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Uma estrada com um muro de cada lado e, além dos muros, a
grande floresta tropical preservada. Estrada, muro e
floresta, aparentemente três substantivos concretos que,
justapostos, constroem uma imagem de desenvolvimento, ordem
e preservação ambiental. Esta foi a idéia que nos ofereceu a
ministra Marina Silva em 5 de junho último, quando anunciou
oficialmente o licenciamento para a pavimentação da rodovia
Cuiabá-Santarém (BR-163) e, ao mesmo tempo, a criação do
Parque Nacional do Juruena, no limite sul da floresta
amazônica. Mas atenção! Se a estrada, aberta pelos governos
militares na década de 1970 e até hoje praticamente
inutilizável (mas já causando extensos desmatamentos na
região), é concreta e será pavimentada em breve, o muro é
abstrato, pois se trata de uma metáfora, como as
futebolísticas do presidente.
A criação do Parque Nacional do Juruena, com 1,9 milhão de
hectares, encaixado entre a Terra Indígena Cayabi (a leste)
e o Parque Estadual Sucundurí (a oeste), foi proposta pela
primeira vez durante o governo FHC e contava com a oposição
de políticos matogrossenses, que devem ter ficado muito
satisfeitos com a troca casada da sua criação com o
licenciamento da rodovia. Segundo os planos anunciados pelo
Ministério do Meio Ambiente, o parque seria o "tijolo final"
de uma seqüência de unidades de conservação e terras
indígenas que acompanha quase toda a extensão da divisa do
Mato Grosso com o Pará e o Amazonas, protegendo a entrada da
floresta na fronteira dos estados do avanço da frente de
desmatamentos. A criação de novas áreas protegidas deve ser
sempre comemorada, especialmente quando têm dimensões na
casa dos milhões de hectares e se estiverem conectadas a
outras unidades de conservação ou terras indígenas. Mas
reparem que a metáfora é ardilosa.
Querem que, com ela, engulamos o licenciamento da BR-163, no
Dia Internacional do Meio Ambiente, comemorando o tal tijolo
do muro imaginário de florestas. Acontece que, do outro lado
do muro, já passa uma outra estrada, e passarão cada vez
mais. É também possível fazer, ao longo desta série de áreas
protegidas do sul da floresta amazônica, um portãozinho aqui
e outro acolá, a exemplo do que aconteceu com a estrada do
Colono, que corta o Parque Nacional do Iguaçu, no Sudoeste
do Paraná. Esta estrada, aberta década de 50, foi
interditada em 1986 por uma ação do Ministério Público
Federal, devido à pressão de ambientalistas, para ser
reaberta no começo do governo Lula, apesar dos apelos
contrários.
A questão é que este governo se mostrou absolutamente
incompetente na contenção das taxas de desmatamentos na
Amazônia. Se as taxas caíram recentemente, como a ministra
nos anunciou, estou convicto de que isso se deu
principalmente pela crise do agronegócio, e não por uma
suposta melhora na fiscalização nem pelo sucesso de ações
policiais isoladas do tipo Operação Curupira. E ainda somos
obrigados a ouvir o secretário de Biodiversidade e
Florestas, João Paulo Capobianco, comemorando: "fechamos a
fronteira sul da Amazônia", como se os desmatamentos
estivessem controlados na região.
Para quem gosta de metáforas ecológicas, um alerta: a
metáfora do muro de matas será em breve substituída pela do
"corredor". Sim, porque as pressões sobre esta seqüência de
áreas protegidas não virão apenas do sul, mas também do
norte e, nas próximas décadas, os seus dois lados estarão
ocupados e ela se parecerá mais com uma faixa de florestas
em uma matriz de áreas desmatadas do que com um muro
protetor. Os ambientalistas mais adiantados já trabalham com
a idéia de corredores ambientais, que permitiriam o fluxo
gênico entre áreas remanescentes, conectadas. Mas até o
corredor ecológico também não deve durar muito. Sob
condições climáticas adversas de seca intensa, como aquela
que testemunhamos ano passado no estado do Amazonas,
agravadas pelos desmatamentos, aumentarão em muito as
probabilidades de incêndios florestais nas áreas
remanescentes. E os desequilíbrios climáticos devem ser
intensificados, pois a imensa maioria das terras amazônicas
segue desprotegida.
Com uma extensa superfície de contato com áreas intensamente
exploradas, o muro, ou o corredor, mais cedo ou mais tarde
se esfacelará e seus pedaços menores, "fragmentos
florestais" ou "ilhas de floresta", como as atuais diminutas
reservas de Mata Atlântica. O agravante é que essas futuras
ilhas não contarão com a proteção da umidade trazida do mar,
o que facilita a preservação da floresta próxima ao litoral.
Acho que esta é a comparação mais realista: o que resta das
florestas do sul da Amazônia e da Amazônia Oriental se
desmanchará como pedras de gelo sobre o asfalto quente da
rodovia Cuiabá-Santarém.
Publicado originalmente no
Correio da Cidadania (edição nº 506),
jornal dirigido por Plínio de Arruda Sampaio (www.correiocidadania.com.br
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