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ISSN 1678-8419         última atualização em: quinta-feira, 16 de dezembro de 2010 20:31:48                                               

 
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Reflexão

A ponta do meu nariz

   

José Reinaldo F. Martins Filho1

publicado em 16/12/2010

 


Quanto mais a sociedade avança no processo histórico, mais visivelmente se pode perceber que, mesmo após ser conceituado por muitos como sendo um ser social, o homem, cada vez mais, tem crescido em sua individualidade e egoísmo.

Não se trata apenas de um excesso de pessimismo da parte daqueles que analisam a sociedade, mas a realidade que é apresentada claramente evidencia que a prática comunitária, tão pregada e defendida em outros tempos, vem sendo substituída, pouco a pouco, por um individualismo unilateral. O homem, que antes lutava por um mundo mais fraterno e humano, é o mesmo que agora toma as rédias do movimento de contestação do espírito comum em prol de um egocentrismo exacerbado.

Vale dizer que ainda existem grupos e organizações que lutam pela propagação do comunitarismo, sistema no qual os indivíduos agem de forma reciprocamente responsável. Entretanto, em meio a todo um mundo de elaboração do contexto individual, mal se dá para ouvir o sussurro dos poucos que gritam em prol do bem alheio.

Tudo aquilo que não esteja ligado ao “Eu” perde o valor e toma o último lugar na ordem de importância para o sujeito. Nem mesmo os grandes mestres da arte do entendimento humano conseguiriam fundamentar propostas tão convincentes a ponto de serem acatadas e seguidas pelas grandes massas sociais. O “Eu” deve ocupar sempre o primeiro lugar. Tanto na ordem de valores quanto na ação prática. Tudo o que está ligado ao MEU benefício próprio deve ser executado por primeiro. Somente após, caso haja algum tempo livre, caso reste algum dinheiro no fundo da carteira, caso já se tenham esgotado as possibilidades de auto-satisfação, somente aí chegará o momento de o OUTRO ocupar algum lugar no contexto do EU, sempre muito ocupado consigo mesmo.

Um exemplo claro desta onda de egocentrismo que arrasta a população mundial é a maneira com que os meios sociais empregam a arte do convencimento. Ninguém mais precisa de se preocupar se o vizinho da esquerda não tem o que comer, ou se o vizinho da direita não tem o que vestir. Cada um que cuide da ponta de seu próprio nariz! Caso contrário todos estariam em uma grave situação de anarquia, na qual ninguém seria capaz de recostar a cabeça no travesseiro e dormir. Dormir, com tantos necessitados à minha volta?!

Como o egoísmo já estabelece recordes em sua atuação junto à sociedade, não poderia deixar de vir acompanhado. Quão inúmeros são os prejuízos que nos chegam por decorrência do espírito individual! Além de contaminar o pensamento das pessoas, faz com que elas sejam propagadoras de tal ideal. O pragmatismo e o relativismo, que considero como formas de destruição da sociedade, são exemplos nítidos de como o espírito individual traz conseqüências graves. O pior de tudo, é que já marcam presença em quase todas as universidades do mundo e são expressos pela maioria dos meios de comunicação. Fazer, Ter, Possuir, eis os termos de comando. Como são graves os problemas acarretados por essa onda de descaso. Fechado em sim mesmo nega, o homem, sua condição de ser social.

Oxalá o maior número de pessoas possível adotasse um estilo de raciocínio que pudesse voltar a reconhecer o homem como um ser social e, por isso, se comportar fazendo jus ao título. Somente assim o mundo se tornaria um lugar melhor para se viver. Lugar onde reinaria a paz e o amor, não o ódio e a guerra que afligem a tantos povos. Tudo depende de nós; arregaçarmos as mangas e pormos em prática a iniciativa de formar comunhão entre as pessoas, propagando a fraternidade e a justiça. Isso deve partir de cada um e representa a única disposição individualmente lícita.


 


 


 

MARTINS FILHO, José Reinaldo F. A ponta do meu nariz. In.: Revista Virtual P@rtes (São Paulo). Dezembro, 2010.

 
  

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::sobre o autor::
José Reinaldo F. Martins Filho é graduado em filosofia pelo Instituto de Filosofia e Teologia Santa Cruz - Associação Sedes Sapientiae. Membro do Grupo de estudos VIVA VOX: Grupo de pesquisas em filosofia clássica e contemporânea - Universidade Federal do Sergipe. Membro adjunto da SBF - Sociedade Brasileira de Fenomenologia. Atua com pesquisas em filosofia, com ênfase em filosofia contemporânea: filosofia da existência, alteridade e intersubjetividade, ética, ontologia e metafísica. É músico e pesquisador sobre a relação entre música e religião e música e filosofia. Possui competências em línguas clássicas - grego e latim - e contemporâneas. Também escreve reflexões no âmbito interdisciplinar, pondo em confronto e relação ciências como a política, a educação, a religião e a psicologia. Possui especial dedicação à fenomenologia, sobretudo nos seus expoentes Edmund Husserl, Martin Heidegger, Emmanuel Lévinas e Jean Luc Marion.
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