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Ao longo das duas últimas décadas surgiram comentários e críticas aos
neopentecostais relacionadas ao fato de que o grupo seria
fundamentalista. Essa denúncia soa forte quando comparada aos movimentos
radicais recentes de minorias do Islã contra o mundo Ocidental. Os
ataques aos Estados Unidos, Inglaterra e Espanha mostraram a face
drástica do terror e tudo que os recorda traz a sensação de completa
insegurança para os não adeptos do Alcorão. A divulgação dos
acontecimentos nas mídias, de fato, impressionou até as correntes mais
comportadas do próprio islamismo. Contudo, há outras faces dos fatos
aqui relatados que merecem ser observadas.
A respeito desse assunto, surge o questionamento sobre a natureza
messianista da terceira onda pentecostal (neopentecostal). Seria
ela também um movimento fundamentalista? Sobre isso, Pierucci (2000)
adverte para o uso indiscriminado do termo, tanto como sinônimo de
xiismo1, como de integrismo. Segundo
ele, o fundamentalismo surgiu cunhado entre os protestantes
norte-americanos entre final do século XIX e início do século XX e se
opunha a corrente da teologia liberal, para tomar na década de 1980 –
após a revolução iraniana – um sentido mais abrangente em quaisquer
lugares do planeta, culturas complexas ou esfera da vida social. É esse
generalismo que carrega a descontextualizarão do termo utilizado para
designar analogicamente os movimentos de natureza político-religiosa,
cuja repercussão atingiu uma correlação de força internacional.
É preciso lembrar que, de acordo com o autor, a primeira profissão de fé
presbiteriana a conter os princípios fundamentalista declarava:
a)a verdade irrestrita da Bíblia; b) a ressurreição física de Jesus; c)
a origem imaculada de Jesus; d) a veracidade dos milagres de Cristo, que
consubstanciam sua divindade; e) a expiação dos pecados pelo sacrifício
de Cristo tornando desnecessária a expiação pelas obras (Pierucci,
2007).
Conseqüentemente, o texto bíblico para a vertente fundamentalista não
contém erros, pois que é completamente inspirada pelo próprio Deus único
e revelador. Portanto para tornar fidedigna sua compreensão, antes de
ser fundamentalista é preciso ser monoteísta. Também é necessário que o
adepto capte o verdadeiro sentido de sua religião, por meio direto das
escrituras sagradas, intermediada pelo qualificado clero e abomine a
tradição clerical. É a partir dessa interpretação que se penetra na
seara da Teologia do Domínio para examinar a sua possível origem
fundamentalista.
A partir desses princípios, sabe-se que a Teologia do Domínio não
se resume somente a uma luta no campo do divino ou sagrado para os
dirigentes neopentecostais, corresponde, ao mesmo tempo, a uma ideologia
de dominação sociopolítica, que concebe a cristianização social “pelo
alto”, via política partidária, como interpretou Kepel (1991).
No entendimento de Souza e Magalhães (2002, p. 95), ao garantirem a
inserção política de suas elites dirigentes e ao utilizarem todos os
meios disponíveis para reproduzirem a força das elites atuais na
formação de gerações futuras a Teologia do Domínio (TD) está
realizando seu precípuo objetivo. Assim, a interferência clerical é
condição sine qua non para propagar-se. Isso posto, é essencial
conhecê-la um pouco mais para compreender sua semântica e conteúdo
semiológico.
Surgida na década de 1960, nos Estados Unidos, essa variante religiosa
calvinista teve grande influência no fundamentalismo. É com base
nela que David Chilton (2006) afirma que os cristãos desejam para o
mundo um Estado teocrático. A doutrina cultivada pela teologia do
Domínio faz crer que os líderes cristãos precisam usar seus meios e
influência para criar um governo, uma economia e uma religião
universais, para que o “Messias” possa voltar a este mundo.
Mas qual o verdadeiro objetivo da Teologia do Domínio? Para
responder a essa pergunta é preciso recorrer ao teólogo evangélico Gary
North (1987, p. 86), um dos mais influentes doutrinadores dessa
corrente. Ele postula que um dos pontos fundamentais da TD é
“decapitar o Estado, fazê-lo ferramenta da religião e de Deus”. O
pensamento de North e de seu grupo é que o crescimento da população
presta-se como ferramenta de dominação estatal, bem como os cidadãos são
vistos pelo Estado como perpétuas crianças ou escravos. Na visão de
Craig Gay (1991, pp. 161-206), deve-se interpretar esse grupo
reconstrucionista2 ortodoxo como teonomistas, para
os quais o capitalismo funciona como um veículo escatológico completo,
em harmonia com as leis naturais, um sistema que está abençoado com o
aumento do domínio evangélico sobre a Terra. Representa essa corrente a
racionalização completa da teologia cristã.
