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Reflexão

Ano I - Nº10 - janeiro de 2001

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Um convite ao vôo

 Eduardo Galeano
 
 Milênio vai, milênio vem, a ocasião é propícia para que os oradores de inflamado verbo discursem sobre os destinos da humanidade e para que os porta-vozes da ira de Deus anunciem o fim do mundo e o aniquilamento geral, enquanto o tempo, de boca fechada, continua sua caminhada ao longo da eternidade e do mistério.
 
 Verdade seja dita, não há quem resista: numa data assim, por mais arbitrária que seja, qualquer um sente a tentação de perguntar-se como  será o tempo que será. E vá-se lá saber como será. Temos uma única certeza: no século vinte e um, se ainda estivermos aqui, todos nós seremos gente do século passado e, pior ainda, do milênio passado.
 
 Embora não possamos adivinhar o tempo que será, temos, sim, o direito de imaginar o que queremos que seja. Em 1948 e em 1976 as Nações Unidas
 proclamaram extensas listas de direitos humanos, mas a imensa maioria da humanidade só tem o direito de ver, ouvir e calar. Que tal começarmos a
 exercer o jamais proclamado direito de sonhar? Que tal delirarmos um pouquinho? Vamos fixar o olhar num ponto além da infâmia para adivinhar outro mundo possível:
 
 o ar estará livre do veneno que não vier dos medos humanos e das humanas paixões;  nas ruas, os automóveis serão esmagados pelos cães;
as pessoas não serão dirigidas pelos automóveis, nem programadas pelo computador, nem compradas pelo supermercado e nem olhadas pelo televisor; o televisor deixará de ser o membro mais importante da família e será tratado como o ferro de passar e a máquina de lavar roupa; as pessoas trabalharão para viver, ao invés de viver para trabalhar; será incorporado aos códigos penais da estupidez, cometido por aqueles que vivem para ter e para ganhar, ao invés de viver apenas por viver, como
 canta o pássaro sem saber que canta e brinca a criança sem saber que  brinca;
 
 em nenhum país serão presos os jovens que se negarem a prestar o serviço militar, mas irão para a cadeia os que desejarem presta-lo;
 
 os economistas não chamarão nível de vida ao nível de consumo, nem chamarão qualidade de vida à qualidade de coisas;
 
 os cozinheiros não acreditarão que as lagostas gostam de ser fervidas vivas;
 
 os historiadores não acreditarão que os países gostam de ser invadidos;
 
 os políticos não acreditarão que os pobres gostam de comer promessas;
 
 ninguém acreditará que a solenidade é uma virtude e ninguém levará a sério aquele que não for capaz de deixar de ser sério;
 
 a morte e o dinheiro perderão seus mágicos poderes e nem por  fortalecimento nem por fortuna o canalha será formado em virtuoso cavalheiro;
 
 ninguém será considerado herói ou pascácio por fazer o que acha justo em lugar de fazer o que mais lhe convém;
 
 o mundo já não estará em guerra contra os pobres, mas contra a pobreza, e a indústria não terá outro remédio senão declarar-se em falência;
 
 a comida não será uma mercadoria e nem a comunicação um negócio, porque a
 comida e a comunicação são direitos humanos;
 
 ninguém morrerá de fome, porque ninguém morrerá de indigestão;
 
 os meninos de rua não serão tratados como lixo, porque não haverá meninos de rua;

 os meninos ricos não serão tratados como se fossem dinheiro, porque não haverá meninos ricos;

 a educação não será um privilégio de quem possa pagá-la;

 a polícia não será o terror de quem não possa comprá-la;

 a justiça e a liberdade, irmãs siamesas condenadas a viver separadas,tornarão a unir-se, bem juntinhas, ombro contra ombro;

uma mulher, negra, será presidente do Brasil, e outra mulher, negra, será presidente dos Estados Unidos da América; e uma mulher índia governará a Guatemala e outra o Peru;

 na Argentina, as loucas da Praça de Maio serão um exemplo de saúde mental,porque se negaram a esquecer nos tempos da amnésia obrigatória;

 a Santa Madre Igreja corrigirá os erros das tábuas de Moisés e o sexto mandamento ordenará que se festeje o corpo; 

 a Igreja também ditará outro mandamento, do qual Deus se esqueceu: " Amarás a natureza, da qual fazes parte", serão reflorestados os desertos do mundo e os desertos da alma; 

 os desesperados serão esperados e os perdidos serão encontrados, porque eles são os que se desesperam de tanto esperar e os que se perderam de tanto procurar; 

 seremos compatriotas e contemporâneos de todos os que tenham aspiração de justiça e aspiração de beleza, tenham nascido onde tenham nascido e tenham vivido quando tenham vivido, sem que importem nem um pouco as fronteiras do mapa ou do tempo; 

 a perfeição continuará sendo um aborrecido privilégio dos deuses; 

 mas neste mundo confuso e fastidioso, cada noite será vivida como se fosse a última e cada dia como se fosse o primeiro.

 

 

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