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ISSN 1678-8419         última atualização em: quinta-feira, 09 de setembro de 2010 22:24:45                                               

 
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Reflexão

O professor

   

Paulo Hayashi Jr

publicado em 03/09/2010

 

 

O presente texto é uma narrativa que serve como uma meta-experiência de relato profissional com utilização de método abdutivo na ciência, pois se insere na opção de se abstrair, jogando com possíveis respostas (hipóteses) futuras, diferentemente do método pragmático, “engenheiro” e pautado em experiências rigorosamente (ou ao menos racionalmente) controladas. Assim, a ciência e a abdução se tornam possíveis para questões polêmicas, complexas e paradoxais, principalmente em paradigmas e assuntos ainda pouco explorados sem uma tradição de pesquisa. A abdução pode ser feita sob medida, taylor made, para problema específico, ou de maneira mais ampla, sob a pretensa hipótese de uma meta-experiência que abstraí do particular para possibilitar abarcar uma realidade mais ampla e por isso, não se detém nos detalhes, até mesmo na experiência imediata, mas na essência e no que é comum. Aqui se utiliza a narrativa como ferramenta didática de abdução, pois contar uma estória não apenas remete o leitor à experiência, mas principalmente a uma auto-reflexão crítica, construtiva, destrutiva, a fim de que ela própria vá remodelando sua trajetória, confirmando ou não suas hipóteses e a dos outros. Somos escravos dos nossos currículos e de nossas obras, sendo recompensados (ou punidos) pelos mesmos. Por isso, a educação não se refere apenas a ensinar aos outros, mas a ir nos educando cada vez mais, pois no pensamento de Levi-Strauss, somos uma transição entre o animal e o homem civilizado, devendo nos polir e nos melhorar constantemente. Com isso, começa aqui a nossa estória, fictícia, e por isso não restrita a ninguém em particular, podendo ser qualquer um e todos ao mesmo tempo, pois existem etapas na vida que todos devemos passar. A morte é uma delas. A educação, outra. Segue a estória...


 

Doutorado na Universidade de Harvard e pós-doutorado em Stanford, o professor Malaquias de Jesus tem um currículo dos mais prestigiosos na área de Educação e comportamento humano. Falava cinco idiomas fluentes e diversos prêmios de honra e reconhecimento por seu trabalho. Realizava pesquisas sobre o processo de comunicação e de motivação, principalmente relacionadas à psicologia da multidão e de grupos menores. Era um orador nato e sabia encantar a platéia por horas a fim. Seu discurso era precioso e ricas palavras fluíam como água pura e fresca saída de uma fonte de beleza natural. Seus últimos discursos versaram sobre a dominação da minoria e sobre o neocolonialismo imposto pelos países desenvolvidos frente às nações em desenvolvimento. Todavia, numa fatídica tarde de setembro, a chuva provocou grande acidente de trânsito e o destino inevitável recaiu sobre o corpo de tal premiado professor.

Chegando lá em cima, encontra o emérito professor com Dona Zuzu, a faxineira do prédio da universidade onde ambos trabalhavam. Os dois seres, agora desencarnados, são levados na presença de um grupo de espíritos mais elevados, cuja natureza pura permite a realização de julgamentos justos e de desígnios futuros de trabalho conforme os méritos que cada um acumulou durante a vida aqui na terra.


 

- Ótimo – pensava o professor. Se for por mérito, ganharei não apenas a chave, mas os cumprimentos de todos os anjos daqui do céu. Mas, que pena da Dona Zuzu, pobre na terra e pobre no céu.


 

Acabando o burburinho inicial e na presença dos espíritos elevados, foi lavrada a permissão de Dona Zuzu de morar numa bela casa com enormes jardins floridos numa colônia avançada e num futuro próximo, de acompanhar e ajudar seus entes queridos ainda em provação na terra, bem como a possibilidade de freqüentar classes mais avançadas para futuras reencarnações em missão de progresso da Humanidade.

 

- “Belezinha!”, pensou novamente o professor. Se Dona Zuzu recebeu esse prêmio, imagine eu. Vou ser promovido para benfeitor do Universo e amigo-irmão dos maiorais.


 

Chegando a vez do professor, foi lido a ficha pessoal e suas realizações:


 

Idade: 54 anos

Escolaridade: Pós-doutorado em distinta universidade estrangeira.

Família: nenhuma devido ao egoísmo.

