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RESUMO
Este artigo tem por
objetivo relacionar a categoria filosófica da totalidade, uma das categorias
do fundamento teórico-metodológico do Materialismo Dialético ao contexto da
saúde. Esta relação admite que os seres humanos constituem sua própria
totalidade, da qual se sobressaem os aspectos natural, social e cultural. O
singular, que é o ser humano em sua individualidade ganha sentido em razão
das relações que este estabelece com a totalidade do meio ambiente que o
condiciona.
Palavras-chave:
saúde, totalidade, ser humano, materialismo dialético.
RESUMEN
En este
artículo se
pretende relacionar la
categoría filosófica
de la totalidad, una de
las categorías
de base
teórica y metodológica del
materialismo dialéctico en el contexto
de la salud. Esta
relación reconoce
que los seres
humanos son
su propia totalidad,
lo que pone de manifiesto
los aspectos naturales, sociales
y culturales.
La única,
que es el
ser humano como
un individuo
tiene sentido debido a
las relaciones que
establece con
todo el entorno que
condiciones.
Palabras
clave:
la salud, la totalidad, el
ser humano, el materialismo dialéctico.
Ao
falarmos na categoria filosófica da totalidade, estamos conduzindo este
artigo sob o fundamento teórico-metodológico do Materialismo Dialético,
proposto por Karl Marx como método de análise da realidade. A totalidade,
juntamente com a contradição, é uma categoria do Materialismo Dialético que
representa o conjunto de relações e ligações estabelecidas no âmbito do
fenômeno real; ou seja, o concreto real em suas múltiplas determinações. O
enfoque deste condicionará a categoria da totalidade ao contexto da saúde,
no que tange à totalidade da constituição natural, social e cultural dos
seres humanos.
Karel Kosic, em sua obra “A Dialética do concreto”, vem nos lembrar que a
totalidade é um todo real, não um todo artificial, abstrato, no qual se
somam as partes, mas as interconexões e inter-relações entre as partes
constituintes do todo:
Totalidade não significa
todos os fatos. Totalidade significa: realidade como um todo estruturado,
dialético, no qual ou do qual um fato qualquer (classes de atos, conjuntos
de fatos) pode ser racionalmente compreendido. Acumular todos os fatos não
significa, ainda, a totalidade. Os fatos são conhecimentos de realidade se
são compreendidos como fatos de um todo dialético – isto é, se são átomos
imutáveis, indivisíveis e indemonstráveis, de cuja reunião a realidade sai
reconstituída – se são entendidos como partes estruturais do todo (1976, p
35).
Nesse sentido Marx (1999, p. 39) nos traz que “o concreto é o concreto
porque é a síntese de múltiplas determinações, isto é, unidade do diverso”.
É assim que os seres humanos, bem como os processos e fenômenos da realidade
tornam-se concretos, reais, quando vistos em sua totalidade. Em outras
palavras, cada ser humano, processo ou fenômeno só existe pela interação das
inúmeras ligações e relações que os condicionam. É importante entendermos
que cada ser humano, na totalidade que o torna singular, relaciona-se com a
totalidade de seu ambiente, a qual também apresenta um conjunto de ligações
e relações que lhe são próprias.
É
desta forma que, na relação que estamos propondo fazer entre a saúde e a
categoria da totalidade, é preciso entender o sujeito no interior do seu
próprio processo de saúde, ou de adoecimento. E não como elemento passivo,
não relacionado, alheio ao processo de existência da saúde ou da doença.
Tomando a sociedade enquanto totalidade multideterminada, podemos também
localizar no seio desta a totalidade de cada sujeito social: o ser humano em
sua totalidade. Este sujeito reúne em si um conjunto de “movimentos
dialéticos do todo”, constituinte deste ser e responsáveis pelo seu processo
de “equilíbrio dinâmico” e de transformação.