Dessa forma, a TD só pode ser entendida como projeto estratégico.
Entretanto, Romeiro (1995) aponta para os perigos do pós-milenismo
desse domínio, que para ele guarda semelhança ao amilenismo
agostiniano3, pois tal qual seu predecessor, estabelece a
religião no mundo secular presente, com a prisão de Satanás e expansão
do cristianismo imortal e pleno, o que pode ser considerado, em alguns
pontos, ideologia revolucionária geradora de novos profetas e apóstolos.
Portanto, e em consonância com o pensamento de North (op. cit., pp.
188-189), o Reino de Deus implica todas as instituições humanas e todas
as esferas de vida e tudo na vida está sob o governo de Deus e seus
princípios imutáveis. O reconstrucionismo leva a TD ao
extremo e inclui no gerenciamento direto de Deus, a família, o Estado, a
Igreja e a vida econômica. As organizações transnacionais na ótica desse
grupo estão desautorizadas, por isso devem deixar de existir.
A partir das observações de Melander (2000, pp. 87-118), encontra-se
nesse ponto uma identidade da vertente reconstrucionista com a
nova direita que surgiu entre as décadas de 1970 e 1980, de que falam
Agamben (2002) e Santos (2007), ancorada no neoliberalismo. Sua marca é
o Estado mínimo e a manutenção apenas do sistema judiciário e militar.
Enquanto o fundamentalsimo vigente até a década de 1950 pugnava o
avivamento premilenarista4, o reconstrucionismo
visava influenciar o público por meio da educação para alcançar
resultados políticos em longo prazo.
Um dos lemas do reconstrucionismo baseia-se no combate ao Estado
de bem-estar. Segundo North, o Welfare representa um obstáculo
para a acumulação de capital quando ultiliza políticas de financiamento
aos excluídos do mercado.
Assim, afirma:
The modern state promises to support its citizens from womb to tomb. It
educates children, cares for aged and steadily transfer Power to the
government offcials taking on new reponsabilities. It taxes labor, it
taxes our profits, and it taxes our children inheritance.[...] We can
see the drift of twentieth-century socialist societies (North, op. cit.,
pp. 71-72)5.
Isso representa, no entender dos teonomistas, uma combinação
entre uma legislação embusteira com a manipulação psicológica, cujo
objetivo é tomar o lugar do salvador do homem pela regulação
totalitária. Para Gay (op. cit., p. 105), North e seus adeptos denunciam
o recolhimento cultural no momento em que os representantes do Estado
abdicam de controlar a cultura. Ainda para o autor, é essa mesma
corrente teológica que sugere a dominação da Terra a partir da
homologação dos direitos da propriedade privada surgida na criação do
mundo.
Dessa forma, a Teologia do Domínio prega na área econômica a
extinção das esquerdas e afirma que o fim da desigualdade baseada na
igualdade de renda seria obra demoníaca. Contra o socialismo, cuja
ideologia é interpretada como filosofia da destruição, prega que apenas
a liberdade do mercado pode promover a ascensão social e a mobilidade
econômica. No domínio estatal, prega que a redistribuição de renda
promovida pelo Estado destrói a liberdade humana e por isso impede a
responsabilização por atos sob a administração de Deus. A legislação
acerca da ambição humana torna-se o maior fundamento do totalitarismo. A
meta reconstrucionista é criar um sistema de controle da lei
civil do governo local até o central para limitar o poder do governo às
leis de Deus.
Mas o reconstrucionismo revela metas mais claras no âmbito
familiar. Como já foi dito antes, o projeto ambicioso concentra-se em
preparar as futuras gerações para o exercício de poder político. Logo,
nesse empreendimento o papel da família é essencial, indispensável. Os
filhos devem ser capacitados pelos pais para aumentar o capital familiar
de geração em geração; o filho mais velho deve desempenhar um papel de
líder na tarefa de enriquecimento familiar; a educação dos filhos
volta-se para a acumulação de riquezas e a contestação dos favores do
Estado.
Não obstante a origem reacionária da TD e de seu braço mais
radical, o reconstrucionismo, verifica-se que embora tenham
afinidades no campo ideológico e guardem semelhanças por embutirem uma
abordagem religiosa mais radicalista, fundamentalismo e TD
não podem ser vistos embaralhados ou com o mesmo significado. Há uma
impropriedade leiga em interpretar dois fenômenos de ordem
político-religiosa diferentes de maneira análoga. A advertência de
Pierucci guarda todo o sentido em relação ao caso específico, pois a
TD extrapola a mera literalidade e fidelidade bíblica para penetrar
em campo mais vasto: a política, o que acaba imbricando-se com a
vertente fundamentalista islâmica quando pretende tomar posse do Estado.
