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ISSN 1678-8419         última atualização em: sexta-feira, 11 de abril de 2008 22:57:21                                               

 
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SÓCIO AMBIENTAL

Trincheiras

   

Danilo Pretti Di Giorgi

publicado em 06/08/2007

Ouvi estes dias um economista, entre amigos, acusar os ambientalistas de “cavar trincheiras contra o desenvolvimento em um modelo capitalista, depois do fracasso do sistema socialista”. Para embasar sua tese, citou nossa luta contra a expansão desenfreada dos biocombustíveis, contra novas hidrelétricas na Amazônia e contra a energia nuclear. Para ele, “a ordem é paralisar”.

 

Interessante analisar esta tentativa de ligar os objetivos da esquerda e dos ambientalistas. O cidadão em questão parece querer dizer que os comunistas agora estão disfarçados de defensores da Natureza para, no momento certo, junto com Fidel, Chávez e Morales, tomarem o poder e começarem a comer as criancinhas (de repente contando até mesmo com o Lula, que finalmente sairia do armário).

 

É fato que existe no ar uma raiva contida contra as demandas ambientalistas. Esse sentimento, exposto mais descaradamente nas conversas particulares, muitas vezes transforma-se em palavras públicas nos editoriais e matérias relacionadas ao tema nos grandes jornais, no rádio e na televisão. Os exemplos são muitos e praticamente diários. Um amigo meu, por exemplo, ouviu da boca do jornalista Joelmir Betting que os defensores do meio ambiente são ''comunistas desenganados travestidos de ambientalistas indignados''.

 

Como é complicado esculhambar escancaradamente quem luta pela preservação da Natureza, as críticas públicas normalmente aparecem revestidas por um “verniz social”, com o uso de palavras fortes, como “desenvolvimento” e “crescimento da economia”. Interessante notar que a intenção aparente é sempre o bem de todo o povo brasileiro. São lembradas nos textos mazelas históricas da nossa sociedade, como a fome e a falta de saneamento básico. A retórica utilizada quase sempre tenta convencer-nos de que a solução dos problemas nacionais só depende da liberação das obras na Amazônia ou de transformar o Brasil num imenso canavial. Nunca se admite a existência de interesses particulares em jogo. É a mesma coisa que o presidente americano afirmar que invade países ricos em petróleo para estabelecer a “liberdade” e a “democracia”.

 

A humanidade está muito agarrada à idéia do crescimento econômico baseado no consumo irresponsável de recursos naturais. Mudar esta concepção, especialmente na cabeça daqueles que mais ganham com este modelo, é muito difícil.

 

 Norberto Bobbio, filósofo político italiano falecido em 2004, deu uma definição extremamente interessante para o que seria esquerda e direita na política contemporânea. Segundo ele, quem é de esquerda vê as desigualdades e injustiças sociais como anomalias que podem e devem ser corrigidas. A direita considera esses fatos como leis da Natureza, imutáveis, e que nada pode ser feito contra eles, apenas mitigar seus efeitos.

 

Confirmando a tese do notório intelectual, a maior parte dos ambientalistas tende à esquerda – especialmente aqueles que questionam a construção de novas hidrelétricas e os perigos de uma guinada mundial em direção aos biocombustíveis, ao invés da necessária redução da demanda por energia.

 

Discordando um pouco do economista do começo deste artigo, eu diria que nós, ambientalistas sérios, queremos sim, ''cavar trincheiras'', mas não “contra o desenvolvimento em um modelo capitalista”. Na verdade as trincheiras são contra a continuidade do atual modelo de desenvolvimento predatório e insustentável, pouco importando se este modelo é classificado como socialista, anarquista, capitalista ou comunista. A questão colocada não é de disputa pelo poder ou defesa de uma ideologia. A questão ambiental é coisa muito mais séria do que luta geopolítica com motivações econômicas pelo poder ou pelo comando do mundo.

 

Basta abrir o olho e ver. Tem gente (e é muita gente) que não consegue (ou não quer) perceber, apesar de tantos e tão claros sinais, que não tem mais para onde correr, que este modelo está falido, que é insustentável e que precisa ser mudado. Essa verdade está aí, para quem quiser olhar e ver. Não existem argumentos que possam derrubá-la.

 

Não é preciso ir muito longe. Ninguém precisa ser cientista nem entender complicadas teorias e simulações sobre o futuro da vida caso a temperatura aumente 0,1ºC, 3ºC ou 10ºC. Basta apenas saber que estamos usando os recursos naturais a uma taxa 25% maior que a capacidade de regeneração da Natureza (segundo o relatório Planeta Vivo 2006, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e do WWF). Estamos fazendo como uma família que gasta todo mês mais do que ganha, acumula dívidas dificilmente pagáveis e caminha para a falência.

 

Esta informação não é nova. É sabido que superamos a capacidade de regeneração do planeta por volta de 1980. Desde então o “prejuízo” só vem crescendo e estima-se que em 2050 a humanidade precisará de duas Terras para prover suas necessidades. Mas temos uma só mesmo e ela está acabando.

 

O deputado estadual Adriano Diogo, do PT, ex-secretário paulistano do Meio Ambiente e referência política quando o assunto é ambientalismo, diz que, se no século XX a grande utopia foi a luta dos trabalhadores, a grande utopia deste começo de milênio é encontrar a saída para o enigma ecológico. “Todos querem defender o verde, todos no planeta somos verdes. Mas tem quem defenda o verde dos dólares no seu próprio bolso. Outros defendem o verde das matas”, diz, irônico. O problema ambiental, para ele, é um problema de concepção de mundo.

 

Já lancei nesta coluna o desafio para quem for capaz de me apresentar uma teoria minimamente aceitável que mostre ser possível escapar do naufrágio, de uma calamidade - escapar mesmo, não apenas adiar, que fique claro -, caso nossa escolha seja realmente a de continuar seguindo por este caminho, o caminho de buscar combustíveis alternativos ou fazer novas hidrelétricas para produzir uma energia que vai servir para alimentar um “sistema defunto”, que morreu mas ainda não deitou devido à inconcebível ignorância do ser humano. Uma proposta que mostre que é possível continuar nossa caminhada do jeito que estamos, sem uma redução na demanda por energia e sem uma mudança radical na forma de relação com o planeta e entre os homens. Até agora ninguém respondeu ao desafio. Sigo esperando.

 

 

 
 

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