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Falta
d'água em meio à abundância
Aldo
da C. Rebouças
Em
diferentes oportunidades, a "crise da água', para alguns, ou a
"guerra da água", para outros, tem sido anunciada como a marca do
século 21. Entretanto, o Brasil é o único país de extensão continental
sob condições de clima tropical úmido e com rios
perenes sobre mais de 90% do seu território. Como resultado, o Brasil
ostenta a maior descarga de água doce do mundo (197.500 metros cúbicos por
segundo, ou seja, mais de 197 mil caixas d'água de mil litros cada uma são
descarregadas por segundo no oceano). Essa quantidade é 40% maior do que a
descarga de todos os rios dos Estado Unidos e 47% superior à dos rios do
Canadá, países ricos que não estão na lista negra da crise da água. A
quantidade de descarga média de longo período dos rios de uma região
dividida pela sua população relaciona melhor a distribuição da
potencialidade de água doce com sua densidade demográfica.
Dessa
forma,diz-se que há escassez de água, segundo a ONU, quando o uso atinge
mais de 40% da descarga média de longo período dos rios da região. Estudo
publicado na revista "Science", afirma que 1,75 bilhão de pessoas
já enfrentaram escassez de água no planeta, número que deve chegar a 3,3
bilhões em 2025.
O Brasil tem um potencial de água doce da ordem de 35 mil m3 por habitante
por ano, do qual utiliza um pouco mais de 2%. Além disso, o País tem cerca
de 5 mil m3 por habitante por ano de água subterrânea. Esse manancial é
alimentado pela infiltração de parcela da chuva na camada relativamente
pouco permeável de material geológico não saturado. Como resultado, a água
subterrânea é submetida a processos naturais de autodepuração, tornando
o
manacial subterrâneo barato e flexível para o abastecimento de mais de 80%
das nossas cidades. Para tanto, é de fundamental importância que os poços
sejam construídos atendendo a critérios de engenharia geológica, hidráulica
e sanitária. Em outras palavras, deve-se distinguir um poço bem construído
de um buraco de onde se retira a água, da mesma forma que se diferencia uma
incisão cirúrgica de uma facada. Não obstante tanta riqueza de água
doce, não sabemos usar o recurso. Ao contrário, parece que a visão de
tanta água deu suporte à idéia de inesgotabilidade dos nossos recursos hídricos,
à cultura do desperdício, de transformação dos nossos rios em esgotos a
céu aberto, ao crescimento desordenado das demandas e à degradação da
sua
qualidade nas cidades. Considerando-se apenas a descarga média de longo período
dos rios, os habitantes da bacia Amazônica têm um potencial de água doce
superior a 100 mil m3 per capita por ano, o que os situa entre os países
muito ricos de água.
Entretanto,
por não saber usar a água, a população dessa área apresenta quadros endêmicos
de saúde pública associados a doenças tais como diarréia e verminose. Além
disso, em importantes cidades como Manaus tem-se problemas de abastecimento
de água como qualquer outra cidade da região semi-árida do Nordeste
subdesenvolvido ou do Sudeste chuvoso e desenvolvido. Nos estados mais
desenvolvidos do Brasil os potenciais de água doce nos rios situam-se nos níveis
considerados pela ONU como suficientes, ou seja, entre 2 mil e 10 mil m3 por
habitante por ano.
Nos estados da região Nordeste, esses potenciais situam-se nos níveis
considerados regulares, isto é, variam entre mais de 1 mil e 2 mil m3 por
habitante por ano. Vale destacar que, segundo a ONU, a oferta de água nas
cidades dos países mais desenvolvidos varia entre 200 e 275 litros por
habitante por dia, sendo considerada suficiente para uma boa qualidade de
vida. Vale lembrar que, na região metropolitana de São Paulo, a taxa de
projeto é de 250 litros por habitante por dia, o que seria suficiente para
abastecer a população com perdas totais da ordem de 20%. Somado água tratada
e água retirada de poços, a oferta total de água na região metropolitana
é da ordem de 353 litros per capita por dia ou 130 m3 por habitante por
ano, superior, portanto, ao índice máximo encontrado pela ONU nas cidades
mais desenvolvidas do mundo. Por sua vez, o agronegócio também impõem
uma eficiência econômica ao uso da água em excesso à planta no intuito
de
irrigar melhor já que não é uma prática razoável em termos econômicos.
