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O presente
texto é uma narrativa que serve como uma meta-experiência de relato
profissional com utilização de método abdutivo na ciência, pois se
insere na opção de se abstrair, jogando com possíveis respostas
(hipóteses) futuras, diferentemente do método pragmático, “engenheiro” e
pautado em experiências rigorosamente (ou ao menos racionalmente)
controladas. Assim, a ciência e a abdução se tornam possíveis para
questões polêmicas, complexas e paradoxais, principalmente em paradigmas
e assuntos ainda pouco explorados sem uma tradição de pesquisa. A
abdução pode ser feita sob medida, taylor made, para problema
específico, ou de maneira mais ampla, sob a pretensa hipótese de uma
meta-experiência que abstraí do particular para possibilitar abarcar uma
realidade mais ampla e por isso, não se detém nos detalhes, até mesmo na
experiência imediata, mas na essência e no que é comum. Aqui se utiliza
a narrativa como ferramenta didática de abdução, pois contar uma estória
não apenas remete o leitor à experiência, mas principalmente a uma
auto-reflexão crítica, construtiva, destrutiva, a fim de que ela própria
vá remodelando sua trajetória, confirmando ou não suas hipóteses e a dos
outros. Somos escravos dos nossos currículos e de nossas obras, sendo
recompensados (ou punidos) pelos mesmos. Por isso, a educação não se
refere apenas a ensinar aos outros, mas a ir nos educando cada vez mais,
pois no pensamento de Levi-Strauss, somos uma transição entre o animal e
o homem civilizado, devendo nos polir e nos melhorar constantemente. Com
isso, começa aqui a nossa estória, fictícia, e por isso não restrita a
ninguém em particular, podendo ser qualquer um e todos ao mesmo tempo,
pois existem etapas na vida que todos devemos passar. A morte é uma
delas. A educação, outra. Segue a estória...
Doutorado
na Universidade de Harvard e pós-doutorado em Stanford, o professor
Malaquias de Jesus tem um currículo dos mais prestigiosos na área de
Educação e comportamento humano. Falava cinco idiomas fluentes e
diversos prêmios de honra e reconhecimento por seu trabalho. Realizava
pesquisas sobre o processo de comunicação e de motivação, principalmente
relacionadas à psicologia da multidão e de grupos menores. Era um orador
nato e sabia encantar a platéia por horas a fim. Seu discurso era
precioso e ricas palavras fluíam como água pura e fresca saída de uma
fonte de beleza natural. Seus últimos discursos versaram sobre a
dominação da minoria e sobre o neocolonialismo imposto pelos países
desenvolvidos frente às nações em desenvolvimento. Todavia, numa
fatídica tarde de setembro, a chuva provocou grande acidente de trânsito
e o destino inevitável recaiu sobre o corpo de tal premiado professor.
Chegando lá
em cima, encontra o emérito professor com Dona Zuzu, a faxineira do
prédio da universidade onde ambos trabalhavam. Os dois seres, agora
desencarnados, são levados na presença de um grupo de espíritos mais
elevados, cuja natureza pura permite a realização de julgamentos justos
e de desígnios futuros de trabalho conforme os méritos que cada um
acumulou durante a vida aqui na terra.
- Ótimo –
pensava o professor. Se for por mérito, ganharei não apenas a chave, mas
os cumprimentos de todos os anjos daqui do céu. Mas, que pena da Dona
Zuzu, pobre na terra e pobre no céu.
Acabando o
burburinho inicial e na presença dos espíritos elevados, foi lavrada a
permissão de Dona Zuzu de morar numa bela casa com enormes jardins
floridos numa colônia avançada e num futuro próximo, de acompanhar e
ajudar seus entes queridos ainda em provação na terra, bem como a
possibilidade de freqüentar classes mais avançadas para futuras
reencarnações em missão de progresso da Humanidade.
-
“Belezinha!”, pensou novamente o professor. Se Dona Zuzu recebeu esse
prêmio, imagine eu. Vou ser promovido para benfeitor do Universo e
amigo-irmão dos maiorais.
Chegando a
vez do professor, foi lido a ficha pessoal e suas realizações:
Idade: 54
anos
Escolaridade: Pós-doutorado em distinta universidade estrangeira.
Família:
nenhuma devido ao egoísmo.
Sexo:
irresponsável. Aproveitou das fraquezas de algumas alunas e da
necessidade financeira de outras mulheres da vida. Não construiu uma
moral firme para edificar seus atos, o que levou ao descontrole,
acarretando o desencarne precipitado.
