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Joélcio Gonçalves Soares
Tiaro Katu Pereira
Wolliver Anderson Dias
Resumo: O presente artigo
tem o intuito de apresentar as formas de aplicação do método da observação,
assim como, uma reflexão, no que concerne ao seu uso em pesquisas, seus
pontos positivos e negativos, e alguns cuidados que devem ser tomados,
quando da sua aplicação em pesquisas de caráter científico. O estudo foi
construído com base em pesquisa bibliográfica, e também, em experiências
empíricas dos autores, fatos vivenciados em pesquisas já realizadas pelos
mesmos, usando do presente método.
Palavras-chave: Métodos,
pesquisa científica, método da observação, formas de aplicação e uso.
Abstract:
This article aims to present the forms of the method of observation, as well
as a reflection, in regard to its use in research, their strengths and
weaknesses, and some care should be taken when its application in a
scientific research. The study was based on a literature, and also on
empirical experiences of the authors, events experienced in previous studies
by they selves, using this method.
Keywords: Methods, scientific research,
observation method, ways of implementation and use.
INTRODUÇÃO
Toda ação parte da premissa da
busca por algo, por um objetivo, um fim, da resposta a uma inquietação, da
resposta a um problema, o qual sabemos que existe, contudo pode-se em
determinadas situações não saber quais suas origem e suas causas. Para
chegar às respostas sobre determinada inquietação, há necessidade de uma
série de trabalhos, que devem estar ordenados e divididos de forma a criar
diretrizes a seguir, com vistas ao desenvolvimento de determinadas ações e
chegar ao objetivo. Está ação ordenada, pode ou deve estar calcada em um
método.
No passar dos dias as pessoas
utilizam-se de métodos, em várias ações particulares de suas vidas, são
métodos até inconscientes, aos quais seguem e assim chegam a algo que
buscavam. Como por exemplo, ao sair de casa a pessoa pensa nas condições
climáticas, vai verificar se está chovendo logo há na mente uma resposta, se
está chovendo, a resposta se transforma em uma necessidade, que leva a uma
ação, no caso de pegar o guarda-chuva. Se está no transito, ao chegar a um
cruzamento, a pessoa observa que o sinal fecha, logo surge uma necessidade,
a de que deve parar, e assim a ação de frear o carro. Como já dito, não
deixa de ser um método, pois leva o ser a partir de uma inquietação (de
saber se esta chovendo ou não, se o sinal vai fechar ou não), a fazer uma
pergunta a si mesmo, em seu inconsciente, e assim a partir de seus sentidos,
logo tendo a resposta, efetuar uma ação, chegando ao objetivo inicial, o de
sair de sua casa sem se molhar, ou de cruzar o cruzamento sem perigo, no
momento adequado.
Contudo, tanto estes métodos
quanto as ações derivam de conhecimentos empíricos, baseado no senso comum,
sendo assim não tem caráter científico. Notar-se-á este caráter, ao se
tratar de ciência e pesquisa, tendo em vista a geração de conhecimentos
científicos, sendo assim exigem métodos da mesma tipologia, ou seja, os
métodos científicos.
Estes métodos, para Gil (2007)
podem ser divididos em dois grupos:
1) Métodos que proporcionam as
bases lógicas da investigação: dedutivo, indutivo, hipotético-dedutivo,
dialético e fenomenológico; e
2) Métodos que indicam os meios
técnicos da investigação: experimental, observacional, comparativo,
estatístico, clínico e monográfico.
Dentre estes métodos científicos
encontra-se no segundo grupo o método da observação, do qual trata este
trabalho, e que normalmente é usado também por outros métodos científicos de
forma agregada, tendo em vista que “a observação é a base de toda
investigação no campo social”, e que “[...] é imprescindível em qualquer
processo de pesquisa científica”, e ainda “ela tanto pode conjugar-se a
outras técnicas de coleta de dados como pode ser empregada de forma
independente e/ou exclusiva” (RICARDSOM 1999, p. 259).
De todo forma, tendo como objetivo
apresentar considerações mais aprofundadas sobre o método da observação, por
sua relevância e seu uso enquanto meio de construção de conhecimentos de
forma ordenada, e desta feita, em contrapartida, a produção da própria
ciência, apresenta-se este trabalho.
FORMAS DE USO E APLICAÇÃO DO
MÉTODO DA OBSERVAÇÃO
O ato de observar sempre deriva de
um objetivo, sempre há algo que leva o ser humano a olhar as coisas, e assim
torná-las parte de sua vivência, torná-las conhecidas para reconhecê-las e
poder comparar as coisas umas com as outras. Se um objeto se difere de
outro, é por que conhecemos um objeto por meio de nossos sentidos, e ao
mesmo tempo ao compará-lo com outro observamos as diferenças, sentimos estas
e colocamos nosso ponto de vista acerca do que se difere. Os dois processos
dependem da observação, assim como a inferência final. A observação leva o
ser humano ao mundo, e com ela traz ele para si, por meio de seu olhar
atento aos detalhes, de tudo que por algum motivo tomou como objeto à ser
observado.
