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Sócio Ambiental |
Ano I - Nº9 - dezembro de 2000 |
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O
sonho sustentável
Marina Silva
Às vezes me perguntam
sobre o movimento "ecológico" na Amazônia, do qual participei ao
lado de Chico Mendes. Respondo, para surpresa de algumas pessoas, que no início
nem conhecíamos o significado da palavra "ecologia". Para nós
tratava-se, simplesmente, da sobrevivência. O desmatamento de grandes áreas
para instalação da pecuária representava uma ameaça direta à vida de
milhares de famílias no interior da floresta. Expulsas, elas estavam
condenadas a uma vida miserável na periferia das cidades. Lutávamos contra
isso. Somente depois -e aos poucos- nos demos conta de que o nosso movimento
não defendia apenas os seringueiros, mas também uma maneira de
relacionar-se com a natureza. Percebemos que a floresta amazônica era muito
importante para toda a humanidade. E a palavra "ecologia" entrou
no nosso dicionário. A mesma coisa se deu com
essa expressão, hoje tão conhecida: "desenvolvimento sustentável".
Não conhecíamos o relatório da ONU, elaborado em 1986, que colocou em
circulação essa expressão. Mas tínhamos a sustentabilidade como uma espécie
de critério básico para julgar tudo aquilo que recusávamos e também o
que reivindicávamos. Dessa forma, considerávamos errado desmatar a
floresta para plantar capim e exportar madeira para depois comprar móveis.
Condenávamos a divisão de lotes "quadrados" para colonização
agrícola e a legislação que considerava o desmatamento uma benfeitoria.
Tivemos que elaborar
propostas, buscar alternativas práticas. Então começamos a falar na
agricultura permanente, na valorização dos produtos da floresta e em uma
reforma agrária adaptada às especificidades da região amazônica. A
descoberta de aliados externos, especialmente na comunidade científica,
ajudou a formular melhor os conceitos com os quais trabalhávamos
intuitivamente. Sindicatos e organizações não-governamentais começaram a
firmar convênios com universidades e institutos de pesquisa. Surgiram, então,
caracterizações mais gerais para um modelo de desenvolvimento baseado no
agro-extrativismo, na agroindústria, no manejo florestal. Nossa principal proposta,
a partir de 1985, passou a ser a criação das Reservas Extrativistas. Essa
proposta juntava três aspectos básicos do tipo de desenvolvimento que propúnhamos:
conservação ambiental, economia cooperativa e atendimento de demandas
sociais, especialmente saúde e educação. Uma reserva extrativista é uma
área de floresta em que não se demarcam lotes, mas o perímetro, como numa
área indígena. No seu interior, as famílias se distribuem conforme a
tradição, de acordo com a distribuição natural dos recursos (água,
madeira, seringa, castanha, caça etc.). Vendem seus produtos e compram
mercadorias através de cooperativas. Uma rede de escolas e postos de saúde,
com um tipo de educação e medicina adequados à cultura popular, completa
a estruturação. Os benefícios sociais
desse modelo são inqustionáveis: distribui terra, evita o êxodo rural,
possibilita a cidadania. Mas a pressão do "progresso" por lucros
imediatos nos obrigou a buscar formas de demonstrar a viabilidade econômica
de nossas propostas. Desde então, as pesquisas científicas tem fornecidos
as respostas de que necessitávamos. A importância internacional
conquistada pela biotecnologia mostrou a riqueza que a Amazônia coloca à
disposição do Brasil. Não foi por acaso que existiu tantos interesses em
torno da aprovação da Lei de Patentes. Trata-se de uma disputa
internacional pelo domínio e utilização dessa riqueza. Mas, apesar do aval técnico
e científico que encontramos, nosso critério fundamental continuou sendo a
prática. Hoje vemos, com alegria, o surgimento dos primeiros frutos nos
projetos econômicos e sociais que apoiamos. Mesmo sem apoio dos governos,
enfrentando boicotes e perseguições, as comunidades da floresta começam a
demonstrar evidentes possibilidades de melhoria de vida. Suas cooperativas,
usinas de beneficiamento, projetos agro-florestais e até mesmo suas escolas
e postos de saúde, tornam-se os principais sustentáculos econômicos dos
municípios onde se situam. Enquanto isso, a pecuária extensiva mostra que
não se sustenta sem o protecionismo estatal e a exploração madeireira
deixa um rastro de miséria e destruição por onde passa. Infelizmente, embora os
governos usem cada vez mais a expressão "desenvolvimento sustentável"
em seus discursos, a prática oficial continua sendo o principal entrave. As
oligarquias e os especuladores ainda vicejam à sombra dos incentivos
estatais. As linhas de crédito favorecem grandes empresas e latifundiários.
