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Danilo Pretti Di
Giorgi |
| publicado em
19/09/2008 |
A princípio, os dois temas acima não têm grande
relação. Mas chegaram recentemente até meu
conhecimento dois textos, cada um tratando de um
destes assuntos. Pretendo aqui mostrar que eles se
fundem num dos maiores problemas da atualidade:
nosso vício no capitalismo.
Tive a grata surpresa esses dias de entrar em
contato com o pensamento de Michael Edwards e suas
reflexões a respeito do emergente "filantro-capitalismo".
Tive também, como articulista de meio ambiente, a
desagradável obrigação de ler a matéria sobre a
Amazônia publicada na última edição da revista
Exame.
Pelo
artigo de Edwards
fiquei sabendo que a Europa e os Estados Unidos
vivem um momento de crescente direcionamento de
recursos financeiros à filantropia. Entidades como
Fundação Gates e Clinton Global Initiative têm
colocado montanhas de dinheiro em instituições
humanitárias. Os cálculos de Edwards - ele mesmo
executivo de uma dessas gigantes da ajuda
humanitária, a Fundação Ford � apontam que, nos
próximos quarenta anos, 55 trilhões de dólares serão
destinados para este fim.
Edwards reconhece a importância desse movimento e o
quanto ele pode ajudar as pessoas, mas alerta que
uma grande parcela dos envolvidos no
filantro-capitalismo estão exagerando nas previsões
de "transformação social" que ele pode trazer. O
autor afirma estar recebendo uma enxurrada de
"notícias de conferências, palestras, artigos e
relatórios que prometem 'salvar o mundo'
revolucionando a filantropia, fazendo com que as
organizações sem fins lucrativos operem como
negócios (...). Os defensores desta abordagem (...)
acreditam que os princípios dos negócios podem ser
combinados com sucesso com a busca da transformação
social."
Edwards alerta para o fato de que levar o "business"
para a sociedade civil atuante pode não ser apenas
errado como também perigoso, podendo causar até
mesmo a desestruturação de muitas entidades
humanitárias.
Voltemos à triste Exame. A revista enviou duas
repórteres para a Amazônia com uma missão insólita:
reunir informações que "provassem" que só o
capitalismo pode salvar a floresta (aliás, a
manchete da matéria traz exatamente essa idéia).
Todo o texto
é um enfadonho amontoado de meias verdades,
impossíveis de serem provadas com fatos, tentando
fazer o leitor menos preparado acreditar que a
solução é deixar a floresta na mão das grandes
corporações, como a Alcoa, para explorar "trilhões
de dólares ocultos na região" (leia-se madeira e
minérios).
A tática de convencimento é a de sempre: pinta-se um
mundo maravilhoso para o período subseqüente ao
início da exploração, seja de bauxita ou mogno. São
citadas com destaque as altas cifras previstas para
os "projetos socioambientais" na região pelas
corporações interessadas, os cuidados que serão
tomados para evitar o desmate no entorno dos locais
de extração, os investimentos previstos em
infra-estrutura para a população local. Aquela mesma
conversa fiada de sempre que qualquer um com um
pouco de experiência prática de Brasil e, mais
ainda, de Amazônia, sabe que nunca vai se repetir da
forma como é colocada. Uma vez autorizado o projeto,
o grande interesse das empresas beneficiadas sempre
será a maximização dos lucros. Não duvido que haja
por parte dessas corporações um interesse fluido de
controlar a degradação que virá como resultado
principalmente da abertura e pavimentação de
estradas, o grande motor da destruição. Mas
conseguir realmente manter as matas da região
intocadas a médio prazo é algo extremamente
complicado, envolve choque com a cultura local,
questões políticas e fundiárias. Comprar realmente
essa briga exigiria da direção da empresa um
dispêndio de energia e atenção que, se levado a
cabo, poderia prejudicar o seu real interesse, que é
lucrar o máximo possível. Por isso as nobres
intenções no papel acabam perdendo força quando se
encontram com o mundo real. E no futuro, como
sempre, quando as imagens de satélite mostrarem
imensas manchas vermelhas nos locais explorados,
será dito que controlar o desmatamento nas áreas do
entorno é "responsabilidade do governo".
Mas aí então o projeto já estará em andamento, não
terá mais volta e não vai resolver muito mandar
cartas para a seção de leitores da revista Exame.
Elas certamente não serão publicadas. Para piorar,
algumas das atividades mencionadas, como extração e
processamento de alumínio, consomem quantidades
gigantescas de energia elétrica. Logo, precisam de
hidrelétricas próximas. E onde estão sendo
planejadas as novas mega-hidreletricas no Brasil?
Bingo: Amazônia.
De volta à filantropia, Edwards apresenta quatro
argumentos principais para embasar sua severa
análise:
"O modismo que cerca o filatropo-capitalismo é muito
maior do que sua capacidade de conseguir resultados
reais. É hora de mais humildade.
A concentração cada vez maior de riqueza e poder
entre os filantro-capitalistas é prejudicial à saúde
da democracia. É hora de mais responsabilização.
O uso da lógica dos negócios e do mercado pode
prejudicar a sociedade civil, que é crucial para a
transformação política e social democrática da
sociedade. É hora de diferenciar as duas e reafirmar
a independências da ação cívica mundial.
O filantropo-capitalismo é sinônimo de um mundo
desordenado e profundamente desigual. Ele ainda não
demonstrou que pode fornecer a cura."
Ambos os exemplos aqui apresentados � o delírio
revolucionário do filantropo-capitalista e a tese da
salvação da floresta com exploração intensiva de
seus recursos naturais - incorrem no grave erro de
querer salvar o doente aplicando mais do veneno que
o levou ao hospital. Denotam a grande dificuldade do
ser humano de mudar sua forma de pensamento. Apesar
de estar claro que tanto a degradação ambiental
quanto as mazelas sociais decorrentes da má
distribuição de renda - como a miséria, a fome, a
violência e as guerras - são resultado do sistema
econômico que valoriza a acumulação e a exploração
irresponsável dos recursos, pessoas com razoável
capacidade cognitiva ainda não conseguem escapar da
armadilha de ir parar no raciocínio de sempre,
ultrapassado e comprovadamente fracassado.
Talvez esteja no entender como esse processo se dá
dentro de cada um de nós o fio da meada para o
início da transformação e da mudança que se faz cada
vez mais necessária e inevitável, gostemos dela ou
não. |
Danilo Pretti Di Giorgi é jornalista.
Danilo Pretti Di Giorgi é jornalista.
E-mail:
digiorgi@gmail.com
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