A
totalidade que constitui os seres humanos é dissonante e contraditória, o
que lhe confere uma determinada organização e a possibilidade de
transformação. Sendo assim, não é possível simplificar a relação
saúde-doença enquanto “estado de saúde”, ou “estado de doença”. Considerando
as multideterminações que tornam o ser humano concreto, é possível
compreende-lo em um processo contínuo de movimento dialético, onde um
“estado” não anula o outro, mas ambos coexistem constantemente, em luta,
expressando-se no movimento dialético desta relação saúde-doença. É o
conflito constante das multideterminações que constituem a totalidade de
cada ser humano.
Isso nos leva ao entendimento de que ao buscarmos compreender o sujeito em
sua totalidade, e partindo do pressuposto de que toda totalidade possui
partes constituintes, que não se somam, mas se inter-relacionam, iremos
reconhecer três aspectos essenciais da constituição humana: os aspectos
natural, social e cultural, os quais estamos considerando neste estudo para
representar a totalidade deste sujeito, lembrando que cada um destes
aspectos considerados genericamente reúne em si uma série de elementos que
lhe são próprios. É nesse sentido que, no âmbito da saúde, partindo desta
compreensão da totalidade, ou das multideterminações que constituem o ser
humano poderemos então compreender os processos que o levam a estar saudável
ou não saudável.
Os
estados de equilíbrio[1],
os quais de forma geral chamamos saúde refletem-se na expressão orgânica, a
série de sintomas e sinais que podem ser diagnosticados como estado de saúde
ou doença. É assim que a medicina convencional tem enfocado o sujeito: nos
aspectos orgânicos que evidenciam estados de saúde ou doença. Esta abordagem
no campo da saúde é necessária, pois sem ela estamos rompendo logo de início
a totalidade do ser humano, esquecendo o aspecto natural de sua
constituição. Porém a mesma não basta para que seja eficaz a ação no campo
da saúde, pois é necessário que também os elementos sociais e culturais
constitutivos dos sujeitos, ou as demais partes do todo, sejam objeto de
análise para que se reconheçam os processos de saúde/doença.
Em
sua obra “A Dialética Materialista: categorias e leis da Dialética“
Alexandre Cheptulin coloca que:
o conhecimento das propriedades e das conexões
universais da realidade, que se exprimem nas categorias filosóficas, é
absolutamente indispensável ao homem para sua orientação, para que possa
determinar as vias que lhe permitirão resolver as tarefas práticas que
surgem no processo de desenvolvimento da sociedade (1982, p. 1).
Também no âmbito da saúde, quando consideramos a categoria da totalidade,
devemos ter em mente que esta vem nos auxiliar em nosso empenho em
compreender os aspectos da constituição dos sujeitos que fazem com se
favoreçam processos de promoção e manutenção da saúde, ou, em seu contrário,
processos de adoecimento.
No
âmbito da saúde, a tendência a considerar o ser humano em seu aspecto
natural, bem como de isolar a parte, o fragmento, em contraposição a uma
análise da totalidade compromete a eficácia das ações em saúde, sejam elas
preventivas, ou resolutivas. Quanto mais compreendermos o ser humano nos
aspectos constituintes de sua totalidade, tanto mais poderemos intervir na
transformação de suas condições de saúde.
A
totalidade corresponde a uma das categorias mais importantes do materialismo
dialético. No âmbito da saúde esta vem representar a própria forma (e
conteúdo) da constituição dos sujeitos enquanto seres naturais, em sua
estrutura orgânica, sociais, no sentidos das relações que vivenciam em
sociedade, e culturais, quando falamos nas convenções humanas que
condicionam modos de viver em sociedade e contribuem para as diferentes
formas de subjetividades.
Não
podemos, pois, considerar os seres humanos isolando-os em partes, as quais
julgamos constituí-lo. É preciso que consideremos a nós mesmos, enquanto
seres complexos, de relações, produtos e, produtores de cultura. Unidade de
elementos que nos constituem, sendo eles naturais, sociais e culturais, ou
seja, totalidade estruturada por meio de relações e ligações entre as
partes, as quais não devem ser consideradas isoladamente.