Vícios: o
da língua. Diminuía os trabalhos dos colegas e criticava a dos outros
com intuito de se elevar. Ademais, criava situações constrangedoras para
orientandos e outros neófitos de profissão.
Realizações: paupérrimas. Poucas doações foram feitas de coração e com o
sentimento de altruísmo.
Parecer:
Reprovado. Hipertrofia do intelecto com sentimentos de amor pouco
desenvolvido.
Sentença:
Voltar para a terra em condição de desenvolver a humildade e a caridade
aos semelhantes sem a idolatria da letra erudita vazia e fria que o
papel aceita, mas não frutifica em atitudes e atos realizados por mãos e
corações quentes de amor.
-Mas, como
isso é possível?! Retrucou o ex-professor vermelho e esbravejando. Vocês
não olharam a minha lista corretamente? Não sabem ver como eu fui útil à
Humanidade? Tenho pós-doc e defendi e muito o homem. Escrevi muitos
artigos sobre dominação, pós-colonialismo e tudo o que é para a proteção
do próximo. Porquê eu recebo esta punição, enquanto a Dona Zulu que era
faxineira ganha tremendo benefício? Vocês estão de brincadeira né?! É
pegadinha - dizia agora o ex-professor com voz num misto de pranto,
nervosismo e desespero.
Um dos
espíritos, certamente o chefe do grupo devido à candura e a luminosidade
que espargia como pequenas faíscas brilhantes, com olhar de ternura
simplesmente abaixou os olhos e disse humildemente:
Sim, caro
professor. Reconhecemos sua produção científica na defesa do próximo.
Todavia, palavras escritas em periódicos técnicos sem a devida
operacionalização na prática se tornam como sementes que foram
plantadas, mas não vingaram. O fruto de cuidar do próximo deve-se não ao
‘próximo distante’, mas ao ‘próximo próximo’. Não é ao próximo fictício
que devemos trabalhar e dignificar nossa existência, mas ao próximo de
carne e osso, principalmente aqueles que nos acompanham no dia-a-dia, ou
que eventualmente temos a chance de encontrar. Não é por acaso que
acontecem esses encontros. Isso são oportunidades de praticar e
exercitar nossa consciência, nossas mãos e principalmente, nosso
coração. Tal é a bondade de nosso Pai. Como verdadeiro mestre, não
esquece as lições para seus alunos pôr em prática o que aprende na
teoria. Observe como exemplo a Dona Zuzu. Enquanto você discursava sobre
comunicação, ela praticava dizendo bom dia, por favor, desculpa e muito
obrigado. Enquanto você comentava sobre as técnicas mais atuais de
motivação, ela acordava todos os dias as cinco da manhã e sempre estava
com um sincero sorriso estampado no rosto. Enquanto você resenhava sobre
dominação da minoria, ela representava a minoria dominada e agredida
psicologicamente pela classe erudita no trabalho. Ela jamais estudou em
universidade, mas cuidava-a como sendo o jardim de sua casa. Enquanto
você discursava sobre neocolonialismo, ela amparava com a caridade e a
palavra refrescante e estimuladora seus amigos e colegas de profissão
que eram tratados como seres sub-humanos por não possuírem títulos ou
honras universitárias...
Enquanto
assim falava o imparcial e justo chefe dos espíritos, o contorno do
professor foi diminuindo, tamanho era a vergonha e a queda de uma
pessoa, cuja vida foi estudar e mesmo assim, falhou em passar na prova
da vida de ajudar ao próximo.
***
Moral da
estória: a educação é um meio, não um fim em si mesma. A abdução na
ciência não é apenas um meio de inferências de possíveis resultados
futuros, mas também um elemento que permite jogar com a reflexão como
elemento de transformação e remodelagem. Dona Zuzu é um extremo, a do
professor Malaquias outro. Cada qual procurará conforme lhe convir, pois
qualificação profissional não significa educação. Esta é muito mais
ampla, rica e bela, pois a educação entra no reino dos sentimentos; a
qualificação, na dos pensamentos. Assim, sejamos belos pensadores e não
apenas pensadores, para tanto, vale a pena refletir ainda sobre a
seguinte frase de Einstein: “se um dia tiver que escolher entre o mundo
e o amor...lembre-se: se escolher o mundo ficará sem o amor, mas se
escolher o amor com ele você conquistará o mundo”.
Paulo
Hayashi Jr. |