Talvez isso demonstre uma maior identidade entre a TD e o
integrismo: um movimento político-religioso de origem católica que,
segundo Pierucci (2000), nasceu no final do século XIX, na vertente
intransigente do catolicismo e se caracterizou por almejar a recuperação
do político para fins religiosos calcado nas direitas, cuja principal
força expressiva se concentra na organização Opus Dei.
Contudo, a admoestação de Pierucci leva a crer que o integrismo
se encaixa melhor na visão católica por suas metas em geral, e que o
fundamentalismo, de outro lado, tem sido o remédio genérico para
todas as moléstias desfiguradoras do quadro político laico. Portanto,
embora haja momentos em que os fenômenos apareçam concomitantemente e
mantenham estreitas relações, é bom compreender a diferença entre eles
de maneira que se possa também concebê-los em determinados momentos em
lados opostos, mesmo porque estão contaminados pelo preconceito das
mídias e da nova direita do Ocidente.
___________________
NOTAS
1
O termo xiismo refere-se aos adeptos xiitas,
ramo
da crença muçulmana caracterizado pela convicção de que a sucessão
religiosa e política do profeta Maomé, o fundador da religião, deveria
ter se restringido a membros de sua família e descendentes, obedecendo o
critério permanente de consangüinidade.Tal convicção terminou por
condicionar historicamente uma atitude de maior ortodoxia e zelo pela
tradição do que a de seus opositores, os sunitas.
Cf. em HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa. Rio de
Janeiro: Objetiva, 2001, p. 2896.
3
Segundo o ponto de
vista pós-milenista, “[...] o avanço do evangelho e o crescimento da
igreja se acentuarão de forma gradativa, de tal modo que uma proporção
cada vez maior da população mundial se tornará cristã. Como
conseqüência, haverá influências cristãs significativas na sociedade,
esta funcionará mais e mais de acordo com os padrões de Deus e
gradualmente virá uma “era milenar” de paz e justiça sobre a terra. Esse
“milênio” durará um longo período (não necessariamente de mil anos
literais) e, por fim, ao final desse período, Cristo voltará à terra,
crentes e incrédulos será ressuscitados, ocorrerá o juízo final e haverá
um novo céu e uma nova terra. Entraremos então no estado eterno”. A esta
doutrina se contrapõe o amilenismo agostiniano. De acordo com essa
posição, a passagem de Apocalipse 20.1-10 descreve a presente era da
igreja. Trata-se de uma era em que a influência de Satanás sobre as
nações sofre grande redução de modo que o evangelho pode ser pregado por
todo o mundo. Aqueles que reinam com Cristo por mil anos são os cristãos
que morreram e já estão reinando com Cristo no céu. O reino de Cristo no
milênio, segundo esse ponto de vista, não é um reino físico aqui na
terra, mas sim o reino celestial sobre o qual ele falou ao declarar:
‘Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra’ ” (Mt 28.18). De
acordo com FERREIRA, Franklin e MYATT, Alan.
Teologia Sistemática - uma
análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual.
São Paulo: Vida Nova, 2007, pg. 946-951.
De acordo com MELANDER (op. cit., p. 90), esse pensamento “defendia
a infalibilidade da Bíblia (entre outras coisas incluindo o criacionismo
e uma posição contra a evolução biológica) e se opunham às concepções
liberais otimistas a respeito do progresso humano. A civilização não ia
melhorar pelos esforços humanos, mas Cristo iria voltar para criar o
‘reino dos mil anos’. ”
O Estado
moderno promete dar suporte aos cidadãos do berço ao túmulo. Educar as
crianças, cuidar dos idosos e transferir o poder aos agentes do governo
que assumem novas responsabilidades. Tributar o trabalho, tributar
nossos lucros, e tributar a herança das nossas crianças. [...] Nós
podemos ver a fortalecimento de sociedades socialistas do século vinte.
Tradução da autora da tese.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
AGAMBEN, Giorgio.
L'ouvert. De l'homme et de
l'animal.
Col.
Bibliothèque Rivages. Paris: Payot & Rivages, 2002.
CHILTON, David. Days of Vengeance Horn Lake, MS: Dominion Press,
2006.
FERREIRA, Franklin
e MYATT, Alan.
Teologia
Sistemática
- uma análise
histórica, bíblica e apologética para o contexto atual.
São Paulo: Vida Nova, 2007, pg. 946-951.
GAY,
Craig. With liberty and justice for whom? The recent evangelical
debate over capitalism.
Boston: Boston
University, 1991.
NORTH, Gary. Liberating planet earth. An introduction to Biblical
Blueprints.
Texas: dominum
Press, 1987.
PIERUCCI, Antônio
Flávio. Ciladas da diferença. São Paulo: 34, 2000.
______________________. Criacionismo e fundamentalismo. O que é
fundamentalismo? Disponível em:
http://www.comciencia.br/200407/reportagens/12.shtml. Acesso em
02.09.2007.
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