Regra geral, a eficiência econômica imposta pelo mercado aceita uma oferta
de água às culturas entre 5 mil e 10 mil m3 por ano por hectare. Para
tanto, poderá ser necessário utilizar os métodos de irrigação que
proporcionam a maior eficiência possível, buscando-se produzir cada vez
mais com cada vez menos
água. Nesse quadro, torna-se indispensável - tanto ao morador das grandes
cidades quanto ao do campo - considerar que a expansão contínua da oferta
de água já não é sustentável do ponto de vista social, econômico, ecológico,
político, institucional e legal. Em outras palavras, a transposição de água
entre bacias hidrográficas vizinhas, a construção de barragens, reservatórios,
adutoras e estações de tratamento e a perfuração de poços não são
mais uma simples tarefa de engenharia técnica, mas compreende aspectos
legais, institucionais, políticos e culturais. Os riscos à saúde pública,
o desconforto e os prejuízos econômicos que são engendrados tanto pela
baixa eficiência das empresas de abastecimento d'água como pelo grande
desperdício das formas de uso da água no meio doméstico, industrial e
irrigação, principalmente, indicam que é hora de buscar soluções que
evitem os riscos de escassez efetiva de água. Na maioria dos casos de
escassez local e ocasional de água, a palavra-chave é a gestão, que não
só inclui a combinação dos mananciais - águas de rios, subterrâneos e
de reuso não potável no meio urbano, na indústria e na agricultura - ,
mas compreende
aspecto do chamado gerenciamento da demanda, no qual se busca a oferta de água
pelo menor custo e máxima eficiência no fornecimento e no uso da água.
Nesse
contexto, portanto, o grande desafio para a sociedade brasileira, incluindo
seu meio técnico e os grupos tradicionais participantes da "política
de bastidores", é modificar o atual pensamento, historicamente
estabelecido, de que a expansão da oferta mediante a construção de obras
extraordinárias é a única solução para os problemas de escassez de água.
Todavia, a possibilidade de atender demandas futuras crescentes por meio da
maior eficiência dos usos atuais é uma experiência de sucesso comprovado
nos
países ricos. No Brasil, a expansão da oferta tem sido a única resposta
em face da escassez de água e da necessidade de atender às crescentes
demandas. Por tanto, a riqueza deriva da combinação do conhecimento
(aprender a usar a água), competência (alcançar eficiência no
fornecimento e no uso) e
tecnologia (utilização de equipamentos cada vez mais eficientes e combate
aos desperdícios). Por sua vez, o conceito de água como recurso
natural limitado, de valor econômico e fator competitivo do mercado tornou-se
universal, sobretudo depois da Conferência da ONU sobre ambiente e
desenvolvimento, a Rio-92. A partir de então, a guerra comercial torna-se
cada vez mais complexa e sofisticada, interpondo-se além de barreiras tarifárias,
fitossanitárias e ambientais, barreiras ética, ecológica e
econômica dos usos e proteção das águas. Nesse quadro, já não se trata
de saber usar a água mas de usá-la da melhor maneira. Por sua vez,
considerando que o modelo de desenvolvimento do Brasil passou, na última década,
de um estilo de economia protegida para o de uma economia aberta, a
disponibilidade de água doce tornou-se um fator competitivo do mercado
global. Segundo essa ótica, as empresas de abastecimento já não podem ser
simples tocadoras de obras extraordinárias, assim como os planos estaduais,
regionais ou nacionais de recursos hídricos.
Aldo
da C. Rebouças - Professor-titular
do Departamento de Geociências da Universidade de São Paulo e integrante
do
Instituto de Estudos Avançados da USP.
Transcrito do Jornal Gazeta
Mercantil - 28, 29 e 30/07/2000 - Pag. A-3
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