.ISSN 1678-8419  

Revista Partes - Ano V - 14/03/2006 00:48:59 

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Capivara: um gigante sul-americano
Rodolfo Salm


Grandes como porcos, com até um metro e trinta de comprimento e 65 kg, cabeça retangular, orelhas pequenas, olhos miúdos e altos que lhes dão um aspecto esnobe, cauda rudimentar (freqüentemente se sentam como cachorros), capivaras, Hydrochoerus hydrochaeris, são os maiores roedores do mundo. Encontradas sempre próximas à água, alimentam-se de grama e de vegetação aquática. Em campos abertos, vivem em hordas de dezenas de indivíduos. Sua distribuição geográfica, que vai do Panamá ao nordeste da Argentina, engloba a totalidade do território brasileiro, mas são raras nos locais onde são caçadas. De acordo com uma publicação de 1973 do Fundo Nacional de Investigações Agropecuárias da Venezuela, seus hábitos alimentares, massa corpórea, alta taxa reprodutiva e comportamento natural de grupo fazem da capivara uma espécie ideal para criação com vistas à produção de carne e couro.

Faz tempo que penso em escrever sobre este tema, mas “A Capivara” era até agora o artigo que nunca conseguia terminar. Primeiro porque a introdução descritiva (banal ao para quem é familiar ao bicho) requer grande esforço de imaginação para o leitor urbano médio, que não venceria aquele primeiro parágrafo, chegando a esse ponto do texto: capivara, paca, cotia, tatu... Quem se importa? Não, a capivara não valia um artigo, pensei. Ledo engano, pouco tempo depois, uma capivara, residente na Lagoa Rodrigo de Freitas virou o tema predileto de alguns dos colunistas mais lidos do Brasil. A tal capivara era vista por milhares de pessoas e chegou a ser fotografada pelos principais jornais cariocas. Um dia a capivara saiu da lagoa e foi à praia de Ipanema, onde foi iniciada uma caçada feroz até que a pobre fosse detida em Copacabana e as autoridades levassem-na para Duque de Caxias. E dá-lhe páginas e páginas de jornal sobre o caráter, o charme e toda sorte de injustiças cometidas contra aquela capivara. Foram tantas que achei que tinha perdido a vez e que seria manjado insistir em um tema tão batido. Claro que Cora Rónai, Xexéu e Zuenir Ventura não estavam interessados em capivaras, mas sim naquela capivara da Zona Sul, ingrediente interessante para escrever crônicas da cidade. Então o tema rapidamente voltou ao ostracismo, onde é seu lugar.

Animou-me para completar a empreitada o texto de Rogério Grassetto Teixeira da Cunha lembrando que, ao lançarmos esta coluna, prometemos que, além das críticas aos descaminhos ambientais, buscaríamos descrever experiências de sucesso, boas idéias, tentativas interessantes “para que o tom sempre negativo não se transforme em desesperança e descrença”. Afinal, assim como o engenheiro nacionalista Bautista Vidal, a despeito de sua importância, é largado ao esquecimento pela grande mídia, alternativas econômicas para o desenvolvimento com justiça social e preservação ambiental são desconhecidas da maior parte dos leitores.

As vantagens econômicas e ambientais da criação de capivara sobre o gado bovino são claras: a capivara é uma espécie local adaptada à coexistência harmoniosa com a fauna e a flora sul-americanas. Bem menores que as vacas, não compactam o solo nem têm o impacto erosivo daquelas. Além do mais, as taxas reprodutivas do roedor, notavelmente altas como é típico de animais desta ordem, permite a produção de muito mais carne por área de criação. A comparação da produtividade entre bovinos e capivaras no pantanal matogrossense revela que enquanto os primeiros produzem anualmente cerca de 35 kg por hectare, a produtividade das últimas em uma mesma área chega a quase 140 kg. A carne pode ser comercializada seca e salgada, fresca ou congelada e é excelente para a fabricação de presunto, salsicha, salame e mortadela.

O Estado pode investir na produção de carne de capivara para alimentar a população através de uma combinação de financiamentos, apoio técnico e, por exemplo, compra da produção para a merenda escolar. Críticos desta idéia lembrariam que hábitos alimentares não se mudam facilmente. Claro que teria mais votos um político que prometesse carne-de-vaca do que o seu concorrente que falasse em capivara, que não deixa de ser um ratão (sem o rabo, mas ainda assim um ratão). Mas lembre-se que a paca, tão roedor quanto aquela, é uma das carnes mais apreciadas pelos caçadores e, principalmente, que as capivaras são raras ou estão extintas em áreas populosas em que não estejam protegidas da caça. Assim, um projeto de exploração das capivaras deve prever, além da multiplicação e re-introdução onde estão extintas, uma fase de distribuição, divulgação e desenvolvimento de receitas especificamente projetadas para valorizar a carne deste roedor. O projeto das capivaras também poderia ter um lado social voltado para o estímulo ao pequeno produtor. Uma vez conhecidas, impossível não se impressionar com suas vantagens. Mais que o combustível de um Fome Zero genuinamente nacional, a capivara pode ser a grande contribuição da fauna do neotropical para a alimentação da espécie humana.

Este artigo foi publicado originariamente no Jornal Correio da Cidadania
www.correiocidadania.com.br

Rodolfo Salm, doutor em Ecologia e Recursos Naturais pela Universidade Federal de São Carlos, é pesquisador do projeto Pinkaiti Aldeia A’Ukre’

 



 

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