![]() |
|
Reflexão- Ano I - Nº 2 - Maio de 2000 |
|
Gilberto da
Silva Vejamos algumas palavras a respeito dos políticos (alguns) e de suas milagrosas
obras (se é que elas realizam milagres!). Obra é construção, trabalho, produção. Mas no vocabulário político obra é visibilidade, matéria de publicidade quase que infinita, repleta de concreticidade (a do concreto), um out-door permanente. As obras dos políticos são geralmente dotadas de superfaturamento com estilos faraônicos e imponentes. Diríamos, em alguns casos, até que repletas de negociações paralelas: UM LEILÃO AMBULANTE. Quem dá mais? Leva! As obras legitimam o dinheiro público. Os políticos e
seus gastos exorbitantes realizam a passagem espetacular do público para o privado! E tome concreto, ferro, cimento... E tome propaganda, placas comemorativas.
Viadutos, estradas, calçadas, obras inaugurais que nunca terminam. Haja cimento para
tanta civilização! O maior prazer do político obreiro
é construir, reconstruir, reformar, derrubar, erguer, reerguer, mudar e transformar. É o
político em construção. O político obreiro parece ser alicerçado pelas guias da
corrupção, plantado e alimentado pelo sistema, que ele mesmo controla. Seremos felizes
com tantas obras? Washington Luis, ex-presidente do Brasil, o mesmo que
(dizem) criou a frase "a questão social é caso de Polícia" elaborou uma obra
prima do pensamento nacional: "governar é
abrir estradas." Desde então nossos audazes políticos obreiros de plantão
teimam em conduzir radicalmente essa máxima. "É
cobrir águas", dirão alguns olhando para as águas lamacentas dos rios poluídos
das cidades. A questão social - a obra social - não é obra? A política social é invisível, não permanente, requer manutenção a todo
instante. Política social não ganha eleição. São obras de ficção as implantadas na
saúde e educação, você lê, olha os projetos, pensa que é verdade, real, mas é pura
obras dos sonhos. A invisibilidade não ganha governos, não produz líderes,
impossibilita o domínio do poder. As obras são urnas fixas, latentes, imponentes. Para o "político
obreiro", as obras não são meios, são fins. Retrato fiel de um objetivo claro: dar
aparência ao real. É como o homem que só se satisfaz na vida ao ter um filho, produto
do seu ser, reprodução do seu EU. Mais Narciso impossível. Um político insinuava que o
oceano era sua obra, se houvesse uma construção na lua seria possível reivindicar para
si a autoria. Mas ele tentou ser esperto: inventou uma obra humana, um mal sucedido clone.
A obra é do homem e o bicho não come. O político -e suas obras, matreiramente refaz milagres, transforma água em
vinho, despolui rios, transforma a natureza e os bolsos, os nossos e os dele. Ao colocar as "mãos à obras" condenam à degradação a natureza e os seres mortais. Gilberto da Silva, editor de Partes, é jornalista e sociólogo |