A observação pode assumir várias
formas e é, ao mesmo tempo, a mais antiga e a mais moderna das técnicas de
pesquisa. Inclui as experiências mais casuais, não controladas, até os
registros mais exatos por meio de um filme ou experiência de laboratório.
Contudo há de se “ter cuidado, pois todos os seres humanos notam algumas
coisas e não vêem outras”. De toda forma “a ciência começa com a observação
e deve no fim voltar à observação para uma validação final”, para concluir e
reavaliar se os dados explicitados estão de acordo com a realidade do
fenômeno estudado (GOODE e HATT 1973, p. 155).
No entanto a observação como
técnica de pesquisa não é a contemplação beata e passiva, não é também um
simples olhar atento. É essencialmente um olhar ativo e sustentado por uma
questão e por uma hipótese cujo papel essencial deve ser reconhecido sempre
(LAVILLE e DIONNE 1999, p. 176).
Gil (2006, p. 34) ao se referir ao
método da observação, dispõe que este é um dos mais utilizados nas ciências
sociais, o qual apresenta alguns aspectos curiosos, e que por outro lado
pode ser considerado o mais primitivo, e conseqüentemente o mais impreciso,
mas por outro lado pode ser visto como um dos mais modernos, por ser o que
possibilita o mais alto grau de precisão nas ciências sociais.
Há investigações em ciências
sociais que se valem somente do método observacional. Outras utilizam-no em
conjunto com outros métodos. “E pode-se afirmar com muita segurança que
qualquer investigação em ciências sociais deve valer-se, em mais de um
momento, de procedimentos observacionais” (GIL 2006, p. 34).
Esta observação, que se refere ao
método, diz respeito ao uso em geral dos sentidos ou a atividade mental com
o objetivo de descobrir e entender a regularidades e as relações existentes
entre os fenômenos. Não se utiliza somente do olhar criterioso, mas também
dos outros sentidos a fim de entender a realidade, o motivo da existência de
determinado fenômeno.
No que concerne ao método da
observação e suas subdivisões, Vasconcelos (1977, p. 21) aponta que pode
ser:
- Observação simples, na qual
procura-se entender as regularidades, relação que os fenômenos guardam entre
si, independente de ordem ou sistema. É a observação do leigo, que
ordinariamente, costuma fazer em qualquer situação.
- Observação sistemática ou
controlada, na qual o cientista ordena e sistematiza a observação colocando
de um lado o que é constante e de outro o que é variável para entender o que
se passa no domínio dos fatos. Quando os sentidos não dão conta, lança mão
de instrumentos e meios capazes de aumentar seu poder de percepção, no caso,
um sistema de atividades para compreender os fatos.
Para complementar a visão de
Vasconcelos sobre a observação sistemática, pode-se colocar as considerações
de Richardsom, o qual aponta que está forma de observação sugere uma
estrutura determinada onde serão anotados os fatos ocorridos e a sua
freqüência. Complementa ainda que só será possível realizar a observação
sistemática, quando tiver algum conhecimento prévio do problema, “pois só
assim será possível estabelecer categorias em função das quais se deseja
analisar uma situação” (1999, p. 261).
Outro fator a ser considerado no
que diz respeito aos tipos de observação, é que na simples, citada por
Vasconcelos (1977) entendida como observação espontânea por Nogueira (1968
pp. 82-84) e por observação pouco ou não estruturada para Laville e Dionne
(1999, p. 178), é que esta é casual e esporádica e não possui um objetivo
determinado; o sujeito vê as coisas a seu modo de acordo com suas concepções
e suas visões de mundo; ele não busca sistematizar e separar os aspectos do
que foi observado; o observador é atraído pelo pitoresco, no caso pelo que
mais chama a sua atenção; assim como não há registro do que é observado em
anotações, impossibilitando de evocar os fatos em seus detalhes. Mais um
ponto colocado por Nogueira (1968) é que na observação espontânea, ao
contrário do que ocorre com a sistemática, não há “[...] uma delimitação
precisa no campo da investigação, tanto no tempo como no espaço”, ou seja,
mais uma vez pressupõe o caráter indolente da observação espontânea.
