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Sócio Ambiental |
Ano I - Nº8 - novembro de 2000 |
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Índios
Xikrin-Kaiapó colhem os resultados do manejo florestal sustentável Projeto pioneiro pode configurar modelo alternativo de
exploração madeireira por
comunidades indígenas no cenário amazônico Nilto
Tatto Desde a promulgação da Constituição, em 1988, o
processo de demarcação de Terras Indígenas e a consolidação de seus
direitos vêm avançando consideravelmente e, como conseqüência positiva,
temos assistido ao aumento populacional indígena, ao seu florescimento
cultural e ao crescimento da sua presença no cenário político nacional. Não
obstante, grande parte das comunidades na região amazônica encontram-se
envolvidas num ciclo de degradação social e ambiental decorrente do modelo
de desenvolvimento implementado e principalmente pelo impacto predatório da
indústria madeireira, que hoje atinge boa parte das áreas indígenas. Nesse contexto, o desafio das populações indígenas é criar mecanismos
que garantam sua sobrevivência e sua identidade cultural sem que tenham que
sucumbir a modelos predatórios de exploração dos recursos naturais de
suas terras nem depender do paternalismo assistencialista oficial. Nas
últimas duas décadas, o setor madeireiro tem se mostrado especialmente
predatório na região amazônica, principalmente no sul do Pará, habitada
pelos índios Kaiapó. As terras dessas comunidades
vêm sendo sistematicamente invadidas e degradadas,
em alguns casos com a anuência dos próprios líderes indígenas.
Esse modelo predatório nem sempre garante
retorno financeiro justo para as
comunidades e a falta de
preocupação com a proteção ambiental põe em risco a sobrevivência
futura destes povos. Para
reverter essa situação e escapar do modelo predatório que se impõe na
região, os Xikrin-Kaiapó criaram em 1995 a Associação Bep-Nói de Defesa
do Povo Xikrin do Cateté. A associação
estabeleceu parceria com o Instituto Socioambiental, organização não-governamental
sem fins lucrativos e, com o apoio financeiro da Companhia Vale do Rio Doce
e do ProManejo (Programa Piloto para Proteção de Florestas Tropicais do
Brasil – MMA e IBAMA), os Xikrin começaram a desenvolver o seu próprio
projeto de manejo florestal. O
projeto de manejo florestal da comunidade Xikrin do Cateté insere-se numa
estratégia ampla de utilização
sustentável dos recursos florestais da área Xikrin. Buscam com o projeto
gerar uma receita financeira periódica e contínua para a comunidade indígena
e proteger, de forma mais efetiva e planejada, os recursos e a integridade física
da terra indígena contra invasores. Essa iniciativa piloto deverá servir
como referência e exemplo para o manejo dos recursos naturais de outras
comunidades indígenas e não indígenas da Amazônia. Os
Xikrin estão colhendo os primeiros frutos de seu empreendimento, realizando
a primeira colheita de madeira do
projeto denominado Plano de Manejo
Florestal Sustentável da Terra Indígena Xikrin do Cateté. Para
celebrar essa conquista, uma grande festa foi organizada dia 25 de outubro
na aldeia Cateté, onde estiveram presentes os Ministros da Justiça (José
Gregori) e do Meio Ambiente (José Sarney Filho), o Presidente da FUNAI (Glênio
Alvarez) e a Presidente do IBAMA (Marília Marreco). Agora,
a expectativa é que o testemunho desses convidados possa resultar em ações
práticas e adoção de políticas públicas que viabilizem a irradiação
desse modelo sustentável para outras comunidades indígenas interessadas. O
projeto representa uma alternativa de sustentabilidade na exploração dos
recursos naturais, tanto na perspectiva ambiental, pela forma do manejo,
quanto social, uma vez que o retorno financeiro é maior para os índios. A
elaboração e gestão do projeto conta com a participação direta da
comunidade indígena, propiciando sua crescente autonomia em relação ao
paternalismo assistencialista desenvolvido historicamente pelo Estado e a
possibilidade de independência futura na relação com os próprios
parceiros que estão apoiando esta iniciativa neste momento. Se
considerarmos a amplitude do cenário amazônico e as atividades
extrativistas que nele têm lugar, as dimensões do Projeto de Manejo
Florestal Xikrin são extremamente modestas. Contudo, essa experiência pode
oferecer uma alternativa econômica não só nas Terras Indígenas, mas também
em outras áreas com potencial de exploração e até nas propriedades
particulares. Essa proposta se contrapõe ao modelo de desenvolvimento
difundido na região, no qual grandes extensões são desmatadas para a
extração de madeira e, depois, convertidas em pasto ou culturas agrícolas
por um curto período, para serem então abandonadas, uma vez que a
recuperação dessas terras é mais onerosa que a exploração de novas áreas
intactas, alimentando um ciclo que pressiona de forma crescente e irreversível
grandes extensões de florestas na Amazônia. Além
dos nefastos efeitos ambientais, as conseqüências sociais desse modelo
insustentável também são desastrosas. O sistema produtivo que se
impôs nessa região da Amazônia favorece a concentração de renda,
desintegração das comunidades indígenas e a multiplicação da pobreza,
provocando a migração de grandes contingentes de expropriados para os
centros urbanos, acarretando formas de ocupação desordenadas e condições
de vida miseráveis. Por
isso, cremos, que o cunho social e ambiental que ancora este tipo de
empreendimento deve contar com maior apoio e respaldo do Estado e da
sociedade. Projetos deste tipo não contam com recursos suficientes para o
seu desenvolvimento e tampouco para a realização das atividades de exploração.
