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ISSN 1678-8419         última atualização em: quarta-feira, 01 de outubro de 2008 22:50:29                                               

 
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Reflexão
Neopentecostais: Teologia do Domínio e Fundamentalismo    

Geórgia Daphne Sobreira Gomes[*]

publicado em 01/10/2008

 

 

Ao longo das duas últimas décadas surgiram comentários e críticas aos neopentecostais relacionadas ao fato de que o grupo seria fundamentalista. Essa denúncia soa forte quando comparada aos movimentos radicais recentes de minorias do Islã contra o mundo Ocidental. Os ataques aos Estados Unidos, Inglaterra e Espanha mostraram a face drástica do terror e tudo que os recorda traz a sensação de completa insegurança para os não adeptos do Alcorão. A divulgação dos acontecimentos nas mídias, de fato, impressionou até as correntes mais comportadas do próprio islamismo. Contudo, há outras faces dos fatos aqui relatados que merecem ser observadas.

A respeito desse assunto, surge o questionamento sobre a natureza messianista da terceira onda pentecostal (neopentecostal). Seria ela também um movimento fundamentalista? Sobre isso, Pierucci (2000) adverte para o uso indiscriminado do termo, tanto como sinônimo de xiismo1, como de integrismo. Segundo ele, o fundamentalismo surgiu cunhado entre os protestantes norte-americanos entre final do século XIX e início do século XX e se opunha a corrente da teologia liberal, para tomar na década de 1980 – após a revolução iraniana – um sentido mais abrangente em quaisquer lugares do planeta, culturas complexas ou esfera da vida social. É esse generalismo que carrega a descontextualizarão do termo utilizado para designar analogicamente os movimentos de natureza político-religiosa, cuja repercussão atingiu uma correlação de força internacional.

É preciso lembrar que, de acordo com o autor, a primeira profissão de fé presbiteriana a conter os princípios fundamentalista declarava: a)a verdade irrestrita da Bíblia; b) a ressurreição física de Jesus; c) a origem imaculada de Jesus; d) a veracidade dos milagres de Cristo, que consubstanciam sua divindade; e) a expiação dos pecados pelo sacrifício de Cristo tornando desnecessária a expiação pelas  obras (Pierucci, 2007).

Conseqüentemente, o texto bíblico para a vertente fundamentalista não contém erros, pois que é completamente inspirada pelo próprio Deus único e revelador. Portanto para tornar fidedigna sua compreensão, antes de ser fundamentalista é preciso ser monoteísta. Também é necessário que o adepto capte o verdadeiro sentido de sua religião, por meio direto das escrituras sagradas, intermediada pelo qualificado clero e abomine a tradição clerical. É a partir dessa interpretação que se penetra na seara da Teologia do Domínio para examinar a sua possível origem fundamentalista.

A partir desses princípios, sabe-se que a Teologia do Domínio não se resume somente a uma luta no campo do divino ou sagrado para os dirigentes neopentecostais, corresponde, ao mesmo tempo, a uma ideologia de dominação sociopolítica, que concebe a cristianização social “pelo alto”, via política partidária, como interpretou Kepel (1991).

No entendimento de Souza e Magalhães (2002, p. 95), ao garantirem a inserção política de suas elites dirigentes e ao utilizarem todos os meios disponíveis para reproduzirem a força das elites atuais na formação de gerações futuras a Teologia do Domínio (TD) está realizando seu precípuo objetivo. Assim, a interferência clerical é condição sine qua non para propagar-se. Isso posto, é essencial conhecê-la um pouco mais para compreender sua semântica e conteúdo semiológico.

Surgida na década de 1960, nos Estados Unidos, essa variante religiosa calvinista teve grande influência no fundamentalismo. É com base nela que David Chilton (2006) afirma que os cristãos desejam para o mundo um Estado teocrático. A doutrina cultivada pela teologia do Domínio faz crer que os líderes cristãos precisam usar seus meios e influência para criar um governo, uma economia e uma religião universais, para que o “Messias” possa voltar a este mundo.

Mas qual o verdadeiro objetivo da Teologia do Domínio? Para responder a essa pergunta é preciso recorrer ao teólogo evangélico Gary North (1987, p. 86), um dos mais influentes doutrinadores dessa corrente. Ele postula que um dos pontos fundamentais da TD é “decapitar o Estado, fazê-lo ferramenta da religião e de Deus”. O pensamento de North e de seu grupo é que o crescimento da população presta-se como ferramenta de dominação estatal, bem como os cidadãos são vistos pelo Estado como perpétuas crianças ou escravos. Na visão de Craig Gay (1991, pp. 161-206), deve-se interpretar esse grupo reconstrucionista2 ortodoxo como teonomistas, para os quais o capitalismo funciona como um veículo escatológico completo, em harmonia com as leis naturais, um sistema que está abençoado com o aumento do domínio evangélico sobre a Terra. Representa essa corrente a racionalização completa da teologia cristã.

Dessa forma, a TD só pode ser entendida como projeto estratégico. Entretanto, Romeiro (1995) aponta para os perigos do pós-milenismo desse domínio, que para ele guarda semelhança ao amilenismo agostiniano3, pois tal qual seu predecessor, estabelece a religião no mundo secular presente, com a prisão de Satanás e expansão do cristianismo imortal e pleno, o que pode ser considerado, em alguns pontos, ideologia revolucionária geradora de novos profetas e apóstolos.

Portanto, e em consonância com o pensamento de North (op. cit., pp. 188-189), o Reino de Deus implica todas as instituições humanas e todas as esferas de vida e tudo na vida está sob o governo de Deus e seus princípios imutáveis. O reconstrucionismo leva a TD ao extremo e inclui no gerenciamento direto de Deus, a família, o Estado, a Igreja e a vida econômica. As organizações transnacionais na ótica desse grupo estão desautorizadas, por isso devem deixar de existir.

A partir das observações de Melander (2000, pp. 87-118), encontra-se nesse ponto uma identidade da vertente reconstrucionista com a nova direita que surgiu entre as décadas de 1970 e 1980, de que falam Agamben (2002) e  Santos (2007), ancorada no neoliberalismo. Sua marca é o Estado mínimo e a manutenção apenas do sistema judiciário e militar. Enquanto o fundamentalsimo vigente até a década de 1950 pugnava o avivamento premilenarista4, o reconstrucionismo visava influenciar o público por meio da educação para alcançar resultados políticos em longo prazo.

Um dos lemas do reconstrucionismo baseia-se no combate ao Estado de bem-estar. Segundo North, o Welfare representa um obstáculo para a acumulação de capital quando ultiliza políticas de financiamento aos excluídos do mercado. Assim, afirma:

The modern state promises to support its citizens from womb to tomb. It educates children, cares for aged and steadily transfer Power to the government offcials taking on new reponsabilities. It taxes labor, it taxes our profits, and it taxes our children inheritance.[...] We can see the drift of twentieth-century socialist societies (North, op. cit., pp. 71-72)5.

Isso representa, no entender dos teonomistas, uma combinação entre uma legislação embusteira com a manipulação psicológica, cujo objetivo é tomar o lugar do salvador do homem pela regulação totalitária. Para Gay (op. cit., p. 105), North e seus adeptos denunciam o recolhimento cultural no momento em que os representantes do Estado abdicam de controlar a cultura. Ainda para o autor, é essa mesma corrente teológica que sugere a dominação da Terra a partir da homologação dos direitos da propriedade privada surgida na criação do mundo. 

Dessa forma, a Teologia do Domínio prega na área econômica a extinção das esquerdas e afirma que o fim da desigualdade baseada na igualdade de renda seria obra demoníaca. Contra o socialismo, cuja ideologia é interpretada como filosofia da destruição, prega que apenas a liberdade do mercado pode promover a ascensão social e a mobilidade econômica.  No domínio estatal, prega que a redistribuição de renda promovida pelo Estado destrói a liberdade humana e por isso impede a responsabilização por atos sob a administração de Deus. A legislação acerca da ambição humana torna-se o maior fundamento do totalitarismo. A meta reconstrucionista é criar um sistema de controle da lei civil do governo local até o central para limitar o poder do governo às leis de Deus.

Mas o reconstrucionismo revela metas mais claras no âmbito familiar. Como já foi dito antes, o projeto ambicioso concentra-se em preparar as futuras gerações para o exercício de poder político. Logo, nesse empreendimento o papel da família é essencial, indispensável. Os filhos devem ser capacitados pelos pais para aumentar o capital familiar de geração em geração; o filho mais velho deve desempenhar um papel de líder na tarefa de enriquecimento familiar; a educação dos filhos volta-se para a acumulação de riquezas e a contestação dos favores do Estado.

Não obstante a origem reacionária da TD e de seu braço mais radical, o reconstrucionismo, verifica-se que embora tenham afinidades no campo ideológico e guardem semelhanças por embutirem uma abordagem religiosa mais radicalista, fundamentalismo e TD não podem ser vistos embaralhados ou com o mesmo significado. Há uma impropriedade leiga em interpretar dois fenômenos de ordem político-religiosa diferentes de maneira análoga. A advertência de Pierucci guarda todo o sentido em relação ao caso específico, pois a TD extrapola a mera literalidade e fidelidade bíblica para penetrar em campo mais vasto: a política, o que acaba imbricando-se com a vertente fundamentalista islâmica quando pretende tomar posse do Estado. Talvez isso demonstre uma maior identidade entre a TD e o integrismo: um movimento político-religioso de origem católica que, segundo Pierucci (2000), nasceu no final do século XIX, na vertente intransigente do catolicismo e se caracterizou por almejar a recuperação do político para fins religiosos calcado nas direitas, cuja principal força expressiva se concentra na organização Opus Dei.

Contudo, a admoestação de Pierucci leva a crer que o integrismo se encaixa melhor na visão católica por suas metas em geral, e que o fundamentalismo, de outro lado, tem sido o remédio genérico para todas as moléstias desfiguradoras do quadro político laico. Portanto, embora haja momentos em que os fenômenos apareçam concomitantemente e mantenham estreitas relações, é bom compreender a diferença entre eles de maneira que se possa também concebê-los em determinados momentos em lados opostos, mesmo porque estão contaminados pelo preconceito das mídias e da nova direita do Ocidente.

___________________

NOTAS

1 O termo xiismo refere-se aos adeptos xiitas, ramo da crença muçulmana caracterizado pela convicção de que a sucessão religiosa e política do profeta Maomé, o fundador da religião, deveria ter se restringido a membros de sua família e descendentes, obedecendo o critério permanente de consangüinidade.Tal convicção terminou por condicionar historicamente uma atitude de maior ortodoxia e zelo pela tradição do que a de seus opositores, os sunitas. Cf. em HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 2896.

2 Reconstrucionista significa adepto ao Reconstrucionismo. Primordialmente, esse grupo postula uma vinculação integral da sociedade americana à Bíblia e que deve haver adaptações do Estado a este objetivo, inclusive com a abolição do Estado laico e adoção da forma teocrática. Cf. Reconstrucionismo. Disponível em: http://www.e-cristianismo.com/antigo/viewtopic.php?t=2419. Acesso em 05.05.2008.