O fato de se atentar para o
recorte espacial e temporal é indispensável, pois há fenômenos que ocorrem
em determinadas épocas e espaços, sendo assim, o observador que está atento
ao que vai observar, contudo, não possui algum embasamento sobre o fenômeno
corre o risco de fazer uma pseudo-pesquisa, a qual vai inferir resultados da
mesma tipologia, no caso, resultados falsos.
Porém, este ato de observar sem
definição do objeto a ser observado, pode se apresentar de forma positiva no
que diz respeito a ao surgimento de novas idéias e objetos de estudo.
Contudo os problemas citados sobre
a observação espontânea, são menos freqüentes na observação sistemática,
pois nesta o observador fica mais atento ao todo que concentra o fenômeno,
não se deixa levar pelos aspectos mais chamativos, é o que Nogueira (1968 p.
88) vai denominar enquanto senso sociológico, ou seja,
é adquirir
a capacidade de perceber o que é rotineiro, o que é usual, enfim, aquilo que
a maioria deixa passar despercebido, quer por se ter tornado monótono e
habitual, quer por se haver relegado para a esfera das observações que se
costumam deixar subentendidas, implícitas, como assuntos de indiscutível
senso comum.
É dizer que para a autora, a
observação sistemática vai em busca não do natural para o observador
espontâneo, do que lhe constitui o senso comum, mas sim objetiva romper com
este senso, e assim levantar o que é diferenciado, explicar o fenômeno, para
criar o conhecimento científico, que vai se opor a noção comum da sociedade,
pois aponta para o que é visto a partir de sua essência e não por sua
aparência, pelo que é em si, e não somente pela sua representação comum.
Quando se trata de uma investigação de caráter científico, “o pitoresco o
excepcional, o raro [...] deve ser utilizado principalmente para dar relevo
ao ordinário, ao comum, para efeito de comparação e de explicação de casos
divergentes e contrastantes” (NOGUEIRA 1968, p. 88).
Ao falar sobre as formas de
aplicação do método da observação, Paiva (1975, p. 232) coloca ainda mais
uma subdivisão, a observação assistemática, onde o observador se torna em
termos parte do grupo, e desta forma acaba por não tomar nota do que é
observado, enquanto está com o grupo, para não causar estranheza a este. Já
Richardsom (1999, p. 261) ao tratar da observação assistemática considera
que
está indica
que a tarefa de observar será mais livre, sem fichas ou listas de registro,
embora tenha de cumprir as recomendações do plano de observação que deve
estar determinado pelos objetivos da pesquisa. Tal observação é utilizada
nos estudos exploratórios.
Pode-se denominar esta também
enquanto sistemática participante, pois ela possui toda uma seqüência e
coerência de trabalho, contudo, o indivíduo faz parte do grupo.
Dentro das formas de observação
citadas nota-se o caráter do observador enquanto participante ou não
participante. Cabe assim explicitar o que se entende por cada denominação.
Enquanto participante o observador
não é apenas um espectador do fato que está sendo estudado, pois ele se
coloca na posição e ao nível dos outros elementos humanos que compõe o
fenômeno observado, ele passa a ser parte e ao mesmo tempo quem observa e
vive determinado fenômeno (RICHARDSOM, 1999, p. 261). Diz respeito à
observação assistemática citada por Paiva (1975).
No que concerne a não participante
“[...] o investigador não toma parte nos conhecimentos objeto de estudo como
se fosse um membro do grupo, mas apenas atua como espectador atento”, ou
seja, o observador não é parte integrante do grupo, ao contrário da
participante, aqui ele não convive com os fenômenos, mas está a observar
grupo. “Baseado nos seus objetivos da pesquisa e por meio de seu roteiro de
observação ele procura ver e registrar o máximo de ocorrências que interessa
ao seu trabalho” (RICHARDSOM, 1999 p. 260).
É importante levar a cabo que o
método da observação se configura enquanto forma de investigação tanto
quantitativa quanto qualitativa, o que vai determinar isso é o foco da
pesquisa, e seus desdobramentos, se vai se qualificar algo por meio da
observação ou se vai quantificar.
REFLEXÕES ACERCA DO MÉTODO DA
OBSERVAÇÃO E SUA APLICAÇÃO
O método ora apresentado tem sua
contribuição para a construção do conhecimento científico, a qual é
veemente, tendo em vista que o mesmo é indispensável quando se utiliza de
qualquer método de pesquisa nas ciências sociais, uma vez que possibilita
conhecer os fatos derivados dos fenômenos no momento de sua ocorrência, e
por ter a possibilidade também de levantar o maior número possível de
informações sobre determinada situação observada.