No caso de Terras Indígenas, há o agravante de serem propriedade da União
e, portanto, não poderem servir de garantia para a obtenção de
financiamento no mercado, o que aponta para a urgência de se criar linhas
de crédito especiais para esses casos, como são feitos para a produção
agrícola para pequenos proprietários e/ou cooperativas. Em
contrapartida, o contexto internacional tem apresentado uma tendência favorável
a esse tipo de iniciativa que conjuga sustentabilidade socioambiental e
rentabilidade. Os mercados consumidores do Norte tornam-se cada vez mais
exigentes e a procura por produtos gerados com respeito a normas sociais e
ambientais tem crescido. Os consumidores politicamente engajados poderão
garantir importante mercado para os produtos certificados provenientes das
florestas brasileiras. Nesse contexto, o projeto de Manejo Florestal Xikrin
pode representar uma alternativa de atividade ambientalmente saudável,
economicamente rentável e socialmente interessante para as populações indígenas
e outras tradicionais da Amazônia. Nilto
Tatto, coordenador do Projeto Plano
de Manejo Florestal Sustentável da Terra Indígena Xikrin do Cateté e
Secretário Executivo do Instituto Socioambiental
O mundo para todos Durante
debate recente, nos Estados Unidos, fui questionado sobre o que pensava da
internacionalização da Amazônia. O jovem introduziu sua pergunta dizendo
que esperava a resposta de um humanista e não de um brasileiro. Foi
a primeira vez que um debatedor determinou a ótica humanista como o ponto
de partida para uma resposta minha. De fato, como brasileiro eu simplesmente
falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos
governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso.
Respondi que, como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que
sofre a Amazônia, podia imaginar a sua internacionalização, como também
de tudo o mais que tem importância para a Humanidade. Se
a Amazônia, sob uma ótica humanista, deve ser internacionalizada,
internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro. O
petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazônia
para o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no
direito de aumentar ou diminuir a extração de petróleo e subir ou não o
seu preço. Os ricos do mundo, no direito de queimar esse imenso patrimônio
da Humanidade. Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos
deveria ser internacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os
seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um
país. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas
decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as
reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da
especulação. Antes
mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os
grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França.
Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio
humano. Não se pode deixar que esse patrimônio cultural, como o patrimônio
natural amazônico, seja manipulado e destruído pelo gosto de, a um
proprietário ou de um país. Não faz muito, um milionário japonês,
decidiu enterrar com ele um quadro e de um grande mestre. Antes disso,
aquele quadro deveria ter sido internacionalizado. Durante
o encontro em que recebi a pergunta, as Nações Unidas reuniam o Fórum do
Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em
comparecer por constrangimentos na fronteira dos Estados Unidos. Por isso,
eu disse que Nova Iorque, como sede das Nações Unidas, deveria ser
internacionalizada. Pelo menos Manhatan deveria pertencer a toda a
Humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília,
Recife, cada cidade, com sua beleza específica, sua história do mundo,
deveria pertencer ao mundo inteiro. Se
os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nas mãos
de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos Estados
Unidos. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas
armas, provocando uma destruição milhares de vezes maior do que as lamentáveis
queimadas feitas nas florestas do Brasil. Nos
seus debates, os atuais candidatos à presidência dos Estados Unidos têm
defendido a idéia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em
troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança
do mundo tenha possibilidade de ir à escola. Internacionalizemos as crianças
tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como patrimônio
que merece cuidados do mundo inteiro. Ainda mais do que merece a Amazônia.
Quando os dirigentes tratarem as crianças pobres do mundo como um patrimônio
da Humanidade, eles não deixarão que elas trabalhem quando deveriam
estudar; que morram quando deveriam viver. Como
humanista, aceito defender a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o
mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja nossa. Só
nossa. Cristovam
Buarque é professor da UNB, autor do livro " A cortina de ouro" (Artigo
publicado no jornal O Globo de 23 de outubro de 2000) |
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