Os projetos de real importância social ficam travados pela burocracia. Os
institutos de pesquisa morrem à míngua. A fiscalização e punição dos
crimes ambientais quase inexistem. Penso que será necessária uma grande
mudança política para que os rumos do desenvolvimento econômico sejam
mudados e a tão propalada sustentabilidade deixe de ser um sonho. Que uma mudança vai
acontecer, disso não tenho dúvidas. A questão ambiental, que está na essência
da proposta do desenvolvimento sustentável, não é um modismo passageiro.
A população do mundo cresceu muito nas últimas décadas. Os recursos
naturais tornam-se cada vez mais escassos. A utilização do petróleo como
principal fonte de energia tem prazo de poucas décadas para terminar. As
novas tecnologias, especialmente derivadas da biologia e da informática,
estão modificando as culturas, os estados e os mercados. Todos esses
fatores empurram o mundo para a superação dos modelos econômicos atuais e
para a descoberta de novos modelos, mais ágeis e adequados tanto às mudanças
globais quanto às demandas regionais e até comunitárias. Quem vive nas grandes
cidades percebe: a crise -de que tanto se fala- não é apenas econômica ou
política, é de toda a civilização humana. A sociedade da indústria e do
consumo gerou megalópoles insustentáveis e esvaziou as áreas rurais. A
condição para sair da crise é uma profunda renovação de valores. Não
tenho dúvidas de que essa renovação ética só poderá ocorrer se estiver
fundamentada num novo relacionamento do homem com a natureza. Em resumo, o debate sobre
desenvolvimento sustentável está apenas no início. Por isso mesmo,
considero uma tarefa fundamental do Estado brasileiro, neste final de milênio,
estabelecer uma moratória na devastação do ambiente. A Amazônia, o
Pantanal, a Mata Atlântica, as águas dos rios e do mar, a madeira, os minérios,
as ervas, o ar, tudo o que Deus colocou nessa porção do planeta em que
vivemos é tão importante para o futuro que não pode continuar servindo a
um "progresso" econômico ilusório, predatório e especulativo.
É um crime contra a humanidade sacrificar os recursos do milênio pelo
lucro de uma década. Também é crime imperdoável
colocar em risco as populações tradicionais, com sua cultura variada e
rica, com seus conhecimentos e valores. Especialmente quando esse crime é
cometido em nome de um desenvolvimento baseado na simples imitação de
valores externos, na obsessão de pertencer ao "primeiro mundo",
condenando a maioria do povo brasileiro à exclusão e ao apartheid para que
uma minoria possa comprar quinquilharias. A idéia do
desenvolvimento sustentado é um sinal de alerta. Um critério básico para
avaliar os rumos da civilização e mudar enquanto é tempo. Fico contente
de que seringueiros e índios da Amazônia tenham compreendido, na prática,
a importância dessa idéia e que isso tenha nos possibilitado um encontro
criativo com as parcelas mais lúcidas dos outros povos. Rezo para que
outros brasileiros não cheguem tarde demais a esse encontro. Marina Silva é senadora pelo PT do Acre e historiadora
Reciclagem
do lixo em aterro sanitário no Pará
Alinhada
com essas linhas básicas essa experiência aqui relatada contempla um
projeto integrado para a recuperação de um aterro sanitário degradado
localizado em Aurá e a construção de novas células para atender às
necessidades da Região Metropolitana de Belém até o ano 2020. Isso será
O projeto está sendo
implantado através do desenvolvimento social e da organização dos
catadores de papel e a inserção das crianças e adolescentes em atividades
sócio-educativas, contribuindo para o desenvolvimento de sua criatividade,
auto-estima, solidariedade, valores morais e éticos, relações
Em 1999, a Administração
Municipal gastou US$ 116,900.00 na implantação do Projeto "sementes
do Amanhã" em benefício das crianças e adolescentes com recursos do
tesouro municipal.
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