O Governo do
Estado de São Paulo vetou o projeto de lei que obrigava os
comerciantes paulistas a adotarem sacolas plásticas
oxibiodegradáveis em substituição ao plástico-filme. O texto
publicado pelo Diário Oficial diz que a Assembléia Legislativa
não pode elaborar leis sobre o assunto, competência da esfera
federal, na visão do governador José Serra. Espero que os outros
governos e os operadores do Direito espalhados pelo país não se
deixem levar por esses argumentos, já que existem projetos
semelhantes em tramitação no Rio Grande do Sul, Paraná e Rio de
Janeiro, neste caso com o empenho pessoal do governador Sérgio
Cabral, todos eles visando a acabar com a utilização do
plástico-filme no comércio.
Será que as
milhares de pessoas envolvidas nesse movimento estão
equivocadas? A meu ver, não. O plástico oxibiodegradável é
obtido a partir de um aditivo que acelera a degradação do
material em contato com a terra, a luz e a água. Em vez de
demorar 300 anos para se decompor, pode desaparecer em um prazo
até 100 vezes menor.
O impacto
dessa ação é significativo. Em uma cidade como Curitiba, com 1,8
milhão de habitantes, consomem-se anualmente cerca de 900
milhões de sacolas, que terminam em aterros sanitários e ficam
lá por séculos, literalmente. O Ministério Público local vem
exigindo dos fabricantes e dos supermercados uma solução para o
problema, o que levou a maioria das redes a adotar
espontaneamente o produto oxibiodegradável.
O correto
seria levar sacolas de pano de nossa própria casa, mas isso
ainda requer uma conscientização maior da sociedade. O mesmo
vale para a troca de sacolas de plástico por embalagens de
papel, solução adotada em diversos países. Até agora, a
substituição de sacolas plásticas por material que se degrada no
ambiente gerou polêmica somente em torno do aditivo químico. As
justificativas variam, de acordo com quem fala. Alguns
supermercadistas alegam que os custos serão repassados ao
consumidor, o que vem sendo desmentido pela prática de redes que
adotaram o material sem aumentarem os preços.
A comunidade
científica também se divide. Os adversários do fim das sacolas
plásticas, em sua maioria financiados por grandes empresas da
área petroquímica, alegam que a aceleração do processo de
decomposição liberaria partículas nocivas ao ambiente.
Partículas essas que compõem o plástico-filme. Já os defensores
do aditivo asseguram que ele não causa impacto no ambiente e
ainda tem a vantagem de permitir a decomposição do material
orgânico produzido pelo homem e embalado nas sacolas.
Acredito
nesse segundo grupo de pesquisadores. A Secretaria Estadual do
Meio Ambiente de São Paulo se posicionou do outro lado. Porém, o
que mais chamou a atenção foi que o secretário Xico Graziano
justificou sua defesa ao veto de Serra com ataques ao partido de
oposição ao governo na Assembléia Legislativa. Não bastasse
isso, desqualificou a proposta sob a alegação de que, se fosse
realmente boa, deveria também ser apresentada em Brasília.
Por má-fé, ou
desconhecimento, o secretário omitiu que também existem projetos
semelhantes tramitando no Congresso Nacional. Logo ele que foi
presidente do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária) no governo Fernando Henrique, e é reconhecidamente um
defensor dos grandes produtores rurais. Pelo jeito, o secretário
arrumou outra bandeira para carregar, a dos fabricantes de
plástico-filme, que insistem em ver seu rentável produto na mão
dos consumidores e nos aterros sanitários.
Não haveria
problema nisso se Graziano não fosse o responsável pela pasta de
Meio Ambiente do Estado mais populoso do país, o homem que tem o
papel de transformar os projetos aprovados na Assembléia
Legislativa em políticas públicas de interesse comum. Em vez de
disparar contra a proposta do plástico oxibiodegradável, o
secretário deveria apresentar soluções para o problema, o que
não faz, escondendo a paralisia atrás de argumentos técnicos
discutíveis. Pior: diz que a saída é a reciclagem, ignorando a
letargia do governo tucano no assunto desde que assumiu o poder
no Estado, em 1994.
Ao contrário
do que Graziano insinua, cuidar do lixo em São Paulo não é
“perfumaria”. É uma questão de Estado, uma prioridade de todos
nós, que deveria ser tratada com mais seriedade por alguém que
ocupa posto tão importante. Ataques políticos gratuitos não vão
resolver o problema de ninguém. Os grandes interesses econômicos
agradecem.