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Quanto mais a sociedade avança no processo histórico, mais
visivelmente se pode perceber que, mesmo após ser conceituado por muitos
como sendo um ser social, o homem, cada vez mais, tem crescido em sua
individualidade e egoísmo.
Não se trata apenas de um excesso de pessimismo da parte
daqueles que analisam a sociedade, mas a realidade que é apresentada
claramente evidencia que a prática comunitária, tão pregada e defendida
em outros tempos, vem sendo substituída, pouco a pouco, por um
individualismo unilateral. O homem, que antes lutava por um mundo mais
fraterno e humano, é o mesmo que agora toma as rédias do movimento de
contestação do espírito comum em prol de um egocentrismo exacerbado.
Vale dizer que ainda existem grupos e organizações que
lutam pela propagação do comunitarismo, sistema no qual os indivíduos
agem de forma reciprocamente responsável. Entretanto, em meio a todo um
mundo de elaboração do contexto individual, mal se dá para ouvir o
sussurro dos poucos que gritam em prol do bem alheio.
Tudo aquilo que não esteja ligado ao “Eu” perde o valor e
toma o último lugar na ordem de importância para o sujeito. Nem mesmo os
grandes mestres da arte do entendimento humano conseguiriam fundamentar
propostas tão convincentes a ponto de serem acatadas e seguidas pelas
grandes massas sociais. O “Eu” deve ocupar sempre o primeiro lugar.
Tanto na ordem de valores quanto na ação prática. Tudo o que está ligado
ao MEU benefício próprio deve ser executado por primeiro. Somente após,
caso haja algum tempo livre, caso reste algum dinheiro no fundo da
carteira, caso já se tenham esgotado as possibilidades de
auto-satisfação, somente aí chegará o momento de o OUTRO ocupar algum
lugar no contexto do EU, sempre muito ocupado consigo mesmo.
Um exemplo claro desta onda de egocentrismo que arrasta a
população mundial é a maneira com que os meios sociais empregam a arte
do convencimento. Ninguém mais precisa de se preocupar se o vizinho da
esquerda não tem o que comer, ou se o vizinho da direita não tem o que
vestir. Cada um que cuide da ponta de seu próprio nariz! Caso contrário
todos estariam em uma grave situação de anarquia, na qual ninguém seria
capaz de recostar a cabeça no travesseiro e dormir. Dormir, com tantos
necessitados à minha volta?!
Como o egoísmo já estabelece recordes em sua atuação
junto à sociedade, não poderia deixar de vir acompanhado. Quão inúmeros
são os prejuízos que nos chegam por decorrência do espírito individual!
Além de contaminar o pensamento das pessoas, faz com que elas sejam
propagadoras de tal ideal. O pragmatismo e o relativismo, que considero
como formas de destruição da sociedade, são exemplos nítidos de como o
espírito individual traz conseqüências graves. O pior de tudo, é que já
marcam presença em quase todas as universidades do mundo e são expressos
pela maioria dos meios de comunicação. Fazer, Ter, Possuir, eis os
termos de comando. Como são graves os problemas acarretados por essa
onda de descaso. Fechado em sim mesmo nega, o homem, sua condição de ser
social.
Oxalá o maior número de pessoas possível adotasse um
estilo de raciocínio que pudesse voltar a reconhecer o homem como um ser
social e, por isso, se comportar fazendo jus ao título. Somente assim o
mundo se tornaria um lugar melhor para se viver. Lugar onde reinaria a
paz e o amor, não o ódio e a guerra que afligem a tantos povos. Tudo
depende de nós; arregaçarmos as mangas e pormos em prática a iniciativa
de formar comunhão entre as pessoas, propagando a fraternidade e a
justiça. Isso deve partir de cada um e representa a única disposição
individualmente lícita.
MARTINS FILHO, José Reinaldo F. A ponta do meu nariz. In.:
Revista Virtual P@rtes (São Paulo). Dezembro, 2010. |