O apagão do sistema elétrico fez
muita gente refletir sobre o desperdício de energia. Depois da
gritaria inicial, as pessoas passaram a se vigiar e puderam
comprovar que o racionamento não ajudava somente o governo, mas
tinha impacto no próprio bolso. O hábito de apagar as luzes e
desligar os aparelhos domésticos foi incorporado à vida de
muitas famílias, inclusive depois que a crise terminou. Mais do
que nunca, está na hora de as pessoas começarem a agir com a
mesma parcimônia em relação à água doce, um bem valiosíssimo que
pode acabar se a população não se mobilizar.
Segundo dados da Organização das
Nações Unidas, mais de 230 milhões de pessoas em todo o mundo já
sofrem com a escassez desse produto vital. Um número bem
superior, de 1,1 bilhão, tem acesso ao líquido, mas não pode
consumi-lo porque não é potável. O Brasil não se enquadra nessas
estatísticas, já que possui 13,7% do total de água doce do
planeta. Isso, porém, não justifica a omissão que demonstramos
no trato com a questão. Gastamos quantidades imensas de água
para lavar um carro e o quintal, regar as plantas do jardim e
refrescar os dias de calor. Desde pequenos fomos acostumados à
abundância de recursos hídricos, sem nos preocupar com o dia de
amanhã.
O brasileiro consome mais de 200
litros de água por dia, quase o dobro do que a ONU considera
ideal para atender às necessidades de consumo e higiene. Em São
Paulo, a esse número é ainda maior: 345,6 litros por pessoa.
Segundo a Sabesp, responsável pelo fornecimento de 367 dos 645
municípios paulistas, são necessários 100 mil litros de água por
segundo para abastecer os 25 milhões de usuários de sua rede.
Basta multiplicar pelas 24 horas para chegar à surpreendente
marca de 8,64 bilhões. Se seguíssemos os padrões da ONU, a
economia diária seria de aproximadamente 5,9 bilhões de litros,
ou 180 bilhões de litros de água potável por mês.
Para conseguir atingir essa meta
de redução de consumo, precisaríamos mudar alguns hábitos em
nosso cotidiano. Na hora de escovar os dentes, é importante não
deixar a torneira aberta. Parece besteira, mas um fio de água
correndo por cinco minutos equivale a um desperdício de 12
litros de água potável. Uma torneira gotejando pode desperdiçar
até 46 litros por dia, enquanto um banho de ducha de 15 minutos,
com registro meio aberto, consome outros 135 litros de água – se
reduzir o tempo para cinco minutos, você vai gastar 45 litros.
Quer mais? Aquela louça que demora 15 minutos para ser lavada
demanda 120 litros se a torneira não estiver fechada. Mas esse
consumo pode diminuir para 20 litros de água se você abrir e
fechar o registro durante o processo.
Num primeiro momento, essas
alterações de comportamento podem soar como um sacrifício. Mas,
aos poucos, é possível se acostumar com a nova rotina. Tenha
certeza de que a água economizada hoje não fará falta em suas
atividades. E ainda terá impacto decisivo no futuro de seus
filhos e netos. A participação das crianças e dos jovens durante
esse reaprendizado diário também é fundamental. Será deles a
responsabilidade pela manutenção e a preservação dos recursos
hídricos num futuro bem próximo, inclusive zelando para evitar
que a poluição contamine as fontes de água.
Dia 22 de março é o Dia
Internacional da Água. Convido a todos para refletir sobre as
conseqüências do mau uso desse precioso líquido e lembrar que
nem todos os países possuem o privilégio que a Mãe Natureza nos
deu. Lembre-se que o aquecimento global indica que haverá uma
diminuição drástica na quantidade de chuvas ao redor do planeta,
assim como uma ampliação das áreas atingidas pela seca. Isso
significa que a capacidade de geração de água potável é finita.
É melhor começar a economizar agora para amenizar o que vem por
aí.