É
importante enfatizar que a saúde convencional centraliza o aspecto natural,
a disfunção orgânica, mas é preciso reconhecer que os aspectos social e
cultural são fatores que têm se mostrado indissociáveis no processo de saúde
dos sujeitos, já que se expressam, ou manifestam-se na própria disfunção
orgânica. Portanto, não podemos, a título de crítica aos modelos
“biologizantes” de abordagem em saúde, esquecer que esta abordagem é a que
permite comumente o diagnóstico, tratamento e cura de doenças, embora muitas
vezes possua a desvantagem de não considerar as causas. É assim que, de
forma a tratar a raiz do problema, precisamos investir no aspecto
preventivo-educativo e na redução dos condicionantes sociais que influenciam
negativamente as condições gerais de saúde dos sujeitos.
Todos os elementos que nos constituem enquanto seres humanos relacionam-se
entre si, interagem, mesmo que indiretamente e em diferentes níveis de
interdependência. Pensar a nós mesmos dissociando-nos em partes,
separando-as, para analisá-las isoladamente como pretende o método
científico convencional, é cair no equívoco de afastar a teoria da
necessária prática social, já que tal abordagem de ser humano torna difícil
a sua aplicação, quando no plano teórico foram negligenciadas as relações e
interdependências que nos constituem.
É
nesse sentido que a saúde, enquanto recurso social cuja função é atender às
necessidades humanas, deverá se afastar de uma compreensão fragmentada de
ser humano, mas sim enxergando a este na totalidade que o constitui. Só
assim a sua ação será eficaz, quando há o respeito à constituição complexa e
diversa do ser humano em seus aspectos natural, social e cultural. A
uniformização do atendimento em saúde, que necessariamente implica em uma
uniformização na concepção de ser humano dificulta a realização da função
social da saúde.
É
assim que a saúde, quando deseja contribuir com o desenvolvimento dos
sujeitos deve considerá-lo em seu contexto social e cultural, e não apenas
focar o aspecto das disfunções orgânicas (o aspecto natural da constituição
do sujeito). Por exemplo, compreender que na totalidade da constituição e
nas relações estabelecidas pelo sujeito social e culturalmente condicionado,
existem inúmeros fatores que podem influenciar tanto positivamente quanto
negativamente o seu processo individual de saúde.
[1]
Esse equilíbrio não deve ser entendido em uma visão funcionalista ou
organicista do ser humano, que é um ser social. Desconsiderar a
especificidade histórica, social e cultural dos sujeitos é supor que o
equilíbrio seja restaurar ou manter o bom funcionamento de um sistema, sem
levar em conta o que seja realmente necessidade, o que seja saúde para os
seres humanos condicionados socialmente, culturalmente e historicamente,
assumindo, assim, uma postura conservadora de atender ao imediato (o
assistencialismo em saúde) sem buscar superar as causas.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
CHEPTULIN, Alexandre.
A Dialética Materialista; Categorias e Leis da Dialética. [tradução
de Leda Rita Cintra Ferraz], São Paulo: EDITORA ALFA-OMEGA, 1982.
GOLDENBERG, P.;
MARSIGLIA, R. M. G.; GOMES, M. H. A. (Org.) O Clássico e o Novo:
tendências, objetos e abordagens em ciências
sociais e saúde.
Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2003.
KAPRÍVINE, V. Que é
o Materialismo Dialético: ABC dos conhecimentos sociais e políticos.
[tradução de G. Mélnikov], EDIÇÕES PROGRESSO MOSCOVO, 1986.
KOSIC, Karel.
Dialética do concreto. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
MARX, Karl. Para a
crítica da economia política. São Paulo: Editora Nova Cultural, 1999.
*
Licenciada em
Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Pelotas (UFPEL) e
Mestranda da Pós-Graduação em Educação Ambiental da Universidade Federal
do Rio Grande (PPGEA-FURG). E-mail: andreisadamo@yahoo.com.br.
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