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Reflexão |
Ano I - Nº9 - dezembro de 2000 |
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Natal e o Oriente Médio
O mês
de dezembro é o mês do natal cristão. Mais do que nunca, a reflexão
sobre o Natal invoca uma reflexão sobre o conflito no Oriente Médio.
Paulo
de Abreu Lima
Temos
a impressão, com freqüência, que o conflito entre árabes e israelenses
nunca será solucionado. A julgar pelo que acompanhamos pela imprensa, o
relacionamento entre judeus e palestinos, especialmente, sempre será
marcado por atitudes violentas de ambas as partes.
É
bastante lamentável a grande perda de todo o avanço a que chegaram as
negociações de paz, entre Iasser Arafat e Itzhak Rabin. Mais lamentável,
ainda, Israel eleger, na seqüência, um primeiro-ministro da direta (Byniamin Nethanyahu), que, claramente, desprezou e jogou no lixo todo o avanço
alcançado.
A
atitude de desrespeito de Ariel Sharon quando visitou, recentemente, um
local sagrado para os árabes em data de significado especial para estes,
com certeza representou uma afronta e, de certo modo, legitima o sentimento
de rejeição e não-reconhecimento e ira. Legitima no sentido de que é
bastante clara a vantagem de poder (econômico e militar) de Israel sobre o
povo palestino, pois apesar de todo o mundo árabe ao seu lado, Israel
mantem-se em situação facilitada pelo fato de ser uma nação reconhecida
internacionalmente.
A
questão é relativamente simples: afinal, quem é que tem o direito
verdadeiro de ocupar aquelas terras; judeus, palestinos? Uma questão que,
parece, ninguém consegue responder. Historicamente, tanto um quanto outro,
parecem ter direito – existem teorias, inclusive, de que haveria
parentesco étnico entre judeus e árabes. Historicamente parece que as duas
partes têm direito; economicamente não se evidencia nenhuma razão mais
forte. A questão, de fato, é puramente religiosa e cultural. Os cristãos
poderiam entrar na briga também pela reivindicação de Jerusalém, já que
também tem significado histórico para o cristianismo.
Mas a
questão maior não é quem tem o direito legitimo de domínio de Jerusalém
ou da Cisjordânia, etc. A questão é a incapacidade de
convivência e negociações entre dois povos de valores e traços culturais
diferentes, e a capacidade de seus líderes
(com destaque para as lideranças radicais de direita tanto
israelenses quanto palestinas) de fomentarem e insuflarem o ódio natural e
doentio de um povo contra o outro – com certeza foi essa a razão que
levou o jovem israelense a matar o primeiro-ministro Rabin.
Por
isso acho que o Natal tem muito a ver com esta questão, não só pelo
significado que toda a região do oriente médio tem para o cristianismo,
mas porque o Natal é a lembrança do início, do nascimento; e esse tipo de
lembrança – que é a importância desta comemoração - suscita parada e
reflexão sobre questões como acolhimento, humildade, escuta e tudo aquilo
que representa coexistência, que é exatamente o que não se consegue de
forma alguma entre árabes e judeus. Será que só com intervenção divina?
E a capacidade do perdão?
Sebastião
Salgado diz que “as crianças refugiadas (...) são vítimas de
ferimentos mais difíceis de curar do que o trauma do deslocamento físico.
Quando elas e os pais são vítimas de limpeza étnica, por exemplo, o
desejo de vingança não é uma reação natural? Quanto submetidas a exílios
prolongados, as crianças crescem sabendo (e sentindo) que têm um
inimigo; quando um pai foi assassinado, que mãe pode ensinar os
filhos a perdoar? Não é surpreendente que os campos de refugiados se
transformem em centros de recrutamento para forças armadas de “libertação”.
(...) os rebeldes palestinos utilizaram campos de refugiados no Líbano com
o mesmo objetivo. As crianças refugiadas aprendem depressa que a derrota
acarreta responsabilidades ”.
A
capacidade do perdão está, com certeza, muito fragilizada. Arafat e Barak
têm um imenso desafio. Este desafio talvez não seja só destes dois líderes,
mas do mundo todo e, do ponto de vista político, especialmente das Nações
Unidas, apesar de toda força e fragilidade que ela possui (Kosovo, Bósnia,
Tchetchênia, etc.). Política e historicamente, portanto, a capacidade do
perdão, da humanidade, está nas mãos dos líderes. Oxalá os líderes
eternos conspirem a nosso favor.
Paulo
de Abreu Lima é psicólogo
O
construtor e o jardineiro |
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