Sexo: irresponsável. Aproveitou das fraquezas de algumas alunas e da necessidade financeira de outras mulheres da vida. Não construiu uma moral firme para edificar seus atos, o que levou ao descontrole, acarretando o desencarne precipitado.

Vícios: o da língua. Diminuía os trabalhos dos colegas e criticava a dos outros com intuito de se elevar. Ademais, criava situações constrangedoras para orientandos e outros neófitos de profissão.

Realizações: paupérrimas. Poucas doações foram feitas de coração e com o sentimento de altruísmo.

Parecer: Reprovado. Hipertrofia do intelecto com sentimentos de amor pouco desenvolvido.

Sentença: Voltar para a terra em condição de desenvolver a humildade e a caridade aos semelhantes sem a idolatria da letra erudita vazia e fria que o papel aceita, mas não frutifica em atitudes e atos realizados por mãos e corações quentes de amor.


 

-Mas, como isso é possível?! Retrucou o ex-professor vermelho e esbravejando. Vocês não olharam a minha lista corretamente? Não sabem ver como eu fui útil à Humanidade? Tenho pós-doc e defendi e muito o homem. Escrevi muitos artigos sobre dominação, pós-colonialismo e tudo o que é para a proteção do próximo. Porquê eu recebo esta punição, enquanto a Dona Zulu que era faxineira ganha tremendo benefício? Vocês estão de brincadeira né?! É pegadinha - dizia agora o ex-professor com voz num misto de pranto, nervosismo e desespero.


 

Um dos espíritos, certamente o chefe do grupo devido à candura e a luminosidade que espargia como pequenas faíscas brilhantes, com olhar de ternura simplesmente abaixou os olhos e disse humildemente:


 

Sim, caro professor. Reconhecemos sua produção científica na defesa do próximo. Todavia, palavras escritas em periódicos técnicos sem a devida operacionalização na prática se tornam como sementes que foram plantadas, mas não vingaram. O fruto de cuidar do próximo deve-se não ao ‘próximo distante’, mas ao ‘próximo próximo’. Não é ao próximo fictício que devemos trabalhar e dignificar nossa existência, mas ao próximo de carne e osso, principalmente aqueles que nos acompanham no dia-a-dia, ou que eventualmente temos a chance de encontrar. Não é por acaso que acontecem esses encontros. Isso são oportunidades de praticar e exercitar nossa consciência, nossas mãos e principalmente, nosso coração. Tal é a bondade de nosso Pai. Como verdadeiro mestre, não esquece as lições para seus alunos pôr em prática o que aprende na teoria. Observe como exemplo a Dona Zuzu. Enquanto você discursava sobre comunicação, ela praticava dizendo bom dia, por favor, desculpa e muito obrigado. Enquanto você comentava sobre as técnicas mais atuais de motivação, ela acordava todos os dias as cinco da manhã e sempre estava com um sincero sorriso estampado no rosto. Enquanto você resenhava sobre dominação da minoria, ela representava a minoria dominada e agredida psicologicamente pela classe erudita no trabalho. Ela jamais estudou em universidade, mas cuidava-a como sendo o jardim de sua casa. Enquanto você discursava sobre neocolonialismo, ela amparava com a caridade e a palavra refrescante e estimuladora seus amigos e colegas de profissão que eram tratados como seres sub-humanos por não possuírem títulos ou honras universitárias...


 

Enquanto assim falava o imparcial e justo chefe dos espíritos, o contorno do professor foi diminuindo, tamanho era a vergonha e a queda de uma pessoa, cuja vida foi estudar e mesmo assim, falhou em passar na prova da vida de ajudar ao próximo.

 


 

***


 

Moral da estória: a educação é um meio, não um fim em si mesma. A abdução na ciência não é apenas um meio de inferências de possíveis resultados futuros, mas também um elemento que permite jogar com a reflexão como elemento de transformação e remodelagem. Dona Zuzu é um extremo, a do professor Malaquias outro. Cada qual procurará conforme lhe convir, pois qualificação profissional não significa educação. Esta é muito mais ampla, rica e bela, pois a educação entra no reino dos sentimentos; a qualificação, na dos pensamentos. Assim, sejamos belos pensadores e não apenas pensadores, para tanto, vale a pena refletir ainda sobre a seguinte frase de Einstein: “se um dia tiver que escolher entre o mundo e o amor...lembre-se: se escolher o mundo ficará sem o amor, mas se escolher o amor com ele você conquistará o mundo”.


 

Paulo Hayashi Jr.

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