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Danilo Pretti
Di Giorgi
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| publicado em
28/09/2007 |
Enquanto escrevo este texto, a Aliança dos Povos da
Floresta promove, em Brasília, o 2º Encontro Nacional
dos Povos das Florestas. O encontro anterior – ocorrido
em março de 1989, meses depois do assassinato do líder
seringueiro Chico Mendes, um dos principais entusiastas
do encontro e da formação da Aliança - foi um evento
histórico.
Chico Mendes tornou-se mártir da luta pela preservação
da Amazônia e as questões ambientais têm recebido
atenção crescente da imprensa. Apesar disso, os grandes
veículos de comunicação praticamente ignoram o
acontecimento. Por quê? Mais: o que índios e
seringueiros têm em comum, além de tradicionalmente
ocuparem a região amazônica e lutarem contra um inimigo
comum, representado pelo capitalista dos setores da
mineração, da pecuária e da agricultura industrial? O
que pode sair de realmente novo de um encontro destes
grupos na capital federal, sede do poder estabelecido
daquele mesmo capitalista, e financiados, em última
instância, pelo capital?
A Aliança, rede composta pelo Grupo de Trabalho
Amazônico, pela Coordenação das Organizações Indígenas
da Amazônia Brasileira e pelo Conselho Nacional dos
Seringueiros, representa mais de 1.100 organizações das
florestas brasileiras e esteve desarticulada durante
todos estes anos. Não são muito claras as razões deste
longo intervalo. Possivelmente a falta de outras
afinidades, além da luta contra aquele inimigo genérico
comum, explique esta desarticulação. Talvez a
pulverização e o grande número de entidades, somados às
dificuldades de deslocamento na região amazônica sejam
outros fatores.
De toda forma, pelas declarações de seus líderes, os
integrantes aparentam ter compreendido, ao menos no
discurso, a importância de somar esforços "em defesa da
preservação das florestas, sobretudo para as gerações
futuras". Resta-nos perguntar então: serão todos esses
grupos realmente preservacionistas? Ou a união é
simplesmente o resultado inevitável da luta desigual
contra o enorme poder do capital, carecendo, assim, de
um embasamento mais sólido que sustente uma ideologia
comum? O que fariam estes mesmos povos de posse de
recursos materiais comparáveis aos dos capitalistas do
sul? Seria injusto dizer que repetiriam a história de
devastação atual?
Os porta-vozes do encontro apontam como uma grande
preocupação o avanço da monocultura de soja e da
pecuária sobre o Centro-Oeste e o Norte do país. Incluem
na lista também as obras de infra-estrutura previstas
para a região pelo PAC. Os temas a serem discutidos
incluem ainda conhecimento tradicional, comércio justo,
biodiversidade, redução da pobreza e aquecimento global.
Chamou-me a atenção, no site oficial, o texto com os
objetivos do encontro, que reproduzo a seguir, na
íntegra:
- Plantar conhecimento para
fazer reencontrar o destino das florestas
brasileiras com o coração esperançoso dos que lutam
e trabalham pela continuidade da vida no nosso
planeta terra.
- Gerar diálogos entre nossas
gentes, nossas sociedades, nossas empresas e nossos
governos para fazer crescer o fio d'água que haverá
de reinventar as vertentes de um modelo de
desenvolvimento socialmente justo, economicamente
viável e ambientalmente sustentável.
- Ampliar alianças para fazer
brotar na Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata
Atlântica, Pampas e no Pantanal - no que sobra de
florestas no chão do Brasil - uma geografia da razão
voltada para manter vivas as nossas florestas para
as gerações presentes e futuras.
Testemunhamos hoje os principais líderes mundiais
perdidos com as notícias sobre as conseqüências do
aquecimento global. Muitas reuniões, muita tentativa de
acordo sobre os valores das reduções na emissão de
carbono, mas muito pouco (ou nada) de propostas
concretas sobre como promover essa redução na prática,
que é o que realmente interessa. Terão estes povos
propostas originais e novas respostas para o grande
desafio da humanidade?
Escutar com carinho e atenção o que será debatido neste
encontro e conceder um olhar cuidadoso aos frutos das
reuniões agendadas seria uma decisão sábia. Frutos que
esperamos serem realmente novos, que possam ir além do
óbvio que já se sabia antes do encontro, e que fujam das
generalidades como as apontadas acima. Se não, corremos
o risco de que a simples realização do encontro seja
apenas mais um argumento do poder constituído, que teria
mais uma desculpa para se auto-afirmar como uma
democracia de fato, onde todos teriam direito a voz. Em
outras palavras, um resultado inócuo de um encontro com
um significado tão forte pode fortalecer aqueles que
insistem na perpetuação do modelo atual.
Espero que as reuniões possam trazer novas pistas que
nos indiquem caminhos para sair deste labirinto onde
estamos metidos e do qual ninguém até agora parece ter a
mínima idéia de como sair. Aguardemos os resultados.
Publicado originalmente em O Correio da Cidadania |
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