperança de uma menina, de um homem, de uma
família ou de um povo. Contudo, que jamais se descuide da realidade,
estabelecendo firmemente os limites entre o normal e o patológico. Sem
sonhos não viveríamos. Somente com eles nos fadamos ao salto na
imensidão. Nela nos perderemos. Fantasia e realidade, eis o equilíbrio
que buscamos encontrar.
MARTINS FILHO, J.R.F. A menina dos sonhos de ouro.
In. Reflexão, P@rtes, (São Paulo). Janeiro de 2011. Disponível em
<www.partes.com.br/reflexao/meninadeouro.asp>... |