Isso reafirma que para todo tipo
de trabalho de pesquisa científica a observação se torna indispensável, pois
a partir desta os fenômenos são conhecidos e descritos para que possam ser
estudados em laboratório, e assim a partir das inferências do campo e do
laboratório, alcançar os objetivos colocados enquanto norteio da pesquisa,
no caso, a descrição e apresentação do por que de determinado fenômeno e da
forma que este se dá.
O método observatório, quando
apresenta-se de forma sistemática ou estruturada, tendo seu objetivo de
observação bem definido, pode contar com importantes técnicas para auxiliar
na compreensão do fenômeno a ser estudado, entre estas técnicas, destaca-se
no campo das ciências sociais a coleta de dados por meio de questionários,
entrevistas, testes, etc. Enquanto que nas ciências naturais, geralmente o
método da observação aparece aliado a técnicas quantitativas, como por
exemplo a mensuração de vazão de um rio em casos de estudos hidrológicos,
nestes estudos ressalta-se também a estreita relação entre o método de
observação e o método estatístico.
O método observatório quando
dispõe-se de forma simples, ou não estruturado como também é chamado, é
vítima de várias críticas no ambiente científico indicando ai uma de suas
limitações. Tal método não dispõe de um objeto claro e definido, deste modo
a observação dispersa torna-se uma mera contemplação, ausente de qualquer
rigor científico, porém, cabe aqui ressaltar que esta forma de observar,
trás consigo aspectos positivos, principalmente no âmbito exploratório que
por sua vez contribui para o surgimento de hipóteses e idéias que levam ao
desenvolvimento de futuros trabalhos científicos
Neste contexto ressalta-se que a
principal dicotomia e divergência dentro do método da observação,
relaciona-se com a observação participante. Neste caso, nota-se por um lado
o aspecto positivo de tal metodologia, principalmente no que diz respeito a
soluções para as limitações encontradas no método sistemático, como por
exemplo no caso da aplicação de questionários para obtenção da realidade de
determinado fenômeno social. Embora esta técnica permita obtenção de dados
primários que submetidos a análises estatísticas nos levam a resultados
sintetizados de determinado fenômeno, em algumas ocasiões, tais resultados
não expressam a verdadeira realidade local, pois na maioria das vezes os
grupos sociais entrevistados se sentem coagidos e ameaçados, o que por sua
vez gera alteração e influencia nas respostas.
A observação participante,
possibilita a inserção do pesquisador em seu objeto de estudo, assim,
chegando mais próximo do fenômeno a ser estudado, esta forma de observação,
dispõe de certas vantagens, pois permite que o pesquisador registre os
eventos excepcionais do fenômeno, os quais ele jamais teria acesso
observando de forma sistemática distante da realidade. Porém se analisado
inversamente, a crítica no âmbito científico deste método associa-se com a
influência do pesquisador no objeto de estudo, rompendo assim com o caráter
da neutralidade científica.
Não cabe aqui afirmar qual a
maneira mais coerente de se utilizar o método da observação, nem mesmo
estagnar a discussão em torno do tema, pelo contrário, as reflexões em torno
de tal tema se fazem de significativa importância para a ciência, tendo em
vista a expressiva contribuição deste método para a construção do
conhecimento, porém, como aparece nas fases constituintes de um método, a
avaliação e revisão do método são sempre necessárias, justificando assim a
necessidade de constante debate metodológico.
De toda forma deve ser relevado,
que qualquer que seja o método científico, este não deve representar uma
sentença, mas sim ser compreendido como uma forma de buscar, descrever e
discutir os critérios básicos utilizados no processo de investigação
científica. Ou seja, são os instrumentos básicos que traçam de modo ordenado
a forma de proceder do cientista ao longo de um percurso para alcançar um
objetivo.
REFERÊNCIAS
LAVILLE, Christian. DIONNE, Jean.
A construção do saber: manual de metodologia da pesquisa em ciências
humanas. Belo Horizonte: Artmed, 1999.
GIL, Antonio Carlos. Métodos e
técnicas de pesquisa social. 5 Ed. São Paulo: Atlas, 2006.
GOODE, Willian. HATT, Paul.
Métodos em pesquisa social. 4 Ed. São Paulo: Editora Nacional, 1972.
NOGUEIRA, Oracy. Pesquisa
social: introdução às suas técnicas. São Paulo. Editora Nacional e
Editora da Universidade de São Paulo, 1968.
PAIVA, Orlando Marques de.
Métodos de pesquisa nas relações sociais. Editora da Universidade de São
Paulo - SP, 1975.
RICHARDSOM, Roberto Jarry.
Pesquisa social: métodos e técnicas. 3 Ed. Rev. E Ampl. São Paulo:
Atlas, 1999.
VASCONCELOS, Edgard. Sociologia
rural. Imprensa Universitária Universidade Federal de Viçosa – MG.
Viçosa: 1977.
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