| Entrevistas |
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Alaor Vieira
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O
pernambucano Alaor Vieira é uma das personalidades mais
famosas da noite paulistana desde sua chegada na capital,
nos anos 80. Na época, trabalhou no clube Madame Satã e teve
a oportunidade de mostrar à cidade sua personalidade
marcante e estilo único. Nos anos 2000 revolucionou o clube
Sarajevo, na rua Augusta, e agora, aos 52 anos, o engenheiro
elétrico e gerente administrativo de casas noturnas que
possui a maior parte do corpo tatuado (incluindo cabeça e
rosto), provoca o ser humano e suas limitações com mais uma
inovação: na
busca da superação de limites decidiu retirar as tatuagens
da face.
Segundo explica o próprio Alaor, o
processo de feitura das tatuagens ocorreu por razões
primitivas e não por razões estéticas ou de choques sociais.
Seu foco foi espiritual, isto é, um ato de força interior.
Alaor explica seus atos como “impulsos primitivos”:
“É a noção da
origem primitiva como a verdade sobre os princípios da
dor,sua percepção, bem como do despertar e da evolução
através desta. A tatuagem veio através da dor e não o
oposto. Os grandes guerreiros percebiam a verdade através
dela. Isto não tem nada a ver com masoquismo, o qual vem do
prazer em sentir a dor, e não da busca da Verdade. A dor
deve ser utilizada como mecanismo para o despertar quanto à
Verdade.
As
substâncias liberadas no processo de tatuagem entorpecem a
mente e o ser entra em transe. É este transe que leva o ser
à Verdade porque é um estado em que a mente pára. Por isso
existe no catolicismo o auto-flagelo, assim como nos mantras,
nos sons de new age, trance-goa, etc.” O jornalista
Apoenan Rodrigues, em seu livro intitulado “Tatuagem: dor,
moda, prazer e muita vaidade” ,
conta sobre Alaor Vieira:
Há oito anos,
nosso personagem – que é campeão pernambucano de xadrez, não
bebe, não fuma, nem se droga – não experimenta a sensação da
agulha cutucando sua pele. “Eu tive um crescimento
artístico. Arte por arte não existe. Com a loucura é a mesma
coisa. Ela tem que ser educada, senão vira caos. O caos tem
que ser canalizado para virar arte ou algo produtivo. Mas
esta foi uma fase e, como somos parte de um todo, não dá
para negar. A loucura é inconsciente, a gente não se percebe
alterado.” O resultado dessa trip é marcante. Até hoje, ao
passarem por ele, algumas senhoras fazem o sinal-da-cruz.
Outras pessoas o acham lindo. “É fascinante esse lance de me
acharem belo e horripilante ao mesmo tempo. Por outro lado,
é um aprendizado difícil.”
Ele sabe o
que diz. Quando o Madame Satã fechou suas portas, Alaor teve
que de enfrentar a realidade. “Adoro usar terno e gravata.
Acho chiquérrimo.” Como de costume, seu currículo era
aceito. Contudo, no momento da entrevista, quando olhavam
suas tattoos expostas, sempre ouvia uma desculpa delicada,
às vezes objetiva de que a vaga não estava mais disponível.
Iniciou-se uma fase obscura. Tentou o suicídio pela segunda
vez.
A primeira
aconteceu quando era adolescente, porque se achava for a dos
padrões do jovem dito normal. Tempos mais tarde,
coincidentemente, os extremos voltariam a se encontrar num
momento em que, outra vez, ele se viu totalmente fora dos
padrões, desta vez por causa das tatuagens.
Hoje, mesmo
com os caminhos tortuosos por onde passaram alegrias e
tristezas, Alaor não se arrepende. “Mas, se pudesse eu
tiraria para me adaptar melhor a sociedade. As pessoas ainda
não estão preparadas para este tipo de trabalho artístico e,
na verdade, nem eu. Quero estar em harmonia com o mundo. Mas
o que fazer? Todo escolhido tem uma marca.”
A decisão de Alaor pela remoção das
tatuagens foi devida a projetos de orientação espiritual,
educacional e psicológico em benefício humano, pois, através
de contatos ufológicos, recebeu conhecimentos de que “a
dualidade é a linguagem através da qual o mundo conhecerá a
Verdade.”
Em suas próprias palavras, exemplifica
as influências do Xamanismo, que defende que, através do
choque, do impressionismo, do confuso, do bizarro e do belo
da alma, do caos e do renascer, da dor e do amor, da
compreensão e do chacoalhar do ser, é que é possível
introduzir informações para a evolução humana.
Como escreveu Apoenan Rodrigues sobre a
dualidade de Alaor: “Seu frenesi foi tão grande que chegou a
tatuar o rosto e a cabeça, transformando-se numa figura
estranha, comentada, porém querida na cidade. Afinal, muitos
achavam exótico o contraste entre as tatuagens e sua
personalidade cavalheiresca.”
No MASP, por exemplo, utilizaram sua
imagem para provocar e testar a reação das pessoas.
Puseram-no sentado de terno e gravata, todo tatuado, lendo
jornal e jogando xadrez, em plena Avenida Paulista. De fato
algo bastante dual e intrigador, que faz as pessoas
pensarem.
Assim, fazendo uso de seus atributos
físicos e espirituais, Alaor pretende despertar o ser humano
para a Verdade, recorrendo à mídia para a divulgação de sua
mensagem.
1 RODRIGUES, Apoenan.
TATUAGEM: DOR, PRAZER, MODA E MUITA VAIDADE, Cap. I, p.
9-14, Capítulo 1.
Tatuagens, não
começaria de novo!
entrevista com Alaor Vieira
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