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A Rede Globo tem apresentado nos
últimos meses iniciativas positivas para o debate sobre o aquecimento
global, apesar, é claro, do viés muitas vezes confuso, do ataque
equivocado ao problema ou mesmo da omissão na maior parte dos casos. Um
bom exemplo que merece elogios é o quadro "O Mundo de Valentina",
exibido aos domingos no Fantástico e protagonizado pelo casal gaúcho
Gabriel e Francielle.
Quando o primeiro programa foi ao
ar, no dia 10 de junho, Francielle estava no oitavo mês de gravidez de
Valentina. Alarmados com as conseqüências do aquecimento global, os pais
resolveram ir em busca de informações que tornassem possível imaginar o
mundo em 2043, quando a menina terá 36 anos, a idade de Gabriel hoje.
Até agora já foram exibidos quatro episódios da série, tratando do
futuro das praias, do lixo, dos alimentos e da água.
O casal trabalhou até agora com
dados sobre a redução do número de peixes nos oceanos, a quantidade de
lixo gerado por cada ser humano, os impactos da produção de alimentos
sobre os ecossistemas naturais e as várias formas de desperdício de
água. Entrevistam, além de especialistas em diversas áreas, cidadãos
comuns nas ruas, chamando-nos à reflexão sobre as conseqüências de
nossas atividades cotidianas. Impressionou-me em especial a postura
coerente e corajosa do pai da Valentina, que ataca o modo de vida que
está levando a humanidade ao colapso sem sentir vergonha de assumir-se
como parte do problema.
Exemplo: no episódio sobre
alimentação, o casal conversa com um açougueiro sobre os vários impactos
da produção de carne vermelha no meio ambiente. Informam que para cada
quilo de carne produzido são gastos cinco mil litros de água (para um
quilo de pão são necessários apenas 150 litros), entre outras
informações que deixam claros os malefícios do consumo da popular fonte
de proteínas em comparação com outros alimentos. Mas, ao final da
conversa, acabam comprando o produto, pois, dizem, "não dá para ficar
sem carne".
O fundamental neste debate levado ao
grande público pela revista eletrônica semanal é que ninguém hoje no
mundo pode se colocar à parte do problema. Mesmo sendo um programa com o
"padrão globo" de superficialidade nos debates, ele mostra que, quando
nos aprofundamos, um pouco que seja, no tema, chegamos inevitavelmente à
conclusão de que uma grande parte de nossas atividades cotidianas
colaboram direta ou indiretamente para agravar o efeito estufa. E é
importante que a população como um todo tenha consciência disso.
Há, claro, inúmeras maneiras de
mitigar nosso impacto, que podem e devem ser aplicadas e inseridas na
nossa rotina, mas tentar se colocar totalmente livre de responsabilidade
é bem próximo do impossível, especialmente para quem vive nas cidades.
Entre pontos negativos do quadro,
destaca-se a indelicadeza de Gabriel em muitas das abordagens, como, por
exemplo, quando tentou enfiar quatro cebolas na carteira de uma senhora
(duas não couberam mesmo) que não havia trazido sacolas de casa,
estratégia defendida como ecologicamente correta. A formação de um
exército de eco-patrulhadores agressivos é tudo que a causa ecológica
não precisa.
O programa também acaba perpetuando
alguns graves equívocos conceituais, como a idéia de que a elevação das
temperaturas nas cidades, quando comparadas às verificadas há algumas
décadas, já é um efeito do aquecimento global. Na verdade, os estudos
mostram que o aumento real da temperatura no planeta ainda não chegou a
1°C e que a sensação térmica nas grandes centros urbanos cresceu pela
perda de vegetação e pelo aumento do concreto (as tais ilhas de calor).
Dizer que o avanço do mar sobre as cidades é reflexo das mudanças
climáticas é também trabalhar irresponsavelmente com o catastrofismo. As
geleiras mal começaram a derreter e os problemas nesse sentido são quase
sempre causados pelo urbanismo mal planejado.
Iniciativas como a do casal gaúcho e
da Globo, que abriu espaço em sua programação para que milhões tenham
acesso a este tipo de abordagem sobre o aquecimento global e suas
conseqüências, são de grande importância. Idéias assim devem ser
louvadas e valorizadas para que se tornem cada vez mais freqüentes e
mais aprofundadas, em todos os meios de comunicação. A conscientização e
o debate constante são os primeiros e talvez os mais importantes passos
para que encontremos a saída deste labirinto no qual nos metemos.
PS - Para aqueles que ficaram
interessados e que, como eu, não têm paciência para ficar em frente à TV
no domingo à noite esperando o quadro ser apresentado, o site da Rede
Globo disponibiliza todos os programas já veiculados. Basta clicar em
"vídeos" e em seguida inserir as palavras-chave na busca.
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