|
Grandes como porcos, com até um metro e trinta de
comprimento e 65 kg, cabeça retangular, orelhas pequenas,
olhos miúdos e altos que lhes dão um aspecto esnobe, cauda
rudimentar (freqüentemente se sentam como cachorros),
capivaras, Hydrochoerus hydrochaeris, são os maiores
roedores do mundo. Encontradas sempre próximas à água,
alimentam-se de grama e de vegetação aquática. Em campos
abertos, vivem em hordas de dezenas de indivíduos. Sua
distribuição geográfica, que vai do Panamá ao nordeste da
Argentina, engloba a totalidade do território brasileiro,
mas são raras nos locais onde são caçadas. De acordo com uma
publicação de 1973 do Fundo Nacional de Investigações
Agropecuárias da Venezuela, seus hábitos alimentares, massa
corpórea, alta taxa reprodutiva e comportamento natural de
grupo fazem da capivara uma espécie ideal para criação com
vistas à produção de carne e couro.
Faz tempo que penso em escrever sobre este tema, mas “A
Capivara” era até agora o artigo que nunca conseguia
terminar. Primeiro porque a introdução descritiva (banal ao
para quem é familiar ao bicho) requer grande esforço de
imaginação para o leitor urbano médio, que não venceria
aquele primeiro parágrafo, chegando a esse ponto do texto:
capivara, paca, cotia, tatu... Quem se importa? Não, a
capivara não valia um artigo, pensei. Ledo engano, pouco
tempo depois, uma capivara, residente na Lagoa Rodrigo de
Freitas virou o tema predileto de alguns dos colunistas mais
lidos do Brasil. A tal capivara era vista por milhares de
pessoas e chegou a ser fotografada pelos principais jornais
cariocas. Um dia a capivara saiu da lagoa e foi à praia de
Ipanema, onde foi iniciada uma caçada feroz até que a pobre
fosse detida em Copacabana e as autoridades levassem-na para
Duque de Caxias. E dá-lhe páginas e páginas de jornal sobre
o caráter, o charme e toda sorte de injustiças cometidas
contra aquela capivara. Foram tantas que achei que tinha
perdido a vez e que seria manjado insistir em um tema tão
batido. Claro que Cora Rónai, Xexéu e Zuenir Ventura não
estavam interessados em capivaras, mas sim naquela capivara
da Zona Sul, ingrediente interessante para escrever crônicas
da cidade. Então o tema rapidamente voltou ao ostracismo,
onde é seu lugar.
Animou-me para completar a empreitada o texto de Rogério
Grassetto Teixeira da Cunha lembrando que, ao lançarmos esta
coluna, prometemos que, além das críticas aos descaminhos
ambientais, buscaríamos descrever experiências de sucesso,
boas idéias, tentativas interessantes “para que o tom sempre
negativo não se transforme em desesperança e descrença”.
Afinal, assim como o engenheiro nacionalista Bautista Vidal,
a despeito de sua importância, é largado ao esquecimento
pela grande mídia, alternativas econômicas para o
desenvolvimento com justiça social e preservação ambiental
são desconhecidas da maior parte dos leitores.
As vantagens econômicas e ambientais da criação de capivara
sobre o gado bovino são claras: a capivara é uma espécie
local adaptada à coexistência harmoniosa com a fauna e a
flora sul-americanas. Bem menores que as vacas, não
compactam o solo nem têm o impacto erosivo daquelas. Além do
mais, as taxas reprodutivas do roedor, notavelmente altas
como é típico de animais desta ordem, permite a produção de
muito mais carne por área de criação. A comparação da
produtividade entre bovinos e capivaras no pantanal
matogrossense revela que enquanto os primeiros produzem
anualmente cerca de 35 kg por hectare, a produtividade das
últimas em uma mesma área chega a quase 140 kg. A carne pode
ser comercializada seca e salgada, fresca ou congelada e é
excelente para a fabricação de presunto, salsicha, salame e
mortadela.
O Estado pode investir na produção de carne de capivara para
alimentar a população através de uma combinação de
financiamentos, apoio técnico e, por exemplo, compra da
produção para a merenda escolar. Críticos desta idéia
lembrariam que hábitos alimentares não se mudam facilmente.
Claro que teria mais votos um político que prometesse
carne-de-vaca do que o seu concorrente que falasse em
capivara, que não deixa de ser um ratão (sem o rabo, mas
ainda assim um ratão). Mas lembre-se que a paca, tão roedor
quanto aquela, é uma das carnes mais apreciadas pelos
caçadores e, principalmente, que as capivaras são raras ou
estão extintas em áreas populosas em que não estejam
protegidas da caça. Assim, um projeto de exploração das
capivaras deve prever, além da multiplicação e re-introdução
onde estão extintas, uma fase de distribuição, divulgação e
desenvolvimento de receitas especificamente projetadas para
valorizar a carne deste roedor. O projeto das capivaras
também poderia ter um lado social voltado para o estímulo ao
pequeno produtor. Uma vez conhecidas, impossível não se
impressionar com suas vantagens. Mais que o combustível de
um Fome Zero genuinamente nacional, a capivara pode ser a
grande contribuição da fauna do neotropical para a
alimentação da espécie humana.
Este artigo foi
publicado originariamente no Jornal Correio da Cidadania
www.correiocidadania.com.br |