3 Segundo o ponto de vista pós-milenista, “[...] o avanço do evangelho e o crescimento da igreja se acentuarão de forma gradativa, de tal modo que uma proporção cada vez maior da população mundial se tornará cristã. Como conseqüência, haverá influências cristãs significativas na sociedade, esta funcionará mais e mais de acordo com os padrões de Deus e gradualmente virá uma “era milenar” de paz e justiça sobre a terra. Esse “milênio” durará um longo período (não necessariamente de mil anos literais) e, por fim, ao final desse período, Cristo voltará à terra, crentes e incrédulos será ressuscitados, ocorrerá o juízo final e haverá um novo céu e uma nova terra. Entraremos então no estado eterno”. A esta doutrina se contrapõe o amilenismo agostiniano. De acordo com essa posição, a passagem de Apocalipse 20.1-10 descreve a presente era da igreja. Trata-se de uma era em que a influência de Satanás sobre as nações sofre grande redução de modo que o evangelho pode ser pregado por todo o mundo. Aqueles que reinam com Cristo por mil anos são os cristãos que morreram e já estão reinando com Cristo no céu. O reino de Cristo no milênio, segundo esse ponto de vista, não é um reino físico aqui na terra, mas sim o reino celestial sobre o qual ele falou ao declarar: ‘Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra’ ” (Mt 28.18). De acordo com FERREIRA, Franklin e MYATT, Alan. Teologia Sistemática - uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007, pg. 946-951.

4 De acordo com MELANDER (op. cit., p. 90), esse pensamento “defendia a infalibilidade da Bíblia (entre outras coisas incluindo o criacionismo e uma posição contra a evolução biológica) e se opunham às concepções liberais otimistas a respeito do progresso humano. A civilização não ia melhorar pelos esforços humanos, mas Cristo iria voltar para criar o ‘reino dos mil anos’. ”

5 O Estado moderno promete dar suporte aos cidadãos do berço ao túmulo. Educar as crianças, cuidar dos idosos e transferir o poder aos agentes do governo que assumem novas responsabilidades. Tributar o trabalho, tributar nossos lucros, e tributar a herança das nossas crianças. [...] Nós podemos ver a fortalecimento de sociedades  socialistas do século vinte. Tradução da autora da tese.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGAMBEN, Giorgio. L'ouvert. De l'homme et de l'animal. Col. Bibliothèque Rivages. Paris: Payot & Rivages, 2002.

CHILTON, David. Days of Vengeance Horn Lake, MS: Dominion Press, 2006.

FERREIRA, Franklin e MYATT, Alan. Teologia Sistemática - uma análise histórica, bíblica e apologética para o contexto atual. São Paulo: Vida Nova, 2007, pg. 946-951.

GAY, Craig. With liberty and justice for whom? The recent evangelical debate over capitalism. Boston: Boston University, 1991.

KEPEL, Gilles. A revanche de Deus: cristãos, judeus e muçulmanos na reconquista do mundo. São Paulo: Siciliano, 1991.

MELANDER, Veronica. Os limites da categoria “fundamentalismo” para o estudo de religião e política na Guatemala. Ciências Sociais e Religião, ano 2, nº 2. Porto Alegre, set. 2000, p. 87-118.

NORTH, Gary. Liberating planet earth. An introduction to Biblical Blueprints. Texas: dominum Press, 1987.

PIERUCCI, Antônio Flávio. Ciladas da diferença. São Paulo: 34, 2000.

______________________. Criacionismo e fundamentalismo. O que é fundamentalismo? Disponível em:

http://www.comciencia.br/200407/reportagens/12.shtml.   Acesso em 02.09.2007.

ROMEIRO, Paulo.Evangélicos em crise: decadência doutrinária na Igreja Brasileira. São Paulo: Mundo Cristão, 1995.

SANTOS, Laymert Garcia dos. Brasil contemporâneo: estado de exceção? In: OLIVEIRA, Francisco e RIZEK, Cibele Saliba (Orgs.). A era da indeterminação. São Paulo: Boitempo Editorial, 2007. 


 

[*]Doutoranda do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da  Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

 
  

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Geórgia Daphne Sobreira Gomes. Doutoranda do Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciências Sociais da  Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

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