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Machado de Assis em sua obra O Alienista, publicada primeiramente
em 1881 no Rio de Janeiro pela revista A Estação, e
posteriormente incorporado ao volume Papéis Avulsos em 1882, traz
uma reflexão importante a cerca da ciência enquanto verdade única e
absoluta. Essa reflexão surge a partir do relato de uma passagem
histórica ocorrida em uma cidade denominada Itaguaí, que tem como
protagonista o Dr. Simão Bacamarte.
Simão era um médico bem conceituado, considerado como “filho da
nobreza”, formado nas melhores universidades do mundo, que resolvera
viver na modesta cidade de Itaguaí, em que dividia seu tempo entre a
prática da medicina e o aprofundamento de suas leituras científicas.
Este era como coloca o autor, um “homem de ciência, e só de ciência,
nada o consternava fora da ciência (...)” (ASSIS, 1991, p.17), dessa
forma todas as suas ações e atitudes eram em nome da verdade científica.
Verdade essa que Bacamarte considerava como capaz de resolver os
problemas da humanidade. Fundamentado nesta teoria ele resolve criar uma
“Casa de Orates” ou “Casa de Loucos”, a qual recebeu o nome de Casa
Verde. Nela foram abrigadas todas as pessoas consideradas “loucas” da
cidade, alguns tinham suas despesas mantidas, na instituição, pelos
familiares e outros pelo governo.
A
Casa Verde funcionava, para Simão, como um laboratório de pesquisas em
que pretendia aprofundar seus estudos sobre a loucura. Para isso o
alienista, como era chamado por conta de sua paixão pela ciência,
observou cada um de seus pacientes e classificou-os de acordo com o
“nível de loucura” que apresentavam.
No
decorrer de seus estudos e conforme os resultados e as dúvidas
provocadas, Bacamarte aumenta o número de sujeitos de sua pesquisa de
forma muito rápida, usando uma estratégia um tanto quanto duvidosa,
porém, segundo ele, cientificamente justificável, pois, “a ciência é
coisa séria e deve ser tratada com seriedade” (ASSIS, 1991, p. 34). O
alienista transitava pela cidade observando minuciosamente cada detalhe
do “comportamento humano”. Observava todas as pessoas, e aquela que
apresentasse um comportamento, pelo cientista entendido como fora do
juízo da razão, este era recolhido para a Casa Verde. E assim Simão
Bacamarte recolheu um número enorme de pessoas, inclusive sua esposa, a
qual julgou não estar dentro de suas reais faculdades mentais. Segundo
Simão sua esposa vinha apresentando comportamentos estranhos, pois,
ultimamente estava muito preocupada com padrões ligados a moda,
inclusive perdera o sono escolhendo um colar que combinasse com o
vestido que iria usar num jantar acompanhando seu marido.
Mesmo depois de revoltas e protestos frente às atitudes do alienista,
seus “estudos” continuavam, pois Bacamarte sempre tinha explicações
cientificas para justificar suas ações, e estas não poderiam ser
contestadas pelo saber empírico. O saber científico possuía
legitimidade, pois, a ele pertencia à verdade, logo, era incontestável e
superior, enquanto que o saber empírico não era verdadeiro, mas, sim,
apenas uma hipótese que não deveria ser considerada e tomada como
legitima. Dessa forma o cientista concluiu sua pesquisa e até criou um
outro problema de pesquisa, agora baseado na “normalidade”. Quem é
normal? E então encheu a Casa Verde de pessoas classificadas por ele
como “normais” para averiguar a “normalidade” do humano. Concluída mais
esta pesquisa o alienista coloca-se como sujeito de sua pesquisa e, como
nos conta Machado de Assis, “Fechada a porta da Casa Verde, entregou-se
ao estudo e a cura de si mesmo” (ASSIS, 1991, p.55).
Criador de normas e critérios, o personagem “alienista” de Machado de
Assis traz a reflexão sobre o conhecimento científico e o conhecimento
empírico, a razão e a emoção, o certo e o errado. Bacamarte mostra
através de suas atitudes o poder que a ciência representa e/ou assume
para esta sociedade, pois, suas idéias, embora muitas vezes contestadas,
foram aceitas frente à fundamentação científica de seus argumentos. O
próprio personagem vive a ciência como algo intrínseco, e em nome dela
constrói normas, valores e regras as quais as pessoas devem seguir para
atingir um padrão de normalidade e homogeneidade. Dentro deste “padrão”,
criado pelo alienista, chama-me a atenção a relação razão/emoção,
estabelecida pelo protagonista, pois, este parece colocar como critério
básico para a “normalidade” o “equilíbrio” de todas as emoções, ou seja,
o domínio da razão sobre a emoção. Sempre que o comportamento de algum
morador de Itaguaí apresentasse com destaque uma emoção, como por
exemplo, alegria, prazer, euforia, medo, amor, etc..., aos olhos do
alienista este possuía suas “faculdades mentais” comprometidas. Simão
Bacamarte entendia a espécie humana dividida entre a razão e a emoção, e
neste dueto, a razão representava a “normalidade” e a emoção a
“loucura”: “Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr.
Soares é ver se posso extrair a pérola, que é a razão; por outros
termos, demarquemos definitivamente, os limites da razão e da loucura.”
(ASSIS, 1991, p.20).
Dessa forma penso que a obra assisiana O Alienista reflete a
imagem de uma sociedade construída a partir dos padrões da modernidade
em que a ciência assume um papel de grande importância. Acredito que
esta forma de perceber o mundo ainda não tenha sido, em grande parte, (des)construída,
pois, ainda demonstramos, muitas vezes, em nossas atitudes um desejo de
homogeneidade entre as pessoas negando-nos a olharmos para suas
particularidades. Negamos com isso as diferentes culturas e as verdades
que ela abarca e com isso negamos também o diálogo entre os diferentes.
Quem sabe se procurássemos reconhecer o novo no velho, ou o velho no
novo aliando o olhar investigativo do alienista, com as diferentes
histórias, raças e verdades não trilharíamos um outro caminho.
BIBLIOGRAFIA
ASSIS. MACHADO. O Alienista. Papeis avulso. S.I. Lombaerts